Capítulo 120 - Peões
Narrado por Maelis
Eu não deveria tê-lo chamado.
Era isso que qualquer protocolo diria.
O simples fato de Alexandra ter retornado sozinha ao meu comando, pálida demais para esconder o nervosismo, dizendo que eu autorizara a subida de Eldrik, já configurava uma quebra clara de etiqueta. Um erro. Um deslize político. Uma falha que não deveria existir.
Assumi a responsabilidade no instante em que pronunciei o nome dele.
Agora, sozinha no escritório da Torre Sul, observei a marca escura na parede lateral a fuligem irregular, feia demais para qualquer tentativa de simbolismo. Um resíduo cru da falha do meu ataque.
Respirei fundo.
Controle.
Arrumei a mesa sem necessidade real, alinhei pergaminhos que já estavam alinhados, ajustei a posição de uma cadeira que ninguém usaria. Gestos pequenos, precisos, inúteis. A mente precisava ocupar as mãos.
Ouvi passos no corredor superior.
O burburinho da torre, normalmente constante, foi morrendo à medida que ele se aproximava. Sempre era assim. Eldrik não precisava erguer a voz nem impor presença. As pessoas simplesmente reagiam a ele.
Aproximei-me da mesa e endireitei a postura. Vestes formais. Ombros firmes. Expressão neutra. Tudo estava perfeito.
A porta se abriu após a batida.
Ele entrou.
O primeiro olhar que lançou ao ambiente não foi para mim, mas para a parede. Viu a fuligem. Claro que viu. Eldrik sempre percebia o que não havia sido explicado.
— Eldrik — cumprimentei, com a voz firme. — Não esperava uma visita sua.
Ele fechou a porta atrás de si com cuidado.
— Tampouco eu esperava precisar vir. Mas parece que estamos acumulando mal-entendidos.
Mal-entendidos. Sempre essa palavra, quando não sabia nomear o que sentia. Como se o problema fosse uma dobra mal feita na realidade, nunca uma escolha.
— Está se referindo a quê, exatamente?
A pergunta saiu limpa. Ensaiada.
— Ao Guardião. À comitiva de Altheria. Ao que ocorreu no baile… e ao que tem ocorrido desde então.
Cruzei os braços devagar. Não para me fechar, mas para conter a vontade de sorrir ao lembrar da expressão dele naquela noite.
— Achei que sua vinda fosse sobre política — observei. — Não sobre ressentimentos pessoais.
O maxilar dele se contraiu, quase imperceptível. Eldrik detestava quando emoções eram nomeadas.
— Ressentimento implica ofensa. E é exatamente isso que estou tentando entender. Onde, em qual ponto, eu a ofendi.
Levantei-me e caminhei até a janela. Precisava do frio da pedra sob a mão. Da distância. Não olhei para ele.
— O que lhe fez achar que estou ofendida?
— Tudo.
A resposta veio sem hesitação.
— E é por isso que estou aqui.
Houve passos atrás de mim, calculados demais para não pressionar. Mantive o olhar fixo na luz pálida do exterior.
— Em todos esses anos — continuou — nunca a destratei. Nunca a ridicularizei. Nunca a usei como instrumento político sem seu consentimento. Nunca levantei a voz. Nunca fiz promessas que não pudesse cumprir.
Virei-me devagar.
— Está recitando sua própria absolvição?
— Estou expondo fatos. Porque, honestamente, Maelis… eu não entendo de onde vem essa hostilidade.
Ali estava o ponto.
Algo se moveu dentro de mim, não raiva aberta, não mágoa exposta. Algo mais afiado. Mais perigoso.
— Hostilidade — repeti. — É isso que você acha que é?
— O baile. A dança. O espetáculo calculado. O uso deliberado do Guardião para criar rumores. Para me expor.
— Eu não usei ninguém.
Ele sustentou um meio sorriso tenso.
— Você sabia exatamente o que estava fazendo. E o que aquilo poderia gerar.
Soltei uma risada curta. Sem humor.
— Interessante. Você nunca me atribuiu intenção antes.
O cenho dele se franziu.
— O que isso quer dizer?
Aproximei-me da mesa e apoiei as mãos na madeira, inclinando-me o suficiente para que ele entendesse que aquilo não era um jogo.
— Quer dizer que você sempre me viu como algo previsível. Seguro. Uma constante. Nunca como alguém capaz de agir por vontade própria.
— Isso não é verdade — respondeu rápido demais.
— É sim. Só que você nunca percebeu.
Ele respirou fundo, tentando manter o controle. Sempre tentava.
— Nunca a tratei como inferior. Nunca a considerei descartável.
— Não — concordei. — Você só me tratou como se eu fosse uma pessoa qualquer.
As palavras ficaram suspensas entre nós.
— Eu não entendo — admitiu. — Está insinuando que eu deveria ter fingido sentimentos? Isso seria desonesto.
— E aqui está você de novo. Sempre tão correto. Tão orgulhoso da própria honestidade.
— Honestidade é uma virtude.
— Nem sempre. No seu caso, é apenas uma forma elegante de se isentar de responsabilidade.
Vi o impacto. Não como raiva. Como frustração.
— Eu nunca exigi nada de você. Nunca cobrei. Nunca fiz cenas. Nunca a coloquei em posição constrangedora.
