Capítulo 90: A Volta do Abismo
Aos olhos do rei, o pequeno garoto dos olhos estranhos estava prestes a atacá-lo. Seu primeiro pensamento instintivo foi: “Que piada”, até que o próximo momento chegou.
Ônix cerrou os punhos com toda força disponível; se a pele não fosse tão resistente quanto a potência do ataque, teria sido rasgada. A primeira etapa, chamada ação número um, foi concluída. Em seguida, veio a próxima: intenção. Seu coração desejava acertá-lo.
Dessa forma, uma aura escura, banhada com suas intenções, abraçou seu corpo feito névoa, tão sutil quanto o sussurro da neblina, mas perceptível.
Foi nesse instante em que os instintos de Kong o avisaram: o garoto, outrora um inseto indefeso, tornou-se algo próximo a uma ameaça.
Assim, um momento antes do rapaz devolver o favor que lhe foi dado, a criatura começou a mover o outro braço em direção ao próprio rosto.
Em seguida, Ônix concluiu sua ação desejada. O vento era cortado sem objeção, e os berros do ar anunciavam que outra bomba estava a caminho.
E assim foi feito. O soco foi arremessado em direção à face adversária que, por um preparo anterior, havia protegido a região atacada.
Se não fosse por esse mísero momento de antecipação, o nariz teria sido alvo de um ataque ainda mais forte e ameaçador do que o garoto dos olhos vermelhos…
… Entretanto, isso não significa que o preço foi baixo. Uma explosão foi dada ao vento assim que os punhos de Ônix encontraram-se com o antebraço do rei.
Kong sentia os músculos da área atingida tremerem com a dor, até que o punho de Ônix começasse a empurrá-lo cada vez mais. O incômodo nos olhos do rei era palpável, não por dor, mas por orgulho. Como um ser tão pequeno pode ser autor de um ataque tão formidável?
Felizmente, indagações não alteram a realidade. Ainda que seu corpo fosse imenso, não estava isento da lógica daquele mundo.
O impacto foi poderoso o bastante para fazê-lo recuar à força. Seus pés agarravam-se no chão, mas tudo o que podiam fazer era deixar rastros.
Não demorou muito para que o atrito fizesse seu trabalho designado. Kong encontrou estabilidade pouco depois, mas isso não mudava nada.
Na perspectiva do imperador, uma formiga havia o feito recuar, e isso era imperdoável. Pela primeira vez, durante alguns segundos, permitiu-se refletir.
Enquanto isso, retornaremos ao ponto de vista do protagonista, que acabou de pousar nesse exato momento após o êxito do golpe.
A sensação nos punhos era estranha o bastante para fazê-lo observá-los enquanto os abria e fechava. O soco foi forte, mas era realmente tudo o que ele tinha a oferecer?
Infelizmente, não houve espaço para mais perguntas. Passos, tão rápidos quanto desesperados, caminhavam em sua direção enquanto o ritmo diminuía gradualmente.
Ao virar o olhar para o lado, lá estava Andressa, observando-o com olhares tão arregalados quanto lacrimejantes. A preocupação quase a fez esquecer de respirar.
Ônix fechou levemente os olhos ao perceber a angústia que sua amiga havia sentido ao cogitar sua morte; dessa forma, um sorriso genuíno ergueu-se nos lábios junto de um “Oi!”.
Andressa cerrou os punhos quase sem força e socou levemente o ombro de Ônix, desviando o olhar logo em seguida para limpar os resquícios das lágrimas.
— Idiota… Se você morrer, eu te mato.
Nosso garoto riu brevemente e desculpou-se logo depois. Agora, antes de darmos continuidade, viajaremos até a perspectiva de Saito no momento atual.
Ainda que tivesse visto seu irmão afastar aquela criatura, preocupação; sobretudo, culpa, ainda apertava-lhe o peito como nunca antes.
Se fosse forte o bastante, Ônix não teria sido forçado a defendê-lo, foi o que ele pensou. Pouco depois, ergueu a cabeça junto ao fechar dos olhos e respirou fundo.
Foi na queda da adrenalina que a dor levantou-se na sola do pé. Era como se tivesse pisado em lava, e isso o fez cerrar levemente os dentes.
Pouco após, abriu os olhos para observar o que tinha acontecido. O que o esperava era a consequência da ira ao manejar o fogo: autodestruição.
A sola de ambos os pés estava queimada, e a angústia não podia ser diferente. Agora, andar poderia ser muito mais doloroso se um dos seus benefícios não fosse a dominação elementar.
Após engolir os suspiros de dor, fez com que água surgisse na região danificada, uma que fosse sutil o bastante para que vê-la fosse difícil, mas volumosa o suficiente para curá-lo pouco a pouco.
Dessa forma, começou a caminhar em passos lentos ao grupo quase reunido. Estava na hora de todos voltarem do abismo. Isso basta, retornaremos para o ponto de vista de Ônix agora. Waraioni havia chegado nele não muito depois do soquinho de Andressa.
