Índice de Capítulo

    A carne sentia as sensações de estarem sendo cortadas. Uma intensa agonia abraçava cada canto da pele, e o abraço do arrepio era previsível.

    Os músculos enviavam os sinais de dores ao cérebro; sangue caía do braço feito uma chuva incessante, isso nunca havia acontecido antes e…

    … Para ele, aquilo estava bom demais, o bastante para fazê-lo esboçar um sorriso tão largo quanto tenebroso, poupando-o de se expressar com palavras.

    Não muito depois, enrijeceu o braço que estava sendo atacado, tornando-o mais resistente aos cortes. Nesse mesmo instante, as armas de Ônix e Saito travaram de uma hora para a outra.

    Em sequência, fechou e cerrou o punho fortemente, pronto para “retaliar” de forma leve, ainda que não fosse agressivo o bastante para chamar sua próxima ação de retaliação.

    Logo após, moveu o braço ao horizonte com a maior velocidade que tinha a oferecer, não para matá-los, e sim para afastá-los de onde estavam.

    Funcionou? É claro que sim. Ônix e Saito foram arremessados para a parede como se fossem duas moscas cedendo à pressão do vento.

    Não demorou muito para que colidissem as costas com o muro. Não houve danos, tampouco esboçaram dor com o impacto, eles tinham mais com o que se preocupar.

    Os olhos de Saito encontravam-se levemente embaçados, e os suspiros do cansaço logo começavam ao alcançar, o descontrole que teve no início dessa guerra estava cobrando seu preço.

    Embora estivesse usando seus poderes elementais moderadamente agora, isso não significava que não era prejudicial à fadiga mental, mas quem disse que ele deu ouvidos a isso?

    Os dentes cerraram levemente, como se isso fosse fazer a exaustão desaparecer, e os olhos logo se levantaram para continuar a batalha, no entanto…

    … De uma hora para a outra, o punho do rei estava ao seu aguardo. O breve instante que deu-se para tentar recuperar um pouco da energia resultou nisso.

    Não havia como escapar, estava atrasado demais para pensar em reagir de alguma forma; nem mesmo seu cérebro raciocinou a tempo o que estava acontecendo.

    Ali era para ter sido um xeque-mate. Se acertasse, teria morrido, mas isso só não aconteceu porque, no último instante, um portal apareceu em sua frente e começou a se mover por vontade própria.

    Antes que sequer percebesse o que estava acontecendo, Saito já não estava mais lá, mas o impacto daquele soco pôde ser claramente ouvido logo em seguida.

    O que aconteceu? Um poder secreto que ele tinha e não sabia? Claro, não estou perguntando isso a vocês, isso foi só um pensamento que ele teve, e vós, leitores, sabem que está errado.

    Para entendermos com clareza o que acabou de acontecer agora, precisamos voltar alguns pouquíssimos instantes atrás, e voltaremos.

    Andressa, ainda no solo, corria com tudo que tinha. Foi pouco depois desse momento que ambos os garotos foram arremessados para a parede.

    A primeira preocupação que seus olhos buscaram foi Ônix. Felizmente, ele estava aparentemente bem, mas seu olhar universal olhava desesperadamente para outra coisa: Saito.

    Ele sabia que seu irmão seria o alvo do próximo ataque, não por prever o futuro, mas sim porque viu para onde o braço de Kong estava se movendo.

    Um turbilhão de pensamentos o consumiu em um único instante, e sua próxima ação certamente seria trocar de lugar com seu irmão em perigo.

    Sabe por que isso não aconteceu? O coração, um mísero momento antes dele fazer a troca, teve uma única batida, mas foi forte demais, como se quisesse chamar sua atenção.

    Os olhos rapidamente moveram-se para aquilo que estava o chamando sem usar a própria voz, tentando dizer com os pensamentos que tudo daria certo: Andressa.

    Seu olhar universal encontrou-se com o dela. Nesse momento, um alívio, que ele não sabia de onde veio, o fez baixar a guarda por um instante.

    Ainda que não soubesse o porquê, seus instintos o disseram que estava tudo bem. Pelo menos dessa vez, era hora dele confiar uma vida a outra pessoa.

    Andressa criou o portal logo depois, mas o máximo que ela conseguia era deixá-lo parado. Isso era o bastante? Não, se deixasse isso lá, Saito teria morrido.

    Sabendo disso, começou a concentrar poder por todo seu corpo, o bastante para fazer uma gota de sangue escapar por ambas as narinas.

    Não importava as consequências, ela teria que fazer aquele portal se mover dali por vontade própria, e felizmente conseguiu não muito depois.

    Logo após salvá-lo, sentiu o próprio coração ferver por um momento, e o suspiro da fadiga escapou em abundância, deixando-a se apoiar nos joelhos.