— Exatamente — murmurei. — Você nunca fez nada.
O silêncio caiu pesado.
— Fui claro desde o início. Nunca a iludi. Nunca prometi mais do que podia oferecer.
— E você acha que isso torna tudo aceitável? Neutro?
— Não posso ser responsabilizado por expectativas que nunca criei.
— Pode — corrigi. — Quando aceita alguém ao seu lado apenas porque não conseguiu o que realmente queria.
Ele ia responder. Não deixei.
— Eu sei exatamente o que foi. E sei exatamente o que eu representei depois. Mas preciso lhe agradecer — completei, com calma fria. — Graças a você, finalmente vi o quão tola fui.
A tensão crescia, mas não havia gritos. Eldrik brigava com lógica.
— Ainda assim — insistiu — nada disso justifica envolver o Guardião.
— Não fui eu que o envolvi. Ele veio até mim.
— Isso não faz sentido.
— Então talvez você esteja assumindo coisas demais.
A porta se abriu antes que ele respondesse.
Alexandra entrou primeiro, carregando a bandeja, mãos trêmulas. Atrás dela, Ian.
Timing perfeito.
O Guardião do Norte.
Sem armadura. Sem símbolos. Apenas um homem em roupas simples, deslocado demais para parecer calculado.
— Príncipe Eldrik — cumprimentou Ian, com uma inclinação leve da cabeça. — Não sabia que teria companhia.
— O que está fazendo aqui?
Ian lançou-me um olhar rápido antes de responder.
— Vim tomar café.
Vi Eldrik perder o eixo por um segundo.
— Café?
— Sim — confirmou Ian, pousando a bandeja sobre a mesa. — Quer se juntar a nós?
Que cara de pau.
Sustentei o olhar de Eldrik, contendo a vontade de sorrir.
— Não. Agradeço.
A compreensão o atingiu como um golpe tardio.
— Maelis… vejo que interpretei mal a situação.
Inclinei levemente a cabeça.
— Acontece.
— Ainda assim, espero que mantenha Altheria fora das nossas divergências.
— Se depender de mim, isso já está resolvido.
Ele assentiu.
— Bom dia.
— Bom dia — respondeu Ian.
Esperei a porta se fechar. Não imediatamente. Esperei o tempo exato para o corredor engolir os passos dele, o som ritualístico da dignidade ferida sendo recomposta. Só então soltei o ar preso nos pulmões.
— Então… obrigada pelo teatro.
Ian arqueou uma sobrancelha enquanto servia o café com naturalidade quase ofensiva.
— Teatro? Achei que fosse só improviso.
Um canto da minha boca cedeu.
— Você apareceu no pior momento possível, da pior forma possível, com a pior desculpa possível… e ainda assim conseguiu melhorar a manhã. Isso exige talento.
— Prefiro chamar de charme — disse, empurrando uma xícara na minha direção. — Mas aceito o crédito pela sorte também.
Peguei a xícara. O aroma era bom. Café de verdade.
— Alexandra ficou apavorada.
— Notei. Ela quase pediu desculpa por respirar.
Bebi um gole. Quente. Reconfortante.
— Eldrik achou que eu estava usando você.
— Deu para notar.
— E você não parece incomodado.
Ian deu de ombros.
— Quando alguém projeta as próprias jogadas nos outros, facilita prever o próximo movimento.
Ri baixo.
— Lembre-me de nunca me tornar sua inimiga.
Observei-o por um instante além do necessário. Sem armadura, sem títulos visíveis… apenas humano.
Mas chega de jogos.
Sentei-me ao lado dele.
— Certo. Já rimos. Já desmontamos o príncipe. Agora diga: o que você realmente queria comigo?
Ele me avaliou sem pressa.
— Direta. Gosto disso.
— Ian, eu não sou estúpida. A dança no baile foi ótima, mas sei que você não veio aqui só por café.
— Verdade. Mas também não vim apenas pelo motivo que você está esperando.
— Então não enrole.
Um sorriso torto surgiu.
— Hoje, eu só queria conversar com você.
Esperei. Ele não completou.
— Só isso?
— Só isso. Você foi a pessoa mais interessante do baile, de longe.
— Eu estava atuando.
— Isso ficou claro.
Desviei o olhar por um instante.
— E você? Quem é quando não está fingindo ser o Guardião?
Ele demorou.
— Alguém que sobreviveu. E que ainda está aprendendo a viver depois disso.
Não era ensaiado.
— Já teve alguém?
No instante em que perguntei, senti.
A mana do ambiente estremeceu. Não explodiu. Apenas vibrou, como uma corda tensa tocada de leve demais.
Franzi o cenho.
— Ian…?
Ele fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, a vibração cessara.
— Desculpa. Às vezes acontece.
— Foi a sua mana?
— Ela anda reagindo a coisas demais.
Não havia defesa no tom. Apenas cansaço.
Aproximei-me instintivamente.
— Você está com dificuldade de controle?
Ele assentiu.
— Está controlado — acrescentou.
— Não pareceu.
Olhei para ele. Pela primeira vez desde que o conheci, o brilho nos olhos havia se apagado.
— Acha que pode me ajudar com isso?
…
— Claro… — Respondi — Porque não?

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