Capítulo 97: Vamos Voltar para Casa
A angústia no coração começou tão pequena quanto uma semente, mas não demorou nem um pouco para que se tornasse a maior árvore da floresta.
O doce sabor da derrota a fez, por um momento, esquecer-se do sabor amargo que sentiu quando o sacrifício do universo foi necessário para que ninguém morresse.
— Andressa…
Sua voz em sussurros, não por falta de força, mas sim por vergonha e arrependimento por ter esquecido um detalhe tão importante quanto esse.
Nenhuma resposta veio da garota, a não ser o olhar que brilhava. Por luz? Ou alívio da batalha ter acabado? Nenhum dos dois, apenas resquícios de lágrimas que ainda podiam cair.
Luna levantou-se devagar e aproximou-se de ambos, até que estivesse perto o suficiente para pôr sua mão na testa daquele garoto.
Ainda dava para sentir o calor tão vívido quanto nunca. Febre? Errado, emoções. Todo o desespero e medo que ele sentiu e não demonstrou estava gravado na pele.
As lágrimas, que caíram do rosto de Luna, eram compreensíveis e inevitáveis. Se ela fosse um pouco mais forte, talvez isso não tivesse acontecido, é o que pensa.
— Me desculpa… Me desculpa mesmo…
Os lábios se apertavam, como se isso fosse fazer as lágrimas pararem e os sussurros deixarem de existir, mas, esquece, não é assim que funciona.
Não muito depois, uma mão, tão macia quanto familiar, abraçou a sua, tentando confortar um pouco a dor que ela sentia. Essa ação gentil veio de seu filho.
Pouco após, a mão de seu marido tocou seu ombro gentilmente, buscando um pouco de atenção que precisava para sua voz ser ouvida:
— Não é só sua culpa, amor… Por favor, não pense assim.
Ainda que dissesse isso, não existia força no mundo capaz de esconder a tristeza que seu rosto transmitia. Todos sentem culpa, desde os conscientes até os que não estão.
Luna secou as lágrimas com os dedos, mas isso não as fez parar de cair. Pouco depois, começou a caminhar junto de seu filho em direção a Morfius e Waraioni.
— Eu vou buscar os garotos…
E assim partiu. Douglas voltou um pouco para sentar-se ao lado de Saito, que ainda estava inconsciente no chão. Quando fosse preciso, o carregaria de volta para casa.
Andressa sentou-se e deixou Ônix repousar no seu colo enquanto o abraçava. Ela estaria ao seu lado até que acordasse, pelo menos dessa vez.
Minutos se passaram, e os passos de mãe e filho podiam ser ouvidos. Luna carregava Waraioni em um de seus ombros enquanto Arthur carregava com dificuldade Morfius nos braços.
Todos os oito estavam reunidos, ainda que não estivessem totalmente conscientes. Esse era o único requisito para que o portal de saída começasse a aparecer.
Sua entrada era triunfal como sempre foi: o vento se debatendo como se tentasse matar seus iguais e o frio se erguendo de repente para cair logo depois.
E então ele veio, abraçado aos raios verdes. Não houve explicação por parte do sistema, mas não é como se eu não soubesse do motivo dessa cor ter sido escolhida.
Quer saber sobre? Vou contar só porque sou bonzinho: uma divindade anônima deu-lhes uma recompensa extra. Qualquer um que passasse por aquele portal teria os danos físicos totalmente curados.
Não se engane não, viu? Não é porque o dano físico for curado que eles vão acordar na mesma hora, como se nada de ruim tivesse acontecido.
O corpo não notará essa mudança na mesma hora, então aqueles que tiverem que permanecer dormindo até os instintos acharem que está bom, permanecerão.
E assim eles seguiram, cada um entrou no portal em uma fila organizada, sem que ninguém os atrapalhasse, até que sobrassem os dois últimos: Andressa e Ônix.
O garoto ainda estava em seus braços, como um bebê que dependia dos cuidados da mãe, e ela seria a pessoa que daria cem por cento desse zelo.
Pouco depois, caminhou em passos lentos em direção ao transportador, até que o atravessasse por completo, como alguém que entra por uma porta.
Por um momento, nada ao seu redor podia ser visto, apenas trevas e escuridão, mas isso não a assustou, pelo contrário, só a fez segurá-lo com mais força.
Não muito após, dois olhos começaram a se abrir. Tanto o olhar quanto os cílios esquerdos tinham a cor vermelha, e o direito abraçava a cor ciano.
Eram diferentes, mas agiam como um só, e aquilo não aparecia por acaso, eram um ser vivo que teve permissão para enviar-lhe uma mensagem:
— Cuide dele, Por favor.
Sabe por que “Por favor” começou com P maiúsculo? Não é um erro meu, mas sim porque pessoas diferentes iniciaram esse diálogo, ainda que a mesma boca tenha transformado palavras audíveis em algo visível.
