Capítulo 79: Adaptação
O ar do oeste estava frio. Passava entre as árvores, mas não incomodava as folhas. Repousava nas gramas, mas não havia nenhum sinal de sua presença.
O vento, então? Coitado, nem ousava sussurrar. As únicas coisas que detinham o silêncio eram o som dos passos esmagando a grama.
Entretanto, cada passo era seco e rápido, como se estivessem pisando em palhas que já estavam sem vida, ainda que nenhuma outra pessoa a conhecesse.
Os olhares cianos e brilhantes de Waraioni olhavam para um lado e logo retornavam ao outro, tentando encontrar algo além do abismo, mas nada achou. Não foi demora alguma para que o aborrecimento tomasse conta da sua face. Logo depois, olhou para seu único aliado disponível.
— E aí, gigantão, achou alguma coisa?
Douglas estava do mesmo jeito: olhava cada canto, mas tudo o que conseguia observar era escuridão. Infelizmente, sua resposta veio de acordo:
— Não… Eu olho, olho, olho e, quando eu vou ver, eu não olhei nada.
Waraioni, insatisfeito com o que ouviu, chutou as poucas folhas que caíram no chão. As pálpebras quase se murchavam em profundo tédio.
— Que porra, viu? Andamo um tempão e tudo o que a gente vê é árvore. É mais fácil voltar, né não? A gente não teve progresso nenhum.
O gigantão olhou para trás, e não demorou nem um pouco para perceber que não sabia onde estava, tampouco por onde caminhar para voltar.
— A gente até podia tentar, mas… Né? Tu sabe o caminho de volta?
Waraioni pensou por poucos segundos e logo concluiu: “Ah, esquece! Já tamo aqui mesmo.”, retomando seus passos frustrados logo depois.
As coisas se mantiveram iguais: os passos tão barulhosos quanto perceptíveis, e um silêncio forte o suficiente para irritar os ouvidos de quem ouve…
… Até que, finalmente, as coisas começaram a mudar. Quanto mais andavam, mais silencioso o ambiente ficava, e o som dos passos estava incluso.
De pouco a pouco, as gramas abandonavam a vida que tinham até que não fizessem barulho algum ao serem esmagadas, conhecendo o fim antes de ver o começo.
As árvores murchavam de repente, e as folhas, enquanto caíam, envelheciam rapidamente, e morriam antes mesmo de encostar no chão.
Waraioni observava e absorvia tudo, desde o som se desfazendo até o nascimento da morte, e o seu olhar tedioso foi rapidamente substituído por atenção.
Suas mãos no bolso estavam prontas a qualquer momento, e os passos cessaram para que os ouvidos se levantassem feito antenas.
Douglas pausou seus movimentos para que pudesse observar o que estava ao seu redor: nada, além de diversas folhas mortas caindo.
— Tu considera isso um progresso, Oni?
A pergunta era acompanhada de um riso nervoso. Seja lá o que estivesse acontecendo, não havia dúvida alguma de que seria perigoso.
— Mais do que eu gostaria que fosse, viu…?
A resposta, então, tinha um sorriso ansioso. O silêncio absoluto que os rodeava fazia seu coração pulsar em um ritmo diferente do habitual.
Não muito depois, uma gota de água caiu do céu, e atingiu gentilmente a testa de Waraioni, como se as nuvens estivessem o convidando. Como de costume, passou a mão sobre o rosto, espalhando o líquido na intenção de afastá-lo, até que ele deixasse de existir.
O pescoço ergueu-se logo após, e os olhos enxergavam o incomum: se não a escuridão, não havia brilho algum no céu, e as nuvens não agiam de acordo com sua natureza.
Estavam prateadas e aparentavam ser tão macias quanto algodão; entretanto, circulavam no sentido horário enquanto se entregavam à forma de vórtice.
— Ei, parceiro…
Enquanto tentava refletir sobre o que estava no céu, chamava seu único aliado disponível para o informar sobre o comportamento incomum que acabara de encontrar.
— Dá uma olhadinha pra cima aí…
Douglas o olhou confuso por alguns instantes, mas logo depois fez como pedido, observando o mesmo cenário que seu companheiro. Waraioni continuou:
— É, bicho… Acho que isso serve como um progresso também.
Pouco após sua fala, mais gotículas de água começaram a despencar. Assim, uma chuva começou, mas não era como a conhecemos.
Elas tocavam na blusa de Waraioni, e também repousavam sobre seus cabelos. Faziam o mesmo com Douglas, mas, ainda assim, não os molhavam.
Tudo o que havia era o barulho que faziam quando colidiam no chão, e um pouco do toque quando alcançavam aquela dupla. Além disso, não havia nada.
Os olhos de Waraioni se inclinavam em confusão, e seus dedos massageavam o rosto para afastá-las mais uma vez, no entanto, não conseguiam tocar em nada.
A agulha do incômodo cutucou seu coração. Pela primeira vez, estava diante de algo que, ao mesmo tempo em que existia, não podia tocar.
Não muito depois, o chão começou a tremer discretamente, como se um pequeno terremoto estivesse prestes a acontecer, mas não era o caso.
