Capítulo 82: … Cerejeira da Vida
O vento, outrora gélido e incômodo, deixou de existir naquele momento, e o cheiro podre dos rastros da morte foi-se junto com ele.
Em seu lugar, um aroma, doce feito chocolate, surgia. Não era animado demais para se movimentar, tampouco tímido para não se mostrar ao mundo…
… Era difícil de explicar. Ao mesmo tempo em que existia, parecia vir de outro universo, um que não havia dor, tampouco conflitos para que o conceito de força ou fraqueza existisse.
Esse cheiro agradável vinha daquela cerejeira, mais especificamente de suas pétalas, e elas brilhavam tanto quanto as estrelas em um céu noturno da terra.
Cada uma delas parecia brasas. Suas aparências angelicais, por um momento, prenderam os olhos de Waraioni em sua forma, e quase o fez perguntar-se se aquilo era real.
Sem que percebesse, o conforto entrou pelas narinas e abraçou o coração. Assim, o permitiu sentir pela primeira vez a sensação do nada.
O peito ficava gelado na ausência do frio, e uma estranha vibração percorria seu corpo dos pés à cabeça, fazendo-o esquecer que problemas maiores existem.
Seus pés inevitavelmente caminhavam àquela beldade, até que ficasse frente a frente com aquilo que o permitiu sentir paz de espírito.
As raízes eram tão fortes que, se quisessem, poderiam arrancar o chão do lugar. Em contraste, seu tronco, fino e delicado, simbolizava sua gentileza.
Por algum motivo que Waraioni fingia não saber, aquela árvore de cerejeira era atraente o bastante para fazê-lo mover sua mão até ela.
Ao tocá-la, percebeu sua textura: ao mesmo tempo em que parecia algo delicado o suficiente para ser macio, estava firme e endurecido feito a madeira que era.
Desde então, o mundo externo tornou-se silencioso. O som de sua própria respiração tomava conta do lugar, e o som do batimento cardíaco caminhava lentamente por todo o corpo.
Gradativamente suas pupilas começavam a girar e, no mesmo ritmo, aquela árvore em específico começava a se entregar ao tom ciano claro.
Ao olhar para as pétalas, algumas que caíram tinham a mesma cor, só para então retornarem à cerejeira, e retornar ao tom ciano de imediato.
O mesmo aconteceu à árvore. Uma cor ciana, do tronco às raízes, pulsava a cada segundo, como se fosse o seu coração, mas não era.
Tudo o que Waraioni observava era seu próprio poder de observar o futuro de algo; no entanto, estava aprimorado devido à influência da calma.
Seus lábios entreabertos suspiravam sozinhos, e o vazio da estabilidade percorria por sua mente. Sobretudo, uma estranha vibração invadia seu corpo.
Era como uma onda musical que se multiplicava sem pausa alguma, começando dos pés, explorando a cabeça e retornando de onde vieram.
Por um breve instante, Waraioni esqueceu de todas as coisas, seja quem ele era, seu nome ou até mesmo o que ele estava fazendo naquele lugar.
Graças à calma, aquela onda propagava-se sem nenhuma interrupção. Eventualmente, ficou tão forte e presente que poderia escolher se ficaria ou não.
Logo depois, suas pupilas desapareceram dos olhos, e seu próprio corpo se tornava ciano, como se ele e o futuro se tornassem um só.
Assim que alcançou esse resultado final, a vibração enfraquecia de pouco a pouco, até que se tornasse imperceptível, embora ainda existisse.
As pálpebras se fecharam por vontade própria, o pescoço ergueu-se para cumprimentar o céu e um único suspiro, gélido e estável, escapou dos lábios.
Logo depois, deu poucos passos para trás enquanto abria os olhos. Por fim, respirou profundamente enquanto observava aquele céu abissal.
Pensava no que havia acabado de acontecer, mas não tinha palavras para expressar nem um mísero segundo do que sentiu há poucos instantes.
“O… Que que foi isso…?”
Pouco após, abaixou os olhos para observar a cerejeira mais uma vez. Ela ainda estava lá, incrível e brilhante como sempre foi, mas algo tão admirável quanto encontrava-se mais abaixo.
Uma versão de si mesmo, do cabelo aos pés; no entanto, era transparente e visivelmente intangível. A imagem de sua alma estava diante de si, na mesma posição quando ele estava com a palma na árvore.
Sobretudo, havia uma informação logo acima da cabeça daquilo. A letra era de forma, e sua aparência idêntica à de um vidro ciano carregava algumas palavras: “Diga, ou pense: “Trocar”.”
No começo, não entendeu perfeitamente o que estava acontecendo. Sua mente ainda estava com dúvida no que havia acontecido em um passado próximo, mas fez como pedido.
“Trocar.”
Imediatamente após, sua forma espectral foi destruída, e Waraioni foi transferido para onde ela estava. Sem que percebesse, sua palma estava na árvore, como anteriormente.
Eis esse o novo poder que conquistou: sacrificando um segundo do futuro que vê, pode criar um “fantasma” de si mesmo na posição em que invocou. Também pode alterar sua postura, se assim desejar.
