Capítulo 129 - Vozes
Kael subiu primeiro.
Movimentos firmes. Firmando as mãos nas pedras húmidas do poço.
Helena estava presa a ele por uma corda passada sob os braços, amarrada ao próprio torso dele. Pequena demais para confiar na própria força.
Ele segurava a adaga entre os dentes enquanto escalava a escadaria úmida.
A menina tremia contra as costas dele.
Quando emergiram no poço, a luz da manhã entrou como um corte.
Aisha apareceu na borda. Estendendo a mão.
— Kael—
Helena gritou.
Um som agudo, sufocado, enterrando o rosto nas costas dele como se esperasse um golpe.
Kael segurou firme.
— Está tudo bem. — A voz dele não era alta. Era estável. — Aisha não vai te machucar. Ela está comigo.
A menina não levantou o rosto.
Kael saiu do poço e soltou nó da corda.
Ele se aproximou de Helena.
Aisha percebeu rápido. Abaixou-se devagar por trás de Kael. Mãos visíveis. Sem movimentos bruscos.
— Oi… — disse, suave. — Eu tenho uma manta.
Helena espiou por entre os dedos.
Os olhos estavam vermelhos. Inchados. Grandes demais para o rosto pequeno.
Ela tirou a capa e a envolveu como uma manta, Kael a ergueu nos braços sem pedir permissão.
Ela não resistiu.
Só se agarrou à roupa dele enquanto ele caminhava.
A casa estava vazia demais.
Kael colocou Helena sentada em um banco perto do fogão. Aisha começou a encher uma panela com água enquanto ele acendia o fogo.
— Você ainda gosta de cenoura? — perguntou ele, enquanto cortava.
Helena demorou para responder. mas acenou com a cabeça.
— Mira colocava para mim… — murmurou.
A faca não hesitou.
— Voce ta com fome?
Silêncio curto.
— Tô
Kael assentiu uma única vez.
— Então vou fazer uma sopa gostosa para você.
Helena apertou a manta.
A água começou a ferver.
Ele jogou pedaços de raiz, cenoura e um pouco de sal.
— Vocês estavam no abrigo quando ela se machucou?
Helena balançou a cabeça.
— Não.
Aisha ficou imóvel.
Kael manteve o tom igual.
— Onde ela se machucou?
Helena respirou fundo.
— Lá fora.
— No pátio?
Ela assentiu.
— A gente ia correr… mas Mira falou pra não correr mais.
— Por quê?
— Porque… — ela hesitou. — Porque tava ficando quieto.
Kael não reagiu.
— Quieto ?
— Hurum, nem o Nor Latiu.
Aisha levantou o olhar para ele.
Helena continuou, encarando as próprias mãos.
— Os Tios foram embora… E não se despediram e ninguem.
A faca parou por um segundo.
— Ninguém? e seus irmãos?
— Não… era tipo… — ela fez um gesto confuso com os dedos — tipo quando a gente esquece o que ia falar.
Kael voltou a cortar.
— Você viu quem machucou Mira?
A menina balançou a cabeça rapidamente.
— Eu ouvi.
— O quê?
Helena levantou os olhos pela primeira vez.
— Eu ouvi minha voz.
O fogo estalou na lenha.
— Como assim? — Aisha perguntou, antes de se conter.
Helena apontou para si mesma.
— Ela falou igual eu.
Silêncio.
— Falou o quê? — Kael perguntou.
— Falou que tava tudo bem… que a Lyria tava chamando.
A respiração da menina começou a acelerar.
— E não tava?
Ela balançou a cabeça.
— Não. Era mentira.
Kael mexeu o caldo devagar.
— Você viu ela?
Helena demorou.
— Um pouco.
— Como era?
A resposta saiu num sussurro.
— Era uma moça.
Pausa.
— Mas ela não tinha perna.
Aisha congelou.
— Ela era comprida… — Helena continuou. — E os olhos… eram amarelos. O Lucas quase abriu a porta para ela, mas Mira não deixou.
— O Lucas?! tem certeza Helen?
Ela confirmou rapidamente com a cabeça.
Kael manteve o olhar na panela.
— E depois?
— Mira me jogou no poço.
Ela disse aquilo com naturalidade demais.
— Ela falou pra eu não fazer barulho. — Os dedos dela apertaram a manta outra vez. — A mulher cobra ficou brava.
— Você ouviu a porta? — Kael perguntou.
Helena assentiu.
— Ela batia. Mas não forte… — o cenho dela se franziu — parecia que tava brincando.
A panela começou a liberar vapor espesso.
Kael serviu o caldo numa tigela e soprou antes de entregar.
— Devagar.
Helena segurou com as duas mãos.
Ela ainda tremia.
— Você pegou ela? — perguntou, baixinho.
Kael não respondeu imediatamente.
Aisha olhou para ele.
Ele respondeu só para a menina.
— Ainda não, mas vou.
Helena pareceu aceitar.
Comeu uma colher pequena.
Silêncio na cozinha.
O fogo crepitando.
O vapor subindo.
Helena não terminou a tigela.
A colher caiu devagar dentro do caldo morno.
Ela tentou continuar falando alguma coisa… mas a voz virou um suspiro.
O corpo pequeno amoleceu.
Kael segurou antes que ela escorregasse da cadeira.
Ele se sentou no banco junto ao fogão e a acomodou no colo, envolvendo-a com a manta. Helena encostou o rosto no peito dele e apagou em segundos.
A respiração pequena, irregular no começo, depois ritmada.
Kael ficou imóvel.