Alguma coisa estava emergindo sem pressa alguma, e não foi demora para começar a aparecer instantes depois, começando pelos dedos.
Seu estado era deplorável. Estavam enrugados e não tinham gordura nenhuma. A pele quase se fundia com os ossos enquanto as unhas escuras desconheciam a pureza.
Pouco depois, a mão ergueu-se com a pouca coragem que tinha, entregue à tremedeira enquanto apalpava o ar em busca de apoio.
Em seguida, os dedos rígidos, assim que tocaram o chão, agarraram-no feito a última esperança que tinham para encontrarem a superfície.
Com o último resquício de força que tinham, obrigaram os frágeis músculos a criar força de onde não havia para que seus corpos pudessem se levantar.
De pouco a pouco ele emergia. Seu odor era deplorável o suficiente para fazer as gramas mortas se curvarem no desgosto que sentiam.
Era uma criatura ausente de cabelos. Sua pele era ainda mais murcha do que as árvores, e os olhos estavam prestes a cair a qualquer instante.
Quando o primeiro estava prestes a se erguer da terra, mais tremores se espalhavam pelo horizonte, e incontáveis mãos desejavam alcançar o céu.
Assim que um deles conseguiu se manter de pé, centenas desejavam seu momento de brilhar. Uma legião de mortos-vivos habitava aquele lugar.
Alguns seguravam o braço esquerdo enquanto o direito rasgava e descolava do próprio corpo, e outros se ajoelhavam para as pernas não saírem do lugar.
Os que tinham olhos intactos observavam os dois humanos com um incômodo que fazia as pálpebras tremer. Por que o destino foi tão cruel?
Poucos tentavam sussurrar alguma coisa, e isso fazia suas línguas caírem. Por fim, nenhum deles foi exceção da autodestruição involuntária.
Daquele grupo, um por um conhecia o que era a fragilidade extrema, mas quase todos mantinham os olhos fixos no que um dia eles já foram.
Waraioni os observava com frieza nos olhos, mas os lábios cerrados escondiam a angústia que seu coração sentia ao observar aquele estado deplorável.
Não sabia a razão, e tampouco o porquê; entretanto, ele sabia que cada um deles, assim como Carol e Robson, tinham suas próprias histórias para viver e contar.
Pouco após, um trovão rasgou a nuvem de vórtice e colidiu com o solo, expandindo seu brilho para todos os lados. As folhas murchas crepitavam ao seu toque, e as gramas se deixavam levar pelo vento.
Sobretudo, uma poeira começava a subir aos céus, espalhando-se pelo mundo feito um pássaro voando pela primeira vez ao conhecer a liberdade.
A fonte de sua existência eram os mortos-vivos, que, pouco a pouco, deixavam de existir devido à influência da chuva e do recente trovão.
Alguns mantinham a cabeça baixa, outros erguiam o pescoço para observar o céu pela última vez; no entanto, poucos foram aqueles que se permitiram chorar.
Waraioni observou cada um deles. A angústia apertava o peito discretamente, e seus dedos caminhavam rumo à sua cicatriz. Enquanto os observava desaparecer, coçava as marcas1 sutilmente, desviando seu olhar para qualquer canto, desde que eles não estivessem lá.
“Fazer o quê… No fim das contas, é isso o que sobra aos fracos.”
Ao mesmo tempo em que não observava, pouca parte daquela poeira entregava-se ao chão, e utilizava os últimos resquícios de vida para formar uma seta.
Waraioni voltou o olhar não muito tempo depois, quando todos haviam desaparecido. Por coincidência ou não, notou a seta que apontava para frente.
Ainda que fingisse não ligar, não podia enganar a própria alma. Cada olhar desistente permeava sua mente até que fosse apagado pela sua própria ignorância.
O aborrecimento torceu levemente seus lábios enquanto os olhos se inclinavam para o lado. Diante dessa situação sobrenatural, pensou consigo mesmo:
“Acho que ainda não me acostumei com a existência desses lixos.”
A chuva ainda caía incessantemente, e algumas caminhavam embaixo de seus olhos como se fossem lágrimas que ele nunca iria permitir derramar. Pelo menos, não de novo. As mãos esconderam-se no bolso, e as pernas andavam com pressa para onde seu novo destino apontava. Os lábios anunciaram:
— Bora, Douglas. Agora a gente sabe pra onde temos que ir.
Ele, por sua vez, observava Waraioni com olhares pensativos. Ainda que seus olhos tentassem se esconder na raiva, uma tristeza oculta era visível demais.
Cada passo se perdia em seu próprio mundo, e a imaturidade da idade existia apenas para o atrapalhar a enxergar a realidade de sua própria alma.
— Certo…
A sabedoria que adquiriu com a idade o permitiu suspirar profundamente enquanto fechava os olhos devagar. No fim das contas, ele e poucos outros sabiam a dificuldade que seria para um adolescente se adaptar a essas situações.
Logo após, começou a seguir seus passos, sentindo uma estranha responsabilidade crescer em seu peito: ensinar, nem que seja um pouco, o dever de um homem.
Próximo capítulo: Futuro Invisível.
- @Maik: Tô me referindo às cicatrizes aqui, viu?[↩]

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