Capítulo 123 - "Grilhões II"
A cidade fortificada de kharon despertava cedo.
As muralhas de pedra clara cercavam o complexo como um anel rígido, interrompido apenas por torres de vigia e portões reforçados que jamais permaneciam abertos por muito tempo. Além delas, erguiam-se as torres de pesquisa, altas, angulares, marcadas por runas de contenção e dutos de escoamento alquímico que jamais cessavam de fumegar.
O comandante Havelor iniciou sua inspeção como fazia todas as manhãs.
Passos firmes. Mãos cruzadas atrás das costas. Um olhar atento demais para alguém que passara os últimos meses sem enfrentar um ataque real.
Os soldados nos postos se endireitavam à sua passagem.
— Postura — corrigiu um deles sem sequer parar. — Arco mais alto. Se uma pedra lançada por um Rumbra’th atingir a muralha, você não terá tempo de pensar.
O soldado assentiu, ajustando-se imediatamente.
Havelor seguiu.
As fileiras estavam completas. Armaduras limpas. Lâminas afiadas. Os magos de apoio mantinham seus cajados próximos, runas estáveis. Nada fora do lugar.
Bom.
No pátio interno, carroças descarregavam mantimentos: sacos de grãos, barris de sal, caixas de reagentes alquímicos protegidos por selos simples. Um escriba anotava tudo com precisão mecânica.
— Estoque? — perguntou Havelor.
— Três meses completos, senhor — respondeu o homem sem levantar a cabeça. — Quatro, se racionarmos.
— Não será necessário.
Ele seguiu em direção às torres.
Ali, o cheiro mudava.
A pedra dava lugar a metal encantado, vidro reforçado, canais de drenagem manchados por resíduos esverdeados. Um odor metálico, doce demais, impregnava o ar.
A seiva Rumbra’th.
O processo era lento. Ineficiente para quem não compreendia seu valor.
Não bastava extrair: era preciso manter o corpo vivo. Estável. A seiva só tinha utilidade enquanto fluía. Um Rumbra’th morto era inútil. Um desperdício.
Havelor entrou na Torre de Refino Sete.
O interior era silencioso demais para um local de trabalho. Apenas o gotejar constante ecoava pelas paredes.
Fileiras de plataformas ocupavam o salão principal.
Sobre elas, Rumbra’th desacordados eram banhados pela luz do sol filtrada pelo vidro superior. Corpos grandes, presos por anéis rúnicos que envolviam membros e tronco. Veios naturais expostos por incisões precisas, de onde a seiva escorria lentamente por canais de vidro até reservatórios selados.
Alguns respiravam de forma quase imperceptível.
Outros estavam ligados a artefatos que mantinham o fluxo vital estável, mesmo quando o corpo já não reagia.
— Estão dentro dos parâmetros — disse uma voz calma.
Havelor virou-se.
O mago-chefe Alveric aproximava-se, túnica impecável, mãos limpas demais para alguém que lidava com aquele trabalho diariamente.
— Perdas? — perguntou o comandante.
— Nenhuma nesta semana — respondeu Alveric. — Ajustamos os ritmos de extração. Menos estresse, mais rendimento ao longo do tempo.
Havelor observou um dos Rumbra’th por alguns segundos.
— Há quanto tempo não sofremos um ataque?
— Três ciclos completos — respondeu o mago. — Desde a última incursão da Guardiã.
O comandante arqueou uma sobrancelha.
— E você acredita que eles desistiram?
Alveric sorriu, um gesto pequeno, confiante.
— Não por desistência. Por matemática. A reprodução deles é lenta demais. Cada indivíduo perdido pesa mais do que conseguimos causar. Os que ainda estão livres sabem disso.
— Medo, então?
— Prudência — corrigiu o mago. — Eles não podem se dar ao luxo de atacar.
Havelor cruzou os braços.
— O rei anda confiante demais — comentou. — Fala em expansão para o deserto como se fosse apenas uma questão de tempo.
Alveric acompanhou o olhar do comandante até a janela estreita. Além das muralhas externas, a floresta densa dava lugar, pouco a pouco, ao solo árido.
— E é — respondeu. — Com seiva suficiente e magos capazes, não há solo que não possa ser refeito. Água, nutrientes, regeneração acelerada… uma floresta pode nascer onde hoje há areia.
— Você realmente acredita nisso?
O mago não hesitou.
— Acredito na lógica. E na quantidade.
Havelor soltou um riso baixo.
— Então os Rumbra’th estão pagando para que o deserto floresça.
— O progresso sempre cobra algo — respondeu Alveric.
Foi então que o som mudou.
Primeiro, um trovão distante.
Depois, outro.
Havelor franziu o cenho.
— Chuva?
Alveric aproximou-se de um dos painéis rúnicos.
— É o que parece.
O som cresceu rápido demais.
Gotas pesadas começaram a bater contra o vidro da torre. O ar esfriou de forma abrupta.
Um soldado entrou apressado.
— Senhor! — disse, ofegante. — Mensagem da muralha leste.
Havelor virou-se imediatamente.
— Fale.
— Estamos sob ataque.
Houve um breve silêncio.
— Identificação?
O soldado engoliu em seco.
