Capítulo 124 - "Grilhões III"
A cidade fortificada não existia mais como conceito.
A chuva fina caia vagarosamente sobre os destroços.
Onde haviam torres, agora existiam apenas ruinas fumegando.
Thamir caiu de joelhos.
O ar lhe faltou de uma vez, como se os pulmões tivessem esquecido como funcionar. As mãos tremiam, os dedos ainda formigando, queimando por dentro. O gosto metálico subiu à boca antes que ele conseguisse dizer qualquer coisa.
— Thamir.
— Eu tô bem — ele falou estendendo uma mão para para-la mas ela o segurou antes que ele tombasse de vez, puxando-o pelo ombro, sentindo o peso morto começar a se impor.
— Só preciso descansar um pouco.
O coice veio inteiro, atrasado e cruel. A magia de raio ainda dançava sob a pele, descarregando onde não devia. O mundo girou, as cores se alongaram demais, e por um instante Thamir teve a nítida sensação de que, se fechasse os olhos, talvez não conseguisse abri-los de novo, mas não conseguiu resistir.
Vert apareceu do outro lado, sua figura grande contornando as arvores e causando pequenos tremores a cada passo, os olhos atentos, calculando rápido.
— O Filho do trovão, como esta? — perguntou e agachando ao lado dos dois.
— Ele vai ficar bem. — Naira respondeu colocando ele deitado na lama.
Ao redor deles, os Rumbra’th já se moviam.
Não celebravam.
Trabalhavam.
Corpos eram retirados com cuidado, não os dos soldados de Elandor, mas os poucos sobreviventes que foram usados para extrair a seiva que estavam presos nas estruturas que ainda fumegavam. Raízes se moviam sozinhas, abrindo passagem entre escombros, envolvendo os feridos, protegendo-os da chuva fria e da energia residual que ainda fazia o ar vibrar.
Naira apertou o maxilar. Olhou uma última vez para o que haviam feito.
— Temos que nos apressar, eles vão se reorganizar — disse. — Não podemos deixar.
Vert assentiu.
O céu começava a escurecer no horizonte, um cinza pálido denunciando o por do sol mesmo sob nuvens de chuva.
— A próxima cidade fica a uma noite inteira — Vert disse olhando para Naira. — A pé talvez, chegamos tarde demais.
Naira não hesitou.
— Temos que tentar.
Vert se abaixou, pegou Thamir com facilidade, como se o peso do guardião inconsciente fosse irrelevante. O corpo dele estava quente demais, a respiração pesada, irregular.
Antes de partir, Vert fez um gesto curto.
— Segura firme.
Naira subiu nos ombros dele, apoiando-se como quem já havia feito aquilo antes. Ajustou o equilíbrio, sentiu o balanço do corpo enorme sob si, e então a corrida começou.
Não foi uma fuga.
Foi um avanço.
A mata se abriu à força, galhos estalando, folhas e água sendo lançadas para os lados enquanto Vert atravessava a floresta como um projétil vivo. A noite os engoliu de novo, densa, úmida, cúmplice.
Atrás deles, a cidade ardia.
À frente, outras muralhas ainda respiravam,.
Thamir acordou com o som errado.
Não vinha da mata.
Não era pássaro, nem vento entre folhas, era metal. Metal vibrando em ondas longas, graves, persistentes, atravessando o ar como um aviso antigo demais para ser ignorado, carregado de intenção.
O sino.
O som parecia atravessar não apenas a floresta, mas o próprio corpo dele, fazendo a mana desalinhada reagir com pequenos espasmos sob a pele.
Thamir abriu os olhos em um sobressalto contido. O mundo entrou em foco devagar demais.
O corpo respondeu melhor do que esperava… e pior do que gostaria.
A dor havia recuado, mas não ido embora. Ainda estava ali, espalhada sob a pele como uma lembrança persistente, um cansaço profundo que não era muscular. Era estrutural. Como se algo essencial tivesse sido deslocado para fora do lugar e ainda não tivesse voltado.
Inspirou fundo. e circulou a mana retomando o controle.
O ar entrou. Saiu e a mana estabilizou.
Teria que bastar.
— Quanto tempo? — perguntou, a voz rouca, seca demais para quem ainda sentia eletricidade ecoando nos ossos.
Naira estava à frente, de pé, imóvel como uma estátua esculpida em intenção. Não virou o rosto.
— Pouco — respondeu. — O suficiente pra você não morrer se forçar de novo.
