Índice de Capítulo

    Narrado por Maelis

    Eu não deveria tê-lo chamado.

    Era isso que qualquer protocolo diria.

    O simples fato de Alexandra ter retornado sozinha ao meu comando, pálida demais para esconder o nervosismo, dizendo que eu autorizara a subida de Eldrik, já configurava uma quebra clara de etiqueta. Um erro. Um deslize político. Uma falha que não deveria existir.

    Assumi a responsabilidade no instante em que pronunciei o nome dele.

    Agora, sozinha no escritório da Torre Sul, observei a marca escura na parede lateral a fuligem irregular, feia demais para qualquer tentativa de simbolismo. Um resíduo cru da falha do meu ataque.

    Respirei fundo.

    Controle.

    Arrumei a mesa sem necessidade real, alinhei pergaminhos que já estavam alinhados, ajustei a posição de uma cadeira que ninguém usaria. Gestos pequenos, precisos, inúteis. A mente precisava ocupar as mãos.

    Ouvi passos no corredor superior.

    O burburinho da torre, normalmente constante, foi morrendo à medida que ele se aproximava. Sempre era assim. Eldrik não precisava erguer a voz nem impor presença. As pessoas simplesmente reagiam a ele.

    Aproximei-me da mesa e endireitei a postura. Vestes formais. Ombros firmes. Expressão neutra. Tudo estava perfeito.

    A porta se abriu após a batida.

    Ele entrou.

    O primeiro olhar que lançou ao ambiente não foi para mim, mas para a parede. Viu a fuligem. Claro que viu. Eldrik sempre percebia o que não havia sido explicado.

    — Eldrik — cumprimentei, com a voz firme. — Não esperava uma visita sua.

    Ele fechou a porta atrás de si com cuidado.

    — Tampouco eu esperava precisar vir. Mas parece que estamos acumulando mal-entendidos.

    Mal-entendidos. Sempre essa palavra, quando não sabia nomear o que sentia. Como se o problema fosse uma dobra mal feita na realidade, nunca uma escolha.

    — Está se referindo a quê, exatamente?

    A pergunta saiu limpa. Ensaiada.

    — Ao Guardião. À comitiva de Altheria. Ao que ocorreu no baile… e ao que tem ocorrido desde então.

    Cruzei os braços devagar. Não para me fechar, mas para conter a vontade de sorrir ao lembrar da expressão dele naquela noite.

    — Achei que sua vinda fosse sobre política — observei. — Não sobre ressentimentos pessoais.

    O maxilar dele se contraiu, quase imperceptível. Eldrik detestava quando emoções eram nomeadas.

    — Ressentimento implica ofensa. E é exatamente isso que estou tentando entender. Onde, em qual ponto, eu a ofendi.

    Levantei-me e caminhei até a janela. Precisava do frio da pedra sob a mão. Da distância. Não olhei para ele.

    — O que lhe fez achar que estou ofendida?

    — Tudo.

    A resposta veio sem hesitação.

    — E é por isso que estou aqui.

    Houve passos atrás de mim, calculados demais para não pressionar. Mantive o olhar fixo na luz pálida do exterior.

    — Em todos esses anos — continuou — nunca a destratei. Nunca a ridicularizei. Nunca a usei como instrumento político sem seu consentimento. Nunca levantei a voz. Nunca fiz promessas que não pudesse cumprir.

    Virei-me devagar.

    — Está recitando sua própria absolvição?

    — Estou expondo fatos. Porque, honestamente, Maelis… eu não entendo de onde vem essa hostilidade.

    Ali estava o ponto.

    Algo se moveu dentro de mim, não raiva aberta, não mágoa exposta. Algo mais afiado. Mais perigoso.

    — Hostilidade — repeti. — É isso que você acha que é?

    — O baile. A dança. O espetáculo calculado. O uso deliberado do Guardião para criar rumores. Para me expor.

    — Eu não usei ninguém.

    Ele sustentou um meio sorriso tenso.

    — Você sabia exatamente o que estava fazendo. E o que aquilo poderia gerar.

    Soltei uma risada curta. Sem humor.

    — Interessante. Você nunca me atribuiu intenção antes.

    O cenho dele se franziu.

    — O que isso quer dizer?

    Aproximei-me da mesa e apoiei as mãos na madeira, inclinando-me o suficiente para que ele entendesse que aquilo não era um jogo.

    — Quer dizer que você sempre me viu como algo previsível. Seguro. Uma constante. Nunca como alguém capaz de agir por vontade própria.

    — Isso não é verdade — respondeu rápido demais.

    — É sim. Só que você nunca percebeu.

    Ele respirou fundo, tentando manter o controle. Sempre tentava.

    — Nunca a tratei como inferior. Nunca a considerei descartável.

    — Não — concordei. — Você só me tratou como se eu fosse uma pessoa qualquer.

    As palavras ficaram suspensas entre nós.

    — Eu não entendo — admitiu. — Está insinuando que eu deveria ter fingido sentimentos? Isso seria desonesto.

    — E aqui está você de novo. Sempre tão correto. Tão orgulhoso da própria honestidade.

    — Honestidade é uma virtude.

    — Nem sempre. No seu caso, é apenas uma forma elegante de se isentar de responsabilidade.

    Vi o impacto. Não como raiva. Como frustração.

    — Eu nunca exigi nada de você. Nunca cobrei. Nunca fiz cenas. Nunca a coloquei em posição constrangedora.

