Capítulo 107 - Preparativos
O Salão do Baile estava vivo.
Candelabros altos lançavam luz dourada sobre o mármore polido, refletindo em tecidos finos, joias e olhares atentos demais para serem apenas curiosidade. A música ainda era baixa, um prelúdio calculado, enquanto os convidados ocupavam seus lugares como peças sendo posicionadas antes do jogo começar.
A chegada da comitiva de Altheria não passou despercebida.
Lysvallis entrou primeiro.
O vestido branco contrastava com o tom de sua pele e com os cabelos claros, fazendo com que seus olhos se destacassem de forma quase incômoda sob a iluminação quente do salão, como um fragmento de inverno deslocado para dentro de uma lareira. Sua postura era ereta, controlada, consciente do peso que carregava ali.
Alexia vinha logo atrás, em um vestido azul elegante, o corte sóbrio equilibrando autoridade e presença. Elenys fechava o grupo, serena, atenta, carregando consigo o silêncio respeitoso que sempre a acompanhava.
Ian entrou por último, usando um traje escuro com detalhes prateados discretos.
Sem cerimonial exagerado.
Ainda assim, o salão reagiu.
Conversas diminuíram de volume. Alguns nobres se viraram apenas para confirmar o que já sabiam. Outros fingiram não olhar, o que dizia ainda mais.
Do outro lado do salão, Eldrik os avistou.
O som da música cessou de forma gradual, como se o próprio salão tivesse sido instruído a prender a respiração.
Conversas se apagaram. Taças pararam no ar. Olhares convergiram para a escadaria central.
O Rei Aedin surgiu primeiro.
Trajava vermelho escuro, sem exageros, a cor tradicional da coroa de Cervalhion. A postura era firme, o semblante aberto, mas havia ali a tensão de quem sabia que cada palavra seria pesada depois.
Ao seu lado vinha Melissa.
Vestida em tons claros, dourado suave, a presença dela equilibrava a imponência do rei com uma serenidade quase estratégica. Onde Aedin impunha, Melissa acolhia. Onde ele marcava território, ela suavizava o impacto.
Aedin deu dois passos à frente.
— Nobres de Cervalhion… — sua voz ecoou com facilidade pelo salão — …aliados, convidados e representantes de reinos irmãos.
Ele fez uma breve pausa. Não por necessidade. Por domínio.
— Esta noite marca mais do que um baile. Marca o início da primavera em nossas terras… e o reconhecimento público de que tempos difíceis exigem encontros à altura.
Alguns murmúrios discretos correram o salão.
— Cervalhion abre suas portas não apenas para celebrar — continuou — mas para reafirmar alianças, renovar compromissos e lembrar que este reino ainda se mantém de pé.
Melissa então avançou meio passo, tomando a palavra com um sorriso controlado.
— Que esta noite seja lembrada não apenas pela música ou pelas danças — disse — mas pelas conversas que nascem aqui… e pelos caminhos que elas irão definir.
Ela inclinou levemente a cabeça na direção de Lysvallis.
— Que nossos convidados se sintam honrados. E observados com respeito.
Aedin voltou a falar, o olhar varrendo o salão uma última vez.
— Pela tradição de Cervalhion, declaro oficialmente aberto o Baile da Primavera.
Um gesto curto da mão.
A música retomou, agora mais viva, mais marcada, e o salão voltou a respirar diferente.
Não era mais expectativa.
Era movimento.
Foi nesse instante, com o baile oficialmente iniciado, que Eldrik se permitiu avançar em direção a Lysvallis.
Atravessou o espaço aberto entre as mesas com a segurança de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
— Rainha Lysvallis. — disse, inclinando levemente a cabeça. — É uma honra recebê-la nesta noite.
Ela respondeu com um sorriso contido, mas genuíno.
— A honra é minha, príncipe Eldrik.
A música permanecia em tom baixo, quase cerimonial. Ainda não era o momento da dança, apenas da observação.
Eldrik caminhou ao lado de Lysvallis por alguns passos, acompanhando o fluxo lento do salão.
— Confesso que não esperava vê-la aqui. — disse, num tom leve demais para ser casual. — Depois da reunião… imaginei que preferiria descansar.
— Eu realmente preferiria descansar. — Lysvallis respondeu sem hesitar. — Mas tenho obrigações.
— Ainda assim, muitos reis escolheriam o descanso.
— Muitos reis não governam Altheria.
Eles pararam próximos a uma das colunas ornamentadas. O salão se movia ao redor, mas ali parecia haver um espaço suspenso, isolado do ruído.
— Este salão foi restaurado após o último inverno. — Eldrik comentou, apontando discretamente para o teto. — Parte da ala leste cedeu com o peso da neve.
