O mundo estava escuro.

    Aisha corria.

    O chão parecia desfazer sob seus pés, como se o próprio mundo estivesse derretendo, afundando em um abismo vermelho e branco sem fim.

    Atrás dela, formas distorcidas se moviam, sombras que se movimentavam rápido demais para ela conseguir perceber a forma, ate que a primeira delas apareceu.

    Uma besta sem rosto, feitas apenas de garras, carne ensanguentada e globos oculares que não piscavam.

    A cada passo, o ar parecia mais pesado, como se estivesse engolindo fumaça. A mana gritava em todas as direções junto com os rosnados das bestas de forma caótica, voraz, como se tentasse arrancar pedaços dela a cada respiração.

    Ela tentou gritar também.Mas nada saiu. O que ela ouviu no lugar foi muito mais pertubador.

    — Liberte-me, me ajude, Aisha.

    A voz vinha das Bestas junto com os rosnados,

    Ela tentou invocar mana.

    Mas o corpo não respondeu. Era como se o vazio tivesse roubado dela a própria existência.

    Tentou lembrar quem era… mas até isso se desfazia, escorregava como água entre os dedos.

    Uma das criaturas a alcançou. Os olhos da coisa se abriram em dezenas, e garras afiadas mergulharam contra ela.

    E então, tudo virou gelo.

    Aisha acordou com um sobressalto.

    O peito arfava. O suor escorria frio pela têmpora. Os olhos, arregalados, buscaram o teto curvo do abrigo moldado em gelo.

    A infusão de ervas ao lado já havia esfriado, exalando um aroma apagado de raízes úmidas.

    O sobretudo de Ian ainda a cobria… quente, pesado, como se o calor que ele deixara ali teimasse em resistir à noite.

    Do lado de fora, o mundo rugia.

    Ela olhou para a entrada do abrigo. A nevasca rugia lá fora. Flocos densos, vento cortante, o mundo branco demais para ser seguro.

    Ela estava só.

    Mas não por muito tempo.

    Passos. Firmes. Rítmicos.

    O Guardião entrou, sacudindo os ombros. Fragmentos de gelo se desprenderam da gola e dos cabelos, caindo como pequenas estrelas quebradas no chão.

    — Está acordada — disse, sem surpresa.

    — Tive um sonho — murmurou Aisha, a voz rouca.Ele a olhou de soslaio.

    — Limbo?

    Ela assentiu devagar.

    — É comum — respondeu Ian, aproximando-se para colocar um feixe de lenha no fogo. A chama azulada cresceu, lançando reflexos sobre as paredes translúcidas.

    — Você acabou de atravessar o Limbo. A mana do Limbo às vezes traz memórias que não são nossas. Sonhos que não pertencem a ninguém.

    Ela o observou por alguns segundos.

    Depois se ajeitou contra a parede curva. Os músculos protestaram, mas já não queimavam como antes.

    — Guardião…

    Ele levantou a mão com um gesto leve, interrompendo.

    — Tenho nome.

    Aisha arqueou uma sobrancelha.

    — Então diga.

    Ele se ajoelhou ao lado dela, os olhos fixos, e estendeu a mão.

    — Ian.

    Houve um momento de hesitação. Depois, ela apertou.

    — Aisha.

    O aperto foi firme, mas breve.

    — Prazer — disse ele, com um sorriso curto, quase imperceptível.Ian se ergueu em seguida.

    A presença dele parecia preencher todo o abrigo, mesmo em silêncio.

    — A nevasca vai baixar em algumas horas. Quero estar em movimento quando isso acontecer.

    Ela tentou se levantar, mas o corpo ainda pesava, como se cada músculo tivesse sido forjado em pedra.

    — Você está exausta — disse Ian, avaliando-a como se fosse capaz de medir cada limite do corpo dela.

    — Travessia do Limbo, combate, congelamento… — A voz dele baixou — é demais até para um veterano.

    — Eu consigo… — tentou retrucar, mas a voz sumiu no fim.

    Ele não discutiu. Apenas a olhou por mais alguns segundos e, com um gesto calmo, voltou-se para os preparativos.

