Índice de Capítulo

    O primeiro movimento não veio com som.

    Veio com pressão.

    A mana de Naira se expandiu em um pulso profundo, silencioso, que atravessou o solo antes mesmo que os olhos pudessem acompanhar. A areia instável ao redor endureceu de dentro para fora, ganhando veios de rocha, placas irregulares que se erguiam, se sobrepunham, se encaixavam ao redor do corpo dela. A armadura nasceu áspera, viva, pulsante, mais um prolongamento da terra do que algo vestível.

    Ela não esperou reação.

    Dominou o terreno.

    Ao lado dela, Thamir não empunhava nada além do próprio corpo. Ele dava pequenos saltos, com o braço solto ao lado do corpo. Não havia agressividade na postura, apenas controle absoluto. A mana circulava contida, precisa, como um animal mantido sob coleira curta demais para esquecer que ainda era selvagem.

    Vert foi o terceiro a agir.

    Fincou as mãos no solo com força suficiente para fazer a terra estremecer. O chão respondeu com violência: raízes grossas como troncos rasgaram a superfície, avançando em leque na direção dos sobreviventes. Não tinham muita velocidade mas avançavam com precisão. Serpenteavam, buscavam pernas, escudos, qualquer brecha onde pudessem se enroscar e esmagar.

    — Idren! — o guerreiro ileso gritou enquanto avançava. — ASSUMA!

    O mago de fogo respondeu no mesmo segundo.

    Mesmo caído, com a perna dobrada num ângulo errado, os olhos dele estavam afiados demais para alguém ferido. A mão se ergueu e o fogo veio em ondas contínuas, mas massas densas de calor, calculadas. As chamas engoliram as raízes antes que alcançassem o grupo.

    — Escudo à frente! — ele ordenou. — Lucios. Cobertura total!

    Corredores de calor se abriram no campo. As raízes chiaram, recuaram, carbonizadas até o núcleo.

    Vert rosnou baixo. quando sentiu o primeiro impacto sério vindo de Lucios, uma rajada concentrada de mana arrancou parte da casca do seu ombro.

    O espadachim chegou em Naira sem hesitar.

    A lâmina de dois gumes cortou o ar com um som errado, um zumbido grave, faminto. O primeiro choque contra a armadura de rochas não soou como impacto. As runas ao longo da espada brilharam, e a pedra cedeu, partindo-se em placas arrancadas à força.

    Naira franziu o cenho.

    O segundo golpe veio alto, direto para a garganta.

    Ela desviou por um triz.

    Ainda assim, sentiu a lâmina passando pelo ombro, atravessando pedra e carne com facilidade alarmante. O choque fez o braço perder força por um instante. Sangue quente escorreu sob a armadura quebrada.

    Aquilo não era uma arma comum.

    Ela recuou um passo. E mudou o ritmo.

    O chão respondeu ao novo comando com violência. Pontas de pedra irromperam sob os pés do espadachim, rochas se soltaram do solo e foram arremessadas em sequência. Não como projéteis isolados, mas como um fluxo contínuo, irregular, impossível de prever.

    Ele avançou mesmo assim.

    A armadura dele brilhou. As runas de desvio ativaram uma a uma, distorcendo trajetórias no último instante. As pedras erravam por centímetros, ricocheteavam em uma parede invisível, se desfaziam ao redor dele.

    Mana sendo queimada em ritmo suicida.

    Ele não se importava.

    Quando Naira tocou o chão para liquefazer o solo, tentando engoli-lo, o espadachim explodiu em velocidade. Um avanço seco, antinatural, forçado além do limite humano.

    A ponta da espada encostou na testa dela.

    E parou

    O chute de Thamir acertou a parte plana da lâmina com precisão cirúrgica. O impacto ecoou, metálico, vibrando pelo braço do espadachim e forçando-o a recuar meio passo, a lamina deslizou para o lado, abrindo um fino corte na testa de Naira.

    Thamir já estava à frente.

    Não olhou para Naira.
    Sem dizer uma palavra.

    O espadachim estreitou os olhos.

    — Então é você agora.

    Enquanto isso, Vert gritava.

    As raízes não conseguiam avançar. O guerreiro ferido mantinha o escudo firme, os braços tremendo, mas ainda de pé. Por trás dele, Lucios liberava feixes de mana compacta que arrancavam pedaços da casca de Vert, abrindo fissuras profundas.

    A regeneração vinha.

    Lenta demais.

    Vert estava sendo desmontado. com sua seiva caindo sobre a areia.

    Naira sentiu

    E avançou.

    Uma rajada de terra desequilibrou o mago de disparos, lançando-o contra o solo. Antes que ele se levantasse, ela já estava sobre ele, mas o mago de terra entrou no caminho, erguendo barreiras instáveis, forçando um confronto direto.

    Do outro lado, o espadachim tentou avançar de novo.

    Mas não passou.

