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    O ranger da porta ecoou feito apito. Ao horizonte, disse “Oi”. Também, grudou nos ouvidos dos participantes, e os indicou: esse pode ser o último som que vocês ouviram.

    Da mesma forma que veio, se foi. Por fim, o click da porta nasceu tão rápido quanto morreu, e, assim, cumpriu seu propósito de transporte.

    Antes que Luna se virasse, encostou a testa na porta e fechou os olhos lentamente, desejando consigo mesma para que tudo desse certo no final.

    Logo após, olhou para trás. Todas as expectativas que teve, desde as sensações de perigo, até uma provável batalha, foram quebradas completamente.

    Não havia mais objetos domésticos, tampouco eletrodomésticos. A luz, que brilhava em si mesma, também se despediu, e cumprimentou a escuridão.

    Diante de seus olhos, havia o abismo, do chão ao teto; entretanto, não eram trevas vazias, nem amaldiçoadas, na verdade, o cenário encontrava-se na oposição mais completa.

    Galáxias existiam aos montes. Planetas, estrelas, meteoritos, até mesmo universos estavam espalhados ao horizonte, enquanto se mantinham palpáveis à observação.

    Estava tudo tão visível, como olhar para eles com um telescópio, e havia coisas que até mesmo ele não conseguiria captar independente do que fizesse.

    A flor da admiração floresceu no peito. Pela primeira vez em toda sua vida, enxergava tudo o que astronautas sequer sonhavam em alcançar.

    Se estava tão surpresa assim, imagina seu filho? Ao motivar-se com essa pequena indagação, moveu os olhos para aonde ele se encontrava.

    Lá estava: as pupilas mais brilhantes do que as estrelas que via. Os lábios entreabertos sussurravam o quão surpresos eles mesmos estavam.

    A mãe, sorrindo com a felicidade de seu filho, moveu a mão sutilmente às suas. Assim, agarrou-a com cuidado, e voltou a observar a beleza cósmica logo depois.

    Os universos agiam como estrelas cadentes, e os planetas moviam-se feito um universo. Perante uma vista tão gloriosa, esqueceram-se, por um momento, onde estavam.

    Foi, então, que passos ecoaram. Lentos, sombrios, sobretudo, predominantes, como se existissem por toda parte daquele mundo. Cada um deles forçava os convidados a lembrar que havia alguém mais brilhante do que o observável e, também, criador dele.

    No mesmo instante, os visitantes olhavam para aquele ser. Mesmo distante, parecia imenso, uma sombra que nada nesse mundo pudesse superar.

    Dessa forma, por livre e espontânea pressão, Luna e Arthur começaram a seguir seus rastros, sem sequer saber aonde estavam sendo levados.

    O que os incomodava não era a falta do saber, tampouco a ansiedade que se multiplicava a todo instante, mas, o detalhe: tudo ficava mais e mais monótono.

    A escuridão ficava cinza a cada passo que se espalhava ao horizonte. Os universos dançantes paravam de se movimentar de pouco a pouco.

    Quando os segundos se passaram, o que era trevas tornou-se preto-e-branco, e, o brilho, que estampou os rostos das estrelas, foi-se com a luz. Ao olharem de volta para frente, estava ele: parado, observando fixamente algo que a dupla não podia enxergar.

    — Arthur e Luna… São os nomes de vocês, estou certo?

    Junto ao pular do coração, as dúvidas permeavam na mente. Como ele sabia os nomes? Ou melhor, desde quando ele teve acesso a essa informação?

    O pescoço da divindade virou-se discretamente para trás. Os olhos, com sua permissão, eram visíveis aos visitantes que o olhavam com olhares arregalados.

    Os olhos daquele ser não eram mais de curiosidade, mas neutralidade, absolutos. Tinham a total certeza de que tudo estava sob a palma de sua mão.

    — Não se preocupem, o silêncio é uma resposta elegante.

    Pouco depois, moveu a mão a uma maçaneta que estava logo à frente. Por fim, como soberano da escuridão que criou, abriu-a como se fosse uma porta. Com a mesma etiqueta de sempre, acompanhou o movimento dela. Assim, curvou o corpo enquanto mantinha as mãos na barriga.

    — Seria muita falta de educação da minha parte não dizer o meu, não concordam?

    O que responder? Como agir? O que questionar? O que está acontecendo é mesmo real? Assim pensavam mãe e filho, que hesitavam em dar o próximo passo.

    Não havia respostas, e essa foi a solução para as indagações. Agora que já estavam aqui, só lhes sobravam continuar com a coragem habitando seus corações.

    Dessa forma, recomeçavam os passos. Mantiveram as cabeças erguidas a todo instante, sem trocas de olhares com a criatura que estava com as pálpebras tranquilamente fechadas.

    Atrás da porta que estavam atravessando, encontravam-se as mesmas gramas que os acolheram. As árvores de cerejeiras ainda estavam tão sorridentes quanto sempre.

    Isso os aliviou por um momento. Havia, pelo menos, algumas coisas que aquela divindade aparentemente não conseguia controlar. Ao lembrar-se dela, olharam para trás um pouco mais tranquilos, pois sabiam que não estavam mais no território de caça de um predador.

    Por um instante, não havia mais nada, senão o castelo, que mantinha a mesma aparência de sempre. A porta cósmica que os levou até lá? Nem mesmo um sinal.

