Capítulo 113 - Segundo Adeus
Karl já tinha visto aquilo antes.
Rellen.
A lembrança voltou com força, misturando-se à imagem de Ivar. Um grito rasgando o ar. A clareira em silêncio. Um corpo vivo que não deveria estar vivo.
O cheiro de queimado misturado ao sangue fresco. O sangue vazando pelas feridas. A voz repetindo as mesmas palavras, como um disco quebrado.
Desculpa…
O estômago de Karl se revirou.
Ivar deu mais um passo em sua direção.
O som foi o mesmo.
O mesmo arrastar pesado. A mesma falta de coordenação. O mesmo erro grotesco de um corpo tentando lembrar como obedecer.
— Não… — a voz de Karl saiu falha.
Ele recuou um passo.
Ivar parou por um instante e virou o rosto na direção dele.
A expressão se contraiu. Não em dor, em esforço. Como alguém tentando atravessar um pensamento espesso demais. Os olhos, antes vazios, moveram-se de leve. Não focaram. Mas hesitaram.
— D… — a boca se abriu, o som saiu errado, arranhado. — …oi…
O coração de Karl quase parou.
Por um instante cruel, absurdo, ele quis responder.
Quis dar um passo à frente. Quis acreditar que ainda havia algo ali. Que aquilo não era apenas um eco mal costurado de mana e carne.
Mas fora exatamente assim com Rellen.
A esperança veio antes do horror.
— Não faz isso comigo… — sussurrou, sentindo os olhos arderem.
O corpo avançou de novo, e Karl recuou.
Dessa vez, mais rápido. Antes que percebesse, já corria de volta para a saída do túnel.
Mas que droga, Ivar…
As lágrimas começaram a escorrer, trazendo o gosto amargo, embaçando a visão.
Ele tropeçou em algo e caiu. A culpa veio junto, esmagadora.
A morte de Ivar, por não ter sequer tentado usar a poção. Negara a ele a melhor chance de sobreviver.
E a que custo?
Uma sobrevida isolada no coração da terra?
A troco de que?
Talvez tivesse sido melhor ter morrido ali.
Karl se levantou com dificuldade, o choro preso na garganta, a dor apertando o peito. Olhou para o que o derrubara.
Uma barra de ferro. Parte de uma armadilha que ele mesmo havia desarmado.
Foi então que ouviu a voz novamente.
— D-doi… — Ivar se aproximava devagar, mas ganhando, pouco a pouco, mais controle dos movimentos. — Ka…rl…
Karl deu dois passos para correr.
Mas parou.
Ele não tinha dado a Ivar uma chance de viver.
Olhou para a barra caída ao lado.
As mãos tremiam quando a pegou.
O peso era real demais. Frio demais.
Ivar tropeçou. Caiu de joelhos. As mãos bateram na pedra com força, quebrando unhas, abrindo a pele. Não houve reação. Nenhum grito. Apenas o esforço contínuo de continuar.
— Desculpa… — a voz de Karl quebrou.
Ivar ergueu a cabeça.
A boca se moveu mais uma vez.
— …Karl…
Algo se partiu dentro dele.
Não foi como decidir não usar a poção. Foi uma escolha impossível entre dois destinos. Não havia lógica. Não havia cálculo.
Havia apenas Karl.
E o que restava de Ivar.
A lembrança de Gustav segurando Rellen nos braços. A lança atravessando um crânio já vazio. A luz branca se desfazendo no ar como fumaça fria.
Karl entendeu, tarde demais, que aquilo não era vida tentando voltar.
Ergueu a barra.
O braço parecia pesar toneladas.
— Me perdoa, meu amigo… — murmurou, sem saber se falava com Ivar… ou consigo mesmo. — Vou te ajudar a descansar.
Avançou.
O impacto foi seco.
O sangue espirrou pelo ferro, pelas roupas, pelas mãos.
O corpo caiu de lado, finalmente imóvel. A luz branca escapou em um jorro curto e instável, um último suspiro que não pertencia a ninguém.
Karl ficou ali, respirando mal, com as mãos sujas, o ferro ainda quente do impacto.
Não chorou.
Não gritou.
Apenas compreendeu, com uma clareza cruel, que alguma coisa dentro dele tinha morrido ali também.
O silêncio que veio depois foi pior. sendo cortado apena pelo som dos outros corpos se arrastando.
— Lyra
Laura quebrou o silêncio primeiro.
— Você está aí há horas — disse, com cuidado, aproximando-se alguns passos. — Desde que acordou, você esta bem?
Lyra piscou, como se tivesse sido arrancada de um mergulho profundo. Os dedos ainda percorriam as linhas entalhadas no painel, seguindo runas que se entrelaçavam como raízes.
— Eu… — ela respirou fundo, frustrada. — Eu finalmente estou diante de um conjunto íntegro. Um mural inteiro. Não fragmentos, não inscrições quebradas. E mesmo assim… — a mão caiu ao lado do corpo. — Não consigo ler como deveria.
Laura inclinou a cabeça, sem entender totalmente, mas atenta.
— Eu não entendo — continuou Lyra, com amargura. — As estruturas são antigas demais. Algumas runas eu reconheço, outras eu acho que reconheço. Mas o sentido escapa. É como ouvir alguém falar uma língua parecida com a sua… rápido demais.
Ela respirou fundo outra vez, se recompondo.