Thamir assentiu. Conhecia seus limites. Forçar agora não seria coragem, seria desperdício.
À frente deles, uma cidade se erguia sobre um morro largo, artificialmente estabilizado. Muralhas de pedra clara reforçadas por madeira escura e faixas de metal. Torres de observação marcavam os pontos altos. Torres de pesquisa se destacavam pela simetria excessiva.
Vert já estava adiante, alguns passos à frente do limite da mata. Imóvel. Os olhos fechados.
Thamir sentiu quando a mana dele se expandiu.
Não como um ataque, como um pulso suave. Um campo de percepção que atravessou o solo, deslizou pelas raízes, subiu pelas paredes da cidade, tocou cada presença viva e retornou com peso.
— Quatro — disse ele, abrindo os olhos. — Magos. Reservas grandes. Estão juntos.
Fez uma pausa curta, sentindo o retorno da informação como um gosto amargo.
— E… já sabem.
Como se a própria cidade confirmasse, o sino soou de novo.
Mais alto. Mais rápido. Mais urgente.
Gritos começaram a surgir atrás das muralhas. Ordens sendo lançadas umas sobre as outras. Tropas correndo sem formação clara. Portões sendo reforçados tarde demais.
— Magos de terra? — perguntou Thamir, ajustando o equilíbrio sobre o solo irregular.
— Existem — respondeu Naira. — Mas não estão posicionados.
Thamir soltou o ar lentamente.
— Então brilha.
Ela não respondeu.
Não precisava.
Naira avançou alguns passos e fincou os pés no chão.
O mundo pareceu prender a respiração.
Thamir sentiu.
A mana dela não se espalhou pela vegetação como antes. Não se infiltrou pelas raízes, não pediu passagem. Afundou. Direto. Violenta. Um mergulho brutal no coração da terra.
O solo abaixo da cidade respondeu como algo vivo sendo arrancado da própria ossatura.
A terra cedeu.
Não rachou.
Colapsou.
O morro inteiro perdeu rigidez em um instante impossível. O que era rocha virou instabilidade. O que era base virou oco. A terra firme virou areia solta sustentando peso demais.
As muralhas começaram a rachar enquanto afundavam. Torres tombaram sobre si mesmas, desintegrando-se em cascatas de pedra e madeira. Homens desapareceram sem tempo sequer de gritar, engolidos pelo próprio chão que acreditavam dominar.
O chão engoliu a cidade.
Uma nuvem densa de areia e poeira subiu, abafando sons, apagando formas.
Quando a poeira baixou, não havia mais elevação.
Apenas uma planície irregular de areia no meio da floresta, ainda vibrando com energia residual.
E sobre essa planície, onde a maioria dos soldados não sobrevivera.
Cinco se erguiam.
Thamir os contou instintivamente.
Três magos. Dois claramente feridos. Um apoiado em um joelho, sangue escorrendo pelo canto da boca, respirando com dificuldade.
Dois guerreiros.
Um mal conseguia se manter ereto.
O outro…
Estava inteiro.
Apenas um arranhão fino na testa, recente, com sangue escorrendo até a sobrancelha. Nada mais.
Ele ergueu o olhar devagar.
E sorriu.
— Guardiã?! — disse, reconhecendo Naira sem hesitar.
Assumiu posição de combate com uma naturalidade perturbadora, como se ver sua fortaleza transformada em areia fosse tão trivial quanto um erro de cálculo.
Vert avançou um passo, o corpo se inclinando, pronto para explodir em movimento.
Thamir firmou os pés na areia instável, chamando a mana com cuidado, sentindo o eco do cansaço, mas também a resposta. Ainda estava ali.
Naira permaneceu no centro.
Silenciosa.
Imóvel.
Furiosa.
Os três se alinharam sem trocar palavras.
À frente deles, os últimos soldados fizeram o mesmo.
— Então é você mesmo — disse ele, a voz firme apesar do caos ao redor. — Se despeça da vida Guardião, enquanto minha espada ainda não atravessou sua boca.
Naira não respondeu.
— Quem é esse maluco? — Thamir perguntou abaixando a base.
O homem sorriu, mas não havia satisfação ali. Só alívio.
— Não se preocupe — continuou, ajustando a postura, a mana começando a vazar. — Mesmo se ela não se lembrar, isso não vai importar.
A pressão no ar mudou. Naira ergueu a mão e a terra tremeu.

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