Índice de Capítulo

    A queda livre durou tempo demais.

    O primeiro impacto veio seco, vertical, arrancando o ar do peito como um golpe direto. O corpo bateu contra a pedra e girou, desceu mais alguns metros antes de bater na parede e ser lançado contra a pedra fria que formava o túnel que se inclinava para baixo.

    A descida continuava, mas agora em ângulo.

    O chão não era liso.

    Era irregular, cruel, cheio de ressaltos, quinas e pedras salientes que não davam tempo de reagir. Cada metro acrescentava novos arranhados e ferimentos.

    Karl tentou virar o corpo para proteger a cabeça.

    O braço esquerdo bateu primeiro.

    Houve um estalo curto. Seco.

    A dor veio logo depois, branca, violenta, esmagando qualquer pensamento coerente. O braço simplesmente deixou de responder. O impacto seguinte o fez gritar, a dor quase o fez desmaiar.

    Ele rolou mais alguns metros, batendo costas, quadril, joelho. O túnel continuava descendo, mas a inclinação diminuía aos poucos, como se estivesse sendo guiado para frente, não mais jogado para baixo.

    — Gus! — tentou gritar.

    O som saiu fraco, engolido pelo atrito constante da pedra.

    Algo passou por ele em velocidade, batendo contra a parede oposta com força suficiente para ecoar. Um corpo. Outro impacto veio logo depois.

    Karl finalmente pode ouvir algo, mas foram gritos.

    Isso era o pior.

    Karl tentou frear com as botas. Conseguiu reduzir um pouco a velocidade, mas isso só fez o corpo bater mais forte contra as irregularidades laterais. A rocha rasgava a roupa e pele sem aviso.

    O túnel parecia intencionalmente errado.

    Não era um corredor. Era um duto antigo, estreito demais para andar, largo demais para ser natural. Cada curva jogava o corpo contra uma parede diferente, como se testasse quem aguentava continuar inteiro.

    Ele viu movimento à frente.

    — Gustav! — a voz saiu rouca.

    Gustav estava deslizando de lado, tentando se manter ereto, falhando miseravelmente. Logo atrás dele, Lyra, os cabelos grudados no rosto, os olhos arregalados, o corpo girando sem controle.

    E Laura.

    Ela estava com eles.

    Karl não sabia como sabia, talvez pelo jeito como Gustav tentava protegê-la com o próprio corpo, talvez pelo som diferente quando ela batia na pedra, mas ela estava ali, viva, ainda inteira.

    Então ele o viu.

    Ivar estava mais abaixo, o corpo jogado contra a parede do túnel, a cabeça batendo com um som oco. O impacto o fez parar por um segundo… só um.

    Depois voltou a deslizar.

    Ivar não se mexia como antes.

    Karl tentou se aproximar deles, forçando o corpo para o lado certo, usando o ombro bom, os pés, qualquer coisa. O esforço só fez a dor do braço quebrado explodir de novo. Cada tentativa de controle custava mais sangue, mais pele, mais fôlego.

    Ele bateu forte contra uma saliência e perdeu o ar outra vez.

    — Não… — murmurou, mais para si do que para qualquer um.

    O túnel começou a se tornar mais horizontal.

    A velocidade diminuiu aos poucos, mas o preço foi alto: agora cada impacto era lateral, arrastado, prolongado. Escoriações se multiplicavam. O corpo não era mais jogado, era raspado pela pedra.

    Karl conseguiu finalmente rolar até perto deles.

    Gustav estava ajoelhado, segurando Laura pelos ombros, tentando mantê-la consciente. Lyra se arrastava, gemendo baixo, uma das pernas sangrando feio.

    Ivar estava de lado.

    Os olhos abertos.
    O olhar vazio.
    Um filete de sangue escorrendo da têmpora, desaparecendo na poeira da pedra.

    — Ivar… — Karl tentou se aproximar, mas o braço falhou de novo. Ele caiu de joelhos, o mundo girando.

    Ivar respirava.

    Raso.
    Irregular.
    Errado.

    O túnel continuava à frente, agora mais largo.

    A inclinação quase desaparecia.

    Um vento quente diferente vinha dali um cheiro que não era de pedra velha. Parecia o mesmo ar do jardim inferior.

    Karl levantou o olhar, os dentes cerrados contra a dor.

    — Karl… tá vivo? — perguntou Gustav entre tosses, finalmente soltando Laura.

    — Minha mãe… — Karl se ergueu como pôde, mancando na direção deles.

    — Ela tá bem… — Gustav respondeu, forçando-se a sentar.

    Quando Karl se aproximou, teve uma visão mais clara do entorno.

    Havia vários corpos espalhados atrás deles.

    Alguns ainda se mexiam.

    Laura estava relativamente bem, apenas pequenas escoriações nas mãos. Gustav estava inteiro da cintura para cima, mas as pernas estavam em carne viva, a esquerda dobrada num ângulo impossível, presa sob o próprio corpo.

    — K-Karl… — uma voz tímida, quase um sussurro, chamou sua atenção.

    Ele virou devagar.

    Lyra estava sentada, tão ensanguentada quanto ele. Um pedaço do couro cabeludo havia sido arrancado, o sangue escorrendo pela lateral da cabeça.

    — Lyra? — ele se aproximou rápido, examinando o ferimento.

    — Tô bem… — disse ela, cobrindo a área exposta. — Já chequei. Foi só um corte pequeno.

    Karl não acreditou, mas não discutiu.

    — Karl — chamou Gustav, olhando ao redor. — Checa o Ivar. Depois vê aquelas caixas que caíram junto… vê se tem algo útil.

    Karl assentiu e se virou.

    Caminhou até Ivar.

    Ele ainda respirava.

    As roupas estavam quase totalmente destruídas. Os olhos, porém, estavam opacos, como se fossem feitos de vidro fosco.

    A lateral esquerda do crânio estava afundada.

    Karl engoliu em seco.

    — Não…

    Ajoelhou-se ao lado de Ivar.

    De perto, era pior.

    A respiração vinha em espasmos curtos, irregulares, como se o corpo tivesse esquecido o ritmo correto. O peito subia pouco, caía rápido demais. Às vezes, havia uma pausa longa demais entre um fôlego e outro.

    — Ivar… — chamou, tocando de leve o ombro dele com a mão boa. — Ei. Olha pra mim.

    Os olhos se moveram.

    Não focaram.

    A pupila tremulou, perdida, como se estivesse tentando lembrar onde estava, ou quem era.

    — Você caiu… — Karl falou rápido, sem saber por quê. — Mas já passou. A gente tá parado agora. Você tá… você tá comigo, ouviu?

    Ivar emitiu um som baixo. Não era uma palavra. Nem um gemido completo. Algo preso entre garganta e pulmão.

    Karl aproximou o rosto.

    — Fala comigo. Só isso. Fala qualquer coisa.

    A resposta foi um engasgo.

    O corpo de Ivar se contraiu inteiro, um espasmo violento que fez a cabeça bater de leve na pedra. Um fio de sangue novo escorreu da lateral afundada do crânio.

    Karl puxou a mão de volta, como se tivesse queimado.

    — Não, não, não… — murmurou.

    Ele tentou lembrar de alguma coisa. Qualquer coisa. Pressionar? Imobilizar? Não mexer?

    Nada vinha.

    Atrás deles, Laura gemeu.

    Karl virou o rosto a tempo de vê-la se mexer, os olhos abrindo devagar, confusos, como se estivesse acordando de um sonho ruim.

    — Onde…? — a voz saiu fraca.

    — Fica deitada — Gustav disse rápido, mesmo com a própria respiração falhando. — Não tenta levantar.

    Laura tentou obedecer e só então percebeu as manchas escuras espalhadas pela roupa.

    Sangue.

    — Eu tô ferida? — perguntou, o pânico subindo de repente.

    — Não é seu — Gustav respondeu entre dentes. — É meu.

    Ela olhou melhor.

    As pernas dele estavam em estado pior do que havia percebido antes. Carne exposta, ossos mal alinhados, o ângulo errado denunciando algo quebrado demais para ignorar.

    Laura respirou fundo.

    Uma vez.
    Depois outra.

    O medo estava ali, mas não dominava.

    Ela se sentou com cuidado, ignorando a dor nas próprias mãos.

    — Preciso de pano. Água. Qualquer coisa limpa — disse, já olhando ao redor. — Não durma.

    — O quê? — Gustav perguntou.

    — Só não dorme. — Ela se inclinou, rasgando um pedaço da própria camisa. — Se dormir, entra em choque.

    Ela começou a pressionar os ferimentos mais evidentes, firme, sem cerimônia. Cada movimento era direto, aprendido não em livros, mas em situações onde ninguém vinha ajudar. arrancando gemidos de dor de Gustav.

    Karl voltou os olhos para Ivar.

    Ele respirava ainda mais errado agora.

    O som vinha molhado.

    — Fica comigo… — Karl insistiu, a voz falhando. — Só… só fica acordado.

    Ivar piscou uma vez.

    Depois outra.

    Os olhos pararam de acompanhar qualquer coisa.

    Laura se levantou.

    — Vou procurar suprimentos — disse. — Não se mexam.

    Ela caminhou mancando pelo espaço aberto, desviando de corpos espalhados pelo chão irregular. Alguns estavam imóveis demais. Outros respiravam, mas não por muito tempo.

    Havia ossos expostos.
    Pescoços tortos.
    Corpos dobrados em ângulos que não permitiam erro.

    Ela engoliu seco e seguiu.

    Perto da parede, encontrou as caixas.

    Algumas tinham se partido na queda. Mantimentos espalhados. Tecidos rasgados. Vidros quebrados.

    Uma delas ainda estava inteira.

    Laura ajoelhou-se e abriu.

    Dentro, frascos.

    Poções de cura.

    O alívio durou pouco.

    A maioria havia se rompido. O líquido esverdeado estava espalhado pelo chão, evaporando lentamente.

    Ela contou.

    Uma.
    Duas.
    Três.
    Quatro.

    Quatro frascos intactos.

    — Merda… — sussurrou.

    Ela pegou todos e voltou o mais rápido que conseguiu.

    Karl estava com Ivar nos braços agora, tentando mantê-lo ereto.

    — Achei poções — Laura disse, erguendo os frascos. — Só quatro.

    Karl ergueu o olhar na mesma hora.

    — Dá uma pra ele. Agora.

    — Karl… — ela começou.

    — Agora! — ele gritou, já estendendo a mão. — Você viu ele respirar! Ele ainda tá vivo!

    Laura segurou os frascos contra o peito.

    — Ele tá morrendo — disse, dura. — Isso não é ferimento que poção comum cura.

    — Você não sabe disso! — Karl rebateu, a voz quebrando. — Você não sabe o quanto—

    — Eu sei exatamente o que isso cura. — Ela deu um passo à frente. — E sei o que não cura.

    Karl balançou a cabeça, negando.

    — Então usa duas. Três. Todas, se precisar!

    — E aí o quê? — Laura explodiu. — A perna do Gustav apodrece? A garota que se arriscou para te ajudar morre? A gente perde todo mundo tentando salvar alguém que já se foi? incluindo você! olha seu estado!

    Ivar teve outro espasmo.

    O corpo inteiro tremeu.

    Depois relaxou demais.

    Karl sentiu o peso mudar nos braços.

    — Não… — sussurrou.

    Laura apontou para Gustav que ficava cada vez mais palido.

    — Mesmo a perna dele eu não sei se vai voltar. — A voz falhou por um segundo, mas ela continuou. — Essas poções não fazem milagre.

    Karl fechou os olhos com força.

    Quando abriu, eles estavam vazios de algo que ainda não tinha nome.

    Ele soltou Ivar devagar.

    Pegou um dos frascos da mão de Laura.

    — Me dá — disse, sem olhar para ela.

    Laura não discutiu.

    O frasco passou de uma mão para a outra.

    Karl ficou parado por um instante, encarando o líquido dentro.

    Depois ergueu a poção.

    E bebeu.

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