Capítulo 88: Rei dos Quatro Cantos
Não foi de demora alguma para que o sistema de jogo se despedisse; dessa forma, o grupo reunido pôde continuar a conversa sem preocupação.
Ônix conversava com cada um que lhe preocupou, sendo esses: Waraioni, Arthur, Luna e Douglas. Em todos os diálogos, Andressa estava ao seu lado.
E assim, o papo que havia sido cortado fluiu naturalmente. Todos eles disseram sobre o que sentiram: medo, preocupações, até mesmo pensaram que morreriam na floresta.
Nesse momento de despreocupação e segurança, o que era assustador e um motivo de preocupação tornou-se algo engraçado e digno de um sorriso.
Andressa compartilhou do momento em que enfrentou seu oponente esverdeado, dizendo que ele era ainda maior e musculoso do que Douglas.
Ônix riu brevemente, e logo depois disse em palavras curtas sobre o garoto “ingênuo” que tinha enfrentado, resumindo em muito a história.
Cada um teve sua vez para contar na sua própria perspectiva, até que a fadiga mental, que nem sabiam que tinham, havia sido curada com o remédio da companhia.
Tempo depois, o grupo começou a caminhar. Não havia escuridão que os incomodasse, pois o brilhar esverdeado do céu não permitiu.
O cenário rejuvenescia conforme caminhavam. Gramas nasciam para dá-los boas-vindas, e as árvores se ergueram no oxigênio que elas produziram.
As estações brincavam com o tempo; dessa forma, folhas de árvores abraçavam o ritmo. Algumas entregavam-se à cor rosa até que o tempo passasse.
Minutos depois, despediram-se do passado e se entregaram ao tom verde-escuro. Não foi de demora alguma para que conhecessem a cor laranja, tampouco o prateado.
A floresta, outrora morta pela escuridão, conheceu pela primeira vez a primavera, verão, outono e inverno, e os retribuiu com esse show.
Os olhos de todos eles brilharam em cada evento. O aconchego da paz os fez esquecer que estavam em uma missão que não havia terminado.
Assim, quase uma hora voou sem que percebessem. Os olhos distraídos ainda observavam o horizonte, mas um elemento da natureza os avisava que o descanso tinha terminado: vento.
A brisa gélida do ar passou pelas costas, orientando-os a olharem para o enorme abismo que estava logo à frente, e assim foi feito. Montanha, de um tamanho inestimável, estava há poucos metros do grupo; entretanto, o detalhe principal era o que estava o dominando-o: fenda.
Era como se fosse um portão imenso, mas sem portas. As lâmpadas eram a escuridão, uma que seria capaz de engolir a luz do sol. Os passos se ausentaram por um instante, e o ondular do frio visitou a barriga de cada um. Estão realmente prontos pro desafio que virá?
Ônix notava os calafrios percorrerem o seu corpo, mas não lutou contra, tampouco tentou se convencer de que não era perigoso, apenas deixou fluir.
Cada sensação, insegurança e medo que atingia até mesmo os seus olhos universais, tudo foi aceito até que se escondessem na falsa ilusão do “me acostumei”.
O grupo também teve o tempo necessário para digerir o perigo que estava há poucos minutos de conhecerem, até se sentirem minimamente prontos.
Dessa forma, aquele que tem o universo nos olhos deu o primeiro passo com a mão no bolso, dando a impressão de que tudo daria certo.
O pescoço virou-se para que seu olhar chegasse aos seus amigos: sereno, como se soubesse de tudo, os convidando para acompanhá-lo.
E assim eles foram: em silêncio, não pela ausência de palavras, e sim por entenderem que o coração precisava dessa calma temporária.
O som dos passos conheceu leste e oeste; seus sussurros foram ouvidos com toda atenção, e serviu de calmante para os que precisavam.
“Escuro…”
Era tudo o que podiam pensar. As sombras engoliam tudo que estava em volta, até que se tornassem parte dele no abismo. Eles não podiam sequer enxergar as próprias mãos, mas continuaram a caminhar, os passos em conjunto não os deixavam pensar que estavam sozinhos.
Dessa forma, segundos se passaram, até que o frio da escuridão deixasse de existir de pouco a pouco, e não demorou para que ficasse morno.
As sombras se entregavam à luz vermelha que começava a nascer no céu como um bocejo fraco, para logo depois se tornar forte. O que antes era uma faísca tornou-se um fogo completo. Do céu, que vinha a iluminação, encontravam-se inúmeras lamparinas acendendo de pouco a pouco.
O chão era tão firme quanto rochoso, o horizonte não tinha nada a oferecer senão uma muralha de pedras que circulava todo aquele lugar.
Em apenas alguns segundos, perceberam que estavam em uma caverna; no entanto, o detalhe mais importante encontrava-se logo à frente…
… Um trono. Não era feito de pedra, isso não era adequado, era puro ouro guardado a um ser tão digno quanto: o deus daquele ambiente.