Claro, essa habilidade não é mamão com açúcar, não. Se ele estiver sentindo raiva, medo ou qualquer outra sensação que não seja calma e foco, não vai funcionar.
Por alguns segundos, manteve-se parado no mesmo lugar, até que seus olhos entendessem o que havia acontecido. Não foi de demora alguma para que seus lábios sorrissem discretamente com a conquista.
Um pequeno riso escapou da garganta e, pela primeira vez desde a divisão de grupos, seu olhar curvou-se gentilmente para a árvore. As pálpebras fecharam com gratidão, e a testa moveu-se para acariciar o tronco. Logo após, os lábios se ergueram para dizer:
— Obrigado.
Assim foi por alguns segundos. A brisa fria do vento acariciava-o de volta, envolvendo-o como um abraço gentil que aquela árvore não podia retribuir.
Pétalas de cerejeira repousavam sobre seu cabelo, e algumas beijavam sua bochecha porque não conseguiam alcançar a testa ocupada.
Pouco depois, Waraioni cessou seu carinho, e moveu as mãos para o bolso enquanto a observava pela última vez… Pelo menos era isso o que ele pensava.
Logo após, virou o pescoço, buscando qualquer referência que o ajudaria a retornar para o campo de batalha, até que enxergasse o rastro de seu próprio sangue.
Era pouco, mas vinha em linha reta de um só lugar, e era o mesmo local em que aquela criatura estava ao seu aguardo, junto de seu amigo.
Sendo assim, caminhou sem pressa alguma e começou a correr logo depois, em um ritmo agradável o suficiente para que sua calma não fosse afetada.
As lágrimas das almas continuavam a cair do céu. Antes, gritavam o pedido de socorro entalado na garganta assim que colidiam com o chão, agora, nada se fala.
O ar gélido ainda caminhava em passos curtos, pois temia o que podia acontecer consigo. Dessa forma submissa, envolveu o corpo de Douglas.
Ele, por sua vez, manteve os olhos estreitos e fixos na criatura à sua frente. O ser em questão observava-o com um singelo sorriso, mas o tédio estava começando a consumir sua paciência.
Douglas buscava uma respiração estável, mas a dor no abdômen afetava o seu diafragma. Assim, o conforto desejado era substituído por dor aguda.
No entanto, ao permanecer com os lábios cerrados, garantiu que sangue escapasse da língua. Poucos segundos após seu esforço, estava pronto para avançar…
… E assim o fez. Saltou em direção ao oponente logo em seguida, e demorou somente um instante para que ficassem um na frente do outro.
O primeiro soco veio dele. Seu tamanho o julgava com lentidão, mas a força rasgava o vento a cada momento em que se movia para o rosto do alvo…
… Mas de nada adiantou. A entidade observou aquele ataque lento com olhares monótonos, e fez pouco esforço para esquivar ao abaixar o pescoço.
Logo depois, pegou o cabo de sua foice e o atacou no umbigo com a sua ponta. O impacto, ainda que fosse o mesmo, trouxe danos maiores devido ao acúmulo.
Douglas sentia cada músculo de seu abdômen rangendo a ponto de algumas rasgarem. Enquanto lutava para não ser arremessado pela pressão, frouxou os lábios em dor, e uma chuva de sangue escapou.
No entanto, o contra-ataque ainda não havia terminado. Aquele ser avançou em um momento, e observou a guarda exposta de seu oponente por um breve período.
Imediatamente após, novamente com o cabo de sua arma, golpeou três vezes o mesmo lugar já danificado, finalizando com um chute frontal.
Quatro ataques foram desferidos em um único segundo, todos com forças exatamente iguais, expulsando todo o fôlego que Douglas tinha.
Enquanto voava para trás de forma involuntária, vomitava o sangue que o abdômen lesionado expulsava do local, entregando-o à garganta.
As pupilas, escondidas atrás dos olhos, já o alertavam de que, se ele cair, ela irá junta; sobretudo, acompanhada pela inconsciência que o deixará o chão.
Antes que a mente pudesse pensar em retaliação, a entidade já estava em suas costas, preparando um soco de baixo para cima, mirando seu nariz.
O resultado foi previsível e decepcionante: o ataque acertou em cheio, e afundou o rosto de seu oponente no chão, deixando-o sozinho com a dor.
O nariz latejava com a lesão, e sangue caía das narinas como um sutil chuvisco. A dor sobrepujou seu tamanho, e tudo o que lhe restou foi a escuridão.
A criatura o observava de cima para baixo com desinteresse, encurvando os lábios em decepção. Em seguida, virou para trás, olhando de um lado ao outro, buscando o rastro de sangue que o levaria à caça inacabada.
Os olhos não percebiam, mas a atmosfera sim. Vapor começava a escapar do corpo daquele homem, dizendo sutilmente ao mundo que ele não estava tão derrotado quanto aparentava.
Próximo capítulo: A Falha da Perfeição.

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