Índice de Capítulo

    O céu sobre Cervalhion estava pesado.

    As nuvens de primavera se acumulavam baixas, cinzentas, carregadas de umidade. O ar era morno demais para a estação, incômodo, anunciando chuva antes mesmo do primeiro trovão.

    Lysvallis, Ian e as Matriarcas deixaram o castelo sem escolta cerimonial.

    Os portões se fecharam atrás deles com um som abafado, menos solene do que no inverno, mas não menos definitivo. O Salão do Corvo ficava para trás e ainda assim o seu peso parecia caminhar junto.

    Por alguns passos, nada foi dito.

    Foi Ian quem quebrou o silêncio.

    — Eu sei que errei. — disse, sem olhar para ela.

    Lysvallis manteve o olhar à frente.

    — Então por que fez daquela forma?

    — Porque eu cansei. — respondeu, simples. — Cansei de ficar só ouvindo discursos.

    Ela respirou fundo antes de responder.

    — Estar cansado não te dá o direito de provocar um rei dentro do próprio território.

    — Eu sei. — Ian assentiu. — Mas o que ele pode fazer?

    Lysvallis finalmente o olhou.

    — Aedin percebeu. Varyn também. — disse. — Um erro consciente ainda é um erro.

    Eles atravessaram um pátio lateral. O vento trouxe o cheiro de chuva; os primeiros pingos começaram a marcar o chão com estalos curtos.

    — Então está decidido. — disse Alexia, sem rodeios. — Montanhas centrais.

    — Sim. — respondeu Lysvallis. — A expedição deve partir em breve.

    Alexia cruzou os braços.

    — Varyn aceitou rápido demais.

    — Porque não perde de nenhuma forma. — Ian respondeu.

    Elenys inclinou levemente a cabeça.

    — E Aedin?

    Ian demorou um instante a responder.

    — Esse… eu não tenho certeza. — disse. — Ele parece acreditar que há algo nas montanhas centrais.

    Um trovão distante ecoou.

    Enquanto avançavam pelas ruas de pedra, uma figura se aproximou.

    Um nobre de Elandor, presente na reunião, vestes claras demais para aquele céu, caminhava com um sorriso treinado, como se o clima não lhe dissesse respeito.

    — Rainha de Altheria. — disse, inclinando-se com elegância calculada. — Permita-me dizer que sua presença honrou esta reunião.

    Lysvallis respondeu com um aceno mínimo.

    O olhar do homem deslizou, então, para Elenys.

    — E devo acrescentar… — continuou — que raramente se vê tamanha beleza fora das cortes de Elandor. Aceitaria minha companhia no baile esta noite?

    Elenys não elevou a voz.

    — Não. — disse, simples. — Agradeço o convite.

    O nobre sorriu, como se aquilo ainda fizesse parte do jogo.

    — Apenas uma dança. Nada—

    — A dama já deu sua resposta. — disse Ian, em tom calmo.

    O homem voltou-se para ele, avaliando-o por um instante longo demais.

    — Não foi minha intenção causar desconforto.

    — Então não insista. — Ian concluiu.

    O nobre recompôs o sorriso, agora rígido.

    — Minhas desculpas. — disse, afastando-se.

    Elenys soltou o ar lentamente.

    — Agradeço.

    Ian apenas assentiu.

    O grupo seguiu pela rua principal, agora já úmida com as primeiras gotas de chuva, até a hospedaria. Quando entraram, o som da água ficou do lado de fora, substituído pelo calor do interior e pelo cheiro de madeira molhada.

    No quarto, Naira estava próxima à janela, observando a chuva começar a escorrer pelo vidro. Kael permanecia encostado na parede, braços cruzados. Thamir estava sentado sobre a mesa.

    — Finalmente. — disse Naira. — Pelo tempo lá fora, achei que a reunião tinha terminado em guerra.

    — Ainda não. — respondeu Lysvallis.

    Ian fechou a porta atrás deles.

    — Temos três pontos. — disse, indo direto ao assunto. — Cervalhion quer tropas. Elandor quer algo em troca. E conseguimos a desculpa necessária para ir à origem.

    Ele apoiou as mãos na mesa.

    — Vamos para as montanhas centrais.

    O trovão seguinte ecoou mais próximo.

    — Hum… — Thamir grunhiu, descendo da mesa.

    O silêncio que se instalou no quarto não era confortável.

    — O que foi essa reação? — perguntou, direto, o olhar passando por Naira, Kael e Thamir. — Perdi alguma coisa?

    Kael descruzou os braços devagar.

    — estávamos tentando decidir como reagir… sem piorar tudo.

    Ian franziu o cenho.

    — Então aconteceu alguma coisa.

    Naira afastou-se da janela. A chuva agora caía firme, batendo no vidro em intervalos irregulares.

