Capítulo 116 - "Ferro e Sangue".
O primeiro autômato avançou direto em Karl.
O corpo metálico inclinou-se para frente com peso absurdo, as lâminas retraídas se abrindo nos antebraços com um estalo seco. O segundo e o terceiro ajustaram a posição, formando um semicírculo ao redor dele. Os sensores permaneciam fixos em Karl.
— Eles estão me marcando… — rosnou, girando a barra de ferro no instante em que a primeira lâmina desceu.
Ele começou a se mover, afastando-se dos outros. A confirmação veio rápida: os três autômatos ignoraram qualquer ameaça ao redor e passaram a cercá-lo. O que estava à frente ergueu o braço.
O impacto foi brutal.
Karl desviou por centímetros. A lâmina atingiu o piso da plataforma e abriu um sulco profundo no metal antigo, faíscas saltando como chuva quente. O braço do autômato não desacelerou. Subiu. Desceu outra vez.
Karl recuou, mas foi obrigado a aparar o golpe seguinte. O impacto o lançou para trás, quase contra a pilha de cristais transparentes. O braço vibrou até o osso.
— São lentos! — gritou Lyra, correndo lateralmente. — Mas cada golpe—
O terceiro autômato ergueu o braço em direção a Karl.
Não lâmina.
O antebraço se abriu em placas, revelando um tubo com um cristal do Véu incrustado no núcleo. As runas ao redor pulsaram, e a mana começou a se concentrar na ponta.
— KARL! — Laura gritou.
O disparo nunca veio.
O cristal rachou.
Um som agudo, como vidro sob pressão, cortou o ar, e então a lateral inteira do autômato explodiu. Não foi uma detonação limpa, mas um colapso interno. Fragmentos de metal e luz azulada se espalharam em arco, e o corpo pesado perdeu o equilíbrio, despencando para fora da plataforma.
— O cristal falhou! — gritou Gustav. — Eles estão desgastados!
Os outros dois avançaram sem hesitar.
Abandonaram qualquer tentativa de disparo e vieram juntos, lâminas abertas, golpes alternados e esmagadores. Karl mal conseguia respirar entre um desvio e outro. Cada ataque carregava força suficiente para partir ossos mesmo sem contato direto. Aos poucos, ele foi sendo empurrado para a beira da plataforma.
Laura avançou pelo flanco, usando um pedaço de metal afiado como alavanca e acertando a articulação do joelho de um deles.
O golpe quase não deixou marca.
— Merda! — ela recuou antes que a lâmina ocupasse o espaço onde sua cabeça estivera um segundo antes.
Lyra correu pelo lado oposto, arremessando tudo o que encontrava, tentando puxar a atenção.
— EI! — gritou. — AQUI!
Funcionou.
Por um segundo.
O braço do autômato varreu o espaço lateralmente.
Pegou Lyra em cheio.
Não a lâmina, o antebraço.
O impacto lançou a garota contra o piso. O som foi seco. Errado. Sangue manchou a pedra quando ela rolou, gemendo, a respiração curta e quebrada.
— LYRA! — Laura gritou.
O autômato ergueu a lâmina.
Para finalizar.
O golpe não veio.
Um objeto metálico interceptou a lâmina de lado, desviando-a com um rangido violento.
Gustav.
Usando o que restava de uma aranha metálica como escudo improvisado, os braços tremendo sob o impacto.
— NÃO ABSORVE! — gritou, desviando novamente, girando o corpo com a muleta como apoio. — DESVIA! USA O PESO DELES!
Ele recuou, respirando com dificuldade, mas com um sorriso torto no rosto.
— As articulações! — gritou. — Estão enferrujadas! Joelhos! Ombros! Pescoço!
Laura entendeu na hora.
Avançou de novo, mirando o encaixe do ombro. Desta vez, o metal cedeu com um estalo feio. O braço do autômato caiu alguns centímetros, ainda funcional, mas lento.
