Capítulo 136 - O Guardião das Cinzas
Quando Kael terminou de falar, o sorriso dela ainda permaneceu no canto dos lábios, fino e afiado, mesmo com o sangue escorrendo pelo braço.
Mas a floresta já não respirava da mesma forma.
Demorou um segundo além do normal para perceber.
Os insetos cessaram primeiro. Depois as folhas perderam o movimento, imóveis nos galhos, e até o vento pareceu incapaz de atravessar o espaço entre as árvores.
Ela inspirou, franzindo a testa.
O ar entrou pesado, denso, quente demais.
— Então… — a voz saiu leve, arrastada — você finalmente decidiu—
A frase morreu.
Não pela dor.
Porque algo ao redor dele havia mudado.
Os olhos dela encontraram Kael parado diante da hidra, sem postura de combate, sem tensão aparente, como se o olhar estivesse preso em algo além da criatura.
Então ele deu um passo.
As sombras ao redor se deformaram.
A hidra atacou no mesmo instante, uma das cabeças disparando com a mandíbula aberta para engoli-lo inteiro.
O movimento foi limpo, preciso, letal.
Mas não chegou.
A parte frontal do crânio perdeu cor e simplesmente se desfez. As escamas quebraram em partículas finas, e logo carne, osso e fluido seguiram o mesmo destino, reduzidos a uma nuvem densa de cinzas que se espalhou pelo ar antes de cair sem peso.
O restante do corpo ainda avançou por pura inércia, incompleto.
Outra cabeça veio logo atrás.
Depois outra.
A hidra repetiu o próprio padrão, instinto puro, força cega, a certeza de que regeneração sempre bastava.
As bocas se abriam e desapareciam antes de fechar.
Os pescoços avançavam e se desfaziam no meio do movimento.
A carne tentava voltar.
O osso tornava a se formar.
As escamas se alinhavam.
Tudo era consumido no mesmo instante.
Em um ciclo constante entre a regeneração e a carbonização.
A Lâmia piscou.
A pele do rosto repuxou.
Só então percebeu o couro da armadura endurecendo sobre o corpo, rangendo em microfissuras. O ar não estava apenas quente.
Ele estava arrancando a umidade de tudo.
A língua tocou o céu da boca.
Áspero.
Seco.
— Isso… não é fogo.
A voz saiu sozinha, baixa demais.
Os olhos voltaram para Kael.
Ele não olhava para a hidra.
Nem para ela.
Nem reagia.
Como se o resultado já tivesse sido decidido antes do primeiro passo.
A hidra insistiu mais uma vez.
Regenerou.
Atacou.
Desfez-se.
Até que a regeneração atrasou.
Foi mínimo.
Quase imperceptível.
Mas bastou.
A estrutura inteira cedeu.
O corpo massivo perdeu coesão e colapsou sobre si mesmo, desfazendo-se no ar antes mesmo de tocar o chão. Quando o movimento terminou, só restavam montes baixos de cinzas espalhados pela clareira.
O sorriso dela não voltou.
Tentou mantê-lo.
Os músculos falharam.
O olhar subiu.
Kael continuava vindo no mesmo ritmo, no mesmo passo silencioso, e aquilo já não parecia mais uma luta.
A cauda recuou por reflexo.
O corpo girou antes da mente acompanhar.
— Não.
A palavra escapou baixa.
A mana reagiu em desespero, disparando pelas veias e pressionando contra a marca quebrada no braço. A dor veio violenta, desordenada, mas havia algo diferente ali.
Ela forçou o fluxo.
A mana respondeu.
Sem resistência.
Sem o atraso constante.
Sem o peso invisível que sempre puxava parte do fluxo de volta.
Ela espalhou a energia pelo corpo, e a velocidade veio inteira, brutal, mais intensa do que lembrava ser possível.
O fluxo não travou.
Não se perdeu.
Veio livre.
Os olhos se arregalaram.
A marca queimou sob a pele.
Ela olhou de relance.
As linhas estavam partidas.
A mana estrangeira ainda tentava atravessar a runa, mas chegava fragmentada, quebrando antes de se fixar.
— …A runa.
O corpo se moveu antes do pensamento terminar.
Agora não era só fuga.
Era impulso puro.
A terra cedeu com facilidade, raízes rompendo sob a pressão direta enquanto a camuflagem envolvia o corpo instantaneamente.
Ela mergulhou.
Mais rápido.
Mais fundo.
Só parou quando o tremor da superfície desapareceu.
O corpo ainda deslizou alguns metros sob o solo antes de perder velocidade. Escamas rasparam contra pedras e raízes, arrancando faixas de dor ao longo da cauda.
Então veio o silêncio.
Pesado.
Compacto.
A escuridão apertava de todos os lados.
A respiração saiu curta.
O braço pulsou.
A mão subiu até a marca.
Mana correu por reflexo.
Inteira.
Sem resistência.
A terra ao redor cedeu um pouco mais, abrindo espaço suficiente para ela respirar.
A camuflagem permaneceu ativa sem esforço.
— …Não travou.
