Índice de Capítulo

    Karl acordou com calor.

    Não dor. Não frio.

    Calor.

    O tipo errado para aquele lugar.

    Ele estava deitado em algo macio demais para pedra. O teto acima dele se perdia em arcos altos, sustentados por colunas grossas, antigas, cobertas por inscrições que misturavam runas e estruturas metálicas.

    — Ele acordou.

    A voz de Laura ecoou pelo salão.

    Karl se ergueu devagar, o corpo protestando. Estava em um sofá largo, de couro escuro, gasto pelo tempo, mas intacto. Gustav estava próximo, sentado em uma cadeira pesada, o ombro envolto por um tecido limpo, branco demais para ter sido improvisado.

    — Onde…? — Karl começou.

    — Dentro. — Laura respondeu. — Seja lá do que isso for.

    A mansão era… absurda.

    Parecia um castelo antigo, maciço, feito para intimidar. Paredes grossas, escadarias amplas, varandas internas que se sobrepunham em níveis diferentes. Mas entre as pedras, engrenagens se moviam silenciosamente. Trilhos de metal corriam pelas paredes. Cristais do Véu estavam incrustados em suportes geométricos, emitindo uma luz constante.

    Amarelada.

    — Você está sentindo isso? — Laura perguntou.

    Karl assentiu.

    O brilho aquecia a pele. Não queimava. Não cansava os olhos. Era como ficar ao sol num dia frio, quando o corpo esquece por um momento.

    — Eles aquecem o ambiente — ela continuou. — Não é só luz. É… confortável.

    Autômatos observavam à distância.

    Não pareciam guardas.

    Eles se moviam com propósito, mas sem urgência, guiando fluxos invisíveis da casa. Nenhum demonstrava hostilidade.

    Mesmo assim, Karl não relaxou.

    Nada ali parecia abandonado.

    O primeiro autômato médico chegou sem anúncio.

    Era menor, mais compacto, com múltiplos braços articulados que se desdobravam conforme se aproximava. Trazia uma bandeja com instrumentos que Karl não reconheceu, nem mágicos, nem puramente mecânicos.

    Ele tentou recuar.

    — Fica quieto — Gustav disse sinalizando o seu ombro enfaixado. — Não adianta correr desses caras.

    O autômato não pediu permissão. Cortou os trapos que vestiam Karl. E começou a trabalhar.

    Limpou os cortes com uma substância fria que não ardia. Selou rasgos com precisão quase cirúrgica. O braço deixou de doer antes mesmo de terminar. Em Gustav, o processo foi mais longo na perna, mais cuidadoso.

    — Isso não é magia comum — Laura murmurou, observando. — É… nunca vi isso…

    Quando terminou, o autômato recolheu tudo e se afastou.

    Minutos depois, outro chegou.

    Empurrava uma maca.

    Lyra estava sobre ela.

    O peito subia e descia em ritmo estável. O rosto ainda pálido, mas sem o esforço desesperado de antes. Um corte limpo atravessava a lateral do corpo, fechado por um selamento translúcido, quase cristalino.

    — Ela está respirando… — Laura se aproximou checando, a voz falhando pela primeira vez. — Ela está bem.

    O autômato posicionou a maca ao lado de uma cama ampla e transferiu Lyra com cuidado quase humano.

    Foi então que o terceiro autômato parou.

    O cristal em seu peito começou a vibrar.

    Não era som.

    O ar tremeu levemente, e um ruído grave, arrastado, ecoou pelas paredes, como uma voz tentando atravessar algo sólido demais.

    — O-o que é isso? — Karl perguntou olhando ao redor.

    Palavras se formaram.

    Gustav olhou ao redor, enquanto testava a firmeza da perna.

    — Parece querer se comunicar. E a segunda vez que ele faz isso.

    A vibração continuou repetindo a mesma sequencia de sons até cessar abruptamente.

    O autômato virou-se… e saiu.

    O quarto voltou a cair em um silencio.

    Não o silêncio tenso das ruínas. Nem o silêncio pesado antes do combate. Era um silêncio desconfortável, vindo da incerteza, como se a própria mansão estivesse tentando convencê-los de que não havia mais perigo, mas seus corpos se negassem a acreditar nisso.

    Karl estava sentado no chão, encostado na lateral do sofá, as costas apoiadas na madeira entalhada. O corpo doía menos do que deveria e isso o deixava inquieto. Sempre pagara caro demais por sobreviver. Aquela ausência de dor parecia errada.

    — A gente não pode ficar aqui — disse, quebrando o silêncio.

    Laura não respondeu de imediato. Estava sentada perto da cama de Lyra, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas com força excessiva. O olhar fixo no chão.

    — E vamos ficar onde? — ela perguntou por fim. — Lá fora?

    Karl fechou a mão.

    — Em qualquer lugar que não seja nessa gaiola, temos que achar um jei—

    Gustav soltou um riso curto, sem humor.

    — Se isso é uma gaiola, é a mais cara que já vi. — Ele olhou ao redor.

    Ele tentou ajustar a posição do ombro e falhou, um gemido escapando antes que pudesse conter.

    — Não brinque com isso — Laura disse, seca.

    — Não estou brincando. — Gustav respirou fundo. — Só estou cansado.

    A palavra caiu com peso conforme eles se olhavam, nunca uma palavra os resumiu tão bem..