O autômato respondeu com um golpe lateral, obrigando Gustav a rolar pelo chão enquanto puxava Lyra consigo. O movimento brusco arrancou um grito de dor dela.
Laura aproveitou a abertura e acertou a articulação outra vez.
O braço se desprendeu.
Do outro lado da plataforma, Karl estava sem espaço.
O segundo autômato avançava sem parar, empurrando-o para a borda. Um passo errado significava queda. Ele era obrigado a desviar golpes pesados continuamente, e isso cobrava um preço: as mãos sangravam, a pele aberta pelos impactos.
O braço doía.
O fôlego estava curto.
A visão começava a fechar.
É assim que eu morro?
A mente não parava. A cada desvio, uma raiva irracional crescia.
Jogaram-no ali para morrer.
Chamaram-no de traidor.
Roubaram tudo.
E agora… de novo.
A lâmina veio de cima.
Karl não recuou.
Desviou e contra-atacou, mas o golpe atingiu o tronco do autômato, quase sem efeito. Faltavam força, precisão, velocidade.
Eu me nego.
Aparou outro golpe descendente e atacou o joelho. Errou por centímetros.
Eu não vou morrer assim!
O gosto metálico tomou-lhe a boca. Ele cerrava os dentes com força enquanto a raiva subia.
Aparou outro golpe transversal, lhe dando tempo suficiente para ver Gustav e Laura rolando pelo chão, fugindo do autômato que já se preparava para esmagá-los. Lyra não se movia.
Desgraçado.
O mundo desacelerou.
Não parou.
Desacelerou.
O som da lâmina cortando o ar tornou-se grave, esticado. As faíscas no piso pareciam flutuar. Karl enxergou com clareza impossível o ponto exato onde a articulação do cotovelo rangia mais alto.
O corpo se moveu antes do pensamento.
A barra de ferro desceu com força absurda para alguém naquele estado. O impacto acertou exatamente onde precisava.
O braço do autômato travou.
Algo diferente atravessou os músculos de Karl, não dor, mas potência. Um impulso que não vinha só dele. O segundo golpe veio mais rápido. O terceiro, ainda mais.
A articulação cedeu.
O braço caiu.
O autômato tentou reajustar a postura.
Não teve tempo.
Karl avançou, o rosto tomado por ódio puro do lugar, das ruínas, de tudo que lhe fora tirado. Cravou a barra no encaixe do pescoço e torceu com tudo o que tinha.
O metal gritou.
O corpo tombou, inerte.
Sem pensar, Karl disparou até Laura e a puxou para fora do alcance da lâmina no último segundo.
O último autômato ergueu o braço e desceu com força total. Karl viu o golpe se formar, mas enxergar o golpe era um coisa, ele não tinha a velocidade para fugir. A lamina desceu como um decreto.
Gustav tomou a frente.
Desta vez, não houve desvio.
Ele absorveu o impacto. A lâmina partiu o topo do escudo improvisado e cravou-se em seu ombro.
Foi a abertura que Karl precisava.
Num movimento rápido, acertou a articulação do joelho. O autômato tombou de lado. Laura empurrou o corpo pesado, apenas o suficiente para que o próprio peso o arrastasse para fora da plataforma.
O silêncio caiu.
A plataforma ainda descia, sacudindo mais do que deveria, faíscas escapando pelo lado direito, mas continuava em movimento.
Karl ficou imóvel por um instante, respirando com dificuldade, o coração martelando como se quisesse romper o peito.
O mundo voltou à velocidade normal.
Lyra gemia no chão.
Laura já corria até ela.
Gustav se apoiava na muleta, apertando o ferimento no ombro, exausto, sangrando, mas vivo.
Karl olhou para as próprias mãos. A pele estava rasgada em vários pontos.
Elas tremiam.
Não de medo.
Algo tinha despertado.
Ele sentia algo circulando sob a pele.
“O que é isso?”

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