Capítulo 1 – A Barreira do Norte
Era o fim de tarde naquela praia congelada.
Embora chamar aquilo de “praia” fosse quase uma piada cruel. Não havia calor, risos ou ondas quebrando na areia. O mar, se é que ainda podia ser chamado assim, era um manto branco de gelo espesso, sólido como pedra, estendendo-se até onde a vista alcançava. Nenhum som de gaivotas, nenhum cheiro de maresia.
Árvores petrificadas pelo frio contornavam a paisagem, seus galhos retorcidos como mãos enfeitavam a paisagem dando um toque tanto belo quanto macabro a aquela tarde. Até a areia, normalmente viva sob o sol, estava endurecida, transformada numa crosta gélida que rangia sob os passos como vidro.
Curiosamente, o céu estava limpo. Sem nuvens. Sem névoa. Um azul suave se estendia até o horizonte, revelando uma visão deslumbrante, quase irônica, considerando a aparente falta de vida que reinava abaixo.
Apenas uma presença era notada ali, o Guardião do norte.
Ele permanecia sobre uma pedra elevada, a silhueta recortada contra o céu, imóvel como se fosse parte da própria paisagem. Seus olhos, atentos, observavam uma barreira translúcida que se erguia no vazio, separando aquele território de tudo o que havia além. Durante a noite, ela refletia as estrelas como um espelho celestial; de dia, brilhava com timidez, suas cores mudando em ondas suaves, como se respirasse.
— Achei você… — murmurou, a voz baixa e cansada.
A ondulação foi sutil demais para olhos comuns, um desnível leve na crosta congelada, como se o gelo respirasse.
Com um salto preciso, o Guardião desceu da rocha.
E uma serpente explodiu do chão.
O corpo longo, prateado, quase invisível contra o branco absoluto. Presas abertas. Um silvo agudo rasgando o silêncio morto da costa.
Ele não recuou.
Girou o corpo no último instante, segurou a mandíbula da criatura com a mão esquerda e cravou a lâmina de gelo sob a escama do pescoço.
Um jato escuro manchou o gelo.
A besta se debateu por três segundos.
Depois caiu.
Ele permaneceu imóvel, sentindo o próprio cansaço pesar nos ombros.
Ele puxou a lâmina, e só então levantou o olhar.
A barreira.
A superfície translúcida que separava seu território do mundo exterior pulsava.
Vermelho.
Ele caminhou lentamente até um ponto da barreira que agora começava a se tingir.
Seu sobretudo branco salpicado de vermelho flutuava atrás de si com o vento leve. Forte e imponente, seu rosto revelava juventude incomum pele clara, cabelos cacheados caindo sob os olhos castanhos profundos. Vestia calças e blusa brancas, o sobretudo aberto como se ignorasse o frio absoluto.
Ao se aproximar da barreira, ela pulsava com um vermelho vibrante… quase vivo. Ele encostou a palma da mão na superfície mágica e soltou um suspiro.
— Está mais instável…
Ao se afastar a neve ao seu redor começou a se erguer, transformando-se em água líquida suspensa no ar. Fluidos cristalinos se reuniram em pontos específicos e se moldaram em uma armadura leve, brilhante e firme. O Guardião ajustou a manopla em seu braço, colocou o elmo e desapareceu por trás da couraça de gelo. Tudo que se via era a névoa quente de sua respiração escapando por frestas do elmo.
A barreira, antes vermelha, tornava-se agora cor de sangue. No centro, manchas escuras se aprofundavam.
Então, uma ponta prateada atravessou a superfície. Um som abafado de vozes e gritos ecoou, seguido pelo rasgo completo a barreira foi cortada de cima a baixo.
— VAMOS, RAPIDO! RAPIDO!
Um corpo caiu para frente, rolando no gelo ao atravessar. Outro tropeçou. Um mago saiu apoiado por dois soldados, sangue escorrendo pelo nariz.
Aos pouco vinte pessoas cruzaram a barreira.
Dez deles trajavam armaduras de placa no estilo medieval europeu. Dois tentavam erguer o que havia sobrado dos estandartes, onde dois tecidos machados onde tremulava com o vento o símbolo de uma mão segurando um martelo. Os demais usavam mantos simples e empunhavam cajados mágicos.
— Esses caras de novo… — murmurou o Guardião, suspirando com irritação. Ele já havia perdido a conta. Seria a vigésima vez que esse reino cruzava a barreira? Era exaustivo.
