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    O sol descia devagar por trás das planícies de Cervalhion, tingindo o céu de laranja e cobre. Da varanda aberta atrás do trono, a cidade parecia tranquila demais para um reino em tensão.

    Aedin permanecia sentado de costas para a sala do trono, voltado apenas para o mirante.

    O trono não o sustentava como antes.

    Os ombros estavam tensos, a postura rígida. O rosto, marcado por olheiras profundas. As noites haviam se tornado curtas demais. Quando dormia, os sonhos vinham fragmentados, ora pesadelos vívidos, ora cochilos rasos, sempre atravessados por vozes que sussurravam seu nome, como se o conhecessem melhor do que ele próprio.

    Levou a mão à têmpora, pressionando com força.

    — Preciso achar um jeito… — murmurou, abrindo e fechando o punho enquanto encarava o horizonte.

    Foi então que as sombras do trono se moveram.

    Toc. Toc.

    O som da bengala ecoou antes mesmo que a figura se revelasse por completo.

    — Majestade — disse o Andarilho, emergindo das sombras na forma de um idoso apoiado em uma velha bengala. — Ainda observando o pôr do sol?

    Aedin não se virou de imediato.

    — Você voltou — respondeu, seco. — Pensei que me deixaria em paz, ao menos por hoje.

    O Andarilho esboçou um sorriso contido.

    — E perder um momento tão… revelador? Não seria prudente da minha parte.

    Aedin se levantou, apoiando-se nos braços do trono antes de dar alguns passos à frente. O movimento denunciou o cansaço, um breve desequilíbrio, rápido demais para ser notado por qualquer outro, mas não por aquela presença.

    — Meu rei está bem? — perguntou o Andarilho, aproximando-se. — Parece abatido.

    — Estou bem. Preciso apenas descansar.

    — Entendo. Ainda assim, cuide-se. — O velho parou ao lado dele. — Está começando a me lembrar seu pai.

    Aedin se virou, irritado.

    — Como ousa? — rosnou. — Fale logo o que veio trazer desta vez.

    O Andarilho recuou alguns passos, a bengala ecoando suavemente no piso de pedra.

    — Atualizações.

    Aedin suspirou, impaciente.

    — Sobre o Guardião?

    — Naturalmente.

    A palavra carregava uma ironia discreta.

    — Ian continua… ativo — prosseguiu o Andarilho, inclinando levemente a cabeça. — Mais do que isso, quase integrado. Sua aproximação com Maelis tem se mostrado… produtiva.

    O maxilar de Aedin se contraiu.

    — Aproximação? — virou-se bruscamente. — Está dizendo que ele ainda se mantém próximo dela?

    — Mais próximo do que eu julgaria apropriado para a noiva do príncipe herdeiro — respondeu o Andarilho, com suavidade calculada. — Café da manhã em seu escritório. Conversas prolongadas. E mesmo após a saída do príncipe, ele permaneceu em sua companhia.

    Aedin cerrou os punhos.

    — Isso é um absurdo.

    — De fato.

    O silêncio que se seguiu foi pesado.

    — Eldrik foi vê-la pela manhã — continuou o Andarilho. — Procurou-a em sua torre. E foi… instruído a comparecer ao escritório dela.

    Aedin se virou de vez.

    — Ela mandou o príncipe herdeiro subir até ela?

    — Exatamente.

    O rosto do rei se fechou.

    — Jamais esperaria isso dela.

    — Concordo — disse o Andarilho, sem pressa. — Uma arquimaga pode ser poderosa, mas ainda responde à coroa. Ou deveria.

    Aedin começou a andar de um lado para o outro.

    — Eu deveria puni-la.

    — Deveria — concordou a figura. — Mas não pode.

    Aedin parou abruptamente.

    — E por que não? — rebateu. — Ela ainda é a noiva de Eldrik, mas posso desfazer esse noivado. E o posto de arquimaga pode ser transferido. — Soltou o ar com força.

    — Concordo, majestade… — respondeu o Andarilho. — Mas e o Guardião?

    Aedin soltou um riso curto.

    — Ele de novo? O que tem ele agora?

    — Se ela é próxima dele dessa forma, mexer com Maelis pode não ser a melhor ideia.

    O riso de Aedin foi breve, sem humor.

    — Então agora não posso mais decidir como governar meu próprio território?

    O Andarilho inclinou a cabeça, compreensivo.

    — Claro. Um rei não deveria enfrentar esse tipo de dilema.

    Houve uma breve pausa. A voz retornou, mais baixa.

    — Meu rei… permitiria uma pergunta?

    Aedin ergueu o olhar.

    — Faça.

    O Andarilho deu alguns passos em direção ao mirante, observando o mesmo pôr do sol.

    — A reunião entre os três reinos — começou. — Lembra-se do momento em que ele anunciou sua expedição às montanhas centrais?

    Aedin franziu o cenho.

    — Lembro.

    — Aquilo não foi um pedido — corrigiu o Andarilho. — Foi uma declaração. Em território seu. Sem deferência. Um aviso claro de que ele não reconhece sua autoridade como rei de Cervalhion.

