Capítulo 137 - O Peso da Prata
Nos fundos da carroça, Lucas despertou como se estivesse emergindo de água profunda.
O corpo reagiu antes da mente.
Ele puxou o ar de uma vez, os olhos se abrindo sem foco, e tentou se levantar no mesmo impulso.
A dor atravessou o tronco.
A falta de força veio logo atrás.
O corpo mal saiu da madeira antes de desabar de volta, o mundo girando por um segundo sob o som seco do próprio sangue pulsando nos ouvidos.
Helena soltou um som assustado e recuou para o canto, os olhos arregalados.
Aisha se jogou para frente na mesma hora.
— Lucas, calma.
Ele ignorou.
A respiração saiu rápida, quebrada, enquanto a mão direita subia por reflexo para se apoiar.
Foi quando percebeu.
O lado esquerdo não respondeu.
O ombro puxou.
O cotovelo veio.
E depois… nada.
O olhar desceu num tranco.
A manga terminava em ataduras grossas logo abaixo do cotovelo.
Por um segundo, ele só ficou olhando.
O ar entrou seco.
Tentou se erguer de novo, dessa vez pela força do choque.
O corpo não obedeceu.
A falta de sangue fez tudo girar.
Kael não se virou de imediato.
A voz veio da frente da carroça, firme o bastante para cortar o movimento.
— A Lâmia arrancou seu braço na noite em que estabilizamos seu ferimento.
Lucas ficou imóvel.
A respiração curta.
Os olhos presos no próprio coto.
A palavra levou um segundo para encaixar.
Então ele ergueu o rosto.
— O-oque? Lâmia?
Kael virou levemente o rosto.
— É o nome da criatura.
Lucas franziu a testa.
— O nome da mulher cobra?
Kael soltou um sopro curto pelo nariz.
— Não. É o nome do que ela era.
A carroça seguiu pela estrada enquanto ele continuava.
— Um ser mitológico comum em aparecer em livros.
Lucas ainda encarava o próprio braço.
Kael voltou os olhos para a estrada.
— Explico depois. O mais importante é que ela morreu.
O silêncio veio pesado. Lucas ficou parado por um instante.
Então o ar saiu tremendo.
Os dedos da mão direita se fecharam na manta.
O corpo curvou um pouco à frente.
E o som veio baixo primeiro.
Depois quebrou.
As lágrimas desceram sem controle.
Aisha não falou.
Helena ficou olhando sem entender completamente, apenas mais perto agora.
A voz de Lucas saiu entrecortada.
— Eu não consegui…
A mão apertou a manta com mais força.
— Não consegui proteger eles.
O ombro tremeu.
— Nem fui forte o bastante pra vingar.
Kael ouviu em silêncio por um momento.
Quando falou, a voz saiu baixa.
— Então para de se culpar pelo que você não podia vencer.
Lucas ergueu os olhos, ainda molhados.
Aisha se aproximou mais, a voz saindo mais suave.
— E você não perdeu tudo.
Ela