— Mantiveram o estilo original. — observou Lysvallis, erguendo o olhar. — É curioso como algumas estruturas resistem ao tempo.
— Nem todas. — respondeu ele. — Algumas precisam ser… ajustadas.
O silêncio que se seguiu não foi vazio.
— A estação parece diferente este ano. — Lysvallis disse, mudando o eixo da conversa. — A primavera chegou cedo demais.
— Ou exatamente no momento certo. — Eldrik respondeu. — Depende do que se espera que floresça.
Ela o encarou.
— A primavera revela sementes que o inverno manteve ocultas. — ele continuou. — E cobra decisões que foram adiadas.
Havia algo ali. Mal resolvido. Vivo demais para ser ignorado.
Ian percebeu.
Sem anunciar, afastou-se. Um passo, depois outro, acompanhado por Alexia e Elenys, até se misturar à borda do salão, longe o suficiente para não interferir, perto o bastante para observar.
Eldrik respirou fundo.
— Lysvallis… — começou. — Você conhece a nossa tradição.
Ela não recuou. Nem sorriu.
— Conheço. — respondeu. — Continue.
— Posso ser o seu par na primeira dança?
Lys pareceu prender a respiração.
— Você sabe o que isso significa. — Lysvallis disse, sem encará-lo.
— Sei. — respondeu ele. — E não faria o pedido se não estivesse disposto a sustentar o peso dele.
Ela permaneceu em silêncio por um tempo longo demais para os padrões da corte.
— Eldrik… — começou.
O som de passos atravessou o salão.
A mudança foi imediata.
Uma mulher de cabelos negros e vestido vermelho avançava calmamente. Os nobres abriram passagem quase instintivamente. Murmúrios se espalharam.
— O que ela está fazendo aqui? — Eldrik murmurou, mais para si do que para Lysvallis.
— Quem é ela?
— Maelis…
Lysvallis acompanhou com o olhar enquanto a mulher se aproximava da borda do salão, onde Ian estava.
O efeito foi imediato.
Onde antes havia hesitação, agora havia oportunidade.
Uma nobre aproximou-se de Ian com um sorriso ensaiado e uma taça de vinho.
— Guardião Ian. — disse. — Que bom que pôde vir ao baile.
— Senhorita. — respondeu ele, com uma breve inclinação de cabeça.
— Cervalhion deve parecer… barulhenta para você.
— Comparada a uma cidade onde o gelo domina? — Ian inclinou levemente a cabeça. — Sem dúvida.
Ela riu, satisfeita.
Antes que pudesse continuar, outra mulher se aproximou.
— Dizem que seu gelo se molda à sua vontade. — comentou. — É verdade?
— A mana reage ao ambiente. — Ian respondeu. — E às pessoas que tentam controlá-la.
— Fascinante…
— Ou inconveniente. — completou ele.
Um jovem juntou-se ao grupo.
— O senhor parece mais acessível do que eu imaginava.
— A aparência engana. — Ian respondeu com tranquilidade.
Alexia interveio com um sorriso calculado.
— Ele só parece acessível quando está confortável.
— O que é raro. — Ian acrescentou.
— Um filtro social eficiente. — Elenys comentou, divertida.
Algumas risadas surgiram, mas havia cautela nos olhares.
Do outro lado do salão, a música mudou de tom.
Aisha surgiu girando levemente, já de braços dados com Sylas o nobre de Altheria com quem duelara no passado. Quando a dama convidava, o protocolo se curvava.
Sylas parecia orgulhoso demais para esconder. Aisha, leve demais para se importar.
— Eles sabem que a primeira dança da noite não é apenas um gesto? certo? — Alexia perguntou com um sorriso.
— Deixe os jovens. — Elenys falou.— Deixe eles descobrirem que a primeira dança é para pretendentes.
Aos poucos o salão foi se enchendo com a chegada da comitiva de Elandor.
Então o ar mudou.
Ian sentiu antes de ver.
A mana se adensou, quente, viva.
Uma mulher avançava pelo salão com passos firmes, sem pressa, vestindo um vestido vermelho profundo. Os cabelos negros, ondulados, estavam presos de forma prática demais para um baile — uma escolha deliberada. Símbolos antigos, quase imperceptíveis, corriam pelas mangas do traje, reagindo suavemente à luz dos candelabros.
Os nobres abriram espaço.
Conversas cessaram.
— Ela veio… — alguém sussurrou.
— É ela?
A mulher parou diante de Ian.
Avaliou-o sem pressa, sem reverência imediata.
Então inclinou-se levemente, o suficiente para respeitar o protocolo, não o bastante para se diminuir.
