Índice de Capítulo

    A sacada estava quase vazia.

    A chuva havia recuado apenas o suficiente para permitir que o ar esfriasse, deixando para trás o cheiro de terra molhada e flores que haviam se aberto cedo demais. O vento leve carregava ecos do salão, música, risos, passos. Tudo filtrado pelas colunas altas, o mundo lá dentro existia em outro ritmo, distante.

    Maelis estava apoiada no parapeito, os braços relaxados, o corpo inclinado para frente. Observava o pátio inferior com atenção distraída, como quem não procurava nada específico. Um sorriso ainda pairava em seus lábios, não exatamente de alegria, mas de satisfação recém-descoberta.

    — Parece que a noite saiu melhor do que você esperava.

    Ela virou o rosto apenas o suficiente para reconhecer a voz.

    Ian se aproximava com passos calmos, sem pressa. As gotas de chuva haviam deixado marcas em seus ombros, mas ele não parecia se importar.

    — Eu não esperava que conseguisse se livrar das danças tão fácil. — respondeu ela, voltando o olhar para o pátio. — Mas sim… a noite está sendo proveitosa.

    — Elas foram gentis. — Ian parou ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa. — Apenas disse que precisava encontrar a bela dama de vermelho. Fizeram questão de me guiar.

    — Imagino que deva ter perguntas para essa tal dama de vermelho. — Maelis comentou, sem encará-lo.

    — Não é comum uma dama provocar um príncipe herdeiro no meio do salão… e ainda achar isso proveitoso.

    Um canto do lábio dela se ergueu.

    — Então você percebeu.

    — Você nem se esforçou para esconder. — Ian apoiou as mãos no parapeito. — A pergunta é: por quê?

    Maelis inclinou levemente a cabeça, agora o avaliando com mais atenção. O olhar dela era afiado, curioso, como alguém tentando decidir se o outro merecia uma resposta honesta.

    — Você faz perguntas diretas demais para alguém que acabou de chegar.

    — Você me arrastou para isso. — ele respondeu, sem alterar o tom. — Achei justo questionar.

    Ela soltou uma risada curta.

    — Justo.

    O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Apenas cheio. A música distante, o som de gotas escorrendo pelas pedras, o ar frio tocando a pele.

    — Eu respondo. — disse Maelis, por fim. — Se você responder primeiro.

    Ian virou o rosto para ela, tranquilo.

    — Do meu ponto de vista… — disse — acho que é você quem deve um favor.

    Ela o encarou por um segundo inteiro. Então riu, dessa vez com mais sinceridade.

    — O Grande Guardião do Norte… — murmurou. — Você é mesmo aquele das histórias, ou só herdou o título?

    — Prefiro deixar você descobrir. — respondeu ele. — Agora… Eldrik.

    O sorriso dela diminuiu.

    — Persistente.

    — Apenas curioso.

    Maelis desviou o olhar para o pátio novamente, deixando o silêncio se estender mais uma vez.

    — O caso com Eldrik… — começou — Eu era a noiva dele. Ou ainda sou, oficialmente.

    Ela apoiou os cotovelos no parapeito.

    — Depois do rompimento com a rainha, o rei decidiu que precisava de algo… estável. — fez aspas no ar. — Eu havia acabado de conquistar o posto de Arquimaga de Cervalhion. Um feito conveniente demais para ser ignorado.

    — Então decidiram unir competência e linhagem.

    — Exatamente. — confirmou. — Sempre recusei casamentos políticos. Sempre. Mas dessa vez… — hesitou — pensei que talvez fosse diferente.

    Ian permaneceu em silêncio, atento.

    — Eu gostei dele. — continuou ela. — Ainda gosto, eu acho.

    Uma risada sem graça escapou.

    — Não houve crueldade. Nenhum insulto. Só… distância. Ele deixou claro que ainda amava a rainha.

    Ian assentiu lentamente.

    — Não houve espaço nele para você.

    Ela o olhou de lado.

    — Você fala como se soubesse exatamente como isso funciona.

    — Digamos que já vi esse tipo de vazio antes.

    Maelis ficou em silêncio por alguns segundos, então se afastou do parapeito.

    — Enfim. — disse. — Obrigada pela dança. E pela distração. Foi… útil.

    Ela se moveu em direção à porta.

    Ian abriu passagem, mas antes que ela partisse por completo, falou:

    — Se algum dia eu quiser continuar essa conversa… em qual porta eu devo bater?

    Maelis parou.