Algo tão nobre quanto isso não poderia estar vazio, e não estava. Sentado sobre sua cadeira real, estava um ser com uma fisionomia aparentemente humana.
A armadura dourada o guardava como o cavalheiro que era. As mãos estavam livres para que fosse mais fácil movê-las, mas os pelos estavam em todo lugar.
O cabelo era arrepiado e amarelo; os olhos brilhavam como um farol dourado, e a imponência emanando de seu corpo entregava o nome daquele ser:
Rei Macaco: Sun Wukong
O olhar encontrava-se distraído para baixo enquanto a mão, apoiada no joelho, servia de apoio para o queixo com um interesse tão grande quanto o nada.
Pouco depois, ergueu brevemente o pescoço e enxergou aquele grupo de oito pessoas que observava cada detalhe de sua existência.
Permaneceu parado por alguns segundos, até que começasse a se erguer de seu trono com um vazio no olhar dominado pela despreocupação.
Cada passo carregava o peso de um exército. O chão estremecia com sua presença, mas não era forte o bastante para fazê-lo gritar.
O rei ainda estava muito longe dos adversários, mas não importava. Levou a mão esquerda ao céu, com a palma aberta, aguardando algo chegar e, de fato, chegou: bastão, um ainda mais dourado que seu olhar, correu até seu mestre como ordenado, pronto para a batalha.
Em seguida, Wukong segurou sua arma com um pouco de força e a firmou no chão. Um barulho, ainda mais explosivo do que uma bomba atômica, ecoou ao horizonte.
Os ouvidos sentiram a pressão e suportaram com um zumbido, a pressão do vento os empurrava para trás e a única resposta disponível foi firmar os pés.
Proteger os olhos com o antebraço foi a melhor alternativa para evitar danos oculares. A atmosfera acalmou-se pouco tempo depois, entregando paz ao vento gradualmente.
O ar caminhou pela arena e passou pelos corpos dos desafiantes em um gélido sussurro, que deixou o frio na espinha responsável pelo aviso do perigo.
O palco estava montado, todos estavam focados e preparados para um duelo que aparentava ser interminável, mas o verdadeiro rei não estava presente.
De pouco a pouco, o som de um assobio se arrastava ao horizonte e ficava cada vez mais forte, até que eventualmente se tornasse completamente audível.
Naturalmente, todos, incluindo o falso rei, observavam o abismo infinito do topo daquela caverna com olhares confusos o bastante para entregar a indagação: “Que barulho é esse?”.
Quando menos esperavam, um ser tão enorme quanto peludo caiu das sombras com os braços para cima, reféns da pressão do vento.
Seus pés gigantes iam de encontro ao Wukong, que, por puro e simples azar, estava no lugar errado e na hora errada, sem ter o que fazer.
A colisão aconteceu um instante depois. O corpo do falso rei explodiu assim que foi pisado, e o verdadeiro imperador pousou na arena.
A explosão de sua queda fez o chão berrar em dor, tremendo como se um terremoto estivesse acontecendo, e o ar não pôde fazer nada senão o mesmo.
Poeira ergueu-se como uma bomba de fumaça, deixando os desafiantes em uma névoa sem fim até o vento fazer seu trabalho. O arregalar dos olhos atingia a todos enquanto lutavam para entender o que estava acontecendo. Um monstro, forte o bastante para esmagar um “rei” era o adversário que teriam que enfrentar?
A visão turva tampava os olhos, mas a insistência foi vencedora. Suas visões tornavam-se claras a cada instante, até que conseguissem vê-lo.
Seu tamanho era tão grande quanto a imponência. De onde estavam, não podiam ter tanta certeza, mas a criatura tinha mais de dez metros de altura.
Pelos escuros cobriam todo o corpo, mas os músculos eram tão fortes quanto visíveis. Se formos comparar, Douglas se torna sedentário perante aquela força anormal.
A névoa gradualmente se desfazia, até que desaparecesse e tornasse a aparência daquele ser ainda tão observável quanto deduzível: um gorila.
Seu olhar era cortante e sem brilho algum. Ele não estava lá para testar, tampouco para brincar com os humanos; seu objetivo era destruição.
O suspiro veio logo depois; a arrogância e o desprezo pela raça desafiadora o fizeram curvar os lábios, e seu anúncio veio em seguida: um rugido.
Infelizmente, não era qualquer um. Seu grito transformava a queda do bastão de Wukong em uma piada sem graça. Se aquilo era uma bomba atômica, aqui temos a erupção de Krakatoa.
Os tímpanos só não explodiam porque eles estavam mais fortes da batalha anterior, do contrário, ouvir não seria mais algo cogitável.
Toda aquela caverna tremia, e ninguém mais duvidava da sua força, presença e tampouco identidade. Assim como sua violência, seu nome era dedutível:
『 REI DOS QUATRO CANTOS: KING KONG 』
Próximo capítulo: A Força de Um Rei.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.