    Para a infelicidade deles, isso durou poucos segundos. Bastou piscarem os olhos que ele reapareceu em frente ao portão, com as mãos nas costas.

    Um sorriso, meigo e discreto, levantava dos lábios. Depois, uma das mãos começava a se levantar, com o dedo indicador apontado ao céu.

    — Sabem como os outros jogadores me chamaram quando me viram?

    Perante a divindade, nenhuma resposta ousou se erguer. Por fim, seu sorriso tornou-se um leve e único riso, que retornou a fase anterior antes de continuar sua próxima frase:

    — deus.

    Imediatamente, moveu o dedo indicador para baixo. O ar, antes passageiro e imperceptível, tornou-se pesado demais para os ombros suportarem.

    Sem sequer ser convidado, névoas em tom carmim sussurraram no lugar do vento. Dessa forma, criou um mundo onde só há sangue e dor.

    — E esse deus julgará se vocês são ou não dignos de continuarem vivendo.

    As pétalas, antes cerejeiras, rendiam-se ao tom da névoa. Árvores, brilhando feito escarlate, entregavam-se ao sangue externo que subjulgava a atmosfera.

    — Quando se sentirem prontos, me ataquem. Até lá…

    Passos, mais palpáveis do que quaisquer distrações, aproximavam-se dos testados. Cada um era feito calmamente, sem a menor das preocupações.

    — … Permitam-me ir até vocês.

    Assim era para Arthur: Ainda que estivesse tão distante, era tão ameaçador quanto uma arma apontada para sua cabeça, sem saber quando vai ser disparada.

    Não se sabe o que fazer, tampouco para aonde desviar o olhar. Antes mesmo de lutar, os dedos abraçavam a tremedeira, sem sequer consegur se fechar.

    Um oceano preenchia sua mente de pouco a pouco; entretanto, não era um de água, mas, sim, de puro desespero, um que deixava até mesmo sua visão embaçada.

    “O que eu- Vou morrer. Faço? O que está- Meu Deus. Acontecendo?”

    Palavras tropeçavam uma nas outras. Perante o inevitável, só podia olhar para o chão, lugar esse onde seu corpo poderia se encontrar logo logo.

    Som? Sequer um assobio pôde se ouvir. A própria respiração criou névoas para o cegar. Estando em um lugar tão distante da vida, o que poderia salvá-lo?

    — Tá tudo bem, filho.

    A voz de sua mãe assumiu o papel da calma. Também houve seus olhos: serenos e compassivos, desfazendo a névoa de Arthur com o brilho do seu olhar.

    — Deixa ele com a mamãe, tá? Se esconda atrás das árvores.

    Um sorriso tranquilo, junto a um semblante meigo e sereno… Tudo em sua face sussurrava gentilmente: vai ficar tudo bem. O medo, que o abraçava feito cola, desaparecia lentamente. Os pensamentos eufóricos se esvaíam sem pressa, mas isso não significava que tudo estava nos eixos.

    Com a falsa paz que se instaurou, uma nova agulha cutucava seu coração enquanto as pernas se moviam para trás, como pedido. Um calor inconfundível o circulava. As mãos cerravam discretamente, a cabeça baixava sem pressa, e os lábios só podiam cerrar-se.

    Vergonha, e não uma simples ou passageira. Diante de um perigo iminente, pôde apenas esconder-se na sombra de quem o trouxe ao mundo.

    Seu coração batia contra a própria vontade. Frio caminhava pelo corpo feito sangue. Insatisfação e, sobretudo, autodepreciação contorcia sua mente.

    “Eu… Não posso fazer nada?”

    Enquanto os passos se distanciavam do perigo, os olhos esqueciam de enxergar o manto sombrio que, de um instante a outro, surgiu à sua frente.

    Os pés, sem saber para onde caminharam, levaram Arthur a colidir com a escuridão. Dessa forma, fez o pescoço levantar-se inocentemente.

    Lá estava a divindade: observando-o de baixo para cima, com a mesma serenidade que sempre teve. Dessa vez, um sorriso compassivo erguia-se nos lábios.

    — Para onde está indo, senhor? Está tão cedo…

    Enquanto o pescoço abaixava para ver seu convidado de perto, as mãos moviam-se para sua barriga, até que encostasse nela com delicadeza.

    — … Por que não fica mais um pouco? Vai ter bolo.

    Não houve ao menos tempo para questionar. O toque, que jurou ser gentil e inofensivo, foi um ataque forte o suficiente para fazê-lo vomitar o próprio sangue.

    Quando foi perceber algo, já estava voando tão rápido quanto um avião. Infelizmente, seu destino não foi o céu, mas, sim, o solo. Antes de sentir o dano, que foi capaz de deixar seu abdômen em tom vermelho escarlate, o corpo incomodou-se primeiro com os rasgos que a queda causava em sua pele…

    … Até sentir, verdadeiramente, a dor absurda em sua barriga. Não havia rasgos, sequer ossos quebrados, e, ainda assim, a dor era grande o suficiente para pensar que fosse.

    Respirar? Impossível. Se concentrar para tentar amenizar a dor? Pfft. Tudo o que podia fazer era se entregar aos gemidos, tanto da voz quanto do corpo.

    Próximo capítulo: Escuridão Impecável.

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