Capítulo 94: O Céu Não É o Limite
Sangue escapava como se estivesse fugindo de uma prisão, entretanto, isso não era o mais preocupante de tudo, mas sim por onde eles saíam: os olhos.
Criar aquela foice ainda exigia muito de seu poder de criação temporal, o suficiente para obrigá-lo a sacrificar segundos do futuro que ele não suportava.
No entanto, perante a morte, o céu, para ele, não poderia ser o limite, e não era. Mesmo diante de uma muralha tão clara, preferiu continuar avançando.
Dessa forma, segurou firme o cabo da foice e, ainda no ar, virou o corpo para trás, observando com esforço as costas de Kong que estavam expostas.
Essa chance não poderia ser desperdiçada, e não foi. Nesse momento, reforçou sua arma, deixando-a maior e mais afiada, sacrificando o que ele já não tinha.
Em seguida, lançou-a nas costas do rei e a afundou lá, dando o primeiro passo para o corte mais profundo que aquele imperador teria nessa luta, mas isso ainda não bastava.
Dessa vez, ofereceria força física para arrastar a foice para baixo; no entanto, não estava sendo o suficiente. Ela mal conseguia avançar como queria.
As mãos tremiam e os ossos estavam no limite, mas do que aquilo era “impossível” para o corpo, mas ele não estava em uma situação em que a dificuldade poderia ser medida.
Sendo assim, forçou mais ainda. Sua própria carne gritava, implorando-lhe para que parasse, mas isso só resultou em mais do seu esforço.
O braço não conseguiria suportar mais. Uma dor, tão aguda quanto insuportável, foi dada como aviso junto do sussurro: eu vou me quebrar no processo, mas tu vais conseguir o que desejas.
E assim foi feito. Com uma força que nem sabia que tinha, estava conseguindo cortar as costas daquele monstro de cima para baixo…
… No entanto, a consequência dessa ação foi avisada previamente. O osso esforçou-se tanto que, no meio do corte, partiu-se ao meio, mas isso não importava mais.
Entretanto, não podemos esquecer que o rei pode sentir dor desde que ela seja considerável, e essa foi mais do que o suficiente para fazê-lo gritar.
Aquilo não foi divertido, foi doloroso, e isso não o agradou. Sendo assim, moveu os punhos para cima e os afundou no chão em uma tentativa de afastar o que lhe fazia sofrer.
Funcionou. Com o braço quebrado, a colisão foi só o gatilho final para fazer a mão afrouxar-se por um momento, tempo o bastante para fazê-lo soltar a foice.
Ali ele não tinha mais nada. Sua força momentânea se esvaía junto com a queda do corpo, indo em direção ao solo de costas para o chão.
Suas vistas tinham um borrão forte o suficiente para fazer as pupilas transitarem da cor ciana para cinza, como se ele estivesse cego, embora isso não fosse verdade.
Tudo ao seu redor estava estranhamente lento: as gotas de sangue, a velocidade da sua queda, os poucos suspiros que o pulmão conseguia oferecer-lhe…
“Ah…”
… Isso era a morte, ou melhor, a sensação dela. Waraioni nesse momento estava prestes a morrer, não pelo esforço em excesso, mas sim pelo contra-ataque.
Imediatamente após bater no chão com os punhos, Kong virou-se para detectar o oponente que lhe trouxe tanta dor, e não demorou para que encontrasse.
Dessa forma, moveu um dos punhos para o céu e logo depois disparou-o contra o garoto. Foi dali que esse presságio veio; afinal, se tivesse acertado, a morte não seria surpresa alguma.
Bem, vocês já me conhecem. Têm sim uma explicação para isso, e o que devemos fazer para que eu possa dá-la? Exatamente, voltar alguns instantes no tempo.
Os punhos do rei acabaram de colidir com o solo. Uma vasta poeira ergueu-se contra todos, impedindo-os de entenderem naquele instante o que estava acontecendo.
Claro, apenas dois eram exceções dessa falta de entendimento: Saito e Ônix. Ainda que não vissem com detalhes, o coração lhes deu o aviso através da dor.
Era mais agoniante do que perder um braço, um incômodo tão profundo que os fazia apertar o peito. Só tinha uma resposta para essa sensação: um dos irmãos estava prestes a morrer.
Saito tentou agir no mesmo instante, prestes a incendiar os pés de novo enquanto se envolvia com os raios; entretanto, sua invocação elementar falhou.
Ele conseguiria avançar como antes? Com certeza, faria de tudo para que isso acontecesse, mesmo se perdesse os pés no processo, mas seu corpo não estava de acordo.
Era como se tivesse consciência própria. De alguma forma, os próprios poderes sabiam que aquilo era passar demais do ponto, e eles não desejavam machucar o próprio mestre.
A frustração veio como uma chuva de gasolina ao fogo. Tentou inúmeras vezes enquanto martelava “não” na própria mente, mas de nada adiantou.
Se dependesse dele, Waraioni teria encontrado seu fim. Felizmente, Ônix compartilhava da sua dor, e ele sim podia fazer algo melhor a respeito.
