Capítulo 111 - Pontas Soltas
Elenys deixou o salão com passos contidos.
A música ainda preenchia o espaço atrás dela, abafada pelas paredes de pedra, mas já distante o bastante para não exigir atenção. O brilho dos candelabros, os risos calculados, os olhares longos demais, tudo ficava para trás enquanto atravessava os corredores do castelo.
O dia finalmente a alcançava.
Não era o cansaço físico. Não apenas.
As revelações pesavam. As decisões também. E, acima de tudo, a certeza recente de que Thamir partiria para provavelmente extinguir um reino…
Um reino. Outra bandeira. Outra guerra que não era dela e ainda assim era.
“Esse é o melhor caminho“
Além de resolver o problema em Elandor, a distância sempre fora uma solução segura. Um método eficiente de manter as coisas sob controle. Com ele longe, seria mais fácil respirar. Mais fácil pensar. Mais fácil não sentir.
Era isso que dizia a si mesma.
Ainda assim, o arrependimento vinha em ondas curtas, discretas, difíceis de nomear. Não pelo que fizera, mas pelo que não fizera. Pela decisão de não agir. Pela escolha de não atravessar a última linha.
E o que mais a incomodava não era o arrependimento em si.
Era a culpa por senti-lo.
Ela seguia pelos corredores, cumprimentando alguns rostos conhecidos com inclinações mínimas de cabeça, recusando conversas com a mesma elegância automática de sempre. O corpo fazia o que aprendera a fazer desde cedo.
A mente, não.
Thamir indo para a guerra.
A ideia se repetia, seca, sem adornos. Não havia imagens heroicas ali. Apenas a ausência que se formaria depois.
Talvez fosse melhor assim.
Talvez sempre tivesse sido.
Ainda assim, algo nela resistia à conclusão, pequeno demais para ser chamado de rebeldia, persistente demais para ser ignorado. Uma sensação incômoda de que havia escolhido o caminho correto pelos motivos errados.
Ou o errado, pelos motivos certos.
Quando alcançou a saída lateral do salão, a chuva tornou-se audível. Batia contra as janelas altas, constante, quase paciente. Elenys diminuiu o passo por um instante, permitindo que o som ocupasse espaço demais dentro dela.
A lembrança veio sem aviso.
O caminho de volta da hospedaria até o castelo. O som distante da cidade. O céu já carregado, prometendo chuva. Alexia caminhava ao lado dela com a naturalidade de quem observa mais do que aparenta.
— Ele não disfarça — Alexia disse, quase casual. — Nem um pouco.
Elenys soube imediatamente de quem ela falava.
— Quem?
Alexia lançou-lhe um olhar de lado, divertido demais para ser inocente.
— Thamir. — respondeu. — Os olhares em você.
Elenys suspirou, desviando o olhar para frente.
— Ele é direto — admitiu. — Sempre foi.
Alexia parou por um instante, obrigando Elenys a reduzir o passo.
— Não só direto aparentemente — corrigiu. — É Persistente.
Elenys ficou em silêncio por alguns segundos antes de ceder.
Contou sobre as investidas. Sobre a forma como ele sempre a provocava. Sobre a maneira como ele nunca pressionava… mas também nunca recuava.
— Da última vez, ele falou algo sobre se cansar — disse por fim, em voz baixa.
Alexia ergueu as sobrancelhas, surpresa contida.
— E você?
— Eu disse que não era simples.
Alexia voltou a caminhar, pensativa. O silêncio entre as duas durou tempo suficiente para Elenys achar que o assunto morreria ali.
Não morreu.
— Me diz uma coisa — Alexia falou, sem olhar para ela. — O problema é o Thamir… ou o que você teria que fazer depois?
Elenys franziu o cenho.
— Não é tão simples assim.
— Eu sei. — Alexia assentiu. — Mas ainda não respondeu.
Elenys hesitou.
— Existe Vaynar. Existe a honra da casa. Existem expectativas que não são só minhas.
Alexia parou de novo. Desta vez, encarou-a de frente.
— Agora entendi.. Mas me explica — disse, com calma demais. — Por que você simplesmente não fica com ele?
Elenys abriu a boca para responder.
Mas Alexia continuou, sem elevar a voz:
— Você casa com Thamir. Traz um Guardião para sua família. Resolve Vaynar. Mantém a honra da casa. — inclinou a cabeça levemente. — E ainda fica com quem claramente quer ficar com você.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Elenys lembrava da própria resposta. Lembrava da forma automática como escapara dela.
