Capítulo 96: O Peso da Demora
O vento ainda dançava na mente. Escuridão tampava os olhos, e a luz, pouco a pouco, tentava retomar o império que havia sido tomado pelas sombras.
“Eu… Desmaiei?”
Aos poucos, em um ritmo lento, Saito abria os olhos. As sensações vinham de acordo, e o ar batendo forte em todo o corpo fazia parte delas.
“Por quanto tempo…?”
Tudo ainda estava tão embaçado quanto confuso, mas uma coisa a alma tinha certeza: por sua culpa, quase perdeu algo muito importante.
O coração começou a tremer, e arrepios nasceram como água em tsunami. Os olhos arregalavam enquanto seus lábios ficavam entreabertos.
Não sabia o porquê, mas o pescoço procurava o “Onde” enquanto seu olhar perguntava “Cadê”, até que ele olhasse na direção certa.
Era como se aquele universo conspirasse para que tudo ao seu redor estivesse embaçado e escuro, menos aquela pessoa sentada de cabeça baixa.
As características eram inconfundíveis, com certeza era seu irmão Ônix, mas por que ele estava tão longe dali se agora há pouco ele estava prestes a atacar Kong?
Sua visão ficou mais clara, e aos poucos as peças foram se encaixando quando ele começou a enxergar o sangue presente em todo o corpo do garoto.
Ele não estava ali por acaso, melhor dizendo: não era ele quem deveria estar ali, derrotado e quase morto; mas, sim, o observador Saito.
A verdade pouco a pouco causava a dor da amargura e arrependimento, e esse é um sofrimento que transcende qualquer angústia física que existe.
As lágrimas caíam sem que ele sequer notasse. Pela primeira vez, seu semblante era o de uma criança assustada sentindo a dor da perda.
“Foi culpa minha…”
O próximo sofrimento foi a autodepreciação, crescendo tão rápido quanto as lágrimas; no entanto, sabe o que mais estava em constante evolução? Raiva, não qualquer uma, mas a de si mesmo.
Naquele momento, tanto ele quanto a alma e o corpo não se importavam mais com o que aconteceria consigo, só desejavam que tudo acabasse naquele instante.
Os punhos se fecharam, as pupilas desapareceram e os dentes colidiam uns com os outros enquanto desejavam constantemente a própria morte.
As lágrimas logo se converteram em fogo. O punho cerrou com força o bastante para cravar os dedos na própria palma, e o sangue tornou-se um detalhe.
Chamas, tão quentes quanto furiosas, surgiram na mão logo depois, e assim surgiu o berro mais profundo que ele poderia dar em vida.
Isso não era uma invocação de poder, mas sim um pedido de ajuda daquele que sente o peso da demora em se tornar forte o bastante para proteger quem ama.
Naquele momento, Saito não estava sozinho nessa dor: Luna, Douglas e Arthur também viram o que ele enxergou, e sentiram uma dor semelhante.
Sem trocar palavras, todos eles concordaram: mesmo se isso causar a minha morte, preciso dar um jeito de acabar com isso aqui e agora.
Arthur fez o que ele nem sabia que era capaz: forçar todo o corpo, incluindo os ossos, a dar cem por cento de si nesse último soco.
Luna concentrou todos os seus poderes em um ponto só, desde força, velocidade e resistência, não importando se sua energia vital fosse usada no processo.
Douglas trancou a respiração e sentiu cada instante do calor que transbordava em seu corpo, e ali decidiu que abandonaria a defesa para investir tudo no ataque.
Cada um deles gritou a frustração da fraqueza, direcionando a última esperança da vitória naquele monstro que parecia impossível de ser derrotado.
Foi então que todos esses ataques acertaram no exato mesmo instante. Não houve impacto, força, destruição ou vitória, apenas o mais profundo silêncio.
Um pequeno sussurro do vento caminhou no rei, desde o peito até as costas, entregando-lhe o último arrepio que sentiria antes de morrer.
Assim, o dano desses quatro golpes se juntou em um só e ajudou-se na somatória, entregando a violência necessária para matar um rei.
O impacto veio tão forte quanto deveria, fazendo todo aquele lugar estremecer com o barulho da explosão, e o que um dia foi o peitoral de Kong tornou-se apenas uma cratera banhada em sangue.
O corpo do rei foi jogado para trás enquanto os olhos não tinham mais a chance de ver o brilho do mundo de novo, a morte não dá bônus só porque alguém tem poder.
Dessa forma, os quatro finalizadores dessa luta caíram em direção ao chão sem forças para continuar. Deles, apenas Saito entregou-se à inconsciência.
Agora que esses guerreiros estão no chão, não tem motivo algum para criar uma narração a eles; no entanto, ainda havia uma que estava apta a caminhar: Andressa.
A dor no peito ainda era forte o bastante para fazê-la pensar que havia lava dentro de si enquanto o sangue insistia em cair dos lábios.