Os dedos apertaram a pele.
O fluxo continuava liso, obediente, sem o peso que sempre limitava seus movimentos.
A marca pulsou fraca.
As linhas já não fechavam mais o mesmo desenho.
— Então era você.
Na mente, a imagem voltou inteira.
Kael caminhando.
A hidra desaparecendo antes do impacto.
Antes da regeneração.
Antes mesmo de terminar de existir.
A mandíbula se contraiu.
— Aquele desgraçado… aquilo não era fogo.
A runa brilhou fraco mais uma vez, irregular, e a mana estrangeira falhou ao tentar atravessar as linhas partidas.
Ela observou o braço em silêncio.
— Finalmente… você estava me prendendo.
A mana vibrou ao redor do corpo.
Livre.
Inteira.
Obediente.
Sem ruído.
Sem negação.
Na superfície da mente, a última imagem voltou.
Kael avançando passo por passo.
Sem pressa.
Como se soubesse exatamente para onde ela correria.
— …Merda. O que eu faço?
O silêncio respondeu.
Depois de alguns instantes, a terra acima cedeu em uma fresta estreita.
Raízes se afastaram devagar, empurradas pelo fluxo limpo de mana.
A cabeça emergiu primeiro.
Depois os ombros.
Ela subiu apenas o suficiente para observar.
Parte da floresta permanecia de pé, mas parecia vazia.
As árvores estavam secas, os troncos rachados em camadas finas como cascas mortas. Galhos inteiros se partiam sozinhos, incapazes de sustentar o próprio peso.
O chão havia mudado de cor.
Onde antes havia umidade e cheiro de terra viva, restava apenas uma superfície pálida, quebradiça, marcada por veios secos que se espalhavam mata adentro.
Nenhuma folha se movia.
Nenhum inseto.
Nenhum som.
Ela saiu mais um pouco, a cauda deslizando sobre o solo morto.
Os olhos percorreram a clareira.
Onde a hidra estivera, havia apenas montes dispersos de cinzas e fragmentos de osso sem forma.
Nem a regeneração deixara vestígios.
Só pó.
— …Ele apagou tudo.
O olhar seguiu adiante.
Uma faixa larga de destruição cortava a floresta em linha reta, árvores mortas, pedras rachadas, solo aberto como se a mata inteira tivesse envelhecido em segundos.
Ela permaneceu imóvel.
A camuflagem ainda ativa por reflexo.
A mana corria lisa pelo corpo.
Livre.
A mão subiu até a marca no braço, agora falhando em linhas cada vez mais apagadas.
A voz saiu baixa.
— Se isso foi o que sobrou… então por que ele não me seguiu?
A trilha estreita se abriu entre as árvores até alcançar a estrada de terra onde a carroça se deslocavam lentamente.
Os cavalos estavam inquietos, batiam os cascos no chão seco, as narinas abertas soltando ar quente.
A lona dos fundos balançou com o vento fraco.
Aisha foi a primeira a notar a presença se aproximando.
Saltou antes mesmo de ver o rosto.
— Kael.
Ele surgiu entre as árvores no mesmo passo de sempre.
Sem pressa.
Sem qualquer sinal visível de combate apenas uma fina camada de cinzas espalhada pelas botas e pela barra do casaco escuro.
Atrás dele, a floresta parecia mais pálida.
Os olhos de Aisha correram rápido pelo corpo dele.
Braços.
Peito.
Pescoço.
Nenhum ferimento.
Nenhum corte novo.
— Acabou? — a pergunta saiu antes que ela percebesse.
Kael parou ao lado da carroça.
O olhar passou primeiro pelos cavalos, depois pela lona entreaberta nos fundos.
— Acabou.
A resposta veio limpa.
Direta.
Aisha sustentou o olhar por um segundo, então virou o rosto para a mata atrás dele.
— E a criatura?
Kael limpou um pouco das cinzas da luva com o polegar.
— Uma tentou fugir.
Aisha franziu a testa.
— Tentou fugir?
Antes que pudesse perguntar mais, a lona dos fundos foi afastada.
Helena apareceu primeiro.
— Lucas acordou?
Kael perguntou antes de qualquer outra coisa.
Ela negou com a cabeça pulando em Kael para um abraço.
— O Lucas ainda não acordou.
Kael subiu na carroça sem hesitar.
O espaço interno estava tomado pelo cheiro de ervas, sangue e madeira. Elas havia improvisado ataduras ao redor do tórax de Lucas.
Lucas permanecia imóvel, o rosto pálido e a respiração lenta.
Kael ficou alguns segundos observando.
Os olhos correram pelos ferimentos, pela coloração da pele, pelo ritmo do peito subindo e descendo.
— Ele não voltou a sangrar — Aisha disse, ajeitando uma faixa. — Mas ele não acordou mesmo com o movimento.
Kael apenas assentiu.
Aisha surgiu na abertura da carroça.
— Você disse que uma tentou fugir.
Kael olhou para fora, na direção da floresta.
— A Lâmia.
Helena ergueu o olhar.
— Ela vai voltar?