“Não é tão simples.”
Mas agora, sozinha, deixando o baile para trás, a frase de Alexia voltava inteira, afiada, sem oferecer saída.
E o que mais a perturbava…
Era perceber que, desta vez, ela não tinha certeza se acreditava na própria resposta.
A escadaria até o quarto foi mais longa do que ela se lembrava, Elenys fechou a porta atrás de si com cuidado. O aposento cedido a ela era amplo, funcional, sem excessos. Pedra clara, tecidos neutros, uma cama grande demais para alguém que não conseguia descansar.
Ela deixou o corpo cair sobre o colchão, ainda vestida, e ficou ali por alguns segundos, olhando para o teto, respirando fundo.
Sentou-se na cama e virou-se para a janela.
A chuva havia engrossado. Descia pesada, contínua, a janela de vidro que dava para a pequena varanda em um véu distorcido de luzes e sombras. O som era quase hipnótico.
Foi inevitável.
A lembrança veio inteira.
A noite em que Thamir chegou a Altheria.
O céu se partindo em luz. O trovão abrindo o ar como uma lâmina. Ele surgindo como se o mundo tivesse decidido anunciá-lo antes mesmo de permitir que pisasse no chão.
Um raio cortou o céu naquele instante.
A luz branca invadiu o quarto por um segundo longo demais.
E então…
Ele estava ali.
Sentado no parapeito da janela, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. A chuva escorria pelos cabelos, pelos ombros, pingando no chão de pedra sem pressa. O corpo relaxado, a postura casual demais para alguém que não deveria estar ali.
O coração de Elenys falhou um compasso.
Piscou.
A imagem sumiu.
Ela se levantou rápido demais e abriu a janela. O vento entrou violento, trazendo a chuva junto, encharcando o quarto e o vestido. Não havia ninguém ali.
Fechou a janela com um movimento seco, sentindo o tecido frio colar à pele.
— Eu estou cansada demais… — murmurou, mais para si mesma do que para o quarto vazio.
Virou-se.
A mesma silhueta agora ocupava uma das poltronas mal iluminadas, recostada com displicência, como se sempre tivesse estado ali.
Piscou outra vez.
O mundo permaneceu intacto. A chuva. O quarto. A presença impossível.
— Se isso for uma miragem — disse em voz baixa — pelo menos meu cérebro ainda tem bom gosto.
O canto da boca dele se ergueu.
— Fico aliviado em saber disso.
A voz era real demais.
Elenys tropeçou em um passo curto.
— Thamir?!
— Eu mesmo. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Antes que pergunte: não, você não está sonhando. E sim, eu entrei pela janela.
Ela abriu a boca, fechou, respirou fundo.
— Você não pode simplesmente aparecer assim.
— Eu sei. — Ele deu de ombros. — Mas precisava fazer uma visita.
O silêncio se esticou entre os dois, pesado do que não tinha sido dito.
— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, por fim.
Thamir descruzou as pernas devagar. O olhar perdeu a leveza irônica por um instante.
— Eu não gosto de deixar pontas soltas. — disse. — Em nada.
O trovão ecoou do lado de fora, grave.
— Pontas soltas? — Elenys apertou os punhos. — É isso que eu sou para você?
Thamir inclinou a cabeça, pensativo demais para alguém que estava sendo acusado.
— Não exatamente. — Um meio sorriso surgiu. — Você é o tipo de coisa que não dá pra fingir que não existe.
— Você acha que pode entrar pela janela de alguém e dizer isso?
— Aparentemente, sim. — Ele olhou em volta. — Ainda não fui expulso.
Ela deu um passo à frente.
— Então, diga logo o que veio fazer aqui.
Ele se levantou devagar, sem pressa nenhuma.
— Vim antes de partir. — Deu de ombros. — Não gosto mais da sensação de ir embora deixando coisas mal resolvidas. Costuma virar arrependimento depois.
— Que conveniente.
— Nem um pouco. É incômodo pra caralho.
Ela cruzou os braços.
— Então seja direto.
— Sempre sou.
Thamir parou a poucos passos dela.
— No início, eu te achei atraente. Muito. — O olhar dele desceu e subiu sem pudor algum. — Fisicamente falando, você é um problema ambulante.
