Capítulo 135 - Incêndio.
A lança permaneceu firme na mão de Kael enquanto a floresta parecia prender a respiração ao redor dele.
Não houve som imediato, apenas um tremor profundo, quase imperceptível, que percorreu o solo sob seus pés. As raízes estremeceram com o movimento repentino de algo se movimentando sob sua superfície.
Então a terra cedeu.
Primeiro um pequeno monte de terra. Depois outro, mais larga. E então o chão simplesmente se partiu.
A primeira cabeça rompeu a superfície com violência, lançando terra e raízes ao alto. As escamas escuras brilhavam úmidas sob a luz fraca, e os olhos opacos encontraram Kael quase no mesmo instante em que surgiram. Outra cabeça veio logo atrás, e mais uma, até que o corpo da criatura começou a se erguer, pesado, arrastando consigo o cheiro denso de carne, sangue e podridão recente.
Kael não recuou.
Observou.
— …Uma hidra.
A resposta veio rápida.
Uma das cabeças avançou direto contra ele. Kael saiu do eixo no último instante, um simples passo lateral, e a mandíbula esmagou o chão onde ele estava um segundo antes, fazendo a terra tremer sob o impacto.
Ele já estava dentro da guarda da criatura quando se moveu.
A lança subiu e desceu em um movimento limpo, preciso, sem desperdício. A lâmina atravessou o pescoço da cabeça mais próxima com resistência suficiente para ser sentida e logo depois, ruptura. A cabeça caiu pesada no chão, morta, enquanto o corpo ainda se contorcia por puro instinto.
Kael puxou a arma de volta.
O sangue escuro escorreu pela lâmina.
E então ele viu.
O corte… se movendo.
A carne começando a se fechar.
Devagar no início, quase hesitante e então mais rápido. O osso se reconstruía, o tecido se reorganizava, até que um novo volume começou a surgir, formando-se no lugar da cabeça perdida.
Uma nova cabeça.
Kael observou o processo sem alterar a expressão.
— Entendi.
O assovio veio de trás.
Ele girou no mesmo instante, interceptando a flecha no meio do caminho. O impacto seco ecoou entre os troncos enquanto a madeira se partia contra a haste da lança.
— Viu? — a voz da Lâmia surgiu leve, satisfeita, deslizando pelo ambiente — Espero que você consiga entreter a minha amiga…
Outra flecha veio de um ângulo diferente.
Kael desviou.
A hidra avançou ao mesmo tempo, agora com duas cabeças ativas, uma ainda se regenerando, a outra já tentando esmagá-lo. Ele recuou um único passo, medindo o ritmo, ajustando o tempo dos movimentos.
— Vocês trabalham juntas…
— “Trabalhar” é uma palavra forte — a Lâmia respondeu, surgindo por um instante entre as árvores antes de desaparecer de novo — Eu diria que… cooperamos.
A hidra atacou novamente, mais agressiva.
Kael ergueu a lança e desviou a mandíbula para o lado com a haste da arma. A força ainda o empurrou alguns centímetros para trás, mas ele absorveu o impacto sem perder o equilíbrio.
Outra flecha cortou o ar.
Ele inclinou o corpo o suficiente para sentir o vento passando perto do rosto.
— Quem trouxe vocês pra cá?
Houve silêncio por um momento.
Curto.
Depois, um riso leve.
— Olha só… — a voz dela deslizou entre os troncos — Ele agora faz perguntas.
A hidra avançou de novo.
Dessa vez Kael não recuou.
Entrou no ataque.
A lança subiu de baixo para cima, rasgando a base de outra cabeça em um corte profundo, não o bastante para separar, mas suficiente para fazer a criatura recuar, urrando.
— Sabe… — a voz dela veio mais próxima agora — Ela nem entende direito o que está fazendo.
Uma pausa.
— Diferente de mim.
Outra flecha veio, mais rápida, mais precisa.
Kael desviou por pouco, mas seu olhar já não estava mais nas ilusões. Ele ignorava as imagens, focando no espaço entre elas, no ponto onde aquela sensação errada insistia em puxá-lo.
Confortável.
Familiar.
Totalmente fora de lugar.
A hidra avançou novamente, pesada, violenta, uma das cabeças descendo para esmagá-lo contra o chão. Kael saiu do eixo no último instante, sentindo a mandíbula passar raspando enquanto a terra explodia sob o impacto.
Ele entrou de novo na guarda da criatura.
A lança subiu—
e parou.