    Virou-se devagar. O olhar atento, o sorriso agora carregado de intenção.

    — Não se preocupe, Guardião. — respondeu. — Eu é que vou bater na sua.

    Ela passou por ele e retornou ao salão.

    No mesmo instante, com a noite retomando o controle gotas de chuvas voltaram a cair.

    Ian permaneceu ali por alguns segundos, observando as gotas se acumularem nas pedras, antes de voltar.


    Assim que cruzou novamente as portas do salão, sentiu o peso dos olhares.

    A música seguia, as conversas se entrelaçavam em camadas elegantes, mas havia algo diferente agora. Avaliação.

    A primeira a se aproximar foi uma mulher de postura impecável, cabelos escuros entremeados por mechas brancas.

    — Guardião do Norte. — disse ela, inclinando levemente a cabeça. — Lady Emil Avelor, da Casa Avelor. Seria uma honra recebê-lo para um chá da tarde, em outra ocasião. Creio que teríamos muito a conversar.

    — A honra é minha, Lady Avelor. — respondeu Ian. — Agradeço o convite.

    — Talvez eu tenh—

    — Ian. — a voz de Lysvallis surgiu com naturalidade calculada. — O rei Aedin pediu que nos encontrássemos com ele para o jantar. Seria… impróprio deixá-lo esperando.

    Alexia sorriu, educada.

    — Parece que o chá terá de ficar para outro dia.

    Lady Avelor compreendeu o recado.

    — Naturalmente.

    Ela se afastou, e Ian seguiu com Lys e Alexia pelas escadarias.

    O ambiente mudava a cada degrau.

    Menos música. Mais presença.

    O rei e a rainha de Elandor já estavam sentados. Aurora permanecia ao lado deles, serena. Um guarda ruivo mantinha-se de pé, alto, ombros largos, a pele em tom acinzentado contrastando com a luz.

    Aedin Valcor ocupava a cabeceira. Melissa ao seu lado. Eldrik próximo, acompanhado de Danuren e de uma jovem de cabelos negros presos em rabo de cavalo.

    Alexia, Lysvallis e Ian sentaram-se à frente de Elandor.

    — E a outra matriarca? — perguntou Varyn.

    — Sentiu-se indisposta. — respondeu Alexia. — Preferiu se ausentar.

    — Uma pena. Espero que esteja bem.

    O clima era educado. Mas a Tensão permeava os presentes..

    Varyn se levantou.

    — Rainha Lysvallis… permitiria uma dança? Talvez evite uma guerra iniciada com talheres.

    A esposa dele inclinou a cabeça.

    — Só permitiria se o Guardião do Norte me acompanhasse.

    — Parece justo. — disse Ian.

    A rainha de Elandor aceitou o braço dele com naturalidade. Eles caminharam até o pequeno salão presente no primeiro piso.

    A música recomeçou em um tom mais baixo, quase cerimonial.

    Eles se moveram pelo salão com passos precisos, contidos. Não era uma dança para chamar atenção, mas para sustentar aparência e ainda assim, os olhares inevitavelmente se voltaram para eles.

    Foi então que Ian percebeu.

    Pequenas marcas sob a pele morena da rainha, visíveis apenas quando a luz dos candelabros incidia em certos ângulos. Traços sutis, quase orgânicos, como veios de madeira sob verniz fino. Não eram cicatrizes. Nem ornamentos.

    Eram marcas de contenção.

    Rumbra’th.

    Uma linhagem ativa e perigosamente bem controlada.

    O olhar de Ian demorou meio segundo.

    Ela percebeu.

    — As marcas o incomodam? — perguntou em tom baixo.

    Ian voltou o olhar para o dela, sereno.

    — Pelo contrário. — respondeu. — Elas mostram o quanto você é hábil em não deixar que a linhagem a domine… em vez de ser dominada por ela.

    O canto dos lábios dela se ergueu, discreto. Satisfeito.

    — Poucos reconhecem isso. — disse. — A maioria só vê o risco.

    — O risco sempre existe. — Ian respondeu. — Mas disciplina também deixa marcas.

    A música desacelerou, encerrando a dança com um giro elegante. Eles se afastaram no tempo exato, sem pressa, sem rompimento brusco.

    Ela fez uma breve reverência.

    — Dália de Elandor. — apresentou-se oficialmente. — Agradeço pela dança, Guardião do Norte.

    — A honra foi minha, Vossa Majestade. — respondeu Ian.