— Quantas vezes esse reino vai precisar cruzar a barreira?
O grupo se reorganizou em formação defensiva, apesar do cansaço evidente. Um soldado respirava com dificuldade. Outro escondia a mão tremendo dentro da manopla.
O líder retirou o elmo amassado.
— VOCÊ É O CHAMADO GUARDIÃO DO NORTE?
O Guardião inclinou levemente a cabeça.
— Por que está gritando? Não há necessidade de tanto barulho.
Surpresa. O grupo se entreolhou.
— Estou a menos de cinco metros. Não há vento. Não tenho problema de audição. Pode falar normalmente — acrescentou o Guardião, com um tom de irritação.
O homem respirou fundo, tentando recuperar dignidade.
— Peço desculpas, Guardião. Sou o comandante Dravis, do Reino de Forndal. Estes são meus homens. Estamos aqui para realizar o Desafio do Guardião, como meus antepassados fizeram — disse Dravis, batendo o punho no peito em saudação militar.
Ian soltou um riso curto. Sem humor.
— Quantas vezes seu reino precisa falhar antes de entender?
Dravis não recuou.
— Estamos mais preparados.
O Guardião olhou para o estandarte quebrado.
Para o mago sangrando.
— Comandante Dravis… você entende o que disse?
Os olhos do Guardião brilharam em azul sutil.
A temperatura pareceu cair ainda mais. Dravis manteve a postura, seus olhos agora brilhando num tom cinza metálico.
— Entendo perfeitamente — respondeu Dravis, firme.
— Nesse caso… me siga — disse o Guardião, virando-se e começando a caminhar.
Dravis fez um sinal para seu grupo, e eles seguiram em silêncio. Um dos soldados se aproximou e murmurou:
— Ele… ele realmente é o Guardião das lendas?
Dravis não desviou os olhos.
— Volte para a sua posição. De um jeito ou de outro… vamos descobrir em breve — respondeu Dravis, sua voz baixa e firme.
Enquanto caminhavam, o Guardião perguntou:
— Você realmente sabe o que acontece com aqueles que não conseguem superar o desafio?
Dravis hesitou por um momento antes de responder:
— Sim, sabemos. Mas estamos preparados para enfrentar qualquer desafio que você nos apresente.
O Guardião sorriu levemente, um sorriso que não chegou aos olhos.
— Veremos — disse ele, continuando a caminhar.
A paisagem ao redor deles mudou, e logo chegaram à entrada de um desfiladeiro. À primeira vista, parecia comum… rochas cobertas por neve. Exceto pelas estátuas de gelo.
Quanto mais se aproximavam do centro do desfiladeiro, mais figuras apareciam. Guerreiros, magos, reis. A tensão crescia como se as estátuas observassem.
Alguns soldados diminuíram o passo.
O silêncio ali não era natural.
— São… impressionantes.
Um deles se aproximou demais.
Passou a mão pela superfície branca.
Não era gelo bruto.
Havia textura.
Pele.
Cílios.
Rachaduras finas nos lábios entreabertos.
E os olhos.
Os olhos não estavam serenos.
Estavam arregalados.
Presos em um terror eterno.
O soldado retirou a mão devagar demais.
Como se tivesse tocado algo que ainda pudesse sentir.
Mais adiante, o grupo alcançou uma colina de neve espessa.
O vento soprou de lado.
O Guardião parou.
Observou o vale.
Observou as estátuas.
Então disse, com calma excessiva:
— Chegamos.
Subiu lentamente a colina, e ao alcançar o topo, estendeu a mão.
— Este é o local do desafio — disse o Guardião, parando diante das estátuas.
Dravis olhou para as estátuas, sua expressão determinada.
— Estamos prontos — disse ele, firme. — Vamos começar.
O Guardião observou o grupo.
Feridos.
Exaustos.
E ainda assim… confiantes.
Ele soltou um suspiro.
— Vocês nem perceberam.
Silêncio.
Dravis levantou o olhar devagar.
— Percebemos o quê?
O Guardião não respondeu imediatamente.
Olhou para a barreira ao longe, ainda marcada de vermelho.
Depois para as estátuas ao redor.
Por fim, voltou-se para o grupo.
— Desde que cruzaram a barreira, estão sendo avaliados.
Um dos soldados franziu o cenho.
Dravis manteve a postura, mas a respiração estava mais pesada agora.
O Guardião inclinou levemente a cabeça.
— O Desafio não começa quando eu ataco.
Fez uma pausa curta.
— Ele já começou.

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