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    Dentro do salão, as conversas já davam sinais de exaustão.

    As posições haviam sido marcadas, as palavras essenciais ditas. Ainda assim, ninguém se levantava. As três mesas permaneciam separadas, como sempre, mas a tensão começava a se diluir sob o peso calculado das comidas e bebidas servidas, um pré-anúncio do baile que celebraria o encontro. Risadas baixas surgiam aqui e ali, cuidadosas demais para parecerem genuínas.

    Foi o rei Varyn quem rompeu o equilíbrio frágil.

    Ele não se levantou de imediato. Apenas apoiou os dedos longos sobre a mesa de Elandor e inclinou-se levemente para a frente.

    — Há um ponto que ainda não foi discutido. — disse, com calma absoluta. chamando a atenção das presentes.

    Aedin ergueu o olhar.

    — Qual seria?

    Varyn sorriu de leve, um gesto educado demais para ser inocente.

    — O que mais seria meu amigo? O custo.

    O murmúrio cessou de imediato.

    — Podemos lhes enviar tropas. — continuou Varyn. — Ajudar com as patrulhas conjuntas. E até mesmo Elandor pode aceitar o risco de envolver sua elite em uma expedição para as montanhas centrais, um território instável, próximo à origem da barreira e — pelo que ouvimos — potencialmente ligado a algo que sequer compreendemos ainda.

    Ele fez uma pausa breve.

    — E tudo isso em nome da contenção de uma ameaça que… até o momento… está dentro das suas fronteiras.

    Aedin cruzou os braços.

    — As bestas não respeitam fronteiras. — respondeu. — Se Cervalhion cair, Elandor será o próximo.

    — Talvez. — Varyn concedeu. — Ou talvez não.

    O ar no salão pareceu esfriar.

    — Elandor sempre cuidou bem de suas próprias defesas. — disse o rei. — O que nos trouxe aqui não é medo Aedin. Mas a oportunidade… ou risco calculado.

    Lysvallis observava em silêncio, os olhos atentos demais para alguém que não pretendia intervir.

    — Então diga logo o que quer, Varyn. — Aedin falou, direto.

    O rei assentiu, como se estivesse esperando exatamente isso.

    — Terras. — respondeu, simples.

    Alguns dos presentes se mexeram nos assentos.

    — As regiões orientais de Cervalhion. — continuou Varyn. — As áreas de fronteira menos povoadas, onde as patrulhas já estão rareando. Terras que vocês mal conseguem proteger neste momento.

    Danurem se mexeu, visivelmente.

    — Isso é inaceitável. — disse ele, antes que Aedin pudesse falar.

    Varyn nem olhou para ele.

    — Ainda não terminei. — disse, com suavidade perigosa.

    O silêncio retornou.

    — Não falo de anexação imediata. — prosseguiu. — Falo de administração provisória. Fortificações conjuntas. Presença militar permanente de Elandor para conter as bestas… e qualquer instabilidade que surja.

    Ele inclinou a cabeça levemente.

    — Um fardo a menos para Cervalhion. Um investimento para nós.

    Aedin permaneceu imóvel por um momento longo demais.

    — Você está me pedindo para ceder território sob ameaça. — disse por fim.

    — Não. — Varyn corrigiu. — Estou oferecendo ajuda em troca de algo que você talvez não consiga manter.

    A frase ficou suspensa no ar.

    Danurem estreitou os olhos. Melissa manteve o rosto impassível.

    — E se eu recusar? — Aedin perguntou.

    Varyn deu de ombros.

    — Então Elandor lamentará profundamente… enquanto observa. — respondeu. — Não somos responsáveis pelas escolhas de outros reinos.

    A frase era educada.

    A mensagem, brutal.

    Lysvallis finalmente se moveu.

    — Altheria não reconhecerá qualquer cessão territorial decidida sob pressão militar. — disse, com firmeza. — Nem apoiará ações oportunistas em meio a uma crise.

    Varyn inclinou levemente a cabeça na direção dela.

    — Naturalmente. — respondeu. — Por isso estou conversando com Cervalhion.

    Aedin respirou fundo.

    — Essa não é uma decisão que tomarei hoje. — disse. — Nem sob ultimatos velados.

    — Eu não esperaria nada menos. — Varyn respondeu. — Mas a expedição partirá em breve. E decisões costumam amadurecer rápido quando o mundo começa a ruir.

    Ele se levantou então, ajustando o manto.

    — Nesse caso pense nisso como… Um apoio emprestado. — concluiu. — Elandor sempre cobra seus empréstimos.

    O rei Varyn virou-se para a saída.

    — Creio que já dissemos tudo o que era necessário hoje. — disse. — Nos veremos no baile.

    A reunião estava encerrada.

    Mas nenhuma dívida havia sido esquecida.


