Capítulo 103 - "A Queda V"
O gosto era amargo.
E não era da poção.
Ela desceu queimando.
Não como dor, mas como uma imposição como se o corpo estivesse sendo forçado a lembrar como funcionava.
Lyra foi a primeira a reagir.
O tremor nos dedos cessou. Os olhos voltaram a focar. A respiração se estabilizou rápido demais para parecer natural. Ela levou a mão à lateral da cabeça e fez uma careta ao tocar a pele exposta, sensível demais.
— Ainda tá… — murmurou, passando os dedos com cuidado. — Sangrando?
Não estava.
As escoriações fechavam lentamente, deixando apenas linhas avermelhadas na pele. O couro cabeludo permanecia cru, exposto, mas o sangue havia parado.
Viva. Inteira.
Karl mal teve tempo de notar antes de ouvir Gustav.
Um gemido baixo.
Depois, um espasmo violento na perna.
— Agora. — Laura disse, já ajoelhada ao lado dele.
Gustav estava pálido demais. Os lábios sem cor. Quando a poção começou a agir, o corpo reagiu como se algo o puxasse por dentro.
A perna, antes torcida num ângulo impossível, foi alinhada à força.
Ele gritou.
O som saiu quebrado, curto, incapaz de acompanhar o tamanho da dor.
Laura manteve o joelho pressionado contra a coxa dele, os braços firmes segurando o osso no lugar enquanto os cortes mais profundos começavam a se fechar. Se soltasse, a regeneração poderia acontecer torta.
O grito virou um suspiro longo.
Depois, nada.
Gustav desmaiou.
— Melhor assim. — Laura murmurou, sem aliviar a pressão. — Menos movimento.
Eles viram acontecer.
A pele se fechando devagar demais para ser confortável. O sangue seco sendo engolido pela carne. As bordas dos ferimentos se unindo como se nunca tivessem existido, embora a perna ainda tremesse, exausta.
Karl desviou o olhar.
— Agora você. — Lyra disse.
O braço esquerdo ainda pendia errado.
Ela não pediu permissão.
Apoiaram um pedaço de madeira. Lyra posicionou as mãos com um cuidado surpreendente — firme onde precisava, delicada onde não podia errar.
— Vai doer.
— Já dói.
O estalo foi seco.
Karl gritou. A visão escureceu nas bordas. O mundo se reduziu a dor e respiração irregular.
A poção já fazia efeito.
O osso voltou ao lugar. A dor mudou, deixou de explodir e passou a pulsar fundo, como algo sendo apertado por dentro. Ele sentiu os cortes se fechando, a sensação errada de algo se recompondo onde não devia haver sensação alguma.
Lyra manteve o braço imóvel até o tremor cessar.
Só então soltou.
O silêncio caiu pesado.
Gustav respirava fundo, inconsciente. Laura se afastou, as mãos cobertas de sangue seco. Lyra limpava os dedos na própria calça, sem pressa.
Karl foi o primeiro a falar.
— Por que você me ajudou?
Lyra ergueu o olhar devagar. Parecia desprevenida. Abriu a boca. Fechou. Pensou tempo demais.
— Eu… — começou. Parou. — Não sei.
Ele franziu o cenho.
Ela desviou o olhar, incomodada.
— Eu ajudo quando faz sentido. Só isso.
Karl a observou por um instante.
— Obrigado.
Ela deu de ombros, encerrando o assunto.
Karl respirou fundo.
O corpo ainda doía, mas funcionava.
E agora?
Ele olhou para trás. Escuridão. Rocha. Nenhum sinal do caminho de volta.
— Voltar não é opção. — Laura disse. — Nem sabemos onde estamos.
Karl encarou o túnel à frente.
O vento vinha dali. O cheiro estranho também.
— Então seguimos.
Laura já se movia. Quebrou tábuas, arrancou pedaços de madeira das caixas destruídas, rasgou tiras de tecido.
Imobilizou o braço de Karl com eficiência prática. Depois reforçou a perna de Gustav, criando uma tala firme o bastante para aguentar o arrasto.
Por fim, puxou uma tábua larga.
— Coloca ele aqui.
Karl ajudou como pôde. Gustav foi deitado sobre a madeira.
— Você não vai carregar. — Laura disse. — Vai arrastar.
Karl assentiu.
O túnel não dava trégua.
Largo, irregular, longo demais para quem puxava um corpo ferido sobre madeira improvisada. O som da tábua raspando na pedra ecoava num ritmo cansativo.
Gustav não acordou.
Karl puxava quando podia. Laura empurrava quando a tábua prendia. Lyra seguia atrás, ajustando o corpo de Gustav para não cair.
Depois de um tempo, Laura quebrou o silêncio.
— Obrigada.
Lyra ergueu a cabeça.
— Pelo quê?
— Por ter ajudado o Kael. Quando tudo desandou lá em cima.
Lyra piscou, surpresa.
— Ah… — murmurou. — Ele parecia precisar.
Laura soltou um riso curto.
— Estranho jeito de dizer, mas… obrigada.
Caminharam mais alguns metros.
— Posso perguntar uma coisa? — Lyra disse, olhando para Karl.
Ele não respondeu.
— Você é mesmo filho dela? — continuou. — Ela parece jovem demais pra—
Laura riu baixo.
Virou-se com um sorriso cansado.
— Sou velha o bastante. Ele só herdou o pior de mim.
Tentou cutucar Karl.
— Não é, filho?
Nenhuma resposta.
Karl caminhava rígido, atento demais.
— Espera.
Ele se adiantou, ajoelhando-se. Passou a mão pelo chão, pela parede.
— Armadilha.
Laura congelou.
— Onde?
— Aqui. Pressão. Se pisar, aciona.
— Você tá vendo isso no escuro? — Lyra perguntou.
— Não. Dá pra perceber.
Karl desarmou a primeira. Depois a segunda.
Na terceira, parou.
— Essa é diferente.
Havia marcas.
Runas antigas, com pouco desgaste, ainda ativas.
— Não conheço essas runas — Ele olhou para trás — Lyra?
Ela se aproximou, os olhos mudando com interesse.
— Energia. — murmurou. — Liberação concentrada de mana.
Apontou para uma runa menor.
— O Gatilho.
Riscou a inscrição com a lâmina.
O ar vibrou por um segundo.
Silêncio.
— Prontinho.
— Simples assim?.. — Karl perguntou um pouco incrédulo.
— É fácil quando você entende.
— Pode me ensinar então?
Lyra travou.
— Agora?
— Não agora, quando acharmos um lugar para descansar. — Ele falou se levantando.
— Combinado então. — Ela se levantou num movimento rápido demais para o estado em que deveria estar, passando à frente de Karl no túnel.
As duas seguintes foram iguais.
O túnel começou a mudar.
O ar ficou menos abafado.
Depois, a luz.
Um brilho alaranjado surgiu ao longe. Cresceu a cada passo.
Quando chegaram à abertura, todos pararam.
Uma cidade subterrânea se abria diante deles.
Imensa.
As ruínas desciam em níveis circulares, formando um funil colossal até um centro profundo onde um brilho alaranjado pulsava como um coração enterrado.
Cristais do Véu, de vários tamanhos, iluminavam paredes, colunas e estruturas antigas.
Prédios inclinados. Pontes quebradas. Jardins de pedra suspensos.
Antiga. Viva. Morta.
E eles estavam no topo do funil.
Pequenos demais para aquilo.
— …Merda. — Laura murmurou. — Onde foi que a gente veio parar?
A abertura do túnel não dava direto para o chão.
A saída terminava num patamar irregular de pedra e metal fundidos, estreito o bastante para uma antiga via de acesso, mas com uma queda curta logo à frente. Nada perigoso para quem estivesse inteiro.
Para quem arrastava um homem inconsciente numa tábua improvisada… era outra história.
— Devagar. — Laura disse, já descendo primeiro. — Se ele escorregar aqui, acabou.
Karl ficou no topo da abertura, segurando a corda improvisada presa à tábua onde Gustav estava amarrado.
O braço recém-imobilizado protestava a cada ajuste, uma dor funda, insistente, mas ele manteve o controle. Soltava centímetro por centímetro, lento demais para o próprio gosto, rápido demais para qualquer erro.
Lá embaixo, Laura guiava a descida, as mãos firmes na madeira, o olhar fixo em Gustav.
Lyra ajudava a manter a tábua alinhada, mas o corpo dela estava tenso, não pelo peso, e sim pelo espaço aberto à frente. Era a primeira vez desde a queda que o mundo não era com o teto baixo e feito de pedra.
Foi então que Karl ouviu.
“Clac”.
Baixo demais.
Metálico demais.
Ele virou a cabeça no mesmo instante.
Algo se movia junto à parede do túnel.
— Parem. — sussurrou.
Laura congelou. Lyra travou no lugar.
Da fenda na rocha, uma forma se projetou com precisão mecânica.
Uma criatura metálica emergiu da parede.
Do tamanho de um prato, corpo achatado, múltiplas patas finas e articuladas demais para algo antigo. No centro, um cristal do Véu opaco pulsava com uma luz alaranjada fraca.
Uma aranha de metal.
Karl ergueu o pé de imediato, o peso do corpo já preparado para esmagar.
— Karl… — Laura começou, em voz baixa demais. — Se prepara pra correr.
— Se eu correr, ele cai.
— Eu sei. Só… se prepara.
A criatura ignorou Karl completamente.
Desceu pela rocha com movimentos precisos e silenciosos, aproximando-se da tábua de Gustav.
— Não chega perto. — Karl rosnou, o instinto gritando para atacar.
Antes que pudesse reagir, a aranha se abaixou.
As patas se moveram rápido, não em ataque, mas em trabalho. Uma delas puxou uma das tábuas soltas sob o peso do corpo de Gustav. Outra pressionou o encaixe, redistribuindo o apoio. Um terceiro par ajustou as amarrações de tecido, reforçando os nós.
A tábua parou de ranger.
Gustav não se mexeu.
Não houve dor. Nenhuma reação.
Karl ficou imóvel.
Outra aranha surgiu logo atrás. Depois outra.
— Merda… — Laura murmurou, presa na posição, sem espaço para reagir sem soltar Gustav.
As criaturas não olhavam para eles.
Não reagiam à presença humana.
Trabalhavam.
Uma reforçou a base da tábua contra a rocha. Outra alinhou a descida, criando um apoio melhor para o último trecho. O processo levou segundos. Segundos longos demais para Karl respirar direito.
O braço doía.
O suor escorria frio pela nuca.
Então, como se nada tivesse acontecido, as aranhas se afastaram.
Desceram pela parede e desapareceram nas fendas da rocha.
O silêncio voltou pesado.
Laura soltou o ar devagar.
— O que… — ela engoliu seco. — O que foi isso?
— Elas não atacaram… — Lyra disse, ainda incrédula.
Karl não respondeu.
Desceu por último.
Quando tocou o chão da cidade, manteve o olhar fixo nas paredes, atento a qualquer movimento.
— Não confia. — disse por fim. — Só não atacaram ainda.
Laura assentiu sem discutir.
Agora que estavam fora do túnel, a cidade se revelava.
As estruturas se espalhavam em camadas circulares, descendo como um funil colossal escavado no mundo. Edifícios incrustados diretamente na rocha, pontes arqueadas ligando níveis diferentes, colunas metálicas emergindo das paredes, algumas partidas, outras intactas, sustentando plataformas suspensas.
O calor vinha de baixo.
Não do ar, mas da pedra. Um calor profundo, constante, que subia do coração da cidade.
— Isso não é uma mina… — Lyra murmurou, quase em reverência. — Parece uma capital.
Karl sentiu o estômago afundar.
Não era um lugar feito para pessoas ficarem de forma temporária.
Era um lugar feito para civilizações.
As aranhas estavam por toda parte agora.
Algumas intactas, funcionando com precisão silenciosa.
Outras danificadas, com patas tortas, movimentos falhos, cristais opacos.
Uma delas estava caída no piso de pedra, partida ao meio, provavelmente por conta de uma queda antiga.
Duas outras surgiram quase imediatamente.
Sem hesitar, desmontaram a companheira danificada. Recolheram peças úteis, substituíram segmentos quebrados. O cristal foi limpo, reposicionado.
Em instantes, a aranha voltou a se mover.
— Elas mantêm tudo funcionando… — Lyra murmurou. — Mesmo depois de todo esse tempo.
— Então a gente anda devagar. — Laura disse. — E não provoca nada.
Karl assentiu.
Foi então que ele viu.
Incrustada numa das paredes do funil, havia uma estrutura muito mais preservada que o resto. Portões metálicos altos, símbolos profundamente entalhados, colunas lisas sustentando uma entrada ampla.
Parecia um templo.
As aranhas circulavam ali com frequência. Nenhuma danificada.
— Como isso ainda tá inteiro? — Karl murmurou.
— Parece velho… — Laura completou. — Mas não abandonado de verdade.
Eles avançaram com cautela.
A porta não estava fechada.
Dentro, o espaço se abria em um salão amplo. O chão era marcado por padrões geométricos gravados na pedra. Fragmentos de murais cobriam as paredes. No centro, estruturas circulares agora silenciosas, como máquinas adormecidas.
Uma aranha subiu por uma coluna interna, ajustou um cristal solto e desapareceu por uma fenda no teto.
— Isso não parece ser só um templo. — Lyra disse, caminhando até um dos murais. — parece como um Hipogeu.
— Um quê? — Laura perguntou, impaciente.
Lyra apontou.
O mural ocupava quase toda a parede.
Quatro figuras eram imediatamente reconhecíveis.
Um ser humanoide feito de madeira e folhas, envolto em tons de verde — Rumbrath.
Ao lado, um humano pálido, orelhas pontudas, vestes claras marcadas por um floco de gelo — Gel’Varel.
Depois, uma criatura cinza, grande, de um olho só e presas largas, com as mãos cravadas no solo — Or’Karron.
Por fim, uma raposa humanoide de múltiplas caudas, segurando um leque — Kenzaru.
Mas havia mais.
Abaixo do mural, parcialmente danificada, uma figura aquática, com traços humanoides e membranas sutis, envolta em correntes estilizadas.
Nenhum deles reconheceu.
Acima de todos, flutuando, a figura central.
Um homem.
Aparência humana comum. Túnicas claras. Anéis de energia girando ao redor do corpo. Inscrições gravadas em arco ao redor da imagem.
Lyra aproximou-se, os olhos brilhando.
— Essas letras… — murmurou. — As do centro eu conheço. Dizem Sae’Lun.
Laura sentiu um arrepio.
— Você tá me dizendo que os Sae’Lun… — ela hesitou. — Pareciam humanos?
Lyra assentiu devagar.
— Pelo menos… era assim que parece estar retratado.
Karl soltou a corda da tábua de Gustav.
— Gente, vamos ver isso depois. — disse, firme. — Agora a gente precisa entender onde pisou.
Ele respirou fundo, varrendo o salão com o olhar atento.
— Primeiro abrigo. Segundo comida e Terceiro uma rota de saída desse lugar. — Karl se abaixou desamarrando Gustav das taboas — Vamos. Temos muito o que fazer aqui.

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