Capítulo 101 - "A Queda III"
O retorno começou organizado.
— Formação mantida — repetiu Dorman, caminhando entre as equipes para observar as fileiras. — Broca à frente. Ratos colados. Ninguém corre.
— Equipe Coruja, vocês estão ficando para trás — reforçou Lady Nyr. — Não quero ninguém se afastando.
Mesmo assim, os espaços entre as pessoas aumentavam aos poucos. Não por rebeldia, mas por hesitação. Cada passo parecia exigir confirmação visual naquele ambiente de pouca luz. Cada curva era medida com mais cuidado do que a anterior.
— Esse trecho… — murmurou um dos Ratos, consultando o mapa. — Ele não devia afunilar assim.
— Continua andando — respondeu Dorman, seco. — Depois comparamos.
— Capitão — chamou uma voz atrás. — A equipe médica ficou para trás.
— Não ficou — rebateu outro. — Vocês é que aceleraram.
Dorman parou.
— Silêncio. — Olhou para trás, contando cabeças. — Reagrupem. Agora.
Demorou mais do que deveria.
Enquanto o grupo se recompunha, Lady Nyr se aproximou dele, a voz baixa.
— Não é só o túnel — disse. — As pessoas estão errando coisas simples.
— É a merda do medo — respondeu Dorman. — Pessoas sempre fazem coisas estúpidas quando estão com medo.
— Estão desconfiadas.
Ele não negou.
— Essa sabotagem — continuou ela — não é alguém improvisando. É alguém confortável aqui embaixo.
Dorman lançou um olhar rápido pelo grupo antes de responder, igualmente baixo.
— Um mago de terra — disse. — Forte o suficiente para alterar trajetos sem causar colapso. E que conheça ruínas.
— Ao menos concordamos que é alguém confortável demais aqui embaixo — completou Nyr.
Logo à frente, a equipe dos Ratos avançava sem grandes dificuldades. O veterano seguia guiando o caminho, atento às marcas e irregularidades. Ainda assim, algo chamava atenção: a leveza com que Karl caminhava, ajustando a direção sem hesitar.
Mesmo quando a luz diminuía, seus passos mantinham o mesmo ritmo.
— Eles não acenderam a lanterna… — murmurou Dorman, mais para si do que para Nyr. — Então vamos precisar criar uma base.
— Quer fazer o teste agora? — perguntou Nyr, observando o grupo.
— Não. Com eles tão próximos, se houver reação forte, não teremos como impedir um desabamento. O túnel é estreito demais.
— Então procuramos um espaço mais amplo enquanto verificamos os outros membros — decidiu Nyr, estendendo a mão. — Melhor termos certeza.
Dorman retirou da bolsa um pequeno fragmento de Cristal do Véu, rachado, opaco nas bordas, e o colocou na mão dela.
Lady Nyr fez um cumprimento breve e seguiu até a equipe de mantimentos. Sua presença ali causou surpresa imediata.
— Teste simples — anunciou. — Quem tiver uma reserva significativa de mana vai fazer isso reagir.
Alguns resmungaram.
— Agora? — perguntou alguém.
— Agora — confirmou Nyr. — Começamos por vocês.
Ela própria tocou o cristal primeiro. A luz surgiu fraca, constante. Nada impressionante.
— Próximo.
Um a um, os membros da equipe de mantimentos tocaram o fragmento. Pequenos brilhos. Alguns quase inexistentes. Nenhuma surpresa.
— Normal — comentou Nyr. — Como esperado.
Enquanto isso, Dorman observava as equipes Broca e Ratos. Seu olhar sempre voltava ao mesmo ponto.
À mesma dupla que avançava com facilidade naquela escuridão.
Aos poucos, o túnel foi se alargando até se abrir adiante.
Um espaço circular, amplo demais para ser natural. As paredes formavam um arco contínuo, marcado por quatro pilastras adornadas, como se estivessem no interior de um templo esculpido diretamente da pedra. A superfície era lisa, desgastada pelo tempo. No centro, um poço escuro descia além do alcance da luz.
Ao redor, três túneis se ramificavam em ângulos perfeitos.
— Isso não estava em mapa nenhum — murmurou um Rato.
— Claro que não — respondeu outro. — O mapa já não vale mais nada.
— Reagrupem — ordenou Dorman. — Aqui.
Dorman respirou fundo antes de falar.
— Escutem — disse, a voz firme, ecoando no espaço circular. — Já está muito claro que isso não é natural. muito menos um erro de mapa.
Alguns se entreolharam.
— O túnel mudou de forma enquanto caminhávamos — continuou. — Isso exige controle. Precisão. Conhecimento do terreno.
— Está dizendo que alguém aqui fez isso? — perguntou Ivar, com a voz tensa.
— Estou dizendo que alguém pode ter feito — respondeu Dorman. — E se fez, não foi por acidente.
Lady Nyr não interferiu. Apenas mudou levemente a posição, ficando com o poço às costas e os três túneis dentro do campo de visão.
— Alterar trajetos sem causar colapso — Dorman prosseguiu — exige magia de terra treinada. Não talento bruto.
Ele estendeu a mão.
— Vamos eliminar possibilidades.
Alguns murmúrios surgiram, baixos, desconfortáveis.
— Não é acusação — disse Lady Nyr, com calma calculada. — É procedimento de contenção.
Dorman apontou.
— Renn. — Depois outro gesto. — Havel. Tessa. Marik.
Os quatro se entreolharam, hesitaram por um instante, mas avançaram.
— Um de cada equipe — explicou Dorman. — Para evitar conversa fiada depois.
Lady Nyr aproximou-se, o fragmento rachado do Cristal do Véu ainda em mãos.
— Toquem — ordenou, sem elevar a voz.
Renn foi o primeiro.