— A Guardiã Rumbra’th, senhor.
O comandante sorriu.
— Finalmente.
Ele virou-se para Alveric.
— Parece que sua matemática estava incompleta.
— Talvez — respondeu o mago, pálido. — Mas ainda temos vantagem.
Havelor já caminhava para a saída.
— Toque o alarme. Chame o pelotão completo. Quero os magos de contenção prontos.
Ele parou à porta, lançando um último olhar para os Rumbra’th presos.
— Se ela veio… não veio sozinha.
Havelor saiu da torre enquanto a chuva engrossava.
Correu até a guarnição, apanhou um escudo pesado e disparou em direção ao portão externo do forte. O chão já estava escorregadio, lama se formando entre as pedras misturada a folhas esmagadas.
Mas o verdadeiro perigo vinha de baixo.
— Segurem o solo! — gritou um dos magos de terra, ajoelhado junto à muralha externa.
Três deles mantinham as mãos cravadas no chão, runas pulsando sobre os mantos. A mana afundava na terra como estacas invisíveis. O solo tremia sob seus pés, rachaduras surgindo e se fechando em ciclos irregulares.
A Guardiã fazia o que sempre fazia.
Tentava destruir a base. Rasgar o solo sob o forte. Forçar Elandor a lutar contra a própria fundação.
E, como sempre, estavam prontos para isso.
— Pressão aumentando no flanco oeste! — gritou outro mago, os dentes cerrados. — Ela está tentando romper as fundações.
Era assim que Naira lutava.
Sua mana não vinha em explosões rápidas. Ela se espalhava. Enraizava-se. Tomava tempo. Cada ataque era uma preparação longa, poderosa… e previsível.
— Rastreio! — ordenou Havelor.
Dois magos avançaram sob a chuva crescente.
Um afundou os dedos na terra, sentindo o pulso da mana vibrar sob a superfície. O outro ergueu a mão em direção à mata, fechando os olhos.
As plantas responderam.
— Ali — disse o mago das plantas. — Ela está usando a vegetação como canal. Não está sozinha.
Como esperado.
Pedregulhos começaram a cair, arremessados em sequência. Impactavam o chão, estilhaçando pedra, espalhando fragmentos.
— Escudos! — gritou Havelor, avançando.
O portão se abriu.
O pelotão de contenção entrou em movimento.
Quatro mulheres. Três homens.
Placas leves de armadura esverdeada foram ajustadas sob a cobertura do arco. Inscrições de abafamento de mana tornavam as silhuetas quase invisíveis sob a chuva e a copa da floresta.
— Aproximação rápida — disse Varek, o capitão. — Curta distância. Não deem espaço para ela respirar.
Naira era devastadora quando tinha tempo.
De perto, era onde sangrava.
— Rastreio confirmado — gritou um mensageiro. — Cinquenta homens pelo flanco!
— Agora! — ordenou Varek.
O último deles saiu da proteção do portão. avançando rapidamente pelo pequeno trecho de grama antes da mata.
Foi então que ele ouviu.
Misturada ao som da chuva e dos passos, uma voz grave.
— Ó raio…
Não vinha do chão.
— Teu mestre ordena…
Não vinha da frente.
— Mostre a eles…
Ele ergueu o olhar.
Entre as nuvens, um disco luminoso girava lentamente, vasto demais para ser compreendido de imediato. Linhas de mana cruzavam-se como veias de luz. A mente dele travou.
Aquilo não era humano.
— Abrigo! — gritou, tarde demais.
A voz desceu com a chuva.
Calma. Profunda. Absoluta.
— A Tormenta.
O mundo explodiu em luz.
Raios caíram como lanças contínuas, rasgando o solo, atravessando escudos, encontrando metal, carne e magia.
Varek correu.
Não como um herói.
Como alguém que sabia exatamente quantos passos tinha até morrer se errasse o tempo.
A lama puxava as botas, pesada, traiçoeira. A chuva caía grossa demais, cada gota um pequeno impacto frio contra o rosto. A floresta à frente tremia sob a luz intermitente dos relâmpagos, sombras longas demais, árvores curvando-se como se tentassem fugir.
Um clarão branco engoliu um dos soldados da vanguarda. Por um instante, Varek viu o corpo inteiro ser recortado, armadura, ossos, expressão congelada e no segundo seguinte só restou o cheiro de metal queimado e carne carbonizada.
À direita.
O escudo de um soldado explodiu em fragmentos incandescentes. O homem foi arremessado para trás como um boneco sem peso, batendo contra uma árvore que imediatamente começou a queimar.
Varek desviou por pouco.
O cheiro de ozônio queimava as narinas. A chuva agora evaporava antes mesmo de tocar o chão em alguns pontos, transformando o campo numa névoa fervente, iluminada de dentro para fora.
Ele ergueu o escudo.
Sabia que era inútil.
Mesmo assim, ergueu.
O mundo ficou branco.
Por uma fração de segundo, longa demais, Varek viu tudo com clareza cruel:
os homens correndo sem direção, a muralha distante demais, a floresta em chamas sob a chuva, e acima, escondido pelas nuvens.
Uma silhueta humana, indiferente, absoluto.
Então o raio o encontrou.
Não houve dor.

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