Índice de Capítulo

    O primeiro autômato avançou direto em Karl.

    O corpo metálico inclinou-se para frente com peso absurdo, as lâminas retraídas se abrindo nos antebraços com um estalo seco. O segundo e o terceiro ajustaram a posição, formando um semicírculo ao redor dele. Os sensores permaneciam fixos em Karl.

    — Eles estão me marcando… — rosnou, girando a barra de ferro no instante em que a primeira lâmina desceu.

    Ele começou a se mover, afastando-se dos outros. A confirmação veio rápida: os três autômatos ignoraram qualquer ameaça ao redor e passaram a cercá-lo. O que estava à frente ergueu o braço.

    O impacto foi brutal.

    Karl desviou por centímetros. A lâmina atingiu o piso da plataforma e abriu um sulco profundo no metal antigo, faíscas saltando como chuva quente. O braço do autômato não desacelerou. Subiu. Desceu outra vez.

    Karl recuou, mas foi obrigado a aparar o golpe seguinte. O impacto o lançou para trás, quase contra a pilha de cristais transparentes. O braço vibrou até o osso.

    — São lentos! — gritou Lyra, correndo lateralmente. — Mas cada golpe—

    O terceiro autômato ergueu o braço em direção a Karl.

    Não lâmina.

    O antebraço se abriu em placas, revelando um tubo com um cristal do Véu incrustado no núcleo. As runas ao redor pulsaram, e a mana começou a se concentrar na ponta.

    — KARL! — Laura gritou.

    O disparo nunca veio.

    O cristal rachou.

    Um som agudo, como vidro sob pressão, cortou o ar, e então a lateral inteira do autômato explodiu. Não foi uma detonação limpa, mas um colapso interno. Fragmentos de metal e luz azulada se espalharam em arco, e o corpo pesado perdeu o equilíbrio, despencando para fora da plataforma.

    — O cristal falhou! — gritou Gustav. — Eles estão desgastados!

    Os outros dois avançaram sem hesitar.

    Abandonaram qualquer tentativa de disparo e vieram juntos, lâminas abertas, golpes alternados e esmagadores. Karl mal conseguia respirar entre um desvio e outro. Cada ataque carregava força suficiente para partir ossos mesmo sem contato direto. Aos poucos, ele foi sendo empurrado para a beira da plataforma.

    Laura avançou pelo flanco, usando um pedaço de metal afiado como alavanca e acertando a articulação do joelho de um deles.

    O golpe quase não deixou marca.

    — Merda! — ela recuou antes que a lâmina ocupasse o espaço onde sua cabeça estivera um segundo antes.

    Lyra correu pelo lado oposto, arremessando tudo o que encontrava, tentando puxar a atenção.

    — EI! — gritou. — AQUI!

    Funcionou.

    Por um segundo.

    O braço do autômato varreu o espaço lateralmente.

    Pegou Lyra em cheio.

    Não a lâmina, o antebraço.

    O impacto lançou a garota contra o piso. O som foi seco. Errado. Sangue manchou a pedra quando ela rolou, gemendo, a respiração curta e quebrada.

    — LYRA! — Laura gritou.

    O autômato ergueu a lâmina.

    Para finalizar.

    O golpe não veio.

    Um objeto metálico interceptou a lâmina de lado, desviando-a com um rangido violento.

    Gustav.

    Usando o que restava de uma aranha metálica como escudo improvisado, os braços tremendo sob o impacto.

    — NÃO ABSORVE! — gritou, desviando novamente, girando o corpo com a muleta como apoio. — DESVIA! USA O PESO DELES!

    Ele recuou, respirando com dificuldade, mas com um sorriso torto no rosto.

    — As articulações! — gritou. — Estão enferrujadas! Joelhos! Ombros! Pescoço!

    Laura entendeu na hora.

    Avançou de novo, mirando o encaixe do ombro. Desta vez, o metal cedeu com um estalo feio. O braço do autômato caiu alguns centímetros, ainda funcional, mas lento.