Kael demorou um instante antes de responder.
— Claro que não, ela só tentou, ela chegou a me fazer perder o rastro dela por um momento.
Aisha e Helena trocaram um olhar rápido.
— Então ela está viva?
Kael olhou para Aisha.
— Duvido muito afinal quando eu perdi o rastro eu só usei um ataque em área dentro da zona onde ela poderia ter ido, e não sobrou nada.
A frase pairou no ar por um momento.
Aisha foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Você descobriu alguma coisa?
— Runas. — Kael olhou para o braço decepado de Lucas. — Alguém gravou runas nela.
A palavra fez Aisha parar no meio da caminhada.
— Runas?
Kael assentiu.
— Não eram bestas agindo por instinto. Alguém marcou as duas.
Aisha subiu de vez na carroça.
— Alguém está gravando runas em grandes besta e mandando elas pra dentro do continente?
Kael desviou o olhar para ela.
— Não sei se está mandando. Mas eram runas de supressão e controle.
A mão dele alcançou a lateral da lança, os dedos recolhendo um pequeno traço de cinza que havia grudado ali.
— Mas está tentando impedir que elas saiam de uma determinada área.
O silêncio voltou, mais pesado.
Do lado de fora, um dos cavalos bateu o casco no chão outra vez.
Aisha foi a primeira a falar.
— Temos que avisar Ian.
Kael olhou uma última vez para Lucas inconsciente.
— Temos…
Aisha cruzou os braços na entrada da carroça, ainda olhando para ele.
Kael segurou as rédeas e fez a carroça retomar o movimento.
O ranger da madeira voltou ao espaço entre eles, misturado ao som ritmado dos cascos na estrada de terra.
Por alguns minutos, ninguém falou.
A mata corria dos dois lados, silenciosa demais.
Aisha observou o perfil dele por alguns segundos antes de falar.
— Então qual é o próximo passo?
Kael demorou um instante antes de responder.
— Se preparar.
Ela franziu a testa.
— Como?
O olhar dele permaneceu na estrada.
— Para você, significa que vou começar a te ensinar.
Aisha piscou.
— O quê?
— Meu estilo.
Ela ficou em silêncio por um segundo, surpresa demais para esconder.
— Espera… por quê?
Kael soltou um sopro curto pelo nariz.
— Se quiser, eu mudo de ideia.
— Não! — a resposta veio rápida demais. Ela se corrigiu no mesmo instante. — Não é isso. É só que… foi repentino.
Kael virou o rosto o suficiente para encará-la de lado.
— Repentino?
Aisha sustentou o olhar.
— Você recusou todas as outras vezes.
A frase ficou entre os dois enquanto a carroça avançava.
Por alguns segundos, Kael não respondeu.
Os dedos apertaram as rédeas.
O couro rangeu sob a força.
Quando a voz veio, saiu baixa.
— Aparentemente… a Lâmia estava certa.
Aisha não disse nada.
Esperou.
— Eu estava tentando carregar sozinho a culpa pelos meus discípulos.
O olhar dele permaneceu na estrada, mas parecia distante dela.
Preso em outro lugar.
— Como se cada erro deles ainda fosse meu.
O maxilar travou por um instante.
Breve.
Controlado.
— Então eu mantive distância. Convenci a mim mesmo que era o melhor.
O som da carroça pareceu mais alto.
O vento seco passou entre as árvores.
— Hoje eu vi onde isso termina.
Aisha ficou imóvel.
Kael continuou, sem alterar o tom.
— Custou a vida de outras crianças.
Silêncio.
Pesado.
Nos fundos, Lucas puxou ar de forma mais funda, um ruído baixo escapando entre os dentes.
Kael ouviu.
O olhar desviou por um segundo para a lona.
Ainda não.
Voltou para a estrada.
— Não vou repetir esse erro.
Aisha observou o perfil dele.
Não havia mudança no rosto.
Mas havia na forma como ele segurava as rédeas.
Na firmeza da voz.
Na ausência de hesitação.
— Então você vai mesmo me ensinar?
Kael assentiu.
— Vou te ensinar a enxergar.
Ela inclinou a cabeça.
— Enxergar o quê?
Pela primeira vez, um traço quase imperceptível de foco diferente passou pelos olhos dele.
Não emoção.
Método.
— Ritmo. Padrão. Intenção. Terreno. Fluxo de mana. Biomecânica. Instinto. Erro.
A mão dele ajustou as rédeas.
— Você vai aprender onde olhar até o combate deixar de parecer caos.
Nos fundos da carroça, Lucas finalmente puxou ar de forma brusca.
Helena se moveu no mesmo instante.
— Lucas?
Kael soltou as rédeas com uma das mãos e puxou a carroça para reduzir o ritmo.
Só então olhou por cima do ombro.
— Bom.
A voz saiu controlada.
— Agora ele acordou.
Aisha ainda olhava para ele.
Não pela resposta.
Mas pelo que ela significava.
Kael havia tomado uma decisão.
E, pelo peso daquela estrada, parecia uma decisão atrasada por anos.

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