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    A chuva sobrepujava o som de seus passos com sussurros sem vida, entregando-lhes um cenário que nunca presenciaram: um que não era frio, nem quente, tampouco morno. O que os acompanhava era um vazio extenso, capaz de confundir o mais sábio dos homens e de escurecer a mais brilhante luz.

    Névoa prateada dançava nos arredores, mas não ousava atrapalhar seu caminho, apenas ocultava o abismo que existia no horizonte.

    Quanto mais caminhavam, menos gramas existiam. As árvores? Nem me pergunte sobre, a não ser que queira saber que elas já estão mortas.

    Não foi de demora alguma para começarem a andar sobre uma estrada de terra tão monótona quanto os mortos-vivos que haviam encontrado…

    … No entanto, um barulho sutil infiltrou-se no cenário e permitiu que seu fraco sussurro desbravasse o horizonte enquanto conhecia os peregrinos.

    Seu barulho, fraco e distorcido, fazia qualquer orelha se encurvar em desconforto enquanto descobriam sua origem: os gemidos dos mortos.

    A chuva, pouco a pouco, deixava de existir… Naquele lugar. Para ser mais preciso, ela estava se afastando dos garotos para oferecer consolo a algo mais à frente.

    O abismo os impedia de enxergar com clareza o que estava adiante; entretanto, podiam observar uma árvore tão desgastada quanto o seu enorme tamanho.

    Aquele vórtice de nuvem estava pouco acima dela, derramando suas lágrimas para as almas que algum dia sorriram para a vida até abraçarem a morte.

    Waraioni os observou com um olhar indiferente. Sua mente pensava em coisa alguma, e os pés caminhavam sem pressa para a missão.


    Alcançaram a chuva poucos minutos depois, mas isso não foi a única surpresa que encontraram. Alguns ossos, desde braços a caveiras, estavam espalhados pelo chão.

    Quanto mais avançavam, mais violentas as lágrimas das nuvens se tornavam, até que se transformassem numa tempestade incontrolável.

    Pouco depois, mais ossos começaram a aparecer; porém, suas aparições não eram sutis, mas sim uma horda de vidas transformadas em nada.

    Havia caveiras por todo o horizonte, mas o mais incomum não estava nelas, e sim na escuridão adiante que Waraioni não enxergava.

    — Acho que chegamos, Oni.

    Seus olhos tentavam observar o abismo, mas tudo o que recebeu de volta foram as trevas. Nesse cenário, tudo o que podiam fazer era continuar caminhando.

    Os passos eram descuidados, pois nada podiam ver, senão as sombras. Cada um tinha seu próprio ritmo, e o som era inexistente; a escuridão não permitia esse barulho.

    De repente, Waraioni sentiu algo sutil e macio abraçar a sola dos pés. Imediatamente, o som de ossos se quebrando gritou às nuvens.

    A angústia abraçou seu estômago, e os lábios se cerravam em desconforto. Logo depois, moveu os olhos para baixo, sem pressa alguma.

    O que viu era digno o bastante para fazer qualquer ser humano normal vomitar: um corpo murcho dos pés à cabeça, sem sequer ter olhos para enxergar.

    Sem que percebesse, estava pisando em um dos braços daquele ser. Era tão macio e frágil que um simples pisar foi o suficiente para despedaçá-lo.

    Ao retirar os pés de lá, sangue, escuro e espesso, perseguiu sua sola; no entanto, não foi de demora alguma para desgrudar e, logo após, desaparecer em evaporação.

    Por um breve momento, Waraioni observou aquele humano com olhares monótonos e pensativos, até que outro trovão, ainda mais barulhento do que o anterior, gritou àquele mundo.

    Seus olhos, ao acompanhar o levantar do pescoço, ergueram-se rapidamente ao céu, e lá estava o que desejavam: uma luz ainda mais brilhante do que qualquer estrela…

    … Entretanto, estava acompanhada pelo sobrenatural. As nuvens, anteriormente entregues à forma de vórtice, transitaram para uma caveira entristecida.

    Os buracos, que deveriam ser seus olhos, eram o único lugar onde a luz não existia, e era de lá donde aquela chuva intocável e interminável vinha. Graças àquele trovão, a luz ergueu-se para subjugar as trevas, permitindo-lhes enxergar o que estava os aguardando na escuridão.

    Pouco depois, Waraioni voltou sua atenção adiante. Com a derrota do abismo, os olhos podiam observar o que estava adiante: a imensa árvore que havia visto.

    De perto, parecia ainda maior. Seus galhos, ainda que fossem frágeis, tinham força e imponência o bastante para tocar o céu e quase alcançar as estrelas.

    No entanto, o que estava ao seu redor não era tão grandioso assim. Corpos estavam por todos os lados, sem o mínimo de distinção.

    Jovens, idosos, homens e mulheres, todos tinham seus cadáveres espalhados pelo horizonte, sem o mínimo respeito ao que sobrou do corpo. Alguns estavam despedaçados, outros estavam murchos feito desidratados, e foram poucos aqueles que ainda estavam “intactos”.