Ele recuou meio passo.
Observando.
Medindo.
Atrás dele, a presença dela se aproximava, invisível, curiosa.
— Ficou com medo?
Kael não olhou.
Os olhos permaneciam na hidra, no ponto onde havia cortado, acompanhando a regeneração.
— Já ouviu uma história?
O riso baixo dela preencheu o espaço.
— Hm… agora você quer conversar?
A flecha não veio dessa vez.
— Um homem enfrentou uma hidra como essa.
Kael girou a lança na mão enquanto se movia lateralmente, como se não estivesse cercado.
— Toda vez que ele cortava uma cabeça… duas voltavam.
A hidra atacou.
Ele desviou sem interromper o movimento.
— Isso parece um problema…
— Era.
Kael inclinou levemente a cabeça, sentindo a direção errada daquela sensação confortável.
— Então ele parou de cortar.
A flecha veio.
Rápida.
Ele desviou sem nem olhar.
— E?
Agora havia interesse real na voz dela.
Curiosidade pura.
Kael acertou.
— Ele começou a queimar.
A hidra avançou novamente e, dessa vez, Kael cravou a lança não para matar, mas para travar o movimento. A cabeça desviou instintivamente, evitando o ponto.
Ele viu.
Guardou.
— Queimava os cortes — continuou.
A presença dela estava mais próxima agora.
Quase ao redor dele.
— Inteligente…
Uma imagem surgiu entre duas árvores, sorrindo.
Kael não olhou para o rosto.
Olhou para o corpo.
Para o padrão.
Para a ausência de peso no ambiente.
Ilusão.
Descartada.
— E funcionou?
— Funcionou.
Ele puxou a lança de volta, mantendo a respiração estável.
— A hidra parou de crescer.
Houve uma pausa.
Curta.
— E então?
Kael virou o rosto levemente.
Não para a ilusão.
Para um ponto ao lado.
— Então ela morreu.
A flecha veio no mesmo instante.
— É só isso? Não me diga que criei expectativas para nada…
Kael avançou.
Direto.
A direção o entregava.
A lança cortou o espaço e encontrou resistência real.
A camuflagem quebrou.
A Lâmia surgiu perto demais.
O golpe atravessou a armadura leve, rasgando carne e destruindo o arco. O sangue escuro escorreu enquanto ela recuava rápido, mas não o suficiente para esconder o erro.
As ilusões falharam.
Oscilaram.
Por tempo demais.
Kael não avançou.
Os olhos estavam nela agora, não no rosto, mas no braço ferido.
E ali…
ele viu.
Marcas sob a pele.
Linhas.
Uma estrutura.
Uma runa.
Fragmentada.
Cortada junto com o golpe.
Atrás dele, a hidra se moveu novamente, mas mais lenta. Um atraso mínimo, quase imperceptível, mas suficiente.
Kael olhou para ela.
Depois para a criatura.
E viu.
Na base do pescoço, entre as escamas, o mesmo padrão.
Runas.
Mais completas.
Ativas.
Ele voltou o olhar para a Lâmia.
— Interessante…
Ela inclinou levemente a cabeça, ainda sorrindo, mas o sorriso estava mais estreito agora, mais atento.
— O quê?
Kael girou a lança na mão.
— Você também não está inteira.
As ilusões congelaram por um instante.
Só um.
Mas ele viu.
— Não faço ideia do que você está falando.
Rápido demais.
Errado.
Kael deu um passo à frente.
— Não?
A hidra se moveu novamente, mas ele a ignorou.
Agora não era mais a prioridade.
— Então por que sua mana parece presa nessa marca?
Ela não respondeu.
Mas o ar mudou.
— E por que a sua “amiga” hesita?
Outro passo.
— Não me diga que você não percebeu…
Ele inclinou levemente a cabeça.
— …o que está carregando no próprio corpo?
O silêncio dessa vez foi real.
As ilusões desapareceram.
Todas.
De uma vez.
Ela surgiu entre as árvores, de verdade, o braço sangrando, os olhos fixos nele.
— O que quer dizer?…
Kael parou.
— … Então realmente não sabe…
O vento passou entre as árvores.
A hidra se moveu, mas não atacou observando os dois.
Kael ergueu levemente a lança.
A mana não respondeu de imediato.
Ela pressionou o local, aquecendo o ambiente.
— Bom tanto faz, você morre da mesma forma.
A Lâmia sorriu novamente.
Mas dessa vez… não era só diversão.
— Isso é o que veremos.

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