    — Exatamente — murmurei. — Você nunca fez nada.

    O silêncio caiu pesado.

    — Fui claro desde o início. Nunca a iludi. Nunca prometi mais do que podia oferecer.

    — E você acha que isso torna tudo aceitável? Neutro?

    — Não posso ser responsabilizado por expectativas que nunca criei.

    — Pode — corrigi. — Quando aceita alguém ao seu lado apenas porque não conseguiu o que realmente queria.

    Ele ia responder. Não deixei.

    — Eu sei exatamente o que foi. E sei exatamente o que eu representei depois. Mas preciso lhe agradecer — completei, com calma fria. — Graças a você, finalmente vi o quão tola fui.

    A tensão crescia, mas não havia gritos. Eldrik brigava com lógica.

    — Ainda assim — insistiu — nada disso justifica envolver o Guardião.

    — Não fui eu que o envolvi. Ele veio até mim.

    — Isso não faz sentido.

    — Então talvez você esteja assumindo coisas demais.

    A porta se abriu antes que ele respondesse.

    Alexandra entrou primeiro, carregando a bandeja, mãos trêmulas. Atrás dela, Ian.

    Timing perfeito.

    O Guardião do Norte.

    Sem armadura. Sem símbolos. Apenas um homem em roupas simples, deslocado demais para parecer calculado.

    — Príncipe Eldrik — cumprimentou Ian, com uma inclinação leve da cabeça. — Não sabia que teria companhia.

    — O que está fazendo aqui?

    Ian lançou-me um olhar rápido antes de responder.

    — Vim tomar café.

    Vi Eldrik perder o eixo por um segundo.

    — Café?

    — Sim — confirmou Ian, pousando a bandeja sobre a mesa. — Quer se juntar a nós?

    Que cara de pau.

    Sustentei o olhar de Eldrik, contendo a vontade de sorrir.

    — Não. Agradeço.

    A compreensão o atingiu como um golpe tardio.

    — Maelis… vejo que interpretei mal a situação.

    Inclinei levemente a cabeça.

    — Acontece.

    — Ainda assim, espero que mantenha Altheria fora das nossas divergências.

    — Se depender de mim, isso já está resolvido.

    Ele assentiu.

    — Bom dia.

    — Bom dia — respondeu Ian.

    Esperei a porta se fechar. Não imediatamente. Esperei o tempo exato para o corredor engolir os passos dele, o som ritualístico da dignidade ferida sendo recomposta. Só então soltei o ar preso nos pulmões.

    — Então… obrigada pelo teatro.

    Ian arqueou uma sobrancelha enquanto servia o café com naturalidade quase ofensiva.

    — Teatro? Achei que fosse só improviso.

    Um canto da minha boca cedeu.

    — Você apareceu no pior momento possível, da pior forma possível, com a pior desculpa possível… e ainda assim conseguiu melhorar a manhã. Isso exige talento.

    — Prefiro chamar de charme — disse, empurrando uma xícara na minha direção. — Mas aceito o crédito pela sorte também.

    Peguei a xícara. O aroma era bom. Café de verdade.

    — Alexandra ficou apavorada.

    — Notei. Ela quase pediu desculpa por respirar.

    Bebi um gole. Quente. Reconfortante.

    — Eldrik achou que eu estava usando você.

    — Deu para notar.

    — E você não parece incomodado.

    Ian deu de ombros.

    — Quando alguém projeta as próprias jogadas nos outros, facilita prever o próximo movimento.

    Ri baixo.

    — Lembre-me de nunca me tornar sua inimiga.

    Observei-o por um instante além do necessário. Sem armadura, sem títulos visíveis… apenas humano.

    Mas chega de jogos.

    Sentei-me ao lado dele.

    — Certo. Já rimos. Já desmontamos o príncipe. Agora diga: o que você realmente queria comigo?

    Ele me avaliou sem pressa.

    — Direta. Gosto disso.

    — Ian, eu não sou estúpida. A dança no baile foi ótima, mas sei que você não veio aqui só por café.

    — Verdade. Mas também não vim apenas pelo motivo que você está esperando.

    — Então não enrole.

    Um sorriso torto surgiu.

    — Hoje, eu só queria conversar com você.

    Esperei. Ele não completou.

    — Só isso?

    — Só isso. Você foi a pessoa mais interessante do baile, de longe.

    — Eu estava atuando.

    — Isso ficou claro.

    Desviei o olhar por um instante.

    — E você? Quem é quando não está fingindo ser o Guardião?

    Ele demorou.

    — Alguém que sobreviveu. E que ainda está aprendendo a viver depois disso.

    Não era ensaiado.

    — Já teve alguém?

    No instante em que perguntei, senti.

    A mana do ambiente estremeceu. Não explodiu. Apenas vibrou, como uma corda tensa tocada de leve demais.

    Franzi o cenho.

    — Ian…?

    Ele fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, a vibração cessara.

    — Desculpa. Às vezes acontece.

    — Foi a sua mana?

    — Ela anda reagindo a coisas demais.

    Não havia defesa no tom. Apenas cansaço.

    Aproximei-me instintivamente.

    — Você está com dificuldade de controle?

    Ele assentiu.

    — Está controlado — acrescentou.

    — Não pareceu.

    Olhei para ele. Pela primeira vez desde que o conheci, o brilho nos olhos havia se apagado.

    — Acha que pode me ajudar com isso?

    — Claro… — Respondi — Porque não?

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