Capítulo 133 - Temporada de Caça.
A madeira da casa ainda guardava o calor da lareira.
Eu podia sentir isso mesmo do lado de fora.
Curioso.
Humanos constroem coisas frágeis… e ainda assim se convencem de que estão seguros dentro delas.
Aproximei-me da janela sem pressa.
Olhei para dentro.
O homem na mesa ainda estava vivo.
Isso, por si só, já era… inesperado.
Inclinei levemente a cabeça.
Ele havia perdido o braço.
Eu tinha certeza de que a perda de sangue daria conta dele.
Já era improvável que tivesse sobrevivido ao impacto na floresta. Eu lembrava do som do osso cedendo. Da forma como o corpo dele foi lançado contra o chão.
A maioria não levanta depois disso.
Ele levantou.
Correu.
Sobreviveu.
Interessante.
Meus olhos percorreram a sala.
A jovem.
Tensa, finalmente.
Os movimentos contidos, mas prontos.
Protegendo.
Sempre protegendo.
Outro padrão humano curioso.
E então…Parei.
O outro homem.
O da faca.
Observei em silêncio.
Ele não falava muito.
Não desperdiçava movimento.
Mas havia algo… errado. Ele não reagia como os outros.
Não havia desespero.
Não havia pânico.
Só foco.
Frio.
Direto.
Um pequeno sorriso puxou o canto da minha boca.
— Ah…Agora sim.
Finalmente algo interessante.
Ele se moveu até a mesa novamente. O corpo do ferido tremia. A respiração falhando.
Fraca.
Eu já tinha visto aquilo terminar antes. Muitas vezes.
Ele pegou o braço decepado. Um recipiente.
Soltei um sopro curto pelo nariz.
— Isso não vai funcionar…
Era quase reconfortante.
Humanos insistem em erros previsíveis. Por isso eu havia envenenado o membro.
Curiosidade tem limites.
Mas então…Ele fez algo errado.
Ou melhor…Diferente.
A mana respondeu primeiro. Eu senti, o fogo. Mas não da forma comum.
Não bruto.
Não impulsivo.
Ele não lançou, não expandiu, ele… conteve.
Me inclinei um pouco mais.
Agora atenta.
A lâmina na mão dele começou a brilhar.
Vermelho depois laranja e depois quase branco.
Calor puro.
Concentrado.
Meu sorriso cresceu, lento.
— Hm…Isso era novo.
A maioria dos que usam fogo prefere distância. Destruição com barulho e caos.
Eles gostam de ver as coisas queimarem.
Mas esse não…
Esse… escolhia.
Onde.
Quanto.
E por quê.
Observei o momento exato em que ele encostou a lâmina no ferimento. O cheiro veio logo depois. Carne queimando.
Pisquei, devagar.
Porque ele estava queimando o homem que queria salvar?
O ferido não acordou.
Sorte.
Ou talvez…
Inclinei a cabeça, estudando melhor.
Não. Não era sorte, era controle. E isso…Isso era raro. Muito raro.
— Você não é como os outros…
A voz saiu baixa, só para mim. Mas não era sobre o fogo. Era sobre decisão.
Sobre saber exatamente o que fazer…… sem hesitar.
A maioria quebra quando precisa escolher rápido.
Esse não quebrou.
Me afastei um pouco da janela.
Afinal já tinha visto o suficiente.
Por agora.
O sorriso ainda estava ali.
— Acho que encontrei algo interessante…
Deslizei pela lateral da casa, sentindo a madeira sob meus dedos.
Quente.
Frágil.
Segura.
Engraçado como essas coisas coexistem para eles.
Parei por um instante.
E então…
Ah.
Ali estava de novo.
Inclinei levemente a cabeça, como se estivesse ouvindo algo distante.
— Você é insistente…
Passei os dedos pelo braço.
As runas pulsaram sob a pele. Fraco mas funcionando com manna estrangeira.
Minha mana… vacilou.
Sutil.
Como uma chama sendo provocada por alguém invisível.
Sorri.
Devagar.
— Isso é novo.
Fechei os olhos por um segundo e senti o caminho da mana, não era muito para ficar fácil mas foi o suficiente para sentir ela indo em direção da minha cabeça.
— Não é natural.
Abri os olhos.
O sorriso ainda estava lá.
Mas mais fino agora.
— Então… alguém fez isso comigo.
Passei a unha sobre uma das marcas.
— Que falta de educação.
Empurrei mana contra a runa.
Sem cuidado.
Sem hesitação.
Ela respondeu vibrando.
— Vamos ver até onde você agu—
Minha visão quebrou.
Pisquei.
Floresta de novo.
Respirei fundo.
E então ri.
Baixo.
— Ah… — Levei a mão à testa.— Então é assim que você joga.
Olhei ao redor.
Outro lugar.
Outra posição.
Ainda presa.
Passei os dedos novamente pela runa. Mais leve dessa vez quase cam carinho.
— Toda vez que eu tento tirar você… — Inclinei a cabeça.— Você me tira do tabuleiro.
