Índice de Capítulo

    O impacto foi tão repentino… Até um momento atrás, seu filho esteve diante de seus olhos. Agora, desapareceu em um único toque. Aos seus olhos, deixou de existir.

    “Filho…?”

    Seu coração falhava nas batidas. Apertava, quase explodindo em dor, mas isso não acontecia, não por falta de preocupação, e sim porque a alma sabia que ele estava vivo.

    Ainda que soubesse de sua sobrevivência, também houve a consciência de seu mal-estar. Em algum lugar da floresta, ele estava sofrendo sem que ela pudesse fazer qualquer coisa.

    “Ca… Cadê você…?”

    Olhava para a esquerda, mas tudo o que podia ver eram incontáveis árvores. A direita estava tão vazia quanto. Além do abismo, nada podia enxergar.

    O frio do maior inverno abraçava sua barriga. O semblante já não estava tão tranquilo quanto tentava mostrar a Arthur. Sem que percebesse, lágrimas caíam de um dos olhos.

    Ao voltar seu olhar para frente, enxergou o ser que feriu seu filho. Nele, não houve culpa. Sua face, tão tranquila quanto sempre, demonstrou despreocupação.

    Ba-dump…

    E isso foi o suficiente. O coração, que antes encontrou-se com dificuldade para bater, agora começou a pulsar como nunca antes. Veias dilatadas apareciam aos montes no rosto da mãe. As sobrancelhas franziam em fúria. Os lábios se contorciam em ira, e quase não conseguiram perguntar:

    — O que você fez com meu filho?

    A divindade ouviu a pergunta perfeitamente. Ainda assim, manteve o semblante sereno. Seu ataque foi se abster de quaisquer respostas, deixando-a com o silêncio.


    Longe do calor, perto do frio. Distante do conforto, abraçado à escuridão. Sua vida agarrou-se à dor da morte, ainda que fosse apenas um ataque.

    As mãos grudavam no abdômen. Sua respiração ainda estava irregular, mas não tanto quanto antes. Assim encontrava-se Arthur, nesse estado solitário e vazio.

    Por um momento, encontrou paz. Não havia mais divindade alguma à sua frente, tampouco perigo à sua vida, somente trevas e solidão.

    Os olhos lentamente se fechavam. A mente vagava consigo, mas o coração, aos poucos, abandonava o mundo, permitindo que a comodidade assumisse o controle.

    “Eu posso só… Ficar aqui, né?”

    E por que não? Desde que estivesse tão distante do perigo, ficaria tudo bem, certo? Deveria ser assim, até que um sorriso caloroso despertasse luz em seu peito.

    Não era qualquer um, tampouco vinha de qualquer pessoa. Era meigo, gentil e, sobretudo, caloroso. A luz, radiante, vindo daquele olhar, não podia negar: era Luna.

    Sua mãe, em algum lugar da floresta, enfrentava um deus, e, seu filho, escondia-se na escuridão criada pela sombra de sua protetora.

    O coração aceitava a verdade. Os olhos arregalavam de pouco a pouco, e o corpo levantava-se aos poucos, com os lábios entreabertos.

    Um desconforto, frio e grudento, começou a levantar-se pelos pés. Os dedos abraçaram a tremedeira, junto ao pulsar que vinha do peito.

    Insegurança, e não vinha da morte, pelo menos, não da sua. Sem que percebesse, já estava de pé, olhando fixamente para a direção de onde veio.

    Agulhas perfuravam sua alma. O que o abraçava agora não era escuridão, muito menos solidão ou trevas, e, sim, medo de perder a pessoa que mais ama no mundo.

    As pálpebras tremiam em incerteza, e os lábios entregavam-se aos suspiros desajeitados. Os pés, sem seu consentimento, corriam para encontrar quem devia proteger.

    Não importava se a dor no estômago fizesse a garganta expulsar sangue. Também não era importante se o pulmão aguentaria ou não o ritmo da corrida.

    Perante a mais cruel das perdas, a alma forçou o corpo a agir. Mesmo que o requisito fosse andar de leste a oeste, ou de norte a sul, assim seria feito, sem hesitar.


    Silêncio cavalgava no ar, e essa era a única resposta que tinha. Enquanto as lágrimas caminhavam até o queixo, a mão, que segurou a de seu filho, tremia.

    O calor de Arthur, que existia na palma até pouco tempo atrás, foi substituído pelo frio da ferida. Os dedos, entregues à saudade, só podiam massagear a si mesmos.

    — Não vai me responder?

    Ainda que estivesse diante de uma divindade, não lhe faltaria coragem; muito pelo contrário: sem a certeza do bem-estar de sua criança, nada mais importava.

    O vento, que soprou sua indagação, devolveu-lhe o abismo de volta. Assim, deixou-a apenas com o frio na espinha, subindo no seu próprio ritmo.

    Em contraste, o ser divino à sua frente permaneceu inabalável. Seu semblante, sereno e estável como um oceano sem ondas, aguardava ações.

    — Então, é assim que vai ser.

    Os mesmos dedos que lamentavam a perda do filho eram os mesmos que se moviam ao rosto, em direção aos olhos abraçados nas lágrimas.

    Assim, os massageou gentilmente, até que seu pranto fosse calmamente desfeito com a pouca gentileza que sobrou em seu coração.

    — Eu não me importo sobre o que vai acontecer depois…

    Contrariando a onda de emoções que invadia a mente, os joelhos flexionavam com técnica, e permitiram os pés a se firmarem no chão.

