Índice de Capítulo

    Os passos pesados desconheciam o medo, e os olhos, além das lágrimas, enxergavam um deus ferido. A vitória, aparentemente, não era algo fictício…

    … Mas quem disse que vencer ou perder importava para ela agora? Nada se passava em sua mente, senão as lembranças de seu filho que um dia foi vivo.

    O preparo deixou de existir; na verdade, nunca houve um. Ao chegar perto de uma divindade, os punhos cerrados logo se posicionaram…

    … Entretanto, brechas não iriam passar, e essa não era exceção. Seu rosto estava exposto na ausência de uma guarda, mas ainda não era a hora certa.

    Assim que o seu corpo começou a se mover para que seu ataque fosse feito, um soco, limpo e sem falhas, foi disparado em seu rosto.

    O contra-ataque foi perfeito, e o dano foi dado em dobro, mas não era o suficiente. Pela primeira vez, um deus estava diante de alguém anestesiado à dor.

    A angústia da perda superava o incômodo físico, e isso tornava Luna alguém que não vê mal algum em sangrar, desde que o pagamento seja feito em sangue.

    E foi. Um instante depois, seu golpe desejou brilhar. Ultrapassando os limites físicos, correu até a face de seu adversário, que estava protegida em uma guarda limpa.

    Essa defesa quase não foi o suficiente. Assim que o contato chegou, o impacto ressoou em seus ossos, os fazendo vibrar feito um objeto de metal…

    … Porém, não era hora de se preocupar com os incômodos. Sempre que houver um ataque, há uma brecha, e esse caso não foi diferente.

    E, mais uma vez, o ser divino disparou um soco limpo na face de Luna, um forte o bastante para inclinar seu pescoço para trás enquanto o sangue chorava nas narinas.

    Infelizmente, para ele, esse ataque serviu de atalho para o contra-ataque de sua adversária. Uma cabeçada, tão rápida quanto feroz, disparou em direção ao nariz.

    A precisão foi perfeita, e o resultado foi a canção dos ossos quebrando enquanto sangue era feito de chuva. O primeiro pagamento foi feito.

    O deus recuava, cuidando da região danificada ao mesmo tempo em que os olhos se esforçavam para enxergar sem que a dor atrapalhasse.

    Luna não estava disposta a dar um pingo de tempo, não por estratégia, mas sim porque seu desespero a impedia de pensar em pausas.

    Não houve tempo para o instante respirar, e ela estava frente a frente com a divindade, pronta para acertar qualquer ataque disponível.

    A perna direita foi escolhida como instrumento para o caos, e não foi de demora alguma para que um chute na canela esquerda do ser divino fosse disparado.

    Ele, por instinto, levantava a perna esquerda para defender com a canela, mas mal sabia ele que o alvo seria alterado no último instante.

    A perna de Luna fez uma pausa instantânea enquanto curvava para trás, executando uma finta para um chute que veio logo depois, acertando em cheio o pescoço daquele ser.

    O dano foi real, e a dor era palpável nos lábios cerrados. Sua visão estava turva como nunca antes, mas o perigo não havia desaparecido.

    Luna preparava mais um golpe. Dessa vez, um soco de esquerda, tão desajeitado quanto desesperado, caminhava para ferir um deus…

    Que, infelizmente para ela, não estava mais disposto a receber mais danos. Seus olhos, focados e momentaneamente furiosos, desejavam acabar com essa luta.

    Ele rapidamente retirou a mão do nariz ensanguentado. Logo depois, moveu o pescoço para a esquerda, esquivando-se com perfeição.

    Seu contra-ataque foi tão instantâneo quanto limpo. O queixo foi vítima de todo o dano, e influenciou o balançar do cérebro de Luna, mas ainda não tinha acabado.

    Nem um, tampouco dois e muito menos três. Quatro golpes foram disparados no rosto adversário, um mais forte que o outro, impedindo Luna de permanecer em pé.

    Sua queda foi lenta e vazia. Quando as costas encontraram o chão, nenhum som ecoou, pois, para ela, sua derrota não tinha significado ou progresso.

    A divindade entregava-se aos seus suspiros cansados. Os olhos mal se decidiam entre descansar ou se atentar, até que o som da terra sussurrasse.

    Nos poucos segundos em que aquele deus parou para descansar, Luna agarrava o chão para que o corpo encontrasse um apoio firme.

    Os olhos de um ser divino desacreditavam do que viam. Seus ataques foram perfeitos, e o dano era demais para qualquer um suportar, então como ela ainda estava acordada?

    Não demorou muito para que Luna ficasse de pé. Os braços estavam submissos à tremedeira, mas era obrigatório que ficassem em guarda.

    Respiração cansada, ombros curvados e o caminhar lento… Tudo dava a entender que ela estava no limite da consciência, mas os olhos desmentiam essa versão.

    Estavam cinzas, secos e sem vida. Não enxergavam nada à frente, não pelo cansaço, mas sim por estarem inconscientes. Luna, mesmo desacordada, estava lutando.

    O deus não tinha palavras para expressar o que via. Cada passo era cheio de vida e determinação, ainda que não houvesse nenhuma ali.

    Não demorou muito para que ela chegasse à sua frente. Segundos depois, seu braço direito se inclinava para trás, concentrando todo seu esforço nos punhos.

    Esse seria o golpe final, um que carregava toda sua vontade de viver. Seu ritmo era lento, e o vento mal sentia sua presença, mas ele caminhava rumo ao peito daquele ser.