O sorriso cresceu.
Agora sim.
— Eu gostei disso. — Os olhos escureceram levemente.— Vamos jogar esse joguinho.
Deslizei pela floresta sem pressa.
O chão cedia sob o peso do meu corpo.
Raízes.
Folhas.
Era natural.
Diferente da vila.
Mais honesto.
Mas também… mais previsível.
O terreno começou a afundar levemente.
Reconheci o ponto.
Parei.
— Acordada?
A terra se moveu.
Pesada. Lenta. Uma cabeça surgiu, depois outra e mais uma. Olhos opacos e satisfeitos viraram na minha direção.
— Você comeu bastante…
Uma das cabeças se aproximou.
Cheirou o ar me reconhecendo e depois relaxou.
Outra abriu a boca. Restos ainda presos entre os dentes.
Fiz uma careta leve.
— Charmosa como sempre.
Ela não respondeu. Claro que não. Nunca respondia de verdade.
A mais próxima inclinou a cabeça.
Esperando.
Sempre esperando.
Pensei por um instante.
Depois estalei a língua.
— Humanos.
A cabeça reagiu reconhecendo a palavra.
— Sim, eu sei… comida.
A outra cabeça abriu mais a boca.
Animada, quase ansiosa.
Suspirei.
— Você é tão fácil de agradar.
Caminhei ao redor dela.
— Come.
— Dorme.
— Mata.
— E Repete.
Parei, inclinei levemente a cabeça.
— Deve ser confortável… não pensar.
As cabeças apenas observaram.
Sem entender é claro.
Sorri de lado.
— Não recomendo.
Passei a mão de leve sobre uma das escamas.
— Pensar é bem mais divertido.
Parei entre as cabeças e meu olhar se deslocou.
Para a direção da vila.
Para ele.
— Especialmente quando algo… inesperado aparece.
Voltei a encarar a criatura.
— Esse você não toca.
A cabeça mais próxima recuou levemente.
Meu sorriso se aprofundou.
— Viu?
— Você aprende.
Voltei a me afastar, com a noite o frio vinha rápido, mas por sorte eu já havia encontrado um lugar a alguns dias para passar as noites.
Nao era em nada parecida com as casas humanas daquela vila mas seriva.
A cabana rangia com o vento.
Velha.
Frágil.
Mas quente.
Passei a mão pela madeira da parede enquanto entrava.
Irregular.
Cheia de falhas.
Mas estranhamente confortável.
Humanos têm esse hábito curioso de construir coisas que mal se sustentam… e ainda assim confiar nelas para dormir.
Entrei sem pressa.
O interior era pequeno, pouco usado com cheiro de poeira e tempo.
Mas era melhor que o chão frio da floresta.
Muito melhor.
Me acomodei no canto mais escuro, deixando a cauda se enrolar naturalmente pelo chão. A madeira ajudava a guardar calor.
Fechei os olhos por um instante.
Silêncio.
Minha dupla bestial estava próxima.
Enterrada e satisfeita.
O mundo… estava quieto.
…
Não.
Algo se moveu na minha direção, muito rápido.
Um segundo.
Só um.
E foi o suficiente.
Meu corpo se moveu antes do pensamento.
Explodi pela janela.
Vidro e madeira se partiram ao meu redor, enquanto eu me chocava contra o chão frio e humido.
E então.
Impacto.
Algo atravessou a cabana.
Exatamente onde eu estava.
A estrutura cedeu no mesmo instante, a madeira rachou, quebrou.
Fragmentos voaram em todas as direções. E junto deles.
Fogo.
Pequenos pontos de chama começaram a se espalhar pelas tábuas quebradas.
Rolei no chão de terra.
Absorvendo o impacto.
E me levantei.
Devagar, sem pressa.
O olhar voltou para a cabana.Ou o que restava dela.
Chamas começando a crescer. Madeira cedendo. Cinzas futuras. E no centro dos destroços uma lança brilhando em Laranjeira.
Então sorri.
— Interessante…Passei a língua pelos dentes, pensativa.
Não havia assinatura clara.
Não havia aviso, só… aquilo.
A sensação e o ataque.
Inclinei a cabeça.
Olhando para o escuro da floresta.
— Então você decidiu jogar também…
A voz saiu leve, quase satisfeita.
Mas meus olhos estavam atentos agora, mais do que antes. Muito mais.
— E quase acertou.
Recuei umpouco.
Sem tirar o olhar da direção do ataque.
O corpo relaxado, mas pronto.
Um sopro leve escapou.Quase um riso.
— Isso vai ser divertido…
Me virei. Deslizando de volta para a floresta.
Mas agora eu sabia quem estava vindo, a presa resolveu mostrar as garras.
E como para confirmar a voz dele cortou a clareira da cabana.
— Já vai fugir de novo?
Olhei para trás, e vi ele se aproximando do centro da clareira calmamente.
— Jurei que queria brincar comigo — ele puchou a lança.
Antes que eu notasse já estava rindo novamente.
Agora sim isso seria uma caçada.

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