Índice de Capítulo

    Uma breve confusão pousou em seu olhar. Era tão palpável que deixava as indagações óbvias que ele fez a si mesmo, como: “Será que deixei passar alguma coisa?”

    No entanto, não pensou tanto sobre, apenas agiu. Dessa forma, sentou-se ao seu lado, olhando-a nos olhos, esperando o que ela tinha para dizer.

    — Sabe, depois de tudo o que aconteceu, eu comecei a me atrair por você, mesmo que eu te conheça pouco.

    De pouco a pouco as peças se encaixavam. Preocupação excessiva, as lágrinas que caíram quando ele foi ferido na caverna, tudo começava a fazer sentido.

    — Eu ainda não posso dizer que te amo, é cedo demais pra isso, mas eu me apaixonei, sim… Acho que não vai demorar muito para que o amor surja, eu só preciso te conhecer melhor.

    Após sua breve declaração, ela observou os olhos universais do garoto por um momento, e isso foi o bastante para fazer seu coração palpitar.

    — Acho que é isso. Você aceita me conhecer melhor também?

    Se ignorarmos o contexto, é fofo, poderia dar certo. Ambos são pessoas virtuosas e leais, mas havia um detalhe que ela não sabia: além de amizade, Ônix não sentia nada por ela, nem uma única gota.

    Ele é frio demais ou simplesmente arromântico? Não, Andressa só chegou tarde demais, nosso garoto já está comprometido com Celeste.

    — Acho que entendi, Andressa.

    Sua primeira preocupação foi: “Como dizer a verdade sem machucá-la?”, e logo concluiu que essa era uma tarefa impossível de ser realizada.

    — Eu peço desculpas, eu também gosto de você, mas só como amiga. De resto, eu não sinto nada, eu namoro outra pessoa.

    Foram palavras tão breves quanto cuidadosas, mas isso não evitou o aperto no peito de Andressa. Na primeira vez que teve interesse em outra pessoa, ela já estava ligada à outra.

    — Na verdade, é mais apropriado dizer que estamos casados. Eu só consigo viajar com esperança nesse mundo porque sei que ela está me esperando em algum lugar, peço desculpas.

    Querendo ou não, isso era algo que ela imaginava que podia acontecer. Ainda que não o conhecesse tanto quanto queria, sabia que era um diamante que qualquer pessoa desejaria ter do lado.

    — Entendi, tudo bem…

    Seus olhos caídos dizem que você está mentindo, Andressa, e eu concordo com eles, não está tudo bem, mas vai ficar, te garanto isso… Eu acho.

    Breves segundos de silêncio imperaram naquele lugar, mas não demorou muito para que Ônix dissesse o assunto mais importante atualmente:

    — Eu e o pessoal vamos participar de um torneio onde o vencedor pode pedir qualquer coisa. A gente vai logo logo, você vai querer ir? Vamos entender se você quiser descansar.

    Ela respondeu logo depois que iria, só precisava descansar por alguns minutos e levantar da cama. Assim, Ônix retirou-se do quarto em passos lentos, sem incomodá-la com barulhos.

    E assim ela ficou: sozinha, apenas ela, o conforto e o silêncio. Tentava se convencer a todo custo que estava tudo bem, mas, assim que pôs a colher nos lábios trêmulos, não pôde conter as lágrimas.

    — Você já sabia que isso poderia acontecer, então por que você tá chorando, sua idiota…?

    Isso foi o que ela disse a si mesma enquanto tentava limpar o rosto com os dedos, mas uma chuva nunca passa só porque o vento pediu.

    A ficha caía junto das lágrimas. Forte do jeito que sempre foi, sabia que não demoraria muito para superar essa perda de algo que nunca teve, basta ter paciência.


    Minutos se passaram, e não havia mais um único grão de arroz no prato. As lágrimas deixaram de cair, mas os rastros ainda existiam nas bochechas.

    Pouco depois, limpou o rosto com o edredom, disfarçando brevemente a chuva que havia caído. Só depois disso que ela começou a levantar.

    A cama foi arrumada em poucos instantes e assim ela partiu para a cozinha, tão rápido quanto. A visão encontrava-se embaçada, mas o corpo estava no modo automático.

    Quando foi perceber, o prato já estava limpo e guardado na bacia, tudo o que precisava fazer era caminhar para a sala e juntar-se ao seu grupo rumo ao torneio…

    … Mas por que isso era estupidamente difícil? O coração apertava só de pensar em ir para lá. O que tinha naquele lugar que a fazia hesitar em caminhar?

    Por fim, respirou fundo e fechou os olhos. Além de engolir a angústia goela abaixo e aceitá-la, não havia mais nada que pudesse fazer.

    Assim, levantou o rosto de forma confiante e manteve o olhar firme, afastando de uma vez a fragilidade que insistia em abraçá-la.

    Logo em seguida, caminhou em passos lentos em direção à porta de saída, pôs a mão na maçaneta e abriu-a tão lentamente quanto o caminhar de uma folha levitando.

    O sol abraçava o rosto como se desejasse cegar, mas havia alguém à sua frente que tomava aquele brilho para si, protegendo-a desse incômodo.

    A mesma pessoa olhou para trás assim que ouviu o rangido, e seu singelo sorriso foi ainda mais sincero do que a luz do sol, e nele havia a resposta da dificuldade…

    “Ah…”

    … Os olhos universais. O fôlego foi-se com o vento, e as pálpebras se abriram, tentando observar cada estrela que ali existia em harmonia.

