Capítulo 134 - Território de Caça.
A madeira da lareira ainda estalava.
Baixo. Irregular.
O cheiro de queimado permanecia no ar, misturado ao ferro do sangue que ainda não tinha tempo de secar.
Kael estava de pé.
Por um instante, não fez nada.
Só observou.
Lucas respirava com dificuldade, o peito subindo e descendo em intervalos desiguais. Ainda vivo. Por pouco. Aisha o mantinha firme, uma mão pressionando o que restava do curativo, a outra segurando Helena contra si.
A casa parecia menor agora.
Mais apertada.
Mais frágil.
Kael desviou o olhar.
Já estava andando quando falou.
— Pega a carroça.
Aisha ergueu a cabeça, confusa, como se tivesse ouvido errado.
— O quê?
Ele não parou.
— Agora.
A palavra não veio mais alta.
Aisha hesitou, os olhos indo de Kael para Lucas, depois para a porta aberta e a escuridão além dela.
— Kael—
— Coloca ele dentro. — ele indicou Lucas com um leve movimento do queixo — e leva a menina.
Aisha apertou os lábios.
— E você?
Ele já estava na porta quando respondeu.
— Eu? vou caçar.
O silêncio que veio depois foi mais pesado do que qualquer grito.
Aisha respirou fundo, tentando acompanhar o raciocínio, tentando encontrar alguma brecha naquela decisão.
— As duas?
— As duas.
Simples assim.
Como se não fosse nada.
Como se não fosse demais.
Ela deu um passo à frente.
— Você sabe onde elas estão?
Kael parou.
Não completamente. Só o suficiente.
Virou o rosto de leve, o olhar cortando de volta para dentro da casa.
— Uma delas quer ser encontrada.
Aquilo não ajudava. Só piorava.
— Kael, isso não—
— Acho que sei como achar.
— Como?
O ar frio entrou quando ele abriu a porta completamente.
Por um instante, Kael não respondeu.
Olhou para a própria mão.
Abriu.
Fechou.
Sentindo.
— Ela mexe com a cabeça — disse, por fim, a voz mais baixa. — Com o que você sente.
Deu um passo para fora.
— Medo… confiança… segurança…
Aisha franziu o cenho, tentando entender.
— E?
Kael soltou o ar pelo nariz.
Curto.
— Não é real.
Ele ergueu o olhar para a escuridão da floresta.
— Vem na hora errada., ela apareceu dentro da casa e a gente sentiu como se ela fosse parte da família.
Aisha ficou em silêncio por um segundo.
— Então você vai seguir isso?
Kael assentiu, quase imperceptível.
— Até onde ela estiver.
A resposta não tranquilizou.
Só deixou tudo mais claro.
E mais perigoso.
— Isso é loucura…
Ele não discutiu.
— Se não funcionar eu volto.
Simples.
Cru.
— E é o que eu tenho no momento.
Aisha fechou os olhos por um instante, contendo o impulso de insistir. Não porque não tivesse argumentos.
Mas porque sabia que não ia mudar nada.
— E se for uma armadilha?
Kael parou outra vez.
Dessa vez, de verdade.
O silêncio se estendeu.
— Vai ser.
Ele não tentou suavizar.
— E você vai mesmo assim?
Kael olhou por cima do ombro.
Agora direto.
Sem desviar.
— Ela não consegue me matar Aisha.
Uma pausa curta.
— Ela é fraca demais, só preciso que vocês estejam longe para que eu posa lutar sem restrições.
Aquilo foi o fim da discussão.
Aisha desviou o olhar primeiro. O jeito de Kael, quase a havia feito esquecer que ele é do mesmo nível dos Guardiões.
Respirou fundo.
Assentiu.
— Certo…
A voz saiu mais baixa.
Mais firme.
Ela se moveu.
— Vamos, Helena.
A menina olhou para Kael, hesitante.
— Você volta?
Aisha não respondeu.
— Que pergunta é essa pequena? — Ele inclinou a cabeça pegando a lança — É claro que volto.
Já estava do lado de fora quando a porta ficou para trás.
A floresta o recebeu em silêncio.
Fria.
Densa.
Ele deu alguns passos.
Parou.
E então sentiu.
De novo.
Aquela sensação.
Sutil.
Quase imperceptível.
Mas ali.
Quente.
Confortável.
Um lugar confortável e quente dentro da floresta onde possuí duas bestas?
— Te achei..
Kael fechou os olhos por um instante.
E seguiu.
Não pelo caminho.
Mas por aquilo.
A sensação absurda de segurança…
no único lugar onde ela não deveria existir.
A floresta permanecia calma.
Alta.
Densa.
Silenciosa demais.
O chão cedia sob os passos de Kael, abafando o som. Ele caminhou por quase uma hora até que parou.
A sensação voltou. Mais forte.
Quente.
Familiar.
Confortável.
Vinda de uma pequena cabana, ele conhecia aquela cabana madeireira, mas agora ele não tinha tempo de ser emocional, preparou a lança na mão, circulou sua mana e imbuiu na arma até um pequeno chiado começar a ser ouvido.
E arremessou.
A explosão jogou destroços em chamas para todos os lados mas o alvo principal não estava ali, já estava se arrastando rapidamente em direção a floresta.
— Já vai fugir de novo?