    — Tentaram matar a gente — Karl disse, a voz mais baixa do que pretendia. — Depois caímos naquele buraco. Depois aquelas coisas… — Ele parou. — Eu ainda sinto como se estivesse lá.

    — A proposito, o que foi aquilo? — Gustav perguntou se levantando com relativa facilidade.

    — Aquilo… o que?

    — Dorman, o cristal do véu que brilhou como se fosse um sol quando você tocou. — Gustav se aproximou olhando para Karl — Desde quando você pode usar mana?

    Laura soltou um riso.

    — Fala serio Gus — Ela levantou o rosto — Vocês cresceram juntos sabe tão bem quanto eu que ele nunca recebeu treinamento para gerar uma reação daquelas.

    Laura calmamente conferiu novamente o estado de Lyra antes de se levantar.

    — Talvez ele fosse um traidor, talvez fosse ele a manipular os tuneis afinal ele era um mago de terra.

    Gustav deu mais alguns passos parando a poucos metros de Karl.

    — Sabe eu até pensei isso também Tia — Ele ajeitou o ombro — Mas tem algumas coisas que não batem, porque ele contaria para a líder de expedição? porque iria querer incriminar ele?

    Gustav agachou olhando Karl nos olhos.

    — Sabe irmão eu até tinha, pensado que era uma armação daquele desgraçado, até ver como você lutou contra aquelas criaturas de metal. Então me fala, eu vou acreditar em você. — Ele respirou fundo, a apoiou a mão no ombro de Karl — Desde quando você pode usar mana?

    Karl esfregou as mãos, observando os cortes já fechados demais para o tempo que havia passado.

    — Quando tudo desacelerou… — começou, e se calou.

    Laura ergueu o olhar.

    — O que?

    Karl hesitou.

    — Durante a luta..

    Não queria dar forma ao que ainda não entendia.

    — Não sei direito ainda. — Ele balançou a cabeça. — Mas não foi escolha. Foi raiva. Pura. Eu achei que ia morrer e odiava a ideia disso, e foi quando tudo desacelerou.

    Gustav observava em silêncio.

    — Você não parecia estar só lutando — disse por fim. — Parecia desesperado para não morrer.

    Laura soltou o ar devagar.

    — Não acredito nisso..

    — Lyra quase morreu. — A voz dela falhou, mas não quebrou. — Não quero a morte dela na minha consciência… Que ódio.

    Ela apertou os dedos até ficarem brancos.

    — Odeio essa sensação. — Continuou. — De que estamos sempre chegando tarde demais. Sempre reagindo. Nunca escolhendo.

    O quarto pareceu menor.

    — E agora? — Karl perguntou. — Estamos no centro de uma cidade que não deveria existir, dentro de uma casa que funciona sozinha, sendo tratados por máquinas que decidem se a gente vive ou morre.

    — E não sabemos por quê — Gustav se levantando, voltando a testar a perna. — Nem quanto tempo isso dura.

    Karl encarou a porta por onde os autômatos haviam saído.

    — Se eles quisessem nos matar — disse — já teriam feito.

    — Isso não me tranquiliza — Laura respondeu.

    Ela olhou para Lyra, inconsciente, respirando com ajuda de algo que não compreendiam.

    — Se ficarmos… dependemos deles.
    — Se sairmos… talvez não exista saída.

    Gustav fechou os olhos por um instante com um pequeno sorriso se formando.

    — Que merda… a gente tá muito ferrado dessa vez .

    Karl riu um riso simples e se levantou devagar.

    — Pós é. — Ele respirou fundo. — Ao menos estamos vivos. E isso ainda significa alguma coisa.

    Algumas horas se passaram.

    Karl acordou de novo com o som de alguém tossindo.

    Lyra.

    Os olhos dela estavam abertos, turvos, mas vivos.

    — Ei… — ela sussurrou.

    Laura estava ao lado em um segundo.

    — Não fala. — Ela segurou o rosto da garota. — Você está segura. Por enquanto.

    — Onde… — Lyra respirou fundo. — … Ainda nas ruinas?.

    Antes que pudesse explicar, o autômato retornou.

    Trazia alimentos. Frutas cortadas com precisão geométrica. Um líquido claro em recipientes metálicos.

    Deu dois passos.

    E parou.

    O cristal voltou a vibrar.

    Dessa vez, mais forte.

    A bandeja caiu no chão com um estrondo metálico.

    — Ei! — Karl se levantou.

    O autômato não reagiu.

    A vibração se intensificou, regular o mesmo padrão, quase desesperada. Ele se abaixou lentamente, pegou a bandeja deformada… e começou a pressionar a superfície com os dedos.

    Runas surgiram.

    Mal feitas. Tortas. Forçadas.

    Lyra prendeu a respiração.

    — Para… — ela murmurou. — Não assusta ele.

    — Assustar isso?

    Ela se sentou com esforço, ignorando a dor.

    — Você… precisa de ajuda? — perguntou, devagar.

    O autômato congelou.

    Lyra observou as runas.

    Repetições.

    Símbolos quebrados.

    — Isso não é comida… — ela disse. — É um… Eu.. ou seria nos? o que?

    — O que, oque? — Gustav se aproximou — O que diz ai?

    — Calma tá, eu não sou tão boa assim. mas..

    Ela ergueu o olhar para os outros, um pouco de medo finalmente claro nos olhos.

    — Ele não está nos salvando.

    — Ele está pedindo ajuda…

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