    Não havia espaço para mais nada em sua mente. O tempo parecia ter parado naquele único suspiro, e o brilho do sol se despedia de pouco a pouco.

    E a verdade permaneceu sendo uma só: nada podia ser feito, além de esconder a frustração em um sorriso tão rápido quanto forçado.

    Por fim, caminhou com a cabeça um pouco baixa, evitando a todo custo olhar em seus olhos de novo, escondendo-se ao lado de sua única amiga.

    Luna podia não saber o que estava acontecendo; mas, ainda assim, abraçou o pescoço de Andressa com um de seus braços, dizendo nas entrelinhas que estava tudo bem.

    E assim eles caminharam em direção ao torneio, não por saberem o caminho, mas sim porque a localização estava marcada em vermelho no mapa de Ônix.


    Minutos se passaram. Ainda estavam um pouco distantes; no entanto, mesmo que estivessem há quilômetros de distância, aquele muro, tão grande quanto montanhas, seria facilmente visto.

    Havia algo que se sobrepôs às paredes: uma bolha transparente, que fazia o papel de domo dentro do muro, provavelmente para isolar os participantes.

    Por fim, lá estava o enorme portão banhado a ouro enquanto poucos riscos prateados enalteciam a sua aparência, tentando deixá-lo o mais celestial possível.

    As pálpebras de cada um dos oito integrantes se abriam. Alguns olhares brilhavam em empolgação como se estivessem entrando em um castelo nobre pela primeira vez.

    O portão começava a se abrir, e um tremor o acompanhou de mãos dadas. Uma breve poeira levantou-se, mas logo foi levada pelo vento.

    Partículas vermelhas abraçavam o chão ao mesmo tempo e, quando o portão encontrou-se totalmente aberto, o que era apenas partículas tornou-se um tapete majestoso.

    O ar já estava diferente antes mesmo deles entrarem. O vento tornava-se frio, não tanto para ser desagradável, mas o suficiente para se tornar bem-vindo.

    Tudo aquilo era realmente só para eles? O que há de importante o bastante nesse evento para algo desse nível ser criado? Infelizmente a resposta não estava ao alcance de nenhum deles.

    E assim eles caminharam em passos lentos, rumo ao torneio que os aguardava desde o início dessa história. Não se enganem, isso não é uma coisa boa.

    Lá não era tão extraordinário quanto o lado de fora, mas era incomparavelmente mais confortável. O brilho do sol sorria para eles, mas não os machucava.

    Um calor, que abraçava cada fio de cabelo, substituiu o frio; entretanto, ele não veio para fazê-los suar, mas sim para confortá-los ainda mais.

    Ao redor deles havia uma arquibancada flutuante que acompanhava o muro inteiro. Não tinha ninguém sentado em canto algum, mas com certeza caberia milhares de expectadores.

    Uma arena circular estava fixa no centro daquele lugar, e era lá onde os participantes enfrentariam seus desafios. Sobre a arena, havia dois sistemas, uma da cor escura e outra da cor bege clara.

    S2
    Desejo boas-vindas a todos.

    Sua voz ecoava pelo horizonte, clara o bastante para que todos pudessem ouvir. Seus olhos neutros observavam cada um dos participantes.

    S9
    Vocês chegaram rapidinho, né? Gostaram desse lugar que eu fiz pra vocês? Fiz com muito carinho, espero que esteja do agrado de todos!

    Essa é uma das três sistemas femininas existentes, acho que ainda não apresentei a vocês. Em resumo, ela é responsável por criar cenários.

    Luna foi quem respondeu primeiro, dizendo que estava tão lindo quanto um castelo, embora ela nunca tivesse visto ou visitado um.

    A voz de Arthur ecoou logo depois. O que ele disse era um complemento do que Luna já havia dito, mas era tão sincero quanto, seus olhos brilhantes eram a prova disso.

    S9
    Fico muito feliz com o comentário de vocês! Espero que esse torneio seja algo que vocês não vão esquecer.

    Pouco antes de continuar a fala, seus olhos observaram por um momento algo que acabou de chegar no portão: a nona pessoa prometida.

    S9
    Muito bem-vinda, Melinoe!

    Apenas isso bastou para que todos olhassem para trás, buscando observar suas características, começando pelo cabelo, que era tão volumoso quanto cacheado, estilo black power.

    A pele abraçava o tom marrom bombom. Não havia blusa alguma para incomodá-la, mas um sutiã do tipo faixa protegia seus seios dos maus olhares.

    Uma calça baggy escura, tão larga quanto confortável, foi sua escolha para aquele dia. As mãos repousavam no bolso, sussurrando ao horizonte as preocupações que tinha: zero.

    O destaque morava nas costas, era lá onde morava a tatuagem. Seu nome morava embaixo da nuca, e logo abaixo habitava uma cruz com diversos detalhes.1

    Seu olhar neutro observava cada um dos oito com indiferença, não havia incômodo nenhum para ela, afinal, era a humana mais forte viva.

    Próximo capítulo: Trauma Revivido.

    1. @Maik: Gente, descrever esse negócio seria muito difícil, então eu deixei uma imagem exata da tatuagem pra vocês: https://photos.google.com/share/AF1QipONpGgs3a0h8oSMYodyjJTAFuC1xaKDXhR71LWKIqFercwzvwf28bSYaM7RlzKPWA?key=dGptTlNVaFRZZ1VHZWNqcUpVSkQzUGF1NkVmVW5n[]

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