    Após a saída da comitiva de Elandor os representantes de Altheria também se retiraram, seguidos pelos lordes de Cervalhion. Aedin permanecera apenas o tempo suficiente para trocar formalidades finais e promessas vagas, compromissos que poderiam ou não se concretizar. Depois disso, o salão voltou a ser o que sempre fora: pedra, ecos e segredos.

    Varyn caminhou sem pressa até uma das portas laterais.

    — Aura.

    A Guardiã de Elandor destacou-se da sombra próxima às colunas e o seguiu em silêncio.

    Eles atravessaram um corredor estreito, iluminado apenas por archotes baixos. Ali, o castelo parecia mais antigo, mais honesto. As paredes não exibiam brasões, apenas marcas do tempo.

    Varyn parou diante de uma janela estreita que dava para o pátio interno.

    Só então falou quase sussurrando.

    — Eldrik ainda vive.

    Aura não respondeu de imediato.

    — Vive — confirmou, por fim.

    O rei inclinou levemente a cabeça, como quem processa uma informação que já conhecia.

    — Isso é… incomum. — disse. — Eu não a enviei para observar. Enviei você com um objetivo claro.

    Aura manteve a postura firme, as mãos cruzadas atrás do corpo.

    — Eu sei qual era a missão.

    — Então me diga — Varyn continuou, a voz baixa, sem acusação — O que mudou?

    Aura respirou fundo antes de responder.

    — O alvo.

    Varyn virou o rosto lentamente em sua direção.

    — Explique.

    — Eldrik não age como um herdeiro despreparado. — disse ela. — Ele evita deslocamentos solitários. Não frequenta espaços abertos sem escolta. Mesmo nos corredores internos, está sempre cercado por oficiais, soldados ou membros do conselho.

    Ela ergueu o olhar, encontrando o dele.

    — Ele está sempre se movendo por ambientes cheios. Sempre.

    Varyn permaneceu em silêncio por alguns segundos.

    — Multidões nunca foram um obstáculo para você. — observou. — Eu lembro do que você fez com o antigo lorde dos arcos.

    Aura não recuou.

    — Não quando o caos é aceitável. — respondeu. — Aqui, não é.

    Ela deu um passo à frente.

    — Qualquer ação direta agora não seria um assassinato. Seria um incidente político imediato. Um erro impossível de ocultar.

    O rei apoiou uma das mãos na pedra fria da janela.

    — Então o problema não é acesso. — murmurou. — É contexto.

    Aura assentiu.

    — Exatamente.

    O silêncio se alongou.

    Lá fora, o vento atravessava o pátio carregando o som distante de vozes e metal.

    — Interessante… — disse Varyn por fim. — Um príncipe que se esconde entre pessoas acredita que isso o torna intocável. Mas também abre um precedente.

    Ele voltou-se para Aura.

    — Enquanto estivermos aqui, aproxime-se dele, isso vai ser útil fora das muralhas, lá não há salões. — disse calmamente. — Não há multidões. Não há olhares atentos demais.

    Os olhos de Aura se estreitaram levemente.

    — A expedição. — concluiu.

    — Exato. — confirmou Varyn. — Montanhas, terreno instável, bestas, decisões rápidas. Um ambiente onde erros acontecem… e raramente têm testemunhas confiáveis.

    Ele deu um passo em sua direção.

    — Eu não te enviei para esperar a oportunidade perfeita, Aura. — disse, sem elevar a voz. — Eu te enviei para reconhecê-la quando surgisse.

    Aura inclinou levemente a cabeça.

    — E se não for possível?

    Varyn sorriu. Não havia humor ali.

    — Então Cervalhion sangra. — respondeu. — E Elandor recolhe o que sobrar.

    Ele voltou o olhar para a janela.

    — De qualquer forma, o resultado nos favorece.

    Aura permaneceu imóvel por um instante.

    — E se o Guardião interferir? — perguntou. — Ian não é um fator previsível.

    Varyn soltou um breve suspiro.

    — E o Guardião?

    — Ian terá problemas demais para se preocupar com um garoto — disse Varyn. — Especialmente quando o caminho o leva perto demais do próprio passado.

    Aura compreendeu.

    — Então não devo agir imediatamente. — concluiu. — Devo me aproximar mais. Esperar o momento certo.

    — Exatamente. — Varyn confirmou. — Eldrik não precisa morrer antes da sua partida. Caso consiga, ótimo.

    O rei se afastou da janela e começou a caminhar pelo corredor.

    — Vá. — disse por fim. — Faça o que você sempre fez melhor.

    Aura se virou para partir, mas a voz dele a deteve.

    — Aura.

    Ela parou.

    — Não falhe. — disse Varyn. — Esta oportunidade não surgirá duas vezes.

    Ela inclinou a cabeça em respeito e desapareceu pelo corredor.

    Varyn permaneceu sozinho.

    Se a cidade caísse, Elandor cresceria.
    Se sobrevivesse… talvez crescesse ainda assim.

    Para ele, a diferença era mínima.

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