    O autômato respondeu com um golpe lateral, obrigando Gustav a rolar pelo chão enquanto puxava Lyra consigo. O movimento brusco arrancou um grito de dor dela.

    Laura aproveitou a abertura e acertou a articulação outra vez.

    O braço se desprendeu.

    Do outro lado da plataforma, Karl estava sem espaço.

    O segundo autômato avançava sem parar, empurrando-o para a borda. Um passo errado significava queda. Ele era obrigado a desviar golpes pesados continuamente, e isso cobrava um preço: as mãos sangravam, a pele aberta pelos impactos.

    O braço doía.
    O fôlego estava curto.
    A visão começava a fechar.

    É assim que eu morro?

    A mente não parava. A cada desvio, uma raiva irracional crescia.

    Jogaram-no ali para morrer.
    Chamaram-no de traidor.
    Roubaram tudo.

    E agora… de novo.

    A lâmina veio de cima.

    Karl não recuou.

    Desviou e contra-atacou, mas o golpe atingiu o tronco do autômato, quase sem efeito. Faltavam força, precisão, velocidade.

    Eu me nego.

    Aparou outro golpe descendente e atacou o joelho. Errou por centímetros.

    Eu não vou morrer assim!

    O gosto metálico tomou-lhe a boca. Ele cerrava os dentes com força enquanto a raiva subia.

    Aparou outro golpe transversal, lhe dando tempo suficiente para ver Gustav e Laura rolando pelo chão, fugindo do autômato que já se preparava para esmagá-los. Lyra não se movia.

    Desgraçado.

    O mundo desacelerou.

    Não parou.

    Desacelerou.

    O som da lâmina cortando o ar tornou-se grave, esticado. As faíscas no piso pareciam flutuar. Karl enxergou com clareza impossível o ponto exato onde a articulação do cotovelo rangia mais alto.

    O corpo se moveu antes do pensamento.

    A barra de ferro desceu com força absurda para alguém naquele estado. O impacto acertou exatamente onde precisava.

    O braço do autômato travou.

    Algo diferente atravessou os músculos de Karl, não dor, mas potência. Um impulso que não vinha só dele. O segundo golpe veio mais rápido. O terceiro, ainda mais.

    A articulação cedeu.

    O braço caiu.

    O autômato tentou reajustar a postura.

    Não teve tempo.

    Karl avançou, o rosto tomado por ódio puro do lugar, das ruínas, de tudo que lhe fora tirado. Cravou a barra no encaixe do pescoço e torceu com tudo o que tinha.

    O metal gritou.

    O corpo tombou, inerte.

    Sem pensar, Karl disparou até Laura e a puxou para fora do alcance da lâmina no último segundo.

    O último autômato ergueu o braço e desceu com força total. Karl viu o golpe se formar, mas enxergar o golpe era um coisa, ele não tinha a velocidade para fugir. A lamina desceu como um decreto.

    Gustav tomou a frente.

    Desta vez, não houve desvio.

    Ele absorveu o impacto. A lâmina partiu o topo do escudo improvisado e cravou-se em seu ombro.

    Foi a abertura que Karl precisava.

    Num movimento rápido, acertou a articulação do joelho. O autômato tombou de lado. Laura empurrou o corpo pesado, apenas o suficiente para que o próprio peso o arrastasse para fora da plataforma.

    O silêncio caiu.

    A plataforma ainda descia, sacudindo mais do que deveria, faíscas escapando pelo lado direito, mas continuava em movimento.

    Karl ficou imóvel por um instante, respirando com dificuldade, o coração martelando como se quisesse romper o peito.

    O mundo voltou à velocidade normal.

    Lyra gemia no chão.
    Laura já corria até ela.
    Gustav se apoiava na muleta, apertando o ferimento no ombro, exausto, sangrando, mas vivo.

    Karl olhou para as próprias mãos. A pele estava rasgada em vários pontos.

    Elas tremiam.

    Não de medo.

    Algo tinha despertado.

    Ele sentia algo circulando sob a pele.

    “O que é isso?”

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