Respirar estava sendo complicado até demais, pois também havia sangue nas narinas. Tudo o que pôde fazer foi entregar-se às dores enquanto tentava permanecer forte.
Felizmente foi temporário, como uma consequência de ter abusado dos poderes que tem, e logo os danos começaram a não doer tanto assim.
A calmaria havia chegado ao corpo, mas o coração era exceção. Por algum motivo, estava inquieta, como se estivesse prestes a perder algo muito importante.
A confusão sobre seu estado de inquietude a fez questionar-se o que ela estava perdendo, até que seus olhos alcançaram o estado atual de Ônix.
Sem perceber, as pernas se levantavam, e o calor da ansiedade andava de mãos dadas com o arrepio, eis esse o medo da morte de uma vida que nem era sua.
Não houve pensamento algum que a auxiliasse a caminhar, apenas ação ao mesmo tempo em que um oceano de devaneios a consumia.
Quando foi reparar, já estava diante do garoto dos olhos universais, e observá-lo de perto era ainda mais doloroso do que imaginou que seria.
Era possível observar breves névoas de sombras circulando seu corpo inteiro, mas sabe o que mais era doloroso e incômodo? As vozes que saíam de lá.
Algumas não conseguiam esconder os gemidos que o choro causava, e isso sussurrava aos seus ouvidos: até mesmo a escuridão cogitou a morte do universo.
— Ô…Nix…
Era o que sussurrava uma voz que se esforçava para não derrubar-se nas próprias lágrimas, chamando-o pelo nome por puro respeito, pois sabia que chamá-lo de mestre não era de seu agrado.
Andressa nem estava mais ciente do que estava fazendo; quando percebeu, os joelhos já abraçavam o chão enquanto as lágrimas a cegavam.
Ainda que tivesse feito sua parte em salvar aqueles que pôde, não teve forças o suficiente para usar os próprios poderes só mais uma vez, e isso doía demais.
Implorando na própria mente para que ele ficasse vivo, encostou a sua testa na dele enquanto o abraçava, sem se importar com o sangue que se espalhava nas mãos.
E ali ela também entregou-se às lágrimas e dores que as sombras sentiam. Até mesmo aquelas que o odiavam no começo dessa história choravam em dor.
Vamos retornar a Luna, a primeira que conseguiu ficar de pé após esgotar sua energia. Sendo assim, também foi aquela que recebeu a mensagem do sistema de jogo.
Sistema de Jogo
Parabéns! O grupo “Eclipse” conseguiu concluir a missão que foi-lhes dada. Aguarde apenas um momento para que o cálculo sobre a porcentagem de sucesso total seja entregue.
Luna ainda estava confusa o bastante para nem conseguir enxergar o que estava escrito à sua frente, apenas baixou a cabeça em um breve descanso.
Sistema de Jogo
Uma divindade anônima está argumentando sobre os feitos do grupo como um todo. Ele aponta que os oito integrantes fizeram mais do que deveriam, como enfrentar seres mais fortes do que eles poderiam aguentar, e ainda assim ganhar. Também disse que a maior prova da capacidade desse grupo é o fato de que dois deles sobreviveram a uma divindade.
Conseguiu ler essa mensagem assim que descansou brevemente, e não demorou muito para ela imaginar quem seria essa tal divindade anônima.
O sistema não demorou muito para entregar a próxima mensagem. Para resumir, ele apenas disse que os argumentos foram válidos e que a porcentagem de eficácia atingida pelo grupo foi de cem por cento.
Alguns ainda estavam inconscientes, e isso fez com que as recompensas fossem levemente atrasadas para algumas horas depois desse evento.
Esse sistema de jogo dissipou-se pouco depois em que a mensagem necessária foi dada, deixando os jogadores cuidarem de si mesmos enquanto aguardavam a chegada do portal.
Douglas acordou não muito depois, mas tudo o que fez foi virar-se de costas para o chão enquanto tampava os olhos com o antebraço.
— Ai… Que canseira danada…
Luna sorriu brevemente, esquecendo de todos os problemas pelo menos por esse instante. Para a sua felicidade, todos estavam vivos, embora não estivessem totalmente bem.
Seus olhos observavam Saito, que não estava tão distante dela, mas ainda estava desacordado, e ela sabia que demoraria bastante para o seu despertar.
Verificou como seu filho estava logo depois. Felizmente, ele estava bem, e era o único dali que não tinha ferimentos fatais, apenas cansaço.
No entanto, passos puderam ser ouvidos não muito depois. Eram tão leves quanto lentos, como se a pessoa não estivesse a fim de caminhar.
Não foi de demora alguma para que verificasse quem era. Para a surpresa de ninguém, Andressa era dona daqueles passos, mas algo estava diferente.
Seus olhos estavam avermelhados e levemente murchos, e o semblante era quase inexistente. O garoto dos olhos universais estava nos seus braços, desacordado.
Próximo capítulo: Vamos Voltar para Casa.

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