Quatro dias de neve.

    Aisha já caminhava por conta própria. O trenó havia sido desfeito no terceiro dia, quando Ian percebeu que ela recuperava o ritmo. Agora, subiam uma encosta íngreme rochas cobertas por gelo, vento cortante, e um céu que parecia mais próximo do que deveria.

    Ian seguia à frente. Dois passos, pausa. Olhar rápido nas fendas. Mais dois passos.

    — Três dias de escalada — Ian disse, sem virar o rosto. — E nenhum deles vai ser gentil.

    — Isso é você tentando me animar?

    — Isso é eu tentando te manter viva. Ela não respondeu. Mas Ian percebeu que ela ajustou a postura.

    — Cuidado onde coloca as mãos — continuou. — Há cogumelos que crescem entre as fendas. Pequenos. Cinzentos. O veneno não mata. Mas incapacita. Se tocar, os esporos entram pela pele. E você vai cair antes de entender o que aconteceu.

    — Já foi atingido?

    — Uma vez. — ele saltando sobre uma fenda — Perdi dois dias.

    E quase um amigo que achava que cogumelos não eram problema.

    — E eram?

    — Eram! Ele tentou comer um.

    — … Idiota?

    Ian deixou um riso escapar.

    — … Convicto!

    O vento aumentava. Ian mantinha o ritmo. Aisha o seguia com precisão. O silêncio entre eles era confortável agora. Não vazio, mas funcional.

    Ian pensava. Sobre o caminho. Sobre a cidade. Sobre o que faria quando chegassem. Aisha era diferente. Não só pela força. Mas pela forma como se adaptava… Ela aprendia rápido.

    Como se estivesse sempre esperando que o mundo a dissesse que aquilo era uma ilusão.

    — Mais vinte metros — disse Ian, já vendo o topo da encosta.

    Aisha assentiu. Subia com firmeza. Ian se virou para continuar. E então… ouviu o som. Não de queda. Mas de um espirro.

    Virou-se a tempo de ver Aisha alcançar uma borda coberta por uma camada fina de cogumelos cinzentos. Ela não viu. Os esporos se soltaram como poeira. Entraram pela pele exposta da mão. Ela conseguiu subir para uma parte plana, mas… Piscou. Cambaleou. Tentou falar. Mas o corpo já não respondia.

    Ian se lançou para alcançá-la, mas ela já estava caindo em colapso.

    O corpo se dobrou. Os olhos se fecharam. Ele a segurou antes que o impacto fosse maior.

    — Merda… — murmurou Ian, olhando para a borda. Ele suspirou. Olhou para o céu. Depois para ela.

    — Quatro dias sem problemas. Estava indo tão bem…

    Acomodou Aisha com cuidado, já moldando o gelo ao redor para improvisar um abrigo.

    — Ao menos não caiu no penhasco… Teria sido problemático…

    Ela não respondeu.

    Estava inconsciente. Ian se sentou ao lado dela, observando os esporos ainda flutuando no ar. Com um pequeno sorriso se formando em seu rosto

    — … Ao menos não tentou fazer uma sopa! O vento rugia.

    O ar era fino. Aisha abriu os olhos devagar. O corpo estava mole. A garganta, seca. E o estômago… vazio.

    A primeira coisa que sentiu foi o frio. A segunda, o balanço. Ela estava sendo carregada.

    Ian subia uma encosta, os braços firmes, o olhar fixo no caminho. O vento soprava com força, mas ele não parecia se incomodar. Aisha tentou falar, mas a voz não saiu. Apenas um som rouco.

    Ian olhou para ela, sem parar de andar.

    — Está acordada.

    — Quanto tempo…? — murmurou ela.

    — Acho que quatro dias.

    Ela tentou se mexer. O corpo protestou.

    — Estou com fome. E sede.

    — Imaginei — ele falou ajeitando-a nas costas

    — Estamos quase em uma antiga trilha. Mas ainda não vi ninguém ainda.

    Aisha olhou ao redor. A paisagem era diferente. Menos branco. Mais pedra. O céu estava limpo, mas o ar rarefeito mordia o pulmão.

    eles caminharam por mais algumas horas até que viram uma estrada de pedra cortando a encosta.

    Ian a colocou no chão com cuidado, entre formações rochosas. Moldou o gelo do solo num abrigo simples, baixo, firme.

    — Fique aqui, vou buscar carne. E madeira. O frio vai piorar à noite.

    Ela apenas assentiu.

    Ian desapareceu entre as pedras. Os passos sumiram rápido.O tempo parecia não ter pressa em passar. Aisha tentou se sentar. Ainda não dava. O abrigo segurava o calor, mas não preenchia o vazio no estômago. Ela olhou para o céu. A luz já caía.

    Quando a noite chegou, Ian voltou.

    Nos ombros, madeira seca. Em uma bolsa, carne envolta em folhas escuras.

    — Consegui um cervo pequeno — disse, já preparando a fogueira.

    — Não é muito, mas vai ajudar.

    A chama se ergueu com facilidade. Ian moldou estacas, cravou a carne com precisão. O aroma veio rápido.

    Aisha observava. Silenciosa.

    — Você sempre faz isso sozinho?

    — Quase sempre.

    — E nunca pensou em… parar?

    Ele olhou o fogo.

    — Já pensei. Mas o mundo não parou.

    — Então eu continuei.

    O cheiro da carne se espalhava. O estômago dela se contorcia. Ian entregou o primeiro pedaço.

    — Devagar. Seu corpo ainda está se ajustando.

    Ela comeu sem pressa.

    O sabor era simples. Mas a fome foi o melhor tempero.

    A fogueira crepitava.O abrigo segurava o calor. Estrelas surgiam, tímidas.

    Ian olhava o horizonte.

    — Essa estrada… — disse, baixo.

    — Não existia antes.Aisha ergueu os olhos.— Como assim?

    — Quando parti, havia trilhas. Caminhos no gelo. Mas pedra… não.— Ele deu uma mordida na carne — Alguém construiu isso. E não faz muito tempo.

    — Então o mundo está mudando — falei enquanto observava ele colocar outro espeto no fogo.

    — Está… E rápido.Ela o encarou.— Isso te incomoda?

    Ian pensou. Por um momento.

    — Me incomoda não saber se estou voltando… ou chegando pela primeira vez.

    A fogueira estalava.

    — Você acha que vamos encontrar alguém nessa estrada? — perguntou Aisha.

    — Talvez. Mais cedo ou mais tarde… Sempre tem alguém no caminho.

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