Kael caminhou calmamente em direção ao que sobrou da cabana.
— Jurei que queria brincar comigo — ele puchou a lança.
— Você veio sozinho…
A voz surgiu à frente, em um tom quase feliz.
Sem pressa.
— Como me achou?
Ela se mostrou entre os troncos.
Observando. com um sorriso curto.
Kael não avançou.
Também não recuou.
— Isso tudo é confiança? ou… — Ela sumiu atrás da arvore sua voz reaparecendo na direção oposta. — Só queria me ver?
Ela inclinou levemente a cabeça.
Curiosa.
Estudando.
— Eu falei que faria você pagar não foi? — Kael deu um passo. — Farei você sofrer por cada pessoa que consumiu.
Lento.
Natural.
— Eu? — Ela apontou para se mesma parecendo ofendida — Assim você me ofende.
A Imagem dela tremulou reaparecendo ao lado dele.
— Eu não matei os humanos, E vocês são horríveis.
— Da mesma forma… você vai morrer.
…
— Isso não é uma atitude de quem quer lutar. — Ela falou circulando ao redor dele.
Kael soltou o ar pelo nariz.
— Nem de quem quer fugir.
O sorriso dela aumentou.
Pequeno.
Satisfeito.
A imagem sumiu novamente, agora a voz ecoou de todas as direções.
— Então por que você ainda está me seguindo?
Silêncio.
O vento passou entre as árvores.
Seco.
Kael sentiu de novo.
Mais forte agora.
Aquela sensação.
Como se estivesse no lugar certo.
Como se…
Não houvesse motivo para atacar.
A mão dele apertou levemente a lança.
— Não me diga que ficou tão chateado assim pelo que eu falei dos seus discipulos?
— Não… É só porque você ainda está respirando.
Ele continuou a seguir a sensação. os olhos enganavam, a imagem da lâmia estava na sua frente mas a sensação de pertencimento estava levemente mais a direita.
— Eu não sou sua inimiga.
A frase veio simples.
Direta.
— Se fosse… Porque eu estaria conversando com você?
Kael inclinou a cabeça.
Leve.
— Eu já percebi o veneno… Não vai funcionar.
Silêncio.
— Que curioso… — A voz dela ecoou levemente contente.
O Assovio veio.
Sem aviso.
Rápida.
Kael desviou no último instante da flecha.
Outra.
De outro ângulo.
Ele girou a lança.
Metal contra madeira.
O impacto seco ecoou entre os troncos.
Mas ela não apareceu.
— Interessante…
A voz agora vinha de trás.
Mais próxima.
— Seu corpo reagiu bem.
Kael não respondeu.
Mas sentiu.
Aquilo.
A dúvida.
Por que atacar?
Por que continuar?
A sensação puxava o contrário.
Calma.
Segurança.
Quase… confiança.
Ele franziu levemente o cenho.
Só um pouco.
— Você também sente isso, não sente?
Agora a voz dela veio mais baixa.
Mais próxima.
— Não faz sentido, faz?
Outra figura surgiu entre duas árvores.
Parada.
Com um sorriso.
— Eu não estou tentando te matar viu?
Ela ergueu levemente as mãos.
Aberta.
Kael olhou.
Dessa vez olhou.
Um segundo a mais.
E foi o suficiente.
O mundo pareceu… alinhar.
— Essa magia é irritante… — Ele murmurou.
— Então por que—
A flecha veio.
De lado.
Baixa, mas estava próxima.
Kael não pensou.
Avançou.
Direto.
A direção entregava.
A lança cortou o espaço.
Ele sentiu uma resistência.
E a camuflagem da lâmia se desfez.
A lança perfurou o braço.
O arco partiu no impacto.
Um som seco.
Preso.
O corpo dela recuou.
Rápido.
Mas não o suficiente.
Sangue.
Escuro.
Quente.
ilusões começaram a aparecer ao redor.
Mas… oscilavam.
Por um instante.
Desalinhadas.
Fora de ritmo.
Kael puxou a lança de volta.
Sem pressa.
Os olhos já ajustando.
Recalculando.
— Você não hesita…
A voz dela veio mais distante agora.
— Como está me achando?
Mas diferente.
Mais atenção.
— Mesmo quando não tem certeza.
Kael girou levemente a arma na mão.
Silêncio.
Curto.
— Você sabe que eu não preciso responder, certo?
As Ilusões voltaram a ficar imóveis.
Mas a presença dela recuava.
Mudando.
Se reposicionando.
— Então é isso…
A voz veio mais baixa.
Pensativa.
Ele sentiu mais forte.
O puxão.
A dúvida.
Aquela sensação incômoda de estar atacando alguém que…
não parecia uma ameaça.
A mandíbula travou.
Por um instante.
Só um.
— Você devia parar.
A voz dela voltou.
Suave.
Quase gentil.
— Antes que cometa outro erro.
Kael ergueu levemente o olhar.
Fixo.
Frio.
— Você devia correr.
Silêncio.
— Porque? — Ela se revelou enrolada em uma arvore enquanto segurava o corte do braço. — Você já está onde eu queria pequeno humano.
O chão respondeu.
Um tremor baixo.
Lento.
Algo grande se movendo sob a terra.
Kael não desviou o olhar.
— Finalmente.

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