“Cuide dele” estava tingido com a cor vermelha, e “Por favor” era entregue ao tom ciano. Infelizmente, Andressa não teve tempo para pensar em nenhum desses detalhes.
Quando percebeu, já estava na sala da casa. Ônix ainda estava nos seus braços, mas o universo em seus olhos não estava disponível para ser aberto.
Andressa manteve-se quieta por um momento. Os olhos estavam vagantes, distantes de tudo, como se nada pudesse chamar a sua atenção.
A vitória nessa missão foi dada com a máxima pontuação, mas não teve glória; a energia que a rodeava era de luto de algo que nem era seu.
Perdida em seu próprio mundo, a única que podia entendê-la era Luna, não por compartilhar do mesmo sentimento amoroso, mas sim porque, na sua perspectiva, quase perdeu Arthur.
Seus olhos a enxergavam em um misto de compaixão e pena, e as pernas não podiam fazer nada senão obedecer a ordem do coração: vá até ela.
Os passos, tão lentos quanto perceptivos, eram dessa forma para que o barulho não a incomodasse de alguma forma. Pouco depois, ela chegou.
— Andressa…
Ela, por sua vez, ergueu os olhos para que pudesse enxergar quem estava falando naquele momento, até que percebesse sua única amiga naquele mundo.
— Vem, me segue, vamos levar ele pro quarto pra ele descansar até acordar.
Andressa apenas acenou com a cabeça; não podia falar naquele momento, sua voz estava banhada em culpa e arrependimento de um evento que ninguém conseguia evitar.
Os desvaneios ainda eram presentes o suficiente para impedi-la de perceber que a porta já estava aberta, bastava entrar e colocá-lo na cama.
E assim foi feito. Cada movimento foi feito com cuidado excessivo, como se a vida de Ônix estivesse tão vulnerável quanto a de um recém-nascido.
Logo depois, o cobriu com o edredom, impedindo até mesmo o frio de tentar alguma coisa contra ele. Após tudo o que passou, estava, finalmente, descansando.
Luna não podia fazer mais nada sobre, apenas observá-la com olhos compassivos, e pouco depois aproximar-se da porta para fechá-la logo depois de dizer:
— Vou encostar a porta, tá? Qualquer coisa me chama.
Os ouvidos nem prestaram atenção no que sua amiga disse, e os olhos fixavam-se no rosto daquele garoto que pôs os pés na ponta do penhasco da morte.
Agora que os dois estavam sozinhos, as indagações começaram a lhe alcançar. A primeira delas foi: “Por que eu me importo tanto com esse garoto?”
É um pouco estranho, não é? Mais de quarenta capítulos se passaram desde que se conheceram, mas, para eles, foi somente algumas horas de encontro.
Sabendo disso, por que essa paixão que ela sabia que existia? O que nele lhe chamou tanta atenção para sentir algo bom em somente algumas horas?
Dessa dúvida ela não tinha a resposta; no entanto, se há algo que ela tinha certeza era o seguinte: observá-lo naquele estado a fazia sofrer demais.
A culpa se transformou em incontáveis agulhas e perfurou o coração e, sem que percebesse, seus olhos se rendiam às lágrimas mais uma vez.
Não demorou para que os joelhos encontrassem o chão. A cabeça apoiou-se no canto da cama, a poucos centímetros do rosto do garoto, e os lábios, aos sussurros, disseram:
— Desculpa… Me desculpa…
E assim permaneceu no silêncio, até que eventualmente dormisse junto do universo, desejando, até mesmo enquanto estava inconsciente, que ele acordasse bem.
Poucas horas se passaram, e não estamos mais no quarto onde Andressa e Ônix se encontram, mas sim onde Saito, Waraioni e Morfius ainda estão desacordados.
A janela feita de vidro permitia a luz do sol entrar, mas isso não os afetava de forma alguma, apenas deixava o ambiente mais confortável para o descanso.
Não muito depois, Saito foi o primeiro que começou a abrir os olhos. Tudo o que ele enxergava era embaçado, e a confusão abraçava a mente por alguns instantes.
Pouco depois, pôs os dedos nas pálpebras enquanto erguia-se, ficando sentado na ponta da cama ao mesmo tempo em que lembrava do que tinha acontecido.
As mãos renderam-se por vontade própria, e o pescoço se abaixou, escondendo-se da luz que desejava apagar a escuridão de seu peito.
Naquele momento, onde ninguém podia enxergar o seu sofrimento, seus olhos escarlates brilhavam, não por determinação, mas sim porque estava prestes a chorar.
Não foi de demora alguma para que as lágrimas começassem a cair, e o seu semblante estava banhado em vergonha e derrota, mesmo que tenha ganho a guerra.
Assim como todos os outros, se culpava eternamente por não ter sido capaz de evitar o sofrimento de seu irmão, que veio nesse mundo abraçado pela dor.
Próximo capítulo: O Torneio Prometido.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.