    O silêncio se aprofundou.

    — E depois veio o baile — continuou. — A dança.

    Aedin apertou os dentes.

    — Ele sabia o que estava fazendo.

    — Sabia — confirmou o Andarilho. — Dançar daquela forma com a noiva do príncipe herdeiro… não foi gentileza. Foi afronta.

    Aedin voltou a caminhar, a respiração mais pesada.

    — Ele humilhou Eldrik diante da corte. Diante do reino.

    O Andarilho virou-se para ele.

    — Quanto mais exatamente o senhor pretende tolerar, majestade? — disse, com frieza. — Porque, pessoalmente, não pretendo continuar seguindo um rei incapaz de controlar o próprio território.

    A mão de Aedin avançou instintivamente em direção ao pescoço do velho, parando a poucos centímetros. Os dedos se fecharam lentamente no ar, enquanto a fúria em seu rosto cedia lugar a algo mais contido. Mais perigoso.

    — Então… — disse, baixo. — O que você sugere?

    O Andarilho apoiou-se na bengala, recuando em direção às sombras do trono. Seus olhos brilharam de leve.

    — Um inimigo que cresce sob os aplausos do povo é sempre o mais perigoso — afirmou. — Especialmente quando se apresenta como herói.

    Aedin passou a mão pelo rosto, exausto.

    — Vá direto ao ponto.

    O Andarilho sorriu, agora sem disfarçar a satisfação.

    — Talvez o momento de agir esteja mais próximo do que imagina, majestade. — Indicou o sul com a ponta da bengala. — Os dois Guardiões que se escondiam sob a proteção de Altheria partiram. E a aprendiz do Guardião seguiu para o leste ainda esta manhã.

    — O quê? — Aedin se aproximou. — LYsvallis está movimentando peças em meu território outra vez?!… Não vou mais tolerar isso.

    — Se me permite — disse o Andarilho — o Guardião agora está sem aliados que poderiam se tornar um problema. E com a aproximação do festival… algo interessante pode acontecer.

    Ele recuou lentamente, dissolvendo-se nas sombras da cadeira.

    — Pense nisso, majestade — ecoou a voz distante. — Antes que ele pense por você.

    Quando o salão voltou ao silêncio, Aedin permaneceu imóvel, encarando o horizonte que já começava a escurecer.

    O sol havia desaparecido.

    Deixando apenas o rastro de luz laranja iluminando as nuvens.

    Aedin deixou a sala do trono sem olhar para trás.

    Desceu escadas internas, atravessou alas menos formais, longe das tapeçarias e salões de audiência. O castelo mudava ali.

    O cheiro de metal, gordura e pão assado anunciava o destino antes mesmo que ele empurrasse a porta.

    A cozinha real estava viva.

    Cinco homens da guarda real ocupavam uma mesa larga de madeira, armaduras parcialmente removidas, risadas soltas. No centro deles, Danurem dominava o espaço como sempre: ombros largos, martelo apoiado ao lado da cadeira, uma perna sobre o banco enquanto falava alto demais para o ambiente.

    — É serio, o desgraçado não fazia ideia de onde estava quando acertei ele.

    A porta se fechou atrás de Aedin.

    As risadas morreram quase no mesmo instante.

    Os guardas se levantaram num reflexo imediato, empurrando bancos para trás.

    — Majestade! — disseram quase em uníssono.

    Danurem demorou meio segundo a mais.

    Virou-se devagar, surpresa genuína cruzando o rosto.

    — Aedin? — arqueou uma sobrancelha. — Olha só, resolveu relembrar os velhos tempos?

    — Quem sabe? posso te dar uma surra pelos velhos tempos

    — Nos seus sonhos velho caduco.

    Aedin ergueu a mão em direção aos soldados, interrompendo qualquer formalidade.

    — Sentem-se.

    Os guardas obedeceram, tensos, trocando olhares rápidos. Danurem continuou em pé por um momento, avaliando o rei com atenção incomum, antes de puxar o banco e se sentar de novo.

    — Imagino que não apareceu só pela comida — disse ele. — Ainda mais com essa cara.

    Aedin caminhou até a mesa, apoiando as mãos na madeira marcada por cortes antigos.

    — Precisarei dos caçadores, Dan.

    O sorriso torto surgiu quase automaticamente.

    — Vai depender do motivo — respondeu. — Caça boa exige esforço. E eu não levanto da mesa por qualquer presa.

    Os guardas prenderam a respiração.

    Aedin não desviou o olhar.

    — Temos um alvo.

    Danurem inclinou-se para frente, interessado de imediato.

    — E qual seria o sortudo?

    O rei endireitou-se.

    — Provavelmente — disse, com frieza contida — o mago mais forte que já enfretamos.

    O silêncio caiu pesado sobre a cozinha.

    Nenhum riso. Nenhum comentário.

    Danurem ficou imóvel por um instante… e então sorriu.

    Um sorriso lento, perigoso.

    — Bom — disse ele, estalando os dedos. — Agora sim você falou a minha língua.

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