Índice de Capítulo

    Narrado por Kael

    Empurrei a porta com o ombro.

    A madeira rangeu alto demais para o silêncio da casa.

    Aisha levantou imediatamente, a mão indo para a espada por reflexo. Só relaxou quando me reconheceu na porta.

    Lucas soltou um gemido quando o peso dele mudou sobre meu ombro.

    — Mesa — eu disse.

    Aisha não discutiu.

    Ajudou a deitar Lucas sobre a mesa de madeira.

    O rosto dele estava cinza.

    Respiração curta.

    Errada.

    Aisha abriu a boca para perguntar algo.

    Eu já estava indo para a dispensa.

    — Poção — falei por cima do ombro.

    O cheiro da despensa era seco. Ervas, álcool e madeira antiga.

    Peguei o frasco pequeno de vidro na prateleira superior.

    Não adiantava dar agora.

    Poções de cura fecham feridas. Usam os próprios recursos do corpo para restaurar a estrutura que ele reconhece como “normal”.

    Se eu desse antes de alinhar os ossos, o corpo ia cicatrizar errado.

    Voltei para a sala.

    Lucas estava suando.

    Aisha segurava o ombro dele para impedir que se mexesse.

    — Isso vai doer — eu disse.

    Lucas soltou uma risada fraca.

    — Podia tentar me acalmar ao menos.

    — Prefere que eu minta?

    — Não.

    Aisha olhou para mim.

    — O que vai fazer?

    — Precisamos alinhar ao menos os maiores fragmentos das costelas. A poção cuida do resto.

    — Ótimo.

    A ironia dela era fina, mas os olhos estavam tensos.

    Rasguei a camisa de Lucas com a faca.

    O lado direito do peito estava afundado.

    Ao menos quatro costelas quebradas.

    O sangue acumulado pressionava o pulmão.

    Respiração curta.

    Expliquei em voz alta, mais para mim do que para eles.

    — Primeiro tirar o coágulo.

    — Depois alinhar os ossos.

    — Depois a poção.

    Lucas fechou os olhos.

    — Faz logo.

    Peguei uma faca sobre a mesa e um balde de água.

    Esquentei a lâmina com mana até ficar incandescente.

    Foi quando reparei no olhar preocupado de Aisha. Ela claramente se perguntava o que eu estava fazendo.

    Não havia tempo para explicações.

    Mergulhei a faca no balde.

    O metal chiou alto.

    Vapor subiu no ar.

    — O que você está fazendo? — Lucas perguntou, olhando para a lâmina.

    Toquei o metal, testando a temperatura.

    — Você não quer uma infecção, garoto.

    Sem hesitar, fiz o corte entre as costelas.

    O sangue espirrou.

    Quando alcancei o pulmão percebi que ainda estava intacto.

    Sorte.

    Enfiei os dedos no corte.

    Encontrei a primeira costela deslocada.

    Reposicionei.

    Lucas grunhiu e então apagou.

    Aproveitei o silêncio.

    Reposicionei as outras.

    Na última, ele voltou.

    O corpo se debateu.

    O osso escapou do alinhamento e projetou-se para fora do peito.

    Peguei o pano limpo da mesa.

    Pressionei o ferimento.

    O sangue quente escorreu pelos meus dedos.

    Lucas arqueou o corpo.

    Aisha segurou ele com força.

    — Não se mexe.

    O som que saiu dele não era exatamente um grito.

    Era mais profundo.

    Um rugido preso na garganta.

    Quando o fluxo diminuiu, apoiei a mão sobre o arco torto da costela.

    Respirei fundo.

    — Agora.

    Empurrei.

    O estalo seco do osso voltando ao lugar ecoou pela sala.

    Lucas gritou.

    Ouvi o choro de Helen no quarto.

    Deve ter acordado com o grito.

    Aisha segurou Lucas com ainda mais força.

    Mantive a pressão até sentir o alinhamento correto.

    Então soltei.

    O corpo dele tremia.

    A respiração vinha em puxões curtos de ar.

    Peguei o frasco.

    Quebrei o lacre com o polegar.

    — Bebe.

    Lucas tentou levantar a cabeça.

    Aisha ajudou.

    Ele engoliu metade da poção antes de tossir.

    O resto escorreu pelo queixo.

    Esperei.

    As poções nunca eram elegantes.

    A pele ao redor do ferimento começou a se fechar lentamente.

    A respiração dele mudou.

    Mais profunda.

    Ainda dolorida.

    Mas funcional.

