Capítulo 87: Eclipse em Direção ao Fim
O som de seu suspiro ecoou como um sussurro frágil, expandiu-se ao horizonte e conheceu o calor de uma vitória difícil. As gotas de chuva constantemente caíam sobre todo o corpo. Cada segundo sob aquela proteção o banhava de paz e alívio.
O tom vermelho dos antebraços retirava-se de pouco a pouco, o sangue que escapara dos olhos retornava para eles, regressando os danos.
Cada músculo dava boas-vindas à regeneração constante, e a escuridão que as pálpebras fechadas ofereciam não era nem um pouco desagradável.
Começou a levantar as pálpebras no seu próprio ritmo. No começo, tudo estava embaçado, e seu olhar não brilhava tanto quanto antes. Ainda confuso com o que estava acontecendo, tentou mover os dedos sem que a dor o alertasse e, sem que percebesse, os fechou.
Em seguida, pensou em levantar os braços devagar, mas a leveza era mais do que ele imaginava, e assim os ergueu sem problema nenhum.
Seus olhos, curvados tanto pelo cansaço mental quanto pela dúvida e confusão, fixaram-se em seus dedos enquanto os abria e fechava.
Demorou para que percebesse, mas não havia dor, apenas o calor constante o envolvia, um mais agradável do que um abraço sincero.
Os pensamentos se resumiram em um suspiro breve, e os olhos viraram-se junto ao pescoço para trás, buscando onde Douglas se encontrava.
Lá estava ele: deitado, com os braços levados ao horizonte. Seu tamanho havia voltado ao normal, e nenhum ferimento existia no corpo.
Por um momento, o coração de Waraioni suspirou junto ao nariz e os olhos; pouco depois, caminhou sem pressa até que ficasse ao seu lado.
Em seguida, sentou-se no chão, apoiou o antebraço no joelho e observou o semblante de seu amigo: tranquilo, sem preocupações, mas os olhos vagavam em um pensamento distante.
Logo após, Waraioni ergueu o pescoço e observou o horizonte vazio; assim, o silêncio imperou por longos segundos até que seus desabafos alcançassem os lábios:
— Foi uma batalha complicada…
Ao ouvir sua voz, Douglas inclinou o pescoço para o lado e observou o rapaz. Ainda que não percebesse, havia resquícios em seu olhar da serenidade que sentira.
— Jovem, você achava ele um oponente forte?
Waraioni refletiu por poucos segundos, recordando-se de cada momento difícil da luta e das dores que seu corpo quase desmontou para aguentar.
— É, deu pro gasto.
Douglas riu brevemente da resposta contraditória do rapaz; pouco depois, moveu os olhos ao céu, observando algo que brilhava em tom verde. Disse:
— Por que você acha que os fortes existem?
O garoto não doou nem sequer um instante para pensar em sua resposta, e logo depois respondeu de forma seca e direta ao ponto:
— Porque os fracos não aguentaram a pressão.
Seu pensamento é simples e distorcido. Aqueles que morrem em uma briga de rua, ou até mesmo falecem ao tentar proteger a família de um sujeito mal-intencionado, todos eles são fracos.
— Garoto, desde quando você acha que somos fortes?
— Desde sempre.
Novamente, uma resposta sem direito ao pensamento. Douglas manteve-se em um curto silêncio enquanto olhava admirado ao céu.
— Imagine que há um bebê dormindo tranquilamente no sofá. Futuramente, ele será o governante de um país próspero, ordenando que exércitos se movam só com uma palavra. Ele foi verdadeiramente forte desde o princípio?
Essa indagação ia contra a sua filosofia, mas não encontrou resposta alguma que a refutasse. No fundo de seu coração, sabia que a verdade era uma só.
— E se esse bebê infelizmente caísse de um lugar alto por falta de cuidado dos pais? Significa que ele nunca foi forte, ainda que seu futuro seja próspero?
Seus olhos curvaram-se em teimosia e o pescoço inclinou para o lado, buscando qualquer escuridão confortável que o escondesse da verdade.
— A mãe que manteve esse bebê na barriga por longos meses é frágil contra qualquer hostilidade; significa que ela é fraca e deve morrer, ainda que esteja protegendo alguém forte?
Waraioni rapidamente respondeu que não sabia enquanto mantinha os olhos longe do rosto de seu amigo. A luz que vinha de sua sinceridade incomodava seu coração escuro.
— Garoto… Pode olhar para o céu, nem que seja só um pouco?
Ainda que estivesse incomodado com uma opinião totalmente diferente da sua, fez como pedido e levou o pescoço ao topo, junto de seus olhos.
Não havia mais nuvens, tampouco o abismo tomava conta do céu. As estrelas sorriam gentilmente, e o que era escuro tornou-se levemente esverdeado.
Havia ondas, no tom verde claro, que rachavam o universo enquanto dançavam por todo o cosmo, indo de um lado ao outro sem pressa alguma: aurora boreal.