    A exaustão era visível, mas a batalha tinha só começado, e ela sabia disso. Sendo assim, ergueu o pescoço e limpou o pouco suor que escorria na testa, dizendo:

    — Eu prometo… Prometo que vou usar tudo e mais um pouco do que eu tenho, pode confiar em mim.

    Uma mensagem vazia? Não, longe disso. Foi só por um momento, mas ela definitivamente sentiu a confiança que o universo depositou nela.

    Não muito depois, Waraioni passou correndo ao seu lado, deixando apenas o vento para trás enquanto permanecia avançando com foco no objetivo.

    Luna apenas o observou de canto, sem dizer uma única palavra, apenas entregou-se aos suspiros nos poucos momentos de descanso que tinha.

    Pouco após, Luna surgiu ao seu lado. Algumas faíscas douradas escapavam do corpo como brasas do brilho que um dia elas já tiveram.

    Um tapinha foi desferido na nuca de Andressa, inofensivo o suficiente para não causar danos, mas presente o bastante para chamar sua atenção.

    — Bora, And, a gente tá só começando!

    Um inesperado sorriso morava em seu rosto. De uma hora para a outra, ela perdeu todo o medo que tinha? Não, de forma alguma, aquilo era só uma tentativa desesperada de tentar esquecer do perigo.

    — Ele ficou muito maior, mas não importa!

    Após sua fala, cerrou o punho direito e o ergueu levemente, transbordando uma sutil energia vermelha que balançava de um lado ao outro como fogo de fogueira.

    — A gente só precisa mostrar a força que só as mulheres têm.

    Um breve riso ergueu-se em Andressa, e um pouco de sua energia foi recuperada com esse discurso. Logo após, elas bateram as mãos e começaram a caminhar em direção à provação. Pouco depois, Andressa disse:

    — Bora lá mostrar pra esse gorila quem que manda nessa porra.

    Luna, sorrindo, não hesitou em dizer: “Bora!” enquanto caminhava lado a lado com sua companheira, uma em que podia confiar tanto a vanguarda quanto a retaguarda.

    Ao mesmo tempo em que elas apenas caminhavam para preservar o máximo de energia, Morfius, literalmente voando, disparou ao lado delas e continuou avançando.

    Douglas e Arthur também avançavam, a única diferença é que eles não estavam voando. Para eles, que não fizeram muita coisa até então, o que eles desejavam agora era contribuir nesse desafio, não importando o tanto.

    Luna observava aqueles dois com uma preocupação visível no olhar; entretanto, por algum motivo, não sentia nenhuma angústia atingir seu peito.

    Confiança? Ou simplesmente um bom pressentimento? Nada, nem um e nem outro; ela, por algum motivo, apenas tinha certeza de que tudo daria certo.

    Agora que todas as informações necessárias foram ditas, retornaremos ao ponto de vista de Saito, que, nesse momento, ainda estava no ar.

    Requereu alguns instantes para que ele entendesse o que tinha acontecido, e pouco depois permitiu-se pousar levemente no chão, tendo cuidado com os pés.

    Assim que alcançou o solo, ajoelhou-se com uma das pernas para descansar, mas isso não o impediu de observar o fluxo da batalha.

    A primeira coisa que observou foi o rei, que, por enquanto, estava observando a parede que acertou para ter certeza de que o tinha matado.

    Logo em seguida, olhou para trás, visando saber se tinha outra pessoa avançando em direção à batalha, e tinha mais de um. Dentre aqueles que corriam, quem estava mais perto era Waraioni.

    Não houve conversa, tampouco uma única troca de palavras. Tudo o que fizeram foi uma mísera troca de olhares, e foi o suficiente para entenderem um ao outro.

    Imediatamente após, Saito criou uma pequena plataforma para que seu irmão pulasse em cima, e foi exatamente isso o que ele fez.

    Em seguida, lançou-o em direção ao Kong com uma breve e precisa rajada de vento sob seus pés, ajudando-o a voar o mais rápido que poderia.

    Não demorou muito para que alcançasse seu trapézio, mas ele sabia que, no seu estado atual, um soco, mesmo que fosse com toda sua força, não seria nada efetivo.

    Sendo assim, era chegado a hora para ele dar tudo de si dessa vez. Como antes, uma pequena chuva de sangue começou a cair de seus olhos.

    Uma foice, tão ciana quanto transparente, estava surgindo da sua palma. A consequência ele já sabia: visão embaçada até demais por um certo tempo, mas não importa.

    Dessa forma, projetou sua arma para trás e preparou-se para atacá-lo. As mãos tremiam, e os músculos rangiam, dando tudo de si nesse golpe.

    O corte aconteceu, e foi um dos ataques mais profundos que Kong recebeu nessa guerra contra os humanos que, agora, não se pareciam mais como besouros.

    Dessa vez foi um pouco diferente. A diversão ainda existia em seu êxtase, mas a semente foi plantada: seu instinto o avisou de que ele poderia morrer hoje.

    Próximo capítulo: O Céu Não É o Limite.

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