— Mas eu aprendi algo — acrescentou. — Isso aqui não é um aviso. Nem um registro histórico, como pensei no começo.
Apontou para o centro do mural.
— É uma saudação. Um mural de boas-vindas. As runas que eu achei que significavam Sae’Lun… não são exatamente um nome. São quase um gesto. Como se a cidade estivesse… recebendo quem chega.
Laura franziu o cenho.
— Recebendo quem?
Lyra hesitou.
— Ainda não sei. Mas seja quem for… eles esperavam visitas.
O silêncio voltou a se instalar. Foi então que Lyra percebeu.
O espaço vazio.
Ela olhou ao redor.
— Cadê Karl?
Laura suspirou antes de responder.
— Foi buscar comida. Os mantimentos que caíram no túnel.
Lyra se levantou na mesma hora.
— O quê?! — a voz saiu mais alta do que pretendia. — Sozinho? ele vai precisar de ajuda!
— Lyra… — Laura tentou intervir.
— Eu podia ter ido com ele! — rebateu. — Ou pelo menos ajudado a procurar! Ele nem falou comigo!
— Você não estava exatamente disponível — disse Laura, agora mais firme. — Estava presa nesse mural desde que acordou.
Lyra virou-se, ofendida.
— Isso não significa que eu não me importo! Eu não sou inútil!
— Eu não disse isso — Laura respondeu, cansada. — Mas também não podia deixá-la responsável pelo Gustav. Não naquele estado.
Lyra abriu a boca para responder e fechou.
Nenhuma palavra veio.
O silêncio entre as duas ficou pesado.
— Eu vou atrás dele — disse Lyra, por fim, virando-se em direção à saída.
— Não — Laura segurou seu braço. — Você não sabe onde ele está. Nem o que tem lá fora. Vai esperar.
— Você não manda em mim.
— Aqui dentro, mando sim — Laura rebateu. — Enquanto eu estiver cuidando dos feridos.
— Eu vou atrás dele você concordando ou não.
— Garota, você só vai atrapalhar.
Antes que Lyra pudesse responder, uma tosse rouca cortou o ar.
— Vocês… sempre brigam assim…? — a voz de Gustav saiu fraca, mas acompanhada de um sorriso torto.
As duas se viraram ao mesmo tempo.
— Gustav — Laura correu até ele. — Não tente se levantar—
— Já estou tentando — ele interrompeu, com um grunhido. — E confirmo: ainda dói.
Com a ajuda dela, ele se sentou primeiro. Depois, com esforço, ficou de pé, apoiando-se em um pedaço de madeira arrancado da cama improvisada.
A perna tremeu, mas aguentou.
— Ainda dói — concluiu. — Mas ao menos não perdi.
Ele olhou ao redor, finalmente percebendo onde estavam.
— Então… isso é um templo? — perguntou. — E pelo estado das coisas… imagino que ainda não saímos da montanha.
Laura começou a explicar, escolhendo as palavras com cuidado.
Falou da queda.
Das criaturas metálicas que rondam o lugar.
Do abrigo improvisado naquele antigo templo.
Das construções à frente, casas partidas ao meio, colunas tombadas, estruturas que um dia foram habitadas e agora só sustentavam poeira e silêncio.
— Ainda estamos presos aqui embaixo — disse.
— Entendi.. — Ele respirou fundo digerindo a enxurrada de informações — E afinal de contas cadê Karl?
Ela não terminou.
O som veio primeiro como um ruído distante, quase fácil de confundir com o trabalho constante das aranhas de metal.
Depois ficou claro demais.
Algo pesado sendo arrastado.
Madeira raspando contra pedra.
Um som irregular, arrítmico.
Os três se calaram ao mesmo tempo.
Gustav apertou a bengala improvisada com força. Lyra deu um passo involuntário para trás. Laura sentiu o estômago afundar antes mesmo de se mover.
O som se aproximava.
Ecoava pelas ruínas, batendo nas paredes antigas.
Laura foi até a entrada do templo com cuidado.
E parou.
Karl surgiu do corredor escuro, avançando devagar. A cabeça baixa, os ombros curvados. As roupas sujas de poeira… e algo mais. Manchas escuras, ressecadas, espalhadas pelo tecido.
Sangue.
Ele arrastava uma caixa quebrada com uma das mãos. Na outra, usava uma barra de metal como uma bengala, deixando um rastro irregular enquanto produzia aquele som áspero.
Não havia pressa nos passos dele.
Nem hesitação.
Só um movimento mecânico, como se cada gesto estivesse sendo executado por obrigação.
— Karl… — Laura chamou.
A voz saiu mais fraca do que pretendia.
Ela deu mais um passo, o olhar subindo pelas mãos sujas, pelos braços tensos, pelo rosto parcialmente encoberto pela sombra.
— O que aconteceu?
Ele não levantou a cabeça.
A resposta veio baixa e calma.
— Agora não.
Passou por eles sem olhar para nenhum dos três.
Levou a caixa para dentro do templo e a soltou no chão com um baque seco. O som ecoou curto, definitivo. A barra de metal escorregou de sua mão e caiu ao lado, ainda vibrando por um instante antes de ficar imóvel.
Ninguém disse nada.
Laura ficou parada na entrada, sentindo um frio estranho subir pela espinha. Lyra observava em silêncio, o rosto pálido, tentando entender o que não estava sendo dito.

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