— Guardião do Norte. — disse. A voz era firme, clara. — Imagino que saiba quem eu sou. Ainda assim, a formalidade exige palavras.
Ergueu o olhar, mantendo-o preso ao dele.
— Maelis Valirr. Arquimaga do Fogo de Cervalhion. Responsável pelo desenvolvimento mágico do reino.
O salão inteiro parecia escutar.
Ian sustentou o olhar, impassível.
— Um título impressionante. — respondeu. — Ao que devo o prazer?
Um canto do lábio dela se ergueu.
A música mudou novamente, assumindo o tom da primeira dança.
— A tradição pede que intenções sejam visíveis. — disse. — E prefiro não desperdiçar a noite.
Maelis estendeu a mão.
Ela não pediu.
— Acompanhe-me na minha primeira dança, Guardião.
Ian não respondeu de imediato.
Por um instante breve demais para ser notado pela maioria, ele avaliou a mão estendida diante de si. A expectativa no salão era quase palpável, não porque esperassem um “sim”, mas porque ninguém ali sabia como um Guardião recusava algo assim.
Ele tomou a mão de Maelis.
Com cuidado. Sem pressa.
Inclinou-se levemente e depositou um beijo breve sobre os dedos dela.
Alguns murmúrios surgiram.
— Uma abordagem ousada — ele disse em voz baixa, apenas para ela ouvir. — Posso perguntar por quê?
Maelis sorriu.
— Porque achei você bonito. — respondeu, simples. — E porque provavelmente não vou ter outra chance de puxar um Guardião lendário para o centro de um baile sem que metade do salão tente me impedir.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Só isso?
— Só isso já seria suficiente. — Ela inclinou a cabeça, aproximando-se um pouco mais. — Mas se quiser a parte menos estética… digamos que eu não costumo perder oportunidades raras.
O olhar dela deslizou, rápido, quase casual, na direção de Eldrik.
Ian percebeu.
— Ah… Entendo. — disse o ar ao redor deles vibrou levemente. — Então isso também é um recado.
— No começo, sim. — Maelis admitiu sem rodeios. — Alfinetar um príncipe que não soube o que perdeu tem seu charme.
Ela voltou os olhos para ele.
— Mas agora… — completou, observando-o mais de perto — …é só curiosidade mesmo.
Antes que ele pudesse responder, um movimento rompeu o equilíbrio do salão.
Lysvallis se aproximou calmamente, acompanhado por Eldrik.
A postura era firme, o semblante controlado, mas havia algo novo ali, urgência.
— Maelis… — Eldrik cumprimentou.
— Eldrik
— Espero que ela não esteja lhe incomodando Guardião…— Eldrik falou dando um passo a frente.
Ian franziu a testa.
— Guardião Ian. — Lysvallis falou, parando diante dos dois. — Pela tradição de Cervalhion, a primeira dança de um convidado dessa posição deve ser com a anfitriã… ou com a rainha presente.
Alguns nobres prenderam a respiração.
Era uma saída elegante.
Ela escapava do pedido de Eldrik.
Ian escapava do convite de Maelis.
Maelis virou o rosto, surpresa real nos olhos.
— Não sabia que eu estava atrapalhando um acordo maior — comentou, seca, já prestes a retirar a mão.
O ar vibrou ao redor deles.
Ian não soltou.
Ao invés disso, deu um passo à frente.
E puxou Maelis consigo.
O gesto foi fluido. Decidido. Sem anúncio.
— Então vamos dançar. — disse ele, simplesmente.
O salão congelou.
Alguns nobres arregalaram os olhos.
Outros trocaram olhares incrédulos.
Maelis piscou, genuinamente confusa.
— Você… — começou. — Eu achei que—
— Achei que seria indelicado rejeitar alguém que teve coragem de ser tão direta. — ele respondeu, guiando-a para o centro do salão enquanto a música assumia o ritmo da primeira dança. — E ainda mais indelicado usá-la como saída estratégica.
Ela o encarou por um segundo longo.
Depois riu.
— Você é um problema. — disse. — Sabe disso, não sabe?
— Já ouvi antes. — Ian respondeu. — Mas não me agradeça ainda.
Eles se posicionaram.
O centro do salão agora lhes pertencia.
Ian sentiu os olhos sobre eles.
Os nobres.
Eldrik.
Lysvallis.
Maelis apoiou a mão no ombro dele, ainda tentando entender.
— Você acabou de ignorar um protocolo inteiro. — murmurou. — E colocou metade da nobreza em choque.
— Quem os chocou primeiro foi você — ele corrigiu. — Eu só escolhi com quem dançar.
Ela sorriu de novo.
Dessa vez, diferente.

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