Índice de Capítulo

    As brasas douradas não estavam mais satisfeitas em ser apenas um redemoinho, e logo decidiram abraçar o corpo do portador.

    Cada uma delas tinha um único propósito: fazer o corpo lembrar do calor que sentiu; não um agressivo que desejava o queimar, mas fortalecer.

    Algumas passeavam sobre os olhos, sussurrando para que lembrasse do que viveu, da luz ciana que abraçou as pupilas em sinal de poder.

    Os cabelos encontravam-se com o arrepio, fazendo-os levitar por poucos instantes enquanto o punho ainda insistia em cerrar.

    O que era apenas brasas tornou-se a luz do fogo que envolve seu corpo inteiro, e aquele brilho dourado tingiu o cabelo.

    As pupilas recordavam-se do que um dia já foram: um farol azul brilhante o bastante para iluminar a luz de uma lanterna, ou até mesmo transformar a noite em dia.

    Um oceano de energia transbordava por seu corpo. Naquele instante, toda a energia que tinha foi liberada sem deixar um mísero por cento para trás.

    Não tendo tempo para pensar no que e como usar, Morfius apenas a concentrou em um único ponto: o punho que persistiu sem pensar em abandoná-lo.

    Ele brilhava feito uma estrela, e cada dedo saboreava o agradável sabor da força, até que a mão inteira estivesse completa para o ataque mais esforçado de sua vida.

    Logo depois, o punho avançou contra a costela de Kong e não demorou para que a encontrasse. Por um instante, nada havia mudado.

    Não houve danos, impacto, força, tampouco barulho. Até mesmo o vento pausou em confusão, como se tudo aquilo tivesse sido em vão.

    A luz dourada que morava no punho desapareceu de uma hora para a outra. Tudo aquilo foi ilusão da força momentânea? Não, longe disso.

    Alguns instantes foram necessários para que a verdade viesse à tona: seu brilho, que o mundo pensou que havia o abandonado, estava aparecendo atrás das costelas de Kong pouco a pouco.

    Sua lentidão foi por apenas um instante; pois, imediatamente após, uma explosão luminosa surgiu junto ao impacto que fez o vento arrepender-se da sua hipótese.

    O barulho ensurdecedor veio logo depois, como se uma bazuca tivesse acabado de explodir bem ao lado do ouvido, mas não era tão leve assim.

    Um rombo atravessou o corpo do rei, um forte o bastante para dizer adeus à costela que ele um dia teve, e o seu rugido foi inevitável.

    Dessa forma, houve apenas os pensamentos do instinto que o aconselharam a levantar ambos os punhos logo em seguida, e assim foi feito.

    Agora sim a força de Morfius tinha acabado junto com a sua transformação momentânea, e isso incluía o tom dourado que já não existia mais.

    Esse era o custo de usar tudo de uma vez só: fadiga proporcional à força usada. Sem deixar um resquício de energia guardada, não tinha nem como tentar ficar consciente.

    Tudo o que ele podia sentir era o vazio abraçar o peito e a escuridão dizer boa noite aos olhos. Sem que percebesse, o corpo já estava em queda.

    Os braços levitavam, se deixando levar pelo vento. Tanto as costas quanto o corpo aceitavam o destino com tamanha rendição que os pensamentos nem sequer puderam existir.

    Os punhos do rei caminhavam para encontrar sua vida. Para Morfius, tudo acontecia de maneira tão lenta quanto observar o progresso de um caracol.

    Felizmente, não tão distante dali, tudo estava sendo observado pelos olhos universais, o único garoto capaz de salvar sua vida.

    Uma foice surgiu em sua mão de um instante para o outro, e imediatamente após foi lançada numa parede muito distante do perigo que Kong oferecia.

    Como imaginado, a troca aconteceu não muito depois. Inconsciente e fraco, Morfius foi o segundo dos oito a encontrar o nocaute.

    Retornaremos brevemente para Saito agora, que ainda se encontra sentado, curando seu irmão enquanto lutava contra as consequências de seu poder.

    O sangue do irmão já havia retornado para o corpo, o que sobrou foram os hematomas, mas isso não oferecia risco algum para sua vida.

    Sendo assim, desfez a cura de luz, e logo depois um pequeno rio de sangue escapou dos lábios. Esse não era um poder que ele estava apto a usar.

    Infelizmente não era hora de se preocupar com as próprias dores. Os primeiros socorros foram feitos, e isso era o suficiente por agora.

    E então, levantou-se limpando os rastros de sangue que grudaram em seu rosto e caminhou em direção a Ônix não muito tempo depois.

    Lá estavam eles, novamente lado a lado, observando o rei atacar o solo mais uma vez; no entanto, agora os esforços não foram em vão.

    Sangue escapava tanto pelas costas quanto pela costela. Se não se curasse de alguma forma, não demoraria muito para morrer de hemorragia.

    O rei sabia disso, eis esse o motivo dos suspiros cansados. Ali não tinha mais jeito, e o objetivo foi forçado a mudar: pelo menos um deles tem que morrer.

    Não muito depois, Ônix olhou para a própria mão com os olhares apertados. Ainda que fosse voluntário, ele estava usando os poderes das sombras para lutar, e isso o entristecia levemente.