Imediatamente, abriu a palma o máximo que podia e deu-lhe um belo tapa no pescoço, um preciso o bastante para causar um pequeno estalo.
— Tá doido? Quer que eu te mate?
Foi o que ele disse, com a sobrancelha cerrada enquanto os lábios mal conseguiam esconder a tristeza que o coração sentiu há pouco tempo.
Ônix o olhou com seu rosto bobo de sempre enquanto coçava a nuca. Ao mesmo tempo, respondeu: “Não… Num quero”, desviando o olhar logo depois em uma leve vergonha.
Andressa riu discretamente enquanto mantinha uma das mãos nos olhos. Seu amigo Oni havia feito o que ela desejou fazer, mas não teve coragem o bastante.
Falando nele, apenas suspirou de forma abrupta logo depois do sermão dado, como se dissesse a si mesmo que, pelo menos, nada tinha dado errado.
Quase todos chegaram não muito tempo depois. A preocupação foi previsível, mas não precisou de muitas palavras para que o alívio os abraçasse.
Por fim, Saito reuniu-se ao grupo. Os passos ainda eram cuidadosos, mas o alívio da dor estava bom o bastante para fazê-lo não dar sinal algum.
Ônix o observou pouco depois, esperando pacientemente o que ele tinha para dizer, até que as seguintes palavras saíram dos lábios:
— Tá tudo certo, Ônix?
Poucas palavras, mas isso não importa, os sentimentos reprimidos eram inúmeros. O garoto não precisou dizer coisa alguma, apenas acenar com a cabeça enquanto os olhos universais falavam por si.
— Então tudo bem, só não faz isso de novo, por favor.
Nosso garoto concordou com um: “Tá bom”, e logo depois Saito ficou ao seu lado, mantendo os olhos fixos na adversidade logo à frente.
— Aquele ali vai ser pedrada.
Foi o que disse enquanto mantinha a cara de paisagem para que pudesse se concentrar em curar o quanto antes a ferida na sola do pé.
Waraioni concordou, e Morfius indagou se havia alguma forma de vencê-lo sem que ele tivesse muita oportunidade de contra-ataque.
Após pensar ligeiramente, Luna observou o jovem dos olhos universais e perguntou: “O que você diz, líder?”, vendo-o como a única resposta correta.
Tu podes te perguntar: “Oras, por que disso?”, e eu te respondo: quem foi a única pessoa que enfrentou o ataque de frente e sobreviveu para contar a história? Exatamente.
Todos do grupo o olhavam da mesma forma, e aguardavam com que ele dissesse alguma coisa, e não demorou muito para que isso fosse feito.
— A gente precisa ficar separado em oito pontos diferentes, longe o bastante para que ele consiga atacar só um de nós. A prioridade é não ser acertado, outra pessoa pode atacar quando a brecha surgir.
A concordância do grupo foi algo esperado, não houve objeção alguma; entretanto, Douglas percebeu um detalhe importante e disse em seguida:
— Só tem um problema nisso…
Ao observarem um pouco a criatura que ainda estava plantada no mesmo lugar, a conclusão que tiraram foi tão clara quanto a água:
— Ele é resistente e forte demais.
Ainda que não estivessem perto o bastante para analisar o ataque de Ônix, com o tempo que havia passado, não era mistério algum de que o dano que ele causou encontrava-se inexistente agora.
Sendo assim, Luna ergueu o braço e começou a cerrar seu punho com uma força gradual enquanto a energia vermelha circulava seus dedos.
— Então a gente só precisa dar a vida em todos os ataques. Nosso objetivo é vencer sem que nenhum de nós encontre a morte.
Arthur, pouco atrás de sua mãe, a observava. Seus olhos brilhavam sutilmente em admiração, e a mente indagava-se consigo mesma:
“Será que eu consigo fazer a mesma coisa?”
Não se engane, leitor, o trauma em Luna ainda arde. Nesse momento, seu coração pulsa como um tambor esticado só de lembrar da dor que sentiu ao “perder” seu único filho para aquela divindade…
… No entanto, existe algo mais assustador do que ter a possibilidade de, não só perdê-lo de verdade, mas sim todo o resto de seus companheiros?
Ao estar nesse cenário, a força que nasce muito além de uma simples quebra de limites é um requisito obrigatório se todos quiserem passar dessa missão vivos.
Pouco antes da batalha recomeçar, Luna, com os olhos cristalinos, olhou para Arthur, vendo-o como o bebê que ele era há não muitos anos atrás.
“Por favor, filho…”
Assim pensou. Embora essas palavras existissem só na sua mente, puderam ser sentidas por ele, que passou pela mesma situação que ela no desafio divino. Não muito após, voltou o olhar para a batalha atual, e começou a caminhar para um dos cantos que havia sido designado para ela.
Próximo capítulo: Acima do Céu.

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