    Ela se afastou, e algo no salão pareceu relaxar com isso.

    O ambiente respirou novamente.

    Mas Danuren não relaxou.

    — Curioso… — murmurou. — Forte, mas… jovem demais.

    — Dan. — advertiu Aedin.

    — Títulos antigos vêm com uma carcaça velha. — Danuren manteve o olhar em Ian. — Nem mesmo Pyr’khal atravessariam eras assim.

    — Encaro como elogio. — respondeu Ian. — Não é a primeira vez que levantam essa dúvida.

    — Então não se importaria com um duelo.

    Silêncio.

    — Simulado. — completou Danuren. — Nada até a morte.

    Ian sustentou o olhar de Danuren por alguns segundos.

    Depois, virou o rosto.

    Aedin.

    O rei mantinha a expressão neutra, mas havia ali algo atento demais, quase como expectativas.

    Ian então olhou para Lysvallis.

    Ela não disse nada.

    Mas seus olhos disseram tudo.

    Um único movimento de cabeça, quase imperceptível. Um aviso silencioso.
    Não agora.

    Ian respirou fundo.

    — Aceito. — disse, ainda assim.

    O efeito foi imediato.

    Lysvallis virou o rosto lentamente para Ian.

    — Isto não é necessário. — disse, em tom baixo, firme.

    — Eu sei, mas acho que essa situação foi criada.

    Antes que pudesse dizer mais, Aedin se levantou.

    — Se haverá duelo… — anunciou, com voz que cortou o salão — …que seja em local apropriado.

    — Um duelo? — alguém no salão sussurrou.
    — O que?
    — No meio do baile?

    O murmúrio que se espalhou pelo salão não foi de choque, mas de excitação contida. Copos tocaram mesas. Cadeiras se moveram. Nobres trocaram olhares rápidos, sorrisos surgiram onde antes havia cálculo.

    Ela cerrou a mandíbula.

    O rei se levantou e se dirigiu até o topo da escadaria, onde fez um gesto simples silenciando o salão.

    — Senhores, acredito que o duelo que está para ocorrer pode interessa-los, nosso comandando da guarda Danurem e o Guardião do norte irão realizar um duelo, mas para tal situação precisaremos ir para um local mais adequado do que um salão de festas.. Para o jardim de tulipas.

    A palavra correu como fogo seco.

    Os nobres se levantaram quase de imediato, animados demais para esconder. O baile, até então contido, se transformou em expectativa.

    Guardas abriram passagem. Criados se apressaram. Capas foram erguidas contra a chuva.

    O jardim de tulipas estava encharcado.

    tochas haviam sido acesas ao longo dos caminhos de pedra, suas chamas tremulando sob a chuva persistente. As flores, pesadas de água, inclinavam-se como espectadores silenciosos. O chão estava escuro, vivo, o aroma de terra e perfume vegetal dominavam o ambiente.

    Os nobres se espalharam ao redor do espaço central, formando um círculo irregular. Alguns excitados. Outros tensos. Nenhum indiferente, entre eles uma dama de vermelho assistia um pouco afastada.

    Ian caminhou até o coreto no centro do jardim com passos firmes.

    A chuva já encharcava seus cabelos, fazendo fios escuros caírem sobre os olhos. Ele passou a mão pelos cabelos, jogando-os para trás, sentindo a água escorrer pelo rosto e pela gola do traje.

    Do outro lado, Danuren avançou com o mesmo peso.

    O sobretudo foi deixado para trás, abandonado na relva molhada. Os ombros largos pareciam ainda maiores sob a chuva.

    Os dois pararam frente a frente.

    Silêncio.

    Nem música. Nem risos.

    Apenas o som da chuva batendo nas folhas, nas pedras… e neles.

    Lysvallis observava da borda do jardim, imóvel. As mãos cerradas sob o manto.

    Alexia estava atenta demais.

    Aedin avançou um passo.

    — As regras. — disse, firme.

    Danuren foi o primeiro a falar.

    — Primeira: ninguém morre.

    Um leve sorriso torto surgiu em seu rosto.

    — Segunda: o primeiro que quebrar algo… perde. Ossos, construção, orgulho. Não importa.

    Ele olhou diretamente para Ian.

    — O duelo termina quando um de nós tocar o chão com as costas… ou admitir derrota.

    Ian inclinou levemente a cabeça.

    — Regras claras.

    — Sem mana ou ordo. — disse Aedin.

    Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

    A chuva caiu mais forte.

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