    Bom o suficiente para viver.

    — Fica de olho nele — falei para Aisha. — Vou ver Helen. Dizer que encontramos Lucas.

    Coloquei o frasco vazio na mesa.

    Só então percebi que minhas mãos estavam cobertas de sangue.

    Fiquei olhando por alguns segundos.

    Não era a primeira vez.

    Provavelmente não seria a última.

    Lucas abriu um olho.

    — Fico… feliz em ouvir isso.

    — Jurei que ia ficar inconsciente o resto da noite — respondi.

    A voz dele estava fraca.

    Mas consciente.

    Bom sinal.

    Mergulhei as mãos no balde de água e lavei o sangue.

    — Já volto.

    Caminhei até o quarto.

    A porta estava entreaberta.

    Helen estava sentada na cama, abraçada à própria boneca.

    Os olhos ainda molhados.

    Assustada.

    Quando me viu, levantou rápido.

    — Kael?

    Entrei no quarto.

    — Está tudo bem.

    Ela olhou para trás de mim, como se esperasse ver outra pessoa.

    — Lucas?

    Me aproximei e a peguei no colo.

    Ela era leve demais.

    — Encontramos ele.

    O corpo dela relaxou imediatamente.

    — Ele está bem?

    Pensei por um segundo.

    — Vai ficar.

    Ela abriu um sorriso pequeno.

    Encostou a cabeça no meu ombro.

    — Eu sabia que você ia trazer ele.

    Não respondi.

    Apenas segurei ela um pouco mais firme.

    Depois voltei para a sala.

    Puxei uma cadeira e sentei de frente para Lucas.

    Agora vinha a parte importante.

    — Lucas.

    Ele me olhou.

    — Preciso que você me conte exatamente o que aconteceu aqui.

    Lucas ficou em silêncio por alguns segundos.

    A respiração dele ainda era pesada.

    Então falou.

    — No começo… não parecia nada errado.

    Franzi a testa.

    — Como assim?

    Lucas olhou para o teto.

    — As pessoas estavam indo embora.

    — Indo para onde?

    Ele balançou a cabeça devagar.

    — Não sei.

    Silêncio.

    — O estranho é que… parecia normal.

    Aisha cruzou os braços.

    — Normal?

    Lucas assentiu.

    — Era como se todo mundo soubesse para onde estava indo.

    — Mesmo sem ninguém dizer nada.

    Não gostei daquilo.

    Nem um pouco.

    — Não era como se ela estivesse nos obrigando…

    Lucas respirou fundo.

    — Era pior. Parecia que aquilo sempre tinha sido a decisão certa.

    O silêncio que veio depois foi pesado.

    Eu entendi imediatamente o que ele queria dizer.

    — Influência — murmurei.

    Aisha me olhou.

    — Magia mental?

    Balancei a cabeça devagar.

    — Não exatamente.

    Passei os dedos pelo queixo, pensando.

    — Eu já vi magia mental de verdade.

    Não acrescentei mais nada por um momento.

    Não era uma memória que eu gostava de revisitar.

    Lucas franziu a testa.

    — Então o que era aquilo?

    Olhei para o sangue seco na minha mão antes de responder.

    — Magia mental distorce sua mante sua visão mas quase não perturba o que você sente.

    Levantei os olhos para ele.

    — Isso que você descreveu é diferente.

    Aisha inclinou a cabeça.

    — Diferente como?

    Procurei as palavras.

    — É mais… sutil.

    Caminhei até a janela e olhei para fora.

    A floresta estava escura.

    Silenciosa demais.

    — Como uma sugestão.

    — Uma ideia plantada no lugar certo.

    — Algo que faz sentido demais para ser questionado.

    Lucas assentiu lentamente.

    — Sim.

    Ele parecia aliviado por finalmente conseguir explicar.

    — Era exatamente assim.

    — Parecia… natural.

    Aisha franziu a testa.

    — Isso não me parece melhor de enfrentar.

    — É pior.

    — Muito pior.

    Minha mente voltou para a criatura na floresta.

    A pele oliva.

    O cabelo negro.

    O corpo de serpente.

    Lamia.

    O nome surgiu na minha cabeça como um sussurro antigo.

    Uma história.

    Um mito.

    Coisas que eu lia em livros, antes dessa loucura toda.

    Histórias de criaturas que seduzem, manipulam, devoram.

    Mitos.

    Ou pelo menos eu sempre acreditei que fossem.

    Passei a mão pelo rosto.

    Aquilo não fazia sentido.