    — A comitiva de Elandor chegou a Cervalhion antes do previsto. — disse ela. — E não só para a reunião.

    Alexia se sentou em uma das cadeiras próximas da janela.

    — Continue.

    Naira respirou fundo.

    — Eles sabem quem eu sou. Não só por nome, mas por rosto. — explicou. — A Guardiã Rumbra não é exatamente um segredo entre eles.

    O peso da frase caiu lento.

    Kael completou

    — enquanto Elandor estiver aqui, Naira não pode se expor. Não pode agir abertamente. Não pode se movimentar sem levantar suspeitas.

    Ian entendeu antes mesmo do resto.

    — Se descobrirem que você não está defendendo os Rumbrath…

    — …podem orquestrar um ataque. — Naira concluiu. — Aproveitando minha ausência.

    O quarto pareceu encolher.

    Alexia olhou para Naira com atenção nova.

    — Há algo que não entendo. — disse. — Como Elandor conseguiu se manter em pé de igualdade com uma Guardiã como você por tanto tempo?

    Naira não sorriu.

    — Porque força bruta não resolve tudo. — respondeu. — Minha magia exige tempo. Preparação. — Ela fez um gesto curto com a mão. — E os soldados de Elandor são rápidos. Precisos. Sabem se dispersar antes que eu conclua um ataque efetivo.

    — Eles aprenderam a lutar contra você. — Ian murmurou.

    — Sim. — Naira confirmou. — E aprenderam bem.

    Elenys então virou o rosto lentamente para Thamir.

    Ele estava encostado na mesa, mastigando um pedaço de pão como se aquela conversa não envolvesse a queda de um reino.

    — Se eles aprenderam a lutar contra você, porque não mandar mais um? — perguntou ela. — Por que não mandar Thamir com você?

    Thamir engoliu, limpou os dedos na calça.

    — Ah, eu ajudo. — disse. — Sempre ajudo.

    Alguns olharam para ele, esperando o resto.

    — Só acho curioso. — continuou. — O melhor momento pra atacar um reino costuma ser quando a cabeça dele tá passeando fora de casa.

    Silêncio.

    — Eles já conseguem segurar uma Guardiã. — Thamir deu de ombros. — Agora dois guardiões juntos?

    Ian respirou fundo.

    — Vocês estão falando em acabar com a guerra.

    — Não, daria trabalho demais. — Thamir corrigiu, seco. — tô falando em acabar com Elandor do jeito que ele funciona hoje. Só um susto, só o suficiente para eles ficarem em pânico.

    Lysvallis sentiu o peso da decisão com clareza incômoda.

    — Isso é decretar o fim de um reino. — disse.

    — Se quiser colocar assim — Thamir deu de ombros.

    Naira sustentou o olhar.

    — Eu cansei de escolher quem vou ver cair primeiro.

    Thamir assentiu.

    — Então pronto. — disse. — Eu vou com você.

    Lysvallis e Alexia estremeceram.

    Não era uma ameaça
    Não era contenção.
    Era um fim de um reino… Sendo decretado assim.

    — Se fizermos isso — disse Lys — estaremos decidindo o destino de um reino inteiro… neste quarto.

    Naira não desviou o olhar.

    — Se isso termina a guerra, eu aceito o peso.

    Thamir assentiu.

    Ian passou a mão pelo rosto.

    — Qual o segundo problema? — perguntou.

    Kael respondeu sem hesitar.

    — Duas grandes bestas no leste. — disse. — Elas estão se movendo em direção ao vilarejo onde fica o orfanato.

    Ian olhou para ele imediatamente.

    — Quando?

    — Em poucos dias. — Kael respondeu. — Talvez menos.

    — Você vai sozinho? — Ian constatou.

    Kael assentiu.

    — Preciso.

    Ian abriu a boca, mas Kael se antecipou.

    — E não, não é por orgulho. — disse. — Com a expedição definida, você vai precisar ser ainda mais visível. Mais presente. — Ele olhou para Lysvallis. — Precisa ganhar tempo até que eu ou um deles dois retorne, você ainda não está recuperado.

    Ian observou-o em silêncio por um instante.

    Então disse:

    — Leva a Aisha.

    Kael piscou.

    — Não preciso de ajuda para matar duas bestas.

    — Eu sei. — Ian respondeu. — Mas vai precisar de ajuda para atravessar estradas longas com um bando de crianças.

    Kael riu, curto, sincero.

    — Justo. — disse. — Vou convidá-la.

    Ele fez uma pausa.

    — Obrigado.

    Thamir então limpou a garganta.

    — Terceiro problema. — disse.

    Todos olharam para ele.

    — Serena. — continuou. — Ou melhor… quem fez aquilo com ela.

    O quarto voltou a ficar pesado.

    — A gente precisa de um plano e dos bons — concluiu — Se não a próxima vitima pode não ter tanta sorte.

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