A luz surgiu fraca, instável, piscando uma vez antes de se apagar.
— Reserva baixa — disse Nyr. — Nada fora do comum.
Havel veio em seguida. Um brilho um pouco mais intenso, mas ainda contido.
— Treino básico — avaliou ela. — Suficiente para sobrevivência, não para manipulação estrutural.
Tessa tocou o cristal. A reação foi quase inexistente.
Marik foi o último dos quatro. A luz demorou um segundo a surgir, depois brilhou de forma constante, moderada.
— Controle razoável — comentou Nyr. — Ainda assim, insuficiente.
Dorman assentiu.
— Voltem para a formação.
Os quatro recuaram, visivelmente aliviados.
Houve um breve silêncio.
Dorman então ergueu o olhar.
— Agora… — disse devagar. — Os próximos.
Alguns membros da equipe se enrijeceram.
Ele apontou, deliberadamente evitando dois nomes.
— Quero mais dois da Broca. E um Rato.
As pessoas obedeceram, mas o clima já não era apenas de medo. Era de desconfiança aberta.
Enquanto o teste prosseguia, Dorman não tirava os olhos de Karl.
Nem do veterano dos Ratos, parado poucos passos atrás dele.
Os dois permaneciam quietos. Atentos. Confortáveis demais naquele espaço mal iluminado.
Lady Nyr percebeu.
Sem dizer nada, mudou a empunhadura do cristal. Ajustou a postura. A outra mão repousou próxima a adaga preso ao cinto.
Quando os testes terminaram, ela falou baixo, apenas para Dorman:
— Até agora, nada.
— Eu sei — respondeu ele, sem tirar os olhos da dupla ao fundo. — É por isso que deixei os dois por último.
Ele respirou fundo e ergueu a voz novamente.
— Karl.
O nome ecoou no espaço circular.
— E Varos — completou, apontando para o veterano. — Aproximem-se.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Karl avançou sem hesitar e parou diante de Lady Nyr.
O veterano fez o mesmo, mas seus olhos varriam o ambiente, avaliando ângulos, distâncias… saídas.
O fragmento de Cristal do Véu parecia ainda menor ali, rachado, quase morto.
— Encoste — ordenou ela.
Karl obedeceu.
No instante em que seus dedos tocaram o cristal, a ruína respondeu.
A luz explodiu.
Não foi um brilho gradual. Foi um clarão absoluto, branco e violento, que inundou o espaço circular como um relâmpago preso dentro da pedra. As paredes desapareceram. O poço virou um vazio ofuscante. Pessoas gritaram, cegas, levando as mãos ao rosto.
— UM ATAQUE! — alguém gritou ao fundo.
— EU NÃO ESTOU ATACANDO! — Karl gritou, a voz perdida no caos. — EU NÃO—
Dorman não ouviu.
Ou ouviu e escolheu ignorar.
Para ele, aquilo foi confirmação.
A mana reagindo daquele jeito só podia significar uma coisa: liberação consciente. Ataque.
Ele sacou a espada num movimento seco.
— DESGRAÇADO ! — rugiu, avançando.
Karl ainda piscava, a visão fragmentada, manchas de luz queimando os olhos. Tentou recuar, tropeçou.
— Capitão, espera! — alguém gritou.
Renn se colocou no meio.
— Ele não sabe usar mana! — disse, erguendo as mãos. — Isso não foi conjuração, foi—
A espada desceu.
Sem hesitação.
Sem aviso.
Um golpe curto, preciso. Dividindo o tronco de Renn em uma diagonal do ombro até a cintura do lado contrario.
O Golpe foi limpo.
Renn caiu sem gritar.
O corpo bateu na pedra com peso.
Todos param até Dorman que brandiu a espada no ar limpando do sangue. cheiro de ferro tomou conta do ambiente fechado.
Alguém deixou cair uma lanterna. Outra começou a chorar, baixo, como se o som pudesse chamar algo pior.
Karl olhou.
Viu o sangue escorrendo pela pedra lisa. Viu o corpo imóvel. Viu Dorman ainda com a lâmina baixa, respirando pesado.
Foi aí que o choque quebrou.
Karl se virou e correu.
— PAREM ELE! — Dorman gritou.
Karl disparou em direção a um dos túneis, a visão ainda turva, mas os pés encontrando o caminho como se o chão lhe fosse familiar.
Lady Nyr já estava ali.
Ela erguei a adaga e reuniu a mana em sua mão.
Mas Lyra foi mais rápida.
— NÃO! — gritou, empurrando Nyr com força.
Lady Nyr perdeu o equilíbrio por um segundo, tempo suficiente.
Lyra correu.
Karl já estava sendo puxado por Gustav e Ivar, os dois gritando ordens confusas, tentando formar algo que lembrasse defesa.
— Ele não fez nada! — Gustav berrou.
Dorman ergueu a mão esquerda.
Não recitou palavras.
Não fez gestos complexos.
A terra respondeu como se estivesse esperando.
O chão ondulou.
Uma única onda sólida atravessou o espaço circular, levantando corpos como bonecos, arremessando-os para trás. Karl sentiu o chão desaparecer sob os pés, o estômago subir, o ar ser arrancado dos pulmões.
O poço se abriu abaixo deles.
Gritos.
Impactos.
Escuridão.
Karl caiu girando.
Lyra e Gustav também.
Outros corpos bateram uns nos outros, despencando no vazio enquanto o eco engolia tudo.
Lá em cima, o silêncio voltou a se instalar.
Dorman ficou à beira do poço, a espada ainda na mão.
O Cristal do Véu, esquecido no chão, ainda brilhava fraco.
Pela primeira vez desde que entraram na ruína, ninguém duvidava mais de uma coisa:
A expedição tinha acabado de cruzar um ponto sem retorno.

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