Era de lá que caía a chuva da cura, tão agradável quanto protetora. Os lábios de Waraioni se calaram ao ver aquele espetáculo no céu, e os olhos brilharam.
— Por que fomos protegidos se somos tão fortes?
Nenhuma resposta vinha à sua mente, sua teimosia e, sobretudo, um trauma escondido nas cicatrizes, não conseguia refutar os fatos, ainda que fosse contra.
— Não há nenhum ser forte o bastante nesse mundo que consiga viver sem a proteção de algo.
Essas palavras ecoaram como folhas ao vento: tranquilas e cheias de verdade, apenas aceitando o fluxo do vento aonde quer que fossem levadas.
Dessa forma, o silêncio ergueu-se novamente; no entanto, não foi nada desagradável dessa vez, apenas dois homens apreciando o show celestial.
Alguns minutos se passaram. A chuva havia se despedido, mas deixou a aurora boreal como um presente àqueles que o salvaram da dor.
A ausência de som ainda existia, mas não foi por tanto tempo; vozes, misturando-se com o passo de algumas pessoas conhecidas, aproximavam-se deles.
— Ônix, tem certeza que é aqui? [Saito]1
— Acho que sim, a seta apontava pra cá. [Ônix]
— Não sei não, viu? Ele é todo perdidinho. [Andressa]
— KK [Morfius]
Assim que a atenção ergueu-se com a queda da conversa, puderam observar os dois companheiros que estavam procurando. Andressa acenou gentilmente enquanto dizia “Oi!”, e Ônix sorriu discretamente ao ver que não havia ferimentos em nenhum deles.
Morfius os observou com tranquilidade no olhar, Saito focou os olhos em seu irmão e, não importou o quanto olhasse, estava intacto.
Waraioni olhou cada detalhe de volta. Não havia danos no corpo, mas, no rosto, sim, e isso era bom o suficiente para o seu primeiro ataque:
— Tá todo fodido, hein? Cicatriz gigante.
Saito levou o pescoço para contra-atacar com seu olhar aparentemente esnobe, exalando uma superioridade que todos sabiam que não existia. Logo após, respondeu:
— Sabe de nada, amigo; eu que arranquei meu olho pra equilibrar a batalha. Essa é a diferença entre nós, tá me entendendo?
Waraioni deixou escapar um breve sorriso enquanto dizia: “Hah! Sei.”. Antes que pudesse lançar mais um golpe, passos ecoaram novamente.
Todos os presentes olhavam na direção de onde o som vinha, e lá estavam os últimos que faltavam: mãe e filho, andando de mãos dadas.
Douglas sentou-se assim que viu a silhueta de seu filho e esposa; em seguida, os observou com toda a atenção disponível para ver se estavam bem. Para sua felicidade, estavam intactos. Coitado, se soubesse que eles enfrentaram um deus há pouco tempo, não estaria tão alegre.
Luna comentou com um sorriso animado: “Óia, achamos eles mesmo!” apontando para seus amigos enquanto olhava atenciosamente para Arthur.
Não foi de demora alguma para que Douglas levantasse e caminhasse em direção a eles. Assim que chegou, perguntou como foi em um misto de alegria e preocupação.
Sua esposa disse que não foi nada demais e usou a ausência de danos como uma prova disso. Pouco depois, distraiu-se com o detalhe de que seu marido estava sem camisa, e ele a respondeu dizendo que deve ter perdido por aí.
No reencontro deles, maior do que a dificuldade das lutas foram as mentiras que contaram ao dizer que as batalhas não foram difíceis e que não tinha por que se preocupar.
O papo foi bom, só não foi longo. Não demorou dois minutos para o sistema de jogo surgir no centro com mais informações sobre a missão.
Sistema de Jogo
Uma divindade anônima do mais alto ranque interferiu na missão dos seguintes jogadores e “jogadores”: Morfius, Andressa, Douglas, Luna, Arthur, Waraioni, Saito e Ônix. De acordo com ele, suas conquistas foram acima do que a missão exigia; sendo assim, a recompensa deve ser a máxima possível. Os sistemas estão discutindo entre si para decidirem se isso é válido ou não.
Eles leram cada palavra com atenção. De todos os presentes, seis pensavam consigo mesmos sobre qual divindade era; dois tinham uma leve ideia sobre a identidade do ser.
Sistema de Jogo
Os sistemas concordaram com o argumento apresentado. O grupo “Eclipse” prosseguirá para a última parte da missão com uma eficácia de cem por cento nas missões que concluíram. Esta é a primeira guilda com oito membros a terminar uma missão com cem por cento de precisão.
Logo após, uma seta flutuante apareceu acima da cabeça de cada um deles, apontando em uma direção que os levaria à última provação que a floresta tem a oferecer.
Próximo capítulo: Rei dos Quatro Cantos.
- @Maik: Bom dia! Saito e Morfius acordaram enquanto Ônix e Andressa caminhavam pra onde Waraioni e Douglas estavam.[↩]

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