    Por que, você me pergunta? Bem, não tem como saber o que se passa na mente de alguém que foi banhado em bondade, nem mesmo eu sei.

    Foi então que ele cerrou os punhos e decidiu que, pelo menos nessa luta, não as usaria mais mesmo se elas mesmas pedirem para ajudar.

    Trocar palavras não foi nem um pouco necessário, ambos se preparavam para pensar enquanto pensavam que agora seria o contra-ataque final.

    E assim foi feito. Ainda que demorasse até mesmo um minuto para alcançar Kong, dariam o melhor de si para chegar e finalizá-lo de alguma forma.

    Agora está na hora de pai e filho brilhar. Depois de tanto correr, finalmente estavam alcançando o rei que estava se rendendo aos suspiros.

    No entanto, a adrenalina também faz parte de seu ser. Daquele instante adiante, usaria todo poder disponível em cada golpe, sem desperdiçar sequer um deles.

    Dessa forma, um soco de baixo para cima foi desferido em direção a eles; no entanto, Arthur e Douglas estavam mais sincronizados do que nunca.

    O filho deu um pulo forte o bastante para ficar um pouco acima do pai, e Douglas juntou as mãos e as fechou para que ele pousasse lá.

    Não muito depois, Arthur pousou nos punhos do pai só para logo depois saltar para cima com a ajuda de Douglas, que o impulsionou.

    Só que, infelizmente, o tempo não para, e o ataque desesperado do rei não estava tão longe assim para acertá-lo, e, sem brincadeira agora, realmente vai acertar.

    Douglas sabia disso, por isso protegeu-se com os antebraços, mas quem disse que isso seria o bastante, se nem mesmo Ônix no início aguentou um soco desses?

    Foi então que começou a distribuir muita força nas pernas, não para desviar do ataque, mas para minimizar os danos da forma que pensou.

    O soco estava a um único momento de acertá-lo, e foi aí que saltou para trás com tudo o que tinha, evitando o ataque direto, mas sendo acertado de raspão…

    … E só isso foi o suficiente. Todos os ossos encontraram a tremedeira, e os músculos gritavam com ele sobre o que diabos ele estava fazendo.

    Mas, tudo bem, ele conseguiu o que queria: tomar dano daquele monstro sem morrer, tudo isso para ativar ao máximo seu poder recém-descoberto.

    Andressa também avançava junto de Luna não muito distante dali, mas cessou a corrida por um instante para concentrar-se na sua última contribuição.

    Diante do seu limite atual, quatro portais foram criados de uma vez só, um na frente de Luna e outro na frente de Douglas para os transportarem no peito do rei.

    — VÃO!

    gritou com tudo o que tinha, até que eles atravessassem o portal para ficarem diante do último ataque em conjunto que poderiam fazer.

    Logo depois, Andressa encontrou-se de joelhos. A cabeça baixou, e a garganta só soube suspirar a fadiga enquanto expulsava o sangue do esforço.

    Lá estavam eles: Arthur, Douglas e Luna, rente ao peito do rei, com os punhos prontos para atacar, mas uma intensa agonia abraçou o coração de cada um deles.

    Ônix estava quase os alcançando em uma diferença de poucos metros. Seus olhares universais buscavam os olhos do rei, que não olhavam para ele.

    “Tem algo errado.”

    Não muito depois, Kong juntou toda força disponível em um punho só, e logo depois, aparentemente o lançou em Ônix, que se preparou para esquivar.

    Logo ele percebeu que esse preparo era desnecessário, porque aquele golpe não buscava ele, prova disso foi que o punho passou reto ao seu lado.

    Seu peito quase explodiu em agonia, da exata mesma forma quando Waraioni estava prestes a morrer. Sem pensar duas vezes, olhou para trás.

    Lá estava Saito: caindo enquanto as faíscas do fogo escapavam por seus pés enquanto um oceano de sangue corria por seus lábios.

    Tudo isso foi consequência de todas as suas ações, desde o esforço excessivo na floresta até o descontrole dos poderes que teve recentemente.

    Não houve o que pensar, apenas aceitar. Assim, fechou os olhos, desistindo do presente para que seu irmão não sofresse num futuro próximo.

    O tempo, sem perceber, prendeu a respiração. Os guerreiros conscientes não sabiam da razão, mas, ainda assim, cada um eles olhava para trás.

    Foi então que a troca aconteceu. O mundo, por um instante, perdeu a cor. Não muito depois, o sacrifício criado pelo amor foi concluído.

    BOOM

    Disse o impacto ao mundo. O som dos ossos sendo quebrados gritou suas dores ao horizonte, e o sangue escapava por todo o corpo para dar olá ao mundo.

    O corpo era lançado ao chão como um meteorito, mas não havia nada o que ele pudesse fazer, nem estava consciente para tentar algo.

    As costas colidiam com o solo, só para lançá-lo ainda mais para trás em um loop infinito, até que a parede o impedisse de continuar sofrendo.

    E lá ele ficou: sentado; a cabeça baixa deixava o sangue escorrer pelas narinas, os dedos nem cogitavam em tentar se mexer dali.

    Próximo capítulo: O Peso da Demora.

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