    Thamir se movia com ele. Nem mais lento, nem mais rápido, equivalente. Cada golpe da espada era negado, redirecionado, sempre na parte plana, sempre quebrando o avanço.

    — Sai da frente — o espadachim rosnou. — Isso não é sua guerra.

    — Parece que é — Thamir respondeu, seco. — Você não vai passar.

    O homem riu, sem humor.

    — Ela destruiu minha cidade. Minha família estava lá.

    — E? quer me dizer que você é inocente?

    A resposta não veio como consolo.

    O espadachim gritou e atacou com tudo.

    Foi quando o chão tremeu de novo.

    Naira invocou a armadura de rochas mais uma vez, mais compacta, densa.

    E Vert, mesmo ferido, a ergueu com um rugido, arremessando-a como um projétil vivo.

    O impacto foi devastador.

    O guerreiro do escudo tentou parar a aproximação mas foi lançado para trás, colidindo com os magos. O mago de terra não teve tempo de reagir. O soco de Naira veio pesado, direto, brutal.

    O crânio se partiu.

    Sangue e fragmentos voaram.

    O campo ficou em silêncio por um único segundo.

    O espadachim respirava pesado. Olhou para o corpo. Depois para Naira.

    — Chega.

    Ele puxou algo do cabo da espada.

    Duas esferas.

    Uma verde.
    Uma azul.

    — NÃO! — Thamir avançou.

    Tarde demais.

    O espadachim engoliu ambas.

    As veias saltaram sob a pele como raízes invertidas. O corpo arqueou, os músculos se expandiram de forma errada, dolorosa, e o branco dos olhos foi tomado por um vermelho vivo e febril.

    A mana explodiu ao redor dele.

    Sem controle.

    O caos abriu uma fresta.

    Naira agiu primeiro.

    O domínio sobre o terreno se expandiu num pulso bruto, sem qualquer tentativa de controle refinado. A areia instável se compactou com um estalo surdo, como ossos pressionados sob peso excessivo, e então se ergueu. Lâminas irregulares romperam a superfície, colunas tortas rasgaram o chão, estilhaços de pedra foram cuspidos para fora como dentes quebrando gengiva.

    Vert avançou no mesmo instante.

    As mãos afundaram no solo até os pulsos, e algo antigo respondeu ao chamado. A terra tremeu. Raízes grossas, retorcidas, explodiram para fora em ângulos impossíveis, rasgando a areia, serpenteando com fome em direção aos magos restantes.

    Não houve aviso.
    Não houve grito.
    Só execução.

    Lucios mal teve tempo de reagir. O chão sob seus pés cedeu um palmo, o bastante para quebrar o equilíbrio, e, no instante seguinte, uma raiz atravessou seu tórax de baixo para cima. O corpo foi erguido no ar, sacudido como algo preso num gancho, antes de ser arremessado de lado, largado sem importância.

    O soldado do escudo gritou, avançando num reflexo desesperado para proteger o mago de fogo.

    Tarde demais.

    Naira não desacelerou. Uma ponta de pedra irrompeu sob o segundo mago, atravessando a perna já quebrada e o pregando ao chão. O grito que escapou dele foi fino, curto demais. Um fragmento de rocha, do tamanho de um punho, atingiu seu rosto com força suficiente para esmagar o crânio.

    O impacto foi seco.
    Definitivo.

    O corpo parou.

    Vert girou o tronco, rangendo como madeira sob tensão excessiva. Uma raiz se enrolou no braço do soldado do escudo e o arrancou da posição defensiva. O escudo caiu com um som oco, inútil.

    Foi quando a lâmina passou.

    Rápida.
    Violenta.
    Precisa demais.

    O espadachim surgiu como um borrão lateral, ignorando Thamir por um único instante, o suficiente. A espada descreveu um arco baixo e encontrou Vert na articulação da perna.

    O golpe foi limpo

    A lâmina atravessou tendões, fibras e osso com um som seco, vegetal e úmido ao mesmo tempo. A perna cedeu. Vert rugiu. um som profundo, quebrado, e caiu de lado, enquanto as raízes ao redor dele se retraíam em espasmos desordenados.

    — VERT! — a voz de Naira rasgou o campo.

    Ela se virou.

    Mas o espadachim já estava nela.

    A lâmina atravessou a defesa improvisada de pedra como se não existisse e entrou pelo abdômen. O impacto a lançou para trás, arrancando o ar de seus pulmões e transformando o mundo num borrão branco.

    Dor.
    Quente.
    Pesada.

    Naira grunhiu e chutou.

    O impacto do pé no peito do espadachim o lançou vários metros para trás. A espada foi arrancada de seu corpo num jorro de sangue. Naira caiu de joelhos por um instante, a mão pressionando a ferida, sentindo o calor escorrer entre os dedos.

    A terra respondeu.

    — Vem… — rosnou, a voz baixa, carregada de promessa.