    O olhar, que fora gentil, não abraçava mais o gemido das lágrimas. Agora, brilhava na escuridão, não para proteger, mas, sim, matar o corpo de quem matou sua alma.

    — … Desde que você morra.

    Antes que os pés saltassem à luta, seu contorno tornou-se dourado, revelando seu poder sorteado: multiplicar por dois o atributo que escolher, desde que seja limitado a uma parte do corpo.

    Se ela quiser dobrar um determinado atributo em todo o corpo, certamente conseguirá; entretanto, sabem quem vai sair prejudicado com isso, certo? Energia e vigor serão drenados como água de torneira.

    E lá se foi Luna: com o impulso dos pés, disparou feito um relâmpago. Assim, ficou frente a frente com o deus em um mísero instante.

    Em seguida, posicionou os punhos para o ataque. Antes que fosse lançado, os deixou brilhar no tom vermelho, dobrando o atributo da força.

    Por fim, era disparado. Seu soco arrancava os gritos do vento, e enquanto chegava cada vez mais perto daquele ser, deixava claro: independente de quem seja, eu só preciso acertar uma vez.

    A divindade, com olhares serenos e gentis, observava aquele ataque chegando, tão lento quanto ver cada minúsculo frame de um vídeo desacelerado.

    Dessa forma, moveu os pés sutilmente para trás. Sua ação, simples e perfeita, forçou o soco a abraçar o erro, acertando apenas o vento que machucava.

    No entanto, aquele ataque provou não ser qualquer um. Assim que cessou, trouxe consigo uma sutil explosão do vento ao horizonte, provocando a queda de inúmeras pétalas.

    Ainda assim, sua investida estava longe de acabar. Retomou o punho direito para a guarda, preparando mais um soco com o dobro de força.

    O deus continuava a observar curioso e, de certa forma, satisfeito. Aquele brilho em tom escarlate era definitivamente forte, e, sobretudo, elegante, mas não com isso que ele deveria se preocupar.

    Rente a sua barriga, estava o punho esquerdo, brilhando no tom dourado, prestes a acertar o que parecia ser intocável e, de fato, era.

    Isso não aconteceu porque ela foi rápida demais, na verdade, mesmo que sua velocidade fosse superior à da luz, de nada adiantaria.

    Com um sorriso satisfeito no rosto, o ser supremo observava aquele punho amarelo prestes a tocá-lo, permitindo que esse evento acontecesse.

    O soco foi certeiro no abdômen, e não parou por aí. No mesmo instante em que acertou o alvo, trocou o atributo dobrado de velocidade para força.

    O resultado veio tão violento quanto o grito furioso que a garganta permitiu escapar, e o som de um corpo sendo empalado ecoou ao leste.

    Ainda insatisfeita, deu um leve passo para frente, estendendo o soco que, em sua imaginação, estraçalhou a existência que parecia perfeita.

    O ser divino foi arremessado para um lugar tão distante quanto sua origem, sobrando apenas os suspiros cansados de alguém que doou todos os seus esforços.

    Suor caía como chuviscos do rosto de Luna, sendo assim, limpava o rosto enquanto tentava controlar a respiração ofegante, mas de nada adiantava.

    — Espero… Que tenha aprendido a lição.

    Quando terminou, virou-se para procurar seu filho, que estava em algum lugar da floresta, também desesperado para encontrar sua protetora.

    Entretanto, tanto sua alma quanto seus instintos sabiam que algo estava incompleto, derrotar um deus não é algo que qualquer soco pode fazer.

    Ainda que as agulhas da ansiedade espetassem todo seu corpo, continuou a andar. Mesmo que a escuridão se tornasse ainda mais escura, não podia olhar para trás.

    Mas, nada disso importava. Os pés pararam de caminhar por vontade própria, e, do leste ao oeste, não havia nada que substituísse a escuridão.

    Vento, frio e sem vida, caminhava até os seus ouvidos, não para confortá-la, tampouco a lembrar que estava viva, mas, sim, entregar uma mensagem:

    — Acha que fui estraçalhado?

    Olhou para trás imediatamente, mas os olhos nada podiam encontrar. Os instintos, que sabiam o que estava atrás dela, alertaram-a da armadilha.

    Quando retomou a postura anterior, já era tarde demais. A divindade já a observava, e os olhos arregalavam em um misto de satisfação e felicidade.

    — Parece que está sem sorte!

    Sua voz refletia em si mesma, um coral que vinha do abismo. Antes que Luna pudesse retomar sua guarda, ele já havia posto sua palma na barriga.

    Assim, o mesmo ataque que seu filho sofreu, também foi destinado a ela. O impacto foi tão brutal quanto o anterior; o resultado, porém, foi um pouco diferente.

    Antes que o golpe acontecesse, revestiu no tom azulado a região que sofreria com o dano; resultado: o dobro de resistência. O ataque veio um instante depois. Todo o corpo de Luna ressoou com a pressão, forçando o cerrar dos dentes para que o sangue não escapasse com facilidade.

    Os pés fizeram o máximo que podiam para não serem arrastados até um lugar distante, no entanto, fadigou os joelhos, e assim entregou as pernas aos braços da tremedeira.

    Ainda que fosse difícil permanecer de pé, assim ficou, com os olhos firmes e implacáveis no objetivo, levando aquele ser supremo a um sorriso medonho e obscuro.

    Próximo capítulo: Tempo: o Refém da Velocidade.

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