    Eu vivi aqui por anos.

    Cacei bestas.

    Matei criaturas que fariam soldados fugirem.

    Mas nunca.

    Nunca encontrei algo assim.

    Uma criatura inteligente.

    Uma criatura que fala.

    Uma criatura que conhece pessoas.

    Que imita vozes.

    Que manipula emoções.

    A pergunta martelava na minha cabeça.

    Como?

    Lucas começou a respirar mais rápido.

    Olhei para ele novamente.

    Os olhos dele estavam cheios de lágrimas.

    — Eu devia ter percebido… — ele murmurou.

    Aisha imediatamente ficou alerta.

    — Ei.

    — Lucas.

    Mas ele já estava balançando a cabeça.

    — As pessoas estavam sumindo…

    A voz dele falhou.

    — E eu só… achei normal.

    As mãos dele tremiam.

    — Eu devia ter feito alguma coisa.

    — Devia ter ido atrás.

    — Devia ter…

    A voz quebrou.

    Ele começou a chorar.

    Sem controle.

    — Eu deixei aquelas crianças lá…

    Aisha segurou o ombro dele.

    — Lucas—

    — Eu deixei elas lá!

    O grito saiu rasgado.

    — Eu sabia que tinha algo errado!

    O sangue na camisa dele ainda estava escuro.

    Pesado.

    O cheiro metálico preenchia o ar.

    E por um momento eu não estava olhando para Lucas.

    Eu estava olhando para outra coisa.

    Outro lugar.

    Outro tempo.

    Dois jovens.

    Ofegantes.

    Cobertos de sangue.

    No chão de um pátio de treinamento.

    Silêncio.

    O tipo de silêncio que vem depois da luta.

    Quando já não há mais nada que possa ser feito.

    Fechei os olhos por um segundo.

    Respirei fundo.

    Aisha ainda tentava acalmar Lucas.

    — Você não sabia — ela dizia.

    — Ninguém sabia.

    Lucas balançava a cabeça.

    — Eu devia ter protegido eles…

    Devia.

    A palavra ecoou na minha cabeça.

    Devia.

    Ensinar alguém a lutar não é apenas ensinar golpes.

    É ensinar alguém a sobreviver ao mundo.

    Ou pelo menos era o qu2e eu costumava acreditar.

    Olhei novamente para o sangue nas minhas botas.

    A água no balde ainda estava rosada.

    Eu ensinei dois.

    Dois jovens que confiaram em mim.

    Dois que acreditaram que eu poderia torná-los fortes o suficiente.

    Não foram.

    Aisha me olhou de repente.

    — Kael?

    Eu percebi tarde demais que estava parado em silêncio.

    Ela me conhecia bem o suficiente para notar quando algo estava errado.

    Lucas ainda chorava na mesa.

    — Eu devia ter ficado…

    Ele respirou fundo, tentando se recompor.

    — Se eu tivesse enfrentado ela antes…

    Eu falei antes que ele terminasse.

    — Você teria morrido.

    Lucas ficou em silêncio.

    Aisha também.

    Eu me aproximei da mesa novamente.

    — A criatura que você descreveu não é algo que dois aldeões com lanças vão matar.

    Lucas baixou os olhos.

    — Roger tentou.

    Isso me fez parar.

    — Tentou?

    Lucas assentiu.

    — Quando encontramos ela… ela não estava sozinha.

    — O que estava com ela?

    Lucas demorou alguns segundos para responder.

    — Algo saiu da terra.

    Aisha franziu a testa.

    — Da terra?

    Lucas engoliu seco.

    — Uma cabeça.

    — Depois outra.

    O silêncio voltou para a sala.

    — Roger cortou uma delas.

    Eu senti um aperto estranho no peito.

    — Mas tinha mais.

    Lucas fechou os olhos.

    — Foi quando a cauda me acertou.

    — Depois disso… eu só lembro de correr.

    Ele abriu os olhos novamente.

    — E de me esconder embaixo da carroça.

    Eu assenti lentamente.

    Aquilo explicava muita coisa.

    Mas não a parte mais importante.

    Lamia.

    Uma criatura de histórias antigas.

    Uma criatura inteligente.

    Uma criatura que manipulava pessoas.

    E agora ela estava aqui.

    Na minha floresta.

    Na minha vila.

    Olhei para Lucas.

    Depois para Aisha.

    E pela primeira vez desde que entrei naquela casa, uma certeza começou a se formar na minha mente.

    Isso não era apenas uma besta.

    Isso era algo muito pior.

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