    E, finalmente, quando chegou… Nada aconteceu. Não tinha energia nesse ataque, tampouco força, apenas os sentimentos de alguém que perdeu a razão de viver.

    A fúria que sentiu após seu luto era somente um fogo de palha e, logo depois de seu último ataque sem um pingo de esperança, seu corpo desabou para a frente.

    Os olhos, inconscientes e sem vida, se fechavam enquanto as lágrimas tomavam conta. O coração batia contra sua vontade enquanto agarrava-se na escuridão.

    Tudo o que sobrou foi um ser divino em pé, com os olhos arregalados e confusos com o resultado de seu experimento, que foi um completo fracasso.

    Sua conclusão foi simples: não há luta no luto. O que estava enfrentando não era uma guerreira, mas uma mãe que, por um momento, acreditou que teria seu filho de volta se o derrotasse.

    O poder da divindade retornava ao auge pouco a pouco, e os ferimentos desapareciam de acordo, até que não sobrasse nenhum deles.

    Desde o começo esse não era um oponente possível para essa dupla vencer. Todas as possibilidades eram ilusões, e o resultado foi um deus intacto.

    Ele olhava para o chão com os olhos caídos. No fim de toda diversão que teve, seu coração batia em um ritmo lento e incômodo. A angústia abraçava seu corpo, e tudo o que recebeu como resultado foi um arrependimento amargo pelo que fez aos dois humanos que enfrentou.

    Os joelhos se curvaram sutilmente, e suas mãos pálidas iam de encontro com o cabelo de Luna, realizando, pela primeira vez, um carinho piedoso.

    Uma energia esverdeada percorria pelo corpo da derrotada, devolvendo-lhe toda a energia que gastou nessa luta que, desde o começo, não tinha sentido.

    “Peço desculpas, senhora Luna.”

    Não foi de demora alguma para que a cura fosse concluída. Não havia um resquício de dano em sua face, e todo o restante estava completamente recuperado.

    Aquele deus respirou fundo até que encontrasse pelo menos um pouco de estabilidade. Logo depois, ergueu-se e estalou os dedos.

    Sua existência começava a desaparecer nas sombras. Junto a isso, a floresta do leste regressava ao estado anterior, onde não existiam chamas e tampouco dor.

    “O sofrimento de vocês, mãe e filho, encerra aqui. Não se preocupem com a missão, eu vou cuidar disso.”

    Antes que desaparecesse, ordenou que as sombras engolissem Luna para a levar ao local guardado e protegido por ele, e assim foi feito.

    Escuridão se agrupava ao redor da mãe, circulando ao seu redor até que estivesse completamente oculta, teletransportando-a para o seu lugar de descanso.


    A temperatura era calorosa, e seu corpo estava mais leve do que nunca. O que aconteceu? A batalha tinha finalmente acabado ou era mais um de seus truques?

    Os olhos se acomodavam na escuridão, e as pálpebras, leves como uma pena, estavam prontas para dar oi ao mundo a qualquer hora.

    No entanto, o medo ainda existia em seu coração. Se abrisse os olhos, um deus estaria a aguardando? Seu medo durou até começar a sentir um calor familiar no seu colo.

    Ainda que não soubesse quem era, a alma reconhecia e chorava ao encontrar a verdade. Diante desse cenário, Luna não pôde fazer nada senão abrir os olhos.

    Tudo era surpreendentemente limpo e agradável. As árvores eram cheias de vida, e algumas folhas caíam só para beijar seu cabelo e testa.

    Não havia divindade alguma, como se tudo fosse apenas um sonho ruim. Sobretudo, seu maior presente e desejo estava embaixo de seu nariz.

    Assim que abaixou os olhos para enxergar o que era, quase não podia acreditar no que via. Havia um adolescente descansando em seu colo gentil, e não era qualquer um, era seu filho.

    Ainda que estivesse com os olhos fechados, estava respirando. Não estava morto, só descansando de uma batalha que nunca ousaria esquecer.

    O coração quase pulou para fora do corpo, as lágrimas escapavam feitas chuva, e os lábios cerravam para que nenhum pranto atrapalhasse o sono de seu filho.

    As mãos, trêmulas e desacreditadas, caminhavam para acariciar o rosto de Arthur. Era caloroso e, sobretudo, cheio de vida. Seu maior tesouro estava vivo.

    Diante daquele cenário, permaneceu sentada, escorada na árvore, agradecendo a Deus pelo bem-estar de seu filho enquanto se esforçava para não chorar ainda mais.

    Distante dali, a divindade caminhava com as mãos nas costas em direção ao seu castelo, ainda pensando nos dois humanos que enfrentara.

    “Espero que dê tudo certo… Colocarei uma seta visível somente ao Arthur para que ele seja guiado ao Oeste.”

    Enquanto divagava consigo mesmo, sua gata de estimação o seguia sutilmente. Não demorou muito para que miasse de forma tímida, pedindo por mais ração.

    Aquele deus olhou para ela e sorriu gentilmente. Logo depois, cessou seus passos e ajoelhou-se para acariciá-la, dizendo logo em seguida:

    — Vamos voltar, Amora. Minha experiência com os humanos terminou faz pouco tempo.

    Um sorriso sutil e genuíno escapou dos lábios da gata. Seu miado veio logo em seguida, concordando com seu dono que a aventura havia acabado.

    Seja Amora, deus ou aquele castelo, todos eles estavam desaparecendo lentamente para retornarem ao céu de onde vieram. Agora que a história do leste foi mostrada, é hora da penúltima aventura dessa floresta: o oeste.

    Próximo capítulo: Adaptação.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota