Índice de Capítulo

    O Salão do Corvo não havia sido feito para conforto.

    Localizado na ala oeste do castelo de Cervalhion, ele existia para lembrar aos presentes que alianças eram temporárias e poder, sempre relativo. As três mesas de madeira escura dispunham-se de forma peculiar: vistas de cima, pareciam as bordas de um círculo dividido em três partes iguais. Nenhuma se tocava. Nenhuma permitia que alguém ocupasse o centro. Era um aviso antigo, gravado na própria arquitetura, ali não havia união plena, apenas interesses que se toleravam.

    No segmento reservado a Altheria da Névoa, Lysvallis ocupava a posição central. Sua postura era impecável, a expressão tão serena quanto uma lâmina de gelo repousando sobre veludo. À sua direita, Alexia observava o salão em silêncio absoluto, os olhos atentos a cada movimento, cada mudança de tom. Elenys mantinha as mãos cruzadas sobre o colo, um sorriso educado demais para ser sincero adornando o rosto.

    Ian permanecia em pé, ligeiramente atrás de Lysvallis.

    Não por hierarquia. Por escolha.

    Sua presença era constante, sólida, como uma sombra que não precisava se mover para ser percebida.

    Do lado de Cervalhion, Aedin Valcor ocupava o assento principal. Os ombros largos estavam retos, as mãos firmes apoiadas sobre a mesa. À sua esquerda, Melissa mantinha o olhar calculado, registrando reações sem escrever uma única palavra. Eldrik exibia uma postura tensa, os olhos ocasionalmente desviando para a comitiva de Altheria, como se medisse cada respiração.

    Danurem contrastava com todos eles.

    Braços cruzados, corpo relaxado demais para um encontro daquela magnitude, parecia quase entediado. Os lordes Vlacir e Harvem trocavam olhares contidos, enquanto Lady Avelor observava em silêncio absoluto, imóvel como uma estátua de pedra polida.

    O terceiro segmento era ocupado pela comitiva de Elandor.

    A formalidade que emanava deles era rígida, quase ritualística. A rainha mantinha o queixo erguido, avaliando cada rosto como quem pesa riscos em uma balança invisível. Ao seu lado, o rei permanecia em silêncio, atento, aguardando o momento exato para falar.

    Aedin foi o primeiro a quebrar o silêncio.

    — Convocamos esta reunião porque o que ocorre em Cervalhion deixou de ser um problema local.

    Sua voz ecoou pelo salão, firme, sem pressa.

    — As grandes bestas não estão mais surgindo em ciclos previsíveis. Não são surtos isolados. — Ele fez uma breve pausa. — Elas seguem um padrão.

    Um murmúrio controlado percorreu o lado de Elandor.

    — Patrulhas estão sendo sobrecarregadas. Fronteiras estão cedendo. — continuou Aedin. — E isso não vai parar nas muralhas do meu reino.

    Lysvallis inclinou levemente a cabeça.

    — Altheria está ciente do aumento das ocorrências. — respondeu, a voz calma. — Mas Cervalhion não teria convocado três reinos apenas por números crescentes.

    O silêncio que se seguiu foi pesado.

    Danurem descruzou os braços.

    Levantou-se.

    O som da cadeira raspando no piso de pedra cortou o salão como uma lâmina.

    — Relatórios não explicam o que encontramos. — disse, sem cerimônia. — E números não descrevem o que enfrentamos.

    Ele fez um gesto curto para um criado próximo às portas.

    — Traga.

    As portas do Salão do Corvo se abriram.

    Dois soldados entraram, carregando algo grande, envolto por um lençol espesso. O tecido estava manchado em alguns pontos por um tom escuro que ninguém ali precisou identificar.

    O peso do objeto fez o salão silenciar por completo.

    Danurem aproximou-se.

    Sem hesitar, puxou o lençol.

    A cabeça da criatura foi revelada.

    Chifres maciços se projetavam para trás, marcados por rachaduras de impacto. A pele grossa ainda conservava cristais de gelo presos às fendas, preservando não apenas a carne, mas a expressão. Os olhos, parcialmente abertos, não carregavam a fúria cega típica das bestas conhecidas.

    Havia cálculo ali.

    Consciência.

    Ian ajustou o peso do corpo ao ver a criatura, os olhos fixos nos detalhes errados demais para serem ignorados.

    Um choque percorreu a mesa de Elandor. Um dos nobres se ergueu parcialmente, incrédulo.

    — Isso… — a rainha começou, mas conteve a frase. — Isso não pertence a nenhum registro.

    — Não pertence. — Danurem confirmou. — Encontramos isso na última exploração da região oeste de Cervalhion.

    Ele indicou a cabeça.

    — A criatura emergiu de um túnel recém-formado. Não uma fenda natural. Um túnel aberto de dentro para fora.

    Aedin manteve o olhar fixo, permitindo que Danurem conduzisse.

    — Lutava com estratégia. — continuou ele. — Mirava pontos fracos. Recuava quando pressionada. Usava magia de fogo não apenas para atacar, mas para se ocultar. Criava cortinas de calor e fumaça nos momentos críticos.

    O impacto das palavras se espalhou pelo salão.

    Aquilo não era apenas uma besta.

    Era algo que aprendia.

    — E não foi um encontro isolado. — Danurem acrescentou. — No leste, temos confirmação de duas grandes bestas ainda foragidas. Diferentes entre si. Ambas fora de qualquer registro conhecido.

    Ele se calou.

    A rainha de Elandor recostou-se lentamente, os dedos apertando o braço da cadeira.

    — Isso ultrapassa qualquer acordo de patrulha comum… — murmurou.

    O rei de Elandor então endireitou a postura.

    — Concordo que é grave, Aedin. — disse, a voz firme. — Mas o que você pede não é simples apoio.

    Ele apoiou uma das mãos na mesa.

    — Você está pedindo que eu envie minha elite, meus melhores soldados, para enfrentar ameaças que sequer compreendemos. — Seus olhos percorreram o salão, detendo-se brevemente em Lysvallis. — E espera que façamos isso sem saber exatamente o que nos aguarda?

    Ele balançou a cabeça, em negativa.

    — Para convocar uma reunião desse porte, eu esperava mais do que relatos fragmentados. — continuou. — Esperava saber que tipo de criaturas rondam o leste ou se descobriram a causa da instabilidade da barreira. Mas, pelo que vejo, vocês estão no escuro ainda.

    Aedin não desviou o olhar.

    — Você está parcialmente equivocado, rei Varyn. — respondeu, apoiando os braços sobre a mesa. — Temos descrições incompletas, padrões emergentes. No início, acreditamos que fossem erros de registro. Aberrações isoladas.

    Ele fez uma breve pausa.

    — Depois do encontro de Danurem, ficou claro que não estamos lidando com equívocos. — Sua voz endureceu. — Estamos lidando com algo novo surgindo.

    O silêncio que se seguiu às palavras do rei de Elandor não foi confortável.

    No Salão do Corvo, o ar parecia mais pesado. As três mesas, separadas, reforçavam a verdade incômoda: ninguém ali estava disposto a ceder de graça.

    Lysvallis foi a primeira a quebrar o silêncio.

    — Antes que esta reunião se transforme em um leilão de soldados — disse, a voz firme, sem elevar o tom — Altheria propõe outra abordagem.

    Alguns olhares se voltaram imediatamente para ela. Outros, para Ian.

    — O aumento das grandes bestas são um sintoma. — continuou Lysvallis. — Não a causa. E enquanto tratarmos apenas os sintomas, estaremos reagindo, não resolvendo.

    — E você sabe qual é a causa? — Varyn provocou.

    — Ainda não. — Lysvallis respondeu sem hesitar. — Mas sabemos onde começar a procurar.

    Ela se endireitou na cadeira olhando para as matriarca que confirmaram com um aceno curto antes de seguir.

    — Há muitos anos que estudamos a barreira, principalmente porque a parte norte da barreira sempre pareceu ser a mas fraca, com grandes bestas nos atacando de forma regular, e após notarmos que estávamos sem aliados para recorrer, nossos estudiosos localizaram um local onde a energia da barreira parece vir. — Ela calmamente apoiou uma das mãos na mesa antes de continuar — E esse ponto está nas montanhas centrais.

    A declaração pareceu pegar todos ali de surpresa.

    Aedin estreitou levemente os olhos.

    — Está sugerindo uma expedição para lá?

    — Estou sugerindo que entendamos o que está destruindo nossa proteção contra as bestas. — respondeu Lysvallis. — A barreira.

    Ela virou-se levemente.

    — Nossos estudiosos tentaram investigá-la. — ela prosseguiu. — Magia direta, sondagens, artefatos antigos. Nada atravessa. Nada responde.

    O rei de Elandor apoiou os dedos na mesa.

    — E o que Altheria propõe, então? — perguntou. — Mais teorias?

    Lysvallis virou-se ligeiramente.

    — Guardiões.

    O salão reagiu de imediato.

    Um murmúrio correu entre os representantes de Elandor. Vlacir franziu o cenho. Harvem trocou um olhar rápido com Avelor. Até Danurem descruzou os braços, atento de verdade pela primeira vez.

    — E o que os Guardiões podem fazer? — alguém murmurou do lado de Elandor, baixo demais para ser oficial, alto demais para passar despercebido.

    — Muito mais do que vocês imaginam. — Lysvallis respondeu sem hesitar. — E operam fora dos limites que outros magos podem alcançar.

    Ela então olhou diretamente para Ian.

    — Altheria pretende enviar uma pequena comitiva ao ponto de origem da barreira, nas montanhas centrais. Uma investigação direta. Não acadêmica. De sondagem.

    Aedin se moveu na cadeira.

    — As montanhas centrais são território meu. — disse, com cuidado excessivo. — Realmente pretende mandar uma expedição sem o meu consentimento?

    — A situação é critica Aedin, quer esperar o numero de mortos dobrar?. — Lysvallis respondeu.

    Antes que Aedin pudesse continuar, uma respiração pesada foi ouvida no salão. todos viraram o rosto na direção da origem e viram Ian esfregando as mãos no rosto.

    — Realmente.. — Ele murmurou alto o suficiente para que todos ouvissem. — Eu realmente estou velho demais para esse joguinho.

    Ele levantou o rosto e começou a caminhar até o centro do salão.

    O som dos passos no piso ecoou no salão.

    Danurem que havia se sentado voltou a ficar de pé se posicionando próximo de Aedin.

    — Eu vou. — disse.

    Não houve cerimônia. Nem pedido de permissão.

    Alguns se sobressaltaram. Eldrik ergueu o olhar imediatamente. Alexia e Elenys não reagiram, já esperavam.

    — Guardião… — começou Aedin.

    — Estou pedindo algo? — Ian respondeu, sem encará-lo.

    Quando virou o rosto, o olhar era calmo e distante.

    — Se a barreira está ligada ao surgimento dessas bestas, ficar parado aqui discutindo tropas não vai impedir mais mortes. — disse. — E se ela está reagindo a algo… então alguém precisa chegar perto o bastante para ouvir a resposta.

    Houve um breve silêncio.

    — E você acredita que pode resolver? — perguntou o rei de Elandor, avaliando-o com interesse calculado.

    Ian demorou um segundo a responder.

    — Não sei. — disse. — Mas eu sei que não vou conseguir ignorar isso.

    Lysvallis observava com atenção. As pontas dos dedos ficando brancas devido a força que ela segurava o vestido sob a mesa devido a tensão. Mas não interferiu.

    Aedin apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos.

    — Você sabe o que existe naquela região. — disse, agora num tom mais baixo. — Ou pelo menos o que pode existir.

    Ian sustentou o olhar.

    — Sei o suficiente para saber que evitar não vai fazer desaparecer.

    Por um instante, algo quase imperceptível passou pelo rosto de Aedin. Algo além do medo. Cálculo.

    — Altheria envia seu Guardião. — disse ele por fim. — Muito bem. Cervalhion não irá impedir.

    Fez uma pausa curta.

    — Mas Eldrik, Danurem e outros soldados irão acompanhar essa expedição de perto. — acrescentou. — Se algo for encontrado… Cervalhion precisa saber.

    Lysvallis inclinou levemente a cabeça.

    — Naturalmente.

    O rei de Elandor observava a cena com atenção silenciosa demais.

    — Então é isso. — disse ele, por fim. — Enquanto Cervalhion luta para conter bestas nas fronteiras, Altheria envia um homem para tocar o coração do problema. Mas Elandor não pode ficar de braços cruzados certo? vou enviar nossa Guardiã para auxilia-los.

    Ele apoiou uma mão na mesa.

    — Espero que voltem com algo além de respostas pessoais.

    Ian não respondeu.

    Seu olhar havia se perdido por um instante.

    Para as montanhas centrais.

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