    Nada além do silêncio abraçou o vento. As pálpebras de Waraioni se fechavam sem pressa, escondendo a luz da realidade com o aconchego da escuridão.

    Douglas, logo ao seu lado, observava o estado daqueles indivíduos. Os dentes se cerravam em desaprovação e os olhos começavam a flamejar.

    Não sabia quem era o responsável e tampouco desejava saber do motivo; no entanto, independente de quem seja, com certeza o faria pagar.

    Pouco depois, passos começaram a ecoar. Eram secos como pisar numa bolha de água; sobretudo, estranhamente duradouro, como se estivesse em todos os lugares.

    Waraioni, não muito depois disso, abriu os olhos com calma e suspirou brevemente antes de observar o que estava se aproximando.

    Um corpo, ainda mais murcho do que os dos cadáveres, andava com paciência com a ajuda de seus pés finos e fracos, como se fosse um idoso. Sua pele estava mais do que desidratada, era como se estivesse morto há muito tempo, sobrevivendo às custas de sacrifícios.

    Das sobrancelhas até abaixo dos olhos, uma sombra, num formato vertical, descia sobre seu rosto como a marca de sua eterna maldição.

    Os lábios flácidos estavam semiabertos; no entanto, o detalhe mais incômodo não morava em nenhuma das descrições, mas sim nos olhos.

    Simplesmente não havia um lá, apenas um abismo ainda maior do que uma cratera sem um fundo visível, observando as presas novas que vieram por vontade própria ao seu território.

    Não foi de demora alguma para um sorriso, de orelha a orelha, surgir no rosto daquela entidade, revelando-lhes mais um defeito: não havia dentes em sua boca.

    A atmosfera sentiu a pressão imediatamente. A luz quase não aguentava tamanha malignidade, e um peso desconfortável repousava nos ombros dos desafiantes.

    Waraioni sentia o hesitar de seu coração. A mente começava a questionar o que podia acontecer dali adiante; no entanto, a alma sabia: esse monstro é diferente dos outros.

    Douglas cerrava os punhos sutilmente, escondendo o pequeno medo que começava a sentir atrás de seus olhos de caçador, prontos para a luta.

    Não muito depois, aquele ser deu mais um passo. Ao contrário dos outros, que eram leves, esse foi barulhento e pesado, espalhando desconforto ao horizonte.

    Os braços se jogavam no chão, e a guarda estava totalmente exposta; no entanto, sua voz, rouca e fraca, fez uma indagação aos guerreiros assustados:

    — O que vocês fariam… Se seus poderes sofressem uma adaptação?

    À primeira vista, pode ser interpretada como uma pergunta sem finalidade alguma; no entanto, isso era um aviso de sua maldição: qualquer poder nesse mundo, perante sua presença, será superado.

    Seu sorriso dobrou de tamanho logo após, e o abismo em seus olhos expandiu-se em satisfação, perguntando em seguida o que sua mente achou divertido:

    — O que vocês fariam se, de repente, estivessem mortos?

    A tensão aumentou exponencialmente. O vento nem pensava em sussurrar, e o ar congelava, entregando-se ao medo que lhe levou à paralisia…

    … No entanto, Waraioni não suportou ficar mais tempo parado. Segundos depois, saltou em direção ao adversário, sem um plano em mente.

    Estava perante a ele em um instante. O abismo observava a ousadia daquele rapaz, e o garoto olhava de volta para as trevas com desprezo no olhar.

    Logo depois, cerrou o punho esquerdo e disparou um gancho no abdômen daquele monstro que, por um motivo desconhecido, não reagiu ao golpe.

    O ataque foi certeiro, e o impacto o forçou a curvar o corpo; no entanto, antes que saísse voando com os danos, Waraioni segurou um de seus braços.

    Imediatamente, lançou outro soco, dessa vez, em sua face. Assim que o atingiu, o soltou para que fosse jogado sobre o chão, deslizando na terra como o lixo que era.

    Os olhos do rapaz estavam arregalados em fúria que o anestesiava do medo, e os lábios, tão ousados quanto, abriram-se para um breve desabafo:

    — Fala pra caralho.

    A entidade permaneceu no chão, ausente de movimentos por um breve momento, não porque estava derrotado, mas sim por estar se preparando para a batalha.

    Sua pele, antes sem vida, enchia-se com o vigor pouco a pouco, indo de um idoso prestes a ser vencido pelo tempo a um jovem adulto cheio de energia.

    Os lábios voltavam a sorrir e, enquanto os braços apoiavam-se no chão para reerguer seu corpo, risos, sutis e roucos, ecoavam ao horizonte.

    — Eh… He… He…

    Assim que se ergueu, inclinou o pescoço para trás, fixando sua atenção nos dois recentes alvos, divertidos o bastante para valer a pena caçar. A escuridão de seus olhos entregava a história que aconteceria após esse ataque: um futuro invisível.

    Próximo capítulo: O Limite dos Vivos…

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