— Só isso?
— Se fosse só isso, Elenys, eu já teria desistido de você faz tempo. — Ele arqueou a sobrancelha. — Você não é exatamente… receptiva sabia?
Ela respirou fundo.
— Então responda. — A voz saiu firme. — Para você, eu sou só alguém que você quer levar para a cama?
Thamir soltou uma risada curta, sem humor.
— Se fosse, eu não estaria aqui tomando chuva e risco de morte social entrando pela sua janela.
— Não fuja da pergunta.
— Não estou fugindo. — Ele se aproximou um pouco mais. — Só estou dizendo que, se fosse só sexo, eu teria escolhido alguém que não me olha como se estivesse decidindo o destino de uma dinastia inteira.
Ela avançou um passo.
— Porque eu preciso disso. — A voz dela endureceu. — Eu preciso de alguém que fique. Que honre minha casa. Que entenda o peso do que eu carrego.
— E você acha que eu não entendo? — Ele inclinou a cabeça. — Ou só acha que eu não me encaixo no molde?
— Você vai embora.
— Sim. — Ele assentiu. — Para ajudar em uma guerra. Não para um bordel.
— Não muda o fato de que você parte.
— Muda bastante coisa, na verdade. — O tom dele baixou. — Mas vamos fingir que não.
Ela cerrou os dentes.
— Eu sou casada, Thamir. Casada. E você continua insistindo. O que eu deveria pensar?
Ele passou a mão pelos braços, tirando a água da chuva.
— Que eu sou péssimo em desistir. — Um sorriso torto. — Especialmente quando sei o que quero.
— E o que você quer?
— Você. — Simples. Direto. — Desde o início. Não “alguém”. Você.
Ela ficou em silêncio.
— E antes que pergunte — ele continuou — não, eu não fico distribuindo esse tipo de atenção por aí. Você é um vício exclusivo.
— E se isso for só desejo?
— Então é o desejo mais inconveniente que eu já tive. — Ele suspirou. — Porque envolve te ouvir falar de honra, legado e responsabilidade… e ainda assim continuar aqui.
Ela o encarou.
— E se eu te disser que preciso de alguém que fique?
O sorriso dele voltou, mas mais afiado.
— Então eu te pergunto uma coisa. — Sustentou o olhar. — Você tem medo de eu responder que sim?
— O quê?
— Medo de eu dizer que ficaria. Que voltaria após a guerra. E que escolheria você. — Ele inclinou a cabeça. — Porque se eu disser isso, Elenys… o que você faz com essa resposta?
O silêncio caiu pesado.
Ela abriu a boca. Fechou.
— Pois é — ele murmurou. — Pensei nisso.
— Você está invertendo tudo — ela disse, a voz menos firme. — Você não pode colocar isso nas minhas mãos.
— Não estou colocando nada. — Ele deu um meio sorriso cansado. — Só estou dizendo que até agora, você foi muito clara em me afastar. E eu não sou bom em apostar minha vida em alguém que não sabe se me quer.
Ela respirou fundo.
O som da chuva parecia mais alto conforme as gotas batiam contra a janela.
Então ela avançou.
O beijo não foi gentil. Foi uma decisão.
Quando se afastaram, estavam ofegantes.
— Eu nunca disse que não queria você — Elenys murmurou. — Eu disse que não posso fazer isso sozinha.
Thamir a encarou por um instante longo.
— Então finalmente estamos falando a mesma língua.
Ela assentiu.
Elenys assentiu, ainda tentando recuperar o fôlego.
— Eu posso resolver isso — começou, a voz já entrando no terreno prático demais. — Pensar em como voc—
— Não agora. — Thamir a interrompeu, sem elevar a voz.
Ela piscou, surpresa.
— Thamir, isso é importante—
— Eu sei. — Ele deu um meio sorriso, puxando-a para mais perto. — Importante demais pra decidir o futuro de uma casa inteira no meio da madrugada.
Ela abriu a boca para insistir.
— A gente fala disso amanhã. — Ele murmurou contra o ouvido dela. — Com café.
Os dedos dele se fecharam em sua cintura, o gesto claro, sem espaço para dúvida.
— Agora — completou, a ironia baixa, quase um desafio — você pode parar de pensar por cinco minutos?
Elenys não respondeu.
Não precisou.
A conversa ficou para a manhã seguinte.

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