    Lá fora, o branco dominava a nevasca já estava se desfazendo mas tudo o que permitia ver ainda era o branco.

    Ian moldou o gelo com movimentos sutis das mãos. A cada gesto, a mana reagia como água em correnteza, fluida e obediente.

    Ele criou uma estrutura longa, de base reforçada, curvas suaves e pontos de apoio onde a mana se condensava, reforçando os pontos frágeis.

    O trenó surgiu como se sempre tivesse estado ali, apenas esperando ser chamado.

    Pegou cordas de couro e as fixou às laterais. No centro, moldou um espaço acolchoado de gelo sólido, ajustado para suportar o peso de Aisha com o mínimo de desconforto. Quando terminou, voltou ao abrigo, sem pressa.

    Ela o observava em silêncio. Não perguntou nada. Apenas deixou que ele a erguesse nos braços e a levasse até o trenó. O sobretudo a envolveu como um casulo, e, pela primeira vez em muito tempo, ela permitiu que alguém carregasse o peso por ela.

    Então, começaram a caminhar ou melhor… Ian começou a caminhar.

    O horizonte ainda era um borrão pálido mas agora já permitia eles verem as montanhas distantes, elas surgiam cobertas por véus gelados. O som do mundo era apenas o vento. E os passos de Ian.

    Ele puxava o trenó com firmeza, abrindo trilhas na neve espessa com passos ritmados. O corpo parecia incansável. Aisha o observava pelas costas: os ombros largos, o andar constante, a respiração cadenciada que nunca falhava.

    O tempo se distorcia ali.

    As horas pareciam não passar. O frio não a tocava do mesmo jeito… talvez fosse o sobretudo, talvez fosse algo nele.

    —A primeira vez que vesti a armadura do meu irmão… — disse Aisha de repente, sem saber o por que. — Eu quase desmaiei antes de sair de casa.

    Ian não respondeu. Mas diminuiu o passo.

    — Era pesada. Eu não sabia andar com ela. — A voz dela ficou mais firme. — Mas fui. E lutei.

    O silêncio permaneceu por longos instantes, apenas o vento gritando ao redor.

    — Eles riram — continuou ela. — Disseram que eu parecia um rato tentando usar a pele de um leão.

    Ian soltou um som seco. Não era bem uma risada, mas também não era desprezo.

    — E o que você fez?

    — Quebrei o nariz dele.

    Ele virou o rosto, pela primeira vez em horas, e a olhou por cima do ombro.

    — Bom começo.

    Um sorriso pequeno, mas sincero, escapou dela.

    O dia seguiu entre silêncios e pequenas frases. Ian mantinha o ritmo, como se obedecesse a uma bússola interior invisível. Aisha notava cada detalhe: a forma como ele calculava o relevo antes de pisar, como se inclinava segundos antes do vento mudar, como nunca olhava para os próprios pés. Era como se tivesse caminhado por aquelas terras durante séculos.

    Ela se perdeu em pensamentos, acompanhando os movimentos dele, até esquecer do peso que carregava no peito.

    Quando o sol começou a se esconder atrás das formações rochosas, Ian parou diante de uma clareira protegida por pedras. Ergueu as mãos e moldou outro abrigo. Este era menor, mais arredondado, mas bem selado contra o vento. Dentro, acendeu uma chama frágil com restos de lenha, e a pequena fogueira se curvou.

    Aisha se acomodou junto à parede curva. O corpo reclamava menos do que pela manhã.

    — Doze dias, hein? — ela murmurou.

    — Doze dias — respondeu Ian, mexendo em um punhado de folhas para uma nova infusão.

    Ela o observou, o rosto meio escondido pela sombra.

    — E depois?

    Ele parou. Os olhos, claros como gelo, se fixaram nos dela. Não havia dureza. Só uma seriedade calma.

    — Depois… veremos.

    Aisha encostou a cabeça contra o gelo. Um suspiro escapou, sem que percebesse.

    Lá fora, a nevasca ainda sussurrava.Mas ali dentro… o mundo estava quieto.

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