Seu desespero foi grande o suficiente para fazer todo seu inconsciente tremer. Nesse instante, as sombras sabiam e pensavam que, quaisquer que fossem seus desejos, iriam realizá-los sem hesitar.
Dessa forma, naquele momento, Ônix criou outra foice e a lançou contra o chão. Pouquíssima escuridão espalhou-se naquele mesmo período, não para se exibir, mas sim para servir de cama.
Em seguida, ele ordenou que a foice trocasse de lugar com Waraioni, e a ordem foi realizada no mesmo instante, salvando-o da morte iminente.
Lá estava ele: acabado. Os olhos semiabertos nada enxergavam, e a única coisa que saía de seus frágeis lábios eram os suspiros que pareciam sussurros.
Não havia o que pensar, estava definitivamente fora de combate. Nem sequer um dedo se moveria dali. Mesmo se ele ficasse vivo, demoraria meses para retornar ao cem por cento.
Saber disso causava-lhe um aperto no coração de Ônix que, além de pôr a mão no peito de seu irmão, nada poderia fazer a respeito.
Nem mesmo as sombras podem fazer algo perante tamanho sofrimento físico; no entanto, sempre existe dualidade. A luz governa onde a escuridão não alcança.
Alguns passos, tão leves quanto abafados, aproximavam-se dos dois. Naquele instante, Ônix não estava estável o suficiente para erguer o pescoço.
— Tá tudo bem com ele?
Disse a voz, pouco depois de alcançá-los. Nosso garoto dos olhos universais não precisava vê-lo para adivinhar; assim que o ouviu, soube que era Saito.
— Não sei…
Saito agachou-se, observando fixamente Waraioni com olhares distantes, como se estivesse se perdendo nos próprios desvaneios de seu interior.
— Tá tudo bem, eu vou dar um jeito, só vai demorar um pouco.
Pouco após sua fala, sentou-se com os pés cruzados e respirou profundamente, tentando alcançar a calma que seus poderes requisitavam.
Logo depois, deixou ambas as mãos levemente levantadas sobre o corpo de Waraioni, e não demorou para que uma sutil luz o cobrisse.
Explicações fizeram-se desnecessárias, Ônix já sabia o que estava acontecendo só de ver o sangue retornando ao hospedeiro de forma muito sutil: cura.
Os olhos de Saito estavam fechados, mas gotas de sangue escapavam pelo nariz. Naquele momento, nada poderia o atrapalhar, e Ônix sabia disso.
Sendo assim, levantou-se junto a um profundo suspiro enquanto movia os olhos para o céu por um momento, só para baixar a cabeça logo depois.
Então, retirou-se de lá em passos tão sutis quanto imperceptíveis, não por abandono, mas por confiar à luz o que as trevas não deram conta.
Claro, o mundo não parou só porque esses dois quase perderam alguém importante. A batalha continua tão feroz quanto nunca, e é isso que narrarei agora.
Não muito depois de Waraioni ser salvo, o rei deu-se breves momentos para respirar. Sua inexperiência trouxe consequências acima dos danos: essa guerra estendeu-se por tempo demais.
O sangue não pararia de cair só porque ele era um imperador, e a fadiga não iria se amedrontar pelo seu tamanho, ela cobraria cada centavo do preço.
Ainda assim, guerra é guerra, e seus instintos sabiam disso o bastante para avisá-lo: olhe para trás e vire-se, os perigos ainda não terminaram.
Foi o que fez de imediato. Por um momento, nada encontrou; entretanto, isso não durou por muito tempo, sua próxima ameaça ia em sua direção voando.
Era um que não havia se destacado tanto até então: Morfius, mas isso não significava que ele era fraco, mas sim que só não teve a oportunidade. Pelo menos, até agora.
Kong não desejava permitir que mais danos o encontrassem pelo seu descuido. Dessa forma, antes de dar qualquer brecha, desejou atacar primeiro.
Sendo assim, projetou o punho para trás e o lançou em direção ao adversário. Curiosamente, seu forte desejo de ser cuidadoso saiu pela culatra.
Morfius, sem pensar duas vezes, moveu-se para baixo e continuou avançando em direção à costela do rei, dando pouca importância àquele ataque descuidado.
Não demorou muito para que alcançasse o que desejava, mas o que alguém feito ele conseguiria fazer naquele estado? Se fosse nas condições atuais, sabia que mal causaria algum dano.
No entanto, quem disse que o presente era seu auge? Quando estava prestes a morrer na floresta, usou um poder que não sabia como usar, mas agora era tudo ou nada.
“LEMBRE-SE…”
Era o que dizia a si mesmo enquanto cerrava os punhos, distribuindo energia em todo seu corpo em uma tentativa de reviver o passado.
“… DE CADA SENSAÇÃO!”
De pouco a pouco, brasas em tom dourado circulavam seu corpo feito um redemoinho, gritando à própria alma para que se recordasse de sua própria conquista atingida no passado.
Próximo capítulo: O Sacrifício do Universo.

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