Aisha observava os dois à distância.
Helena apagou no colo dele.
A respiração pequena, irregular no começo… depois estável.
Kael não se mexeu.
Aisha observava os dois à distância.
— Ela é forte… — disse baixo.
Os dedos de Kael continuavam passando devagar pelos cabelos da menina.
Aisha quebrou o silêncio:
— Mulher cobra. Imitando voz.
Ele manteve o olhar no fogo.
— Você acredita nela.
— Sim.
Aisha respirou fundo.
— Crianças confundem medo com forma.
— Helena não confundiu medo. — Ele fez uma pausa. — Ela só descreveu o que viu.
Isso fez Aisha ficar quieta por um segundo.
— Lucas quase abriu a porta — ela insistiu.
— Ele nunca abriria a porta sob pressão.
O nome pesou no ar.
— Então alguém fez ele querer abrir.
Kael assentiu levemente.
— Não foi invasão.
— Como você sabe?
Ele levantou os olhos.
— Olha o estado da casa.
— Realmente… — ela murmurou. — Então foi lento…
— Sim.
— Dias?
Ele não respondeu.
Mas não precisava.
Aisha passou a mão pelo rosto.
— Isso significa que eles estavam sendo caçados… e nem perceberam.
Silêncio.
O fogo estalou alto.
Kael acomodou melhor Helena nos braços.
— Se foi gradual… — ele disse, finalmente — ainda pode ter alguém vivo.
Aisha levantou o olhar na hora.
— Quer ir investigar?
— Eu vou.
Ele levantou com cuidado, colocando Helena sobre o banco, apoiando-a com mantas.
A menina se agarrou à roupa dele mesmo dormindo.
Ele precisou soltar os dedos lentamente.
— Fica com ela.
Aisha assentiu.
— Não faz nada impulsivo.
Ele quase sorriu.
— Eu nunca faço.
Ele pegou a lança encostada ao lado da porta.
Fechou a casa devagar.
O vento passava pelas portas abertas das outras casas, fazendo tecidos baterem como respirações curtas.
Um balde rolava perto do poço, rangendo na pedra.
Nenhuma voz.
Quando chegou ali meses atrás, havia cinco casas.
Agora eram mais de vinte.
Ele tinha ajudado a erguer metade delas.
Aquilo não era só uma vila.
Era sua casa.
Kael se ajoelhou no meio da rua.
As pegadas eram um caos.
Gente correndo.
Gente parando.
Ele procurou o início.
E encontrou.
Uma linha no pó.
Não era uma pegada.
nem uma marca de roda.
Era pressão contínua.
Ele passou os dedos.
Compactado.
Sem ruptura.
Constante.
Seguiu com o olhar.
A marca atravessava a rua como algo que não precisava se esconder.
Nem se apressar.
O estômago dele apertou.
— Mulher cobra… — murmurou.
O vento trouxe cheiro de terra mexida.
E ferro.
Sangue.
Ele caminhou.
Agora a vila parecia observá-lo de volta.
Uma porta com arranhões baixos demais para espada.
Uma cadeira caída.
Marcas na madeira lateral de uma casa.
Três sulcos.
Curvos.
Profundos.
Ele tocou.
Recente.
Fibras ainda soltas.
Sem cheiro forte.
Isso incomodava mais que a trilha.
Predadores grandes cheiram.
Aquilo não.
O sol tocava o horizonte quando ele chegou aos limites da vila.
Ali a terra era macia.
E o rastro se revelava inteiro.
Largo.
Pesado.
Levemente curvo.
Não sinuoso como cobra comum.
Kael mediu mentalmente.
Se aquilo fosse uma serpente…
Ela poderia envolver uma pequena casa.
Ele não recuou.
Seguiu o rastro até a lateral da estrada.
E então viu a carroça.
Tombada.
Não destruída.
Deslocada.
O eixo forçado como se tivesse sido empurrado por algo que não considerou resistência.
Ele não se aproximou de frente.
Deu a volta.
Pisadas humanas concentradas.
Profundas.
Tentativa de segurar algo.
Sangue.
Pouco.
Gotas espaçadas.
Um Ferimento.
Kael abaixou o corpo. Apoiando uma das mãos na madeira.
Então se inclinou.
Sob o eixo quebrado havia palha espalhada.
Sacos rasgados.
E um corpo.
Imóvel.
Ele observou primeiro o peito.
Subindo.
Descendo.
Irregular.
Vivo.
Kael se aproximou o suficiente para reconhecer o rosto sob sujeira e sangue seco.
Lucas.
O ombro esquerdo rasgado.
Marcas semicirculares profundas.
Pressão.
Não corte.
Como se algo tivesse segurado…
E decidido soltar.
Kael tocou o pescoço dele.
Pulso fraco.
Mas firme o bastante.
Os olhos de Lucas se moveram sob as pálpebras.
Abriram.
Demoraram a focar.
Quando reconheceram Kael, não houve alívio.
Houve algo pior.
Culpa.
— …Kael… — a voz saiu quebrada.
Ele tentou mover o braço bom.
Falhou.
Os dedos agarraram o ar.
— Eu ouvi… — ele engoliu seco. — Ela falou comigo.
Kael não interrompeu.
Lucas fechou os olhos por um segundo, como se ainda estivesse vendo.
— Aquela desgraçada… — a respiração falhou. — Ela usou a voz da minha mãe.
A mão dele tremeu.
Ele virou o rosto levemente na direção de Kael.
Os olhos agora estavam lúcidos.
Assustados.
— Não deixa ela falar com você.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.