    O espadachim sorriu.

    Desfigurado.
    Ensanguentado.
    Satisfeito.

    Ele avançou outra vez. com a lamina mirando a garganta.

    Mas não chegou.

    O impacto veio de lado.

    Thamir interceptou.

    O chute atingiu a parte plana da lâmina com precisão absoluta, desviando o ataque que teria separado a garganta de Naira do corpo. O choque percorreu o braço dele inteiro; os ossos reclamaram, vibrando até o ombro.

    Ele respirava mal.
    Cada inspiração queimava.
    O corpo estava no limite havia tempo demais.

    — Sai da frente — o espadachim rosnou. — Isso é entre ela e eu.

    Thamir ergueu o olhar.

    Os olhos escuros estavam frios.
    Decididos.

    — Não hoje.

    O combate mudou.

    O espadachim atacava para matar.
    Thamir defendia para ganhar tempo.

    E estava perdendo.

    Cada golpe vinha mais rápido. Cada desvio exigia mais do que o corpo podia oferecer. A lâmina passou perto demais uma vez, abrindo a pele do ombro. Em outra, arrancou sangue da lateral do tronco.

    O mundo começou a estreitar.

    O som do próprio coração se tornou alto demais.
    A mana não fluía direito pelo corpo, o coice a deixou isentável demais para um controle refinado.
    Algo dentro dele pressionava, empurrando, exigindo saída, uma velha fúria cega.

    — Anda! — o espadachim gritou, avançando. — Sai da frente!

    Thamir quase caiu ao desviar do próximo ataque.

    O joelho falhou.
    A visão escureceu nas bordas.

    O velho sentimento retornou.

    A mana explodiu para fora como uma descarga contida por tempo demais. O impacto atravessou braços, coluna e peito. A dor foi aguda, violenta, rasgando canais internos, forçando passagem.

    Os ossos estalaram.

    Pelagem branca emergiu pelos braços, marcada por listras negras. As mãos se deformaram, os dedos se alongando em garras. Um rabo rompeu o equilíbrio por um segundo e então o instinto assumiu.

    O ar estalou em arcos elétricos.

    Eletricidade dançou ao redor dele, percorrendo a pele, saltando para o chão em pequenas descargas que queimavam a areia.

    O espadachim hesitou. com a cena a sua frente.

    Foi o erro final.

    Thamir avançou.

    Não foi um ataque técnico.
    Foi caça.

    As garras rasgaram o flanco do inimigo, e o impacto liberou um estalo violento quando a descarga atravessou o corpo dele. O grito saiu torto, quebrado, enquanto os músculos se contraíam sem controle.

    Thamir não parou.

    Outro golpe.
    Outro choque.
    Outro rasgo.

    O cheiro de ozônio se misturou ao de sangue.

    O espadachim recuou cambaleando, os olhos arregalados, a respiração descompassada.

    — NÃO! — gritou, puxando uma adaga curta, o desespero substituindo a fúria. — EU VOU TE MAT—

    O raio saiu do corpo de Thamir antes mesmo do movimento terminar.

    A descarga atravessou o peito do espadachim e o lançou contra o chão. Sangue jorrou dos olhos, da boca, do nariz, depois dos poros, como se o corpo estivesse falhando em todos os níveis ao mesmo tempo. O coice de mana começou a o afetar.

    Ainda assim… ele tentou se levantar.

    Naira apareceu atrás dele.

    Silenciosa.
    Implacável. As feridas fechadas, com veias brilhando sob a pele em tom esverdeado.

    — Eu… sabia — O espadachim falou cuspindo sangue. — Vocês são monstros como eles.

    Ela pegou a própria espada dele, que estava caída no chão.

    E a enfiou no peito dele.

    Até o cabo.

    O corpo tremeu. E se mexeu mais.

    O campo mergulhou em silêncio, quebrado apenas pela respiração irregular de Thamir e pelo som distante das raízes se retraindo.

    Vert estava vivo.
    Mutilado.
    Mas vivo.

    Naira permaneceu de pé, suja de sangue, encarando o corpo do homem.

    — Acabou — disse, sem qualquer alívio na voz.

    Thamir sentiu a eletricidade se dissipar lentamente. a pelagem branca sumindo sob a pele, e as garras retornando ao formato mais humano.

    — Você não me falou que esses soldados eram tão problemáticos — Thamir falou agachando ao lado do corpo.

    — E não são… — Naira respondeu caminhando até onde a perna de Vert estava caída. — Esse desgraçado que é fora da curva.

    ela caminhou até Vert, colocando a perna decepara no lugar em instantes, a seiva verde voltou a fluir, fechando o corte, como se ele não existisse. Naira sentou no chão, com a mão sobre a barriga no lugar onde a espada havia entrado.

    O corpo começou a cobrar o preço.

    E ela sabia.

    Aquilo… tinha sido só o começo. um ótimo começo, mas apenas isso.

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