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    Era o fim de tarde naquela praia congelada. 

    Embora chamar aquilo de “praia” fosse quase uma piada cruel. Não havia calor, risos ou ondas quebrando na areia. O mar, se é que ainda podia ser chamado assim, era um manto branco de gelo espesso, sólido como pedra, estendendo-se até onde a vista alcançava. Nenhum som de gaivotas, nenhum cheiro de maresia.

    Árvores petrificadas pelo frio contornavam a paisagem, seus galhos retorcidos como mãos enfeitavam a paisagem dando um toque tanto belo quanto macabro a aquela tarde. Até a areia, normalmente viva sob o sol, estava endurecida, transformada numa crosta gélida que rangia sob os passos como vidro.

    Curiosamente, o céu estava limpo. Sem nuvens. Sem névoa. Um azul suave se estendia até o horizonte, revelando uma visão deslumbrante, quase irônica, considerando a aparente falta de vida que reinava abaixo.

    Apenas uma presença era notada ali, o Guardião do norte.

    Ele permanecia sobre uma pedra elevada, a silhueta recortada contra o céu, imóvel como se fosse parte da própria paisagem. Seus olhos, atentos, observavam uma barreira translúcida que se erguia no vazio, separando aquele território de tudo o que havia além. Durante a noite, ela refletia as estrelas como um espelho celestial; de dia, brilhava com timidez, suas cores mudando em ondas suaves, como se respirasse.

    — Achei você… — murmurou, a voz baixa e cansada.

    A ondulação foi sutil demais para olhos comuns, um desnível leve na crosta congelada, como se o gelo respirasse.

    Com um salto preciso, o Guardião desceu da rocha.

    E uma serpente explodiu do chão.

    O corpo longo, prateado, quase invisível contra o branco absoluto. Presas abertas. Um silvo agudo rasgando o silêncio morto da costa.

    Ele não recuou.

    Girou o corpo no último instante, segurou a mandíbula da criatura com a mão esquerda e cravou a lâmina de gelo sob a escama do pescoço.

    Um jato escuro manchou o gelo.

    A besta se debateu por três segundos.

    Depois caiu.

    Ele permaneceu imóvel, sentindo o próprio cansaço pesar nos ombros.

    Ele puxou a lâmina, e só então levantou o olhar.

    A barreira.

    A superfície translúcida que separava seu território do mundo exterior pulsava.

    Vermelho.

    Ele caminhou lentamente até um ponto da barreira que agora começava a se tingir.

    Seu sobretudo branco salpicado de vermelho flutuava atrás de si com o vento leve. Forte e imponente, seu rosto revelava juventude incomum pele clara, cabelos cacheados caindo sob os olhos castanhos profundos. Vestia calças e blusa brancas, o sobretudo aberto como se ignorasse o frio absoluto. 

    Ao se aproximar da barreira, ela pulsava com um vermelho vibrante… quase vivo. Ele encostou a palma da mão na superfície mágica e soltou um suspiro. 

    — Está mais instável… 

    Ao se afastar a neve ao seu redor começou a se erguer, transformando-se em água líquida suspensa no ar. Fluidos cristalinos se reuniram em pontos específicos e se moldaram em uma armadura leve, brilhante e firme. O Guardião ajustou a manopla em seu braço, colocou o elmo e desapareceu por trás da couraça de gelo. Tudo que se via era a névoa quente de sua respiração escapando por frestas do elmo. 

    A barreira, antes vermelha, tornava-se agora cor de sangue. No centro, manchas escuras se aprofundavam. 

    Então, uma ponta prateada atravessou a superfície. Um som abafado de vozes e gritos ecoou, seguido pelo rasgo completo a barreira foi cortada de cima a baixo.

    — VAMOS, RAPIDO! RAPIDO!

    Um corpo caiu para frente, rolando no gelo ao atravessar. Outro tropeçou. Um mago saiu apoiado por dois soldados, sangue escorrendo pelo nariz.

    Aos pouco vinte pessoas cruzaram a barreira.

    Dez deles trajavam armaduras de placa no estilo medieval europeu. Dois tentavam erguer o que havia sobrado dos estandartes, onde dois tecidos machados onde tremulava com o vento o símbolo de uma mão segurando um martelo. Os demais usavam mantos simples e empunhavam cajados mágicos. 

    — Esses caras de novo… — murmurou o Guardião, suspirando com irritação. Ele já havia perdido a conta. Seria a vigésima vez que esse reino cruzava a barreira? Era exaustivo. 

    — Quantas vezes esse reino vai precisar cruzar a barreira?

    O grupo se reorganizou em formação defensiva, apesar do cansaço evidente. Um soldado respirava com dificuldade. Outro escondia a mão tremendo dentro da manopla.

    O líder retirou o elmo amassado.

    — VOCÊ É O CHAMADO GUARDIÃO DO NORTE?

    O Guardião inclinou levemente a cabeça.

    — Por que está gritando? Não há necessidade de tanto barulho.

    Surpresa. O grupo se entreolhou.

    — Estou a menos de cinco metros. Não há vento. Não tenho problema de audição. Pode falar normalmente — acrescentou o Guardião, com um tom de irritação.

    O homem respirou fundo, tentando recuperar dignidade.

    — Peço desculpas, Guardião. Sou o comandante Dravis, do Reino de Forndal. Estes são meus homens. Estamos aqui para realizar o Desafio do Guardião, como meus antepassados fizeram — disse Dravis, batendo o punho no peito em saudação militar.

    Ian soltou um riso curto. Sem humor.

    — Quantas vezes seu reino precisa falhar antes de entender?

    Dravis não recuou.

    — Estamos mais preparados.

    O Guardião olhou para o estandarte quebrado.

    Para o mago sangrando.

    — Comandante Dravis… você entende o que disse?

    Os olhos do Guardião brilharam em azul sutil.

    A temperatura pareceu cair ainda mais. Dravis manteve a postura, seus olhos agora brilhando num tom cinza metálico.

    — Entendo perfeitamente — respondeu Dravis, firme.

    — Nesse caso… me siga — disse o Guardião, virando-se e começando a caminhar.

    Dravis fez um sinal para seu grupo, e eles seguiram em silêncio. Um dos soldados se aproximou e murmurou:

    — Ele… ele realmente é o Guardião das lendas?

    Dravis não desviou os olhos.

    — Volte para a sua posição. De um jeito ou de outro… vamos descobrir em breve — respondeu Dravis, sua voz baixa e firme.

    Enquanto caminhavam, o Guardião perguntou:

    — Você realmente sabe o que acontece com aqueles que não conseguem superar o desafio?

    Dravis hesitou por um momento antes de responder:

    — Sim, sabemos. Mas estamos preparados para enfrentar qualquer desafio que você nos apresente.

    O Guardião sorriu levemente, um sorriso que não chegou aos olhos.

    — Veremos — disse ele, continuando a caminhar.

    A paisagem ao redor deles mudou, e logo chegaram à entrada de um desfiladeiro. À primeira vista, parecia comum… rochas cobertas por neve. Exceto pelas estátuas de gelo.

    Quanto mais se aproximavam do centro do desfiladeiro, mais figuras apareciam. Guerreiros, magos, reis. A tensão crescia como se as estátuas observassem. 

    Alguns soldados diminuíram o passo.

    O silêncio ali não era natural.

    — São… impressionantes.

    Um deles se aproximou demais.

    Passou a mão pela superfície branca.

    Não era gelo bruto.

    Havia textura.

    Pele.

    Cílios.

    Rachaduras finas nos lábios entreabertos.

    E os olhos.

    Os olhos não estavam serenos.

    Estavam arregalados.

    Presos em um terror eterno.

    O soldado retirou a mão devagar demais.

    Como se tivesse tocado algo que ainda pudesse sentir.

    Mais adiante, o grupo alcançou uma colina de neve espessa.

    O vento soprou de lado.

    O Guardião parou.

    Observou o vale.

    Observou as estátuas.

    Então disse, com calma excessiva:

    — Chegamos.

    Subiu lentamente a colina, e ao alcançar o topo, estendeu a mão. 

    — Este é o local do desafio — disse o Guardião, parando diante das estátuas.

    Dravis olhou para as estátuas, sua expressão determinada.

    — Estamos prontos — disse ele, firme. — Vamos começar.

    O Guardião observou o grupo.

    Feridos.

    Exaustos.

    E ainda assim… confiantes.

    Ele soltou um suspiro.

    — Vocês nem perceberam.

    Silêncio.

    Dravis levantou o olhar devagar.

    — Percebemos o quê?

    O Guardião não respondeu imediatamente.

    Olhou para a barreira ao longe, ainda marcada de vermelho.

    Depois para as estátuas ao redor.

    Por fim, voltou-se para o grupo.

    — Desde que cruzaram a barreira, estão sendo avaliados.

    Um dos soldados franziu o cenho.

    Dravis manteve a postura, mas a respiração estava mais pesada agora.

    O Guardião inclinou levemente a cabeça.

    — O Desafio não começa quando eu ataco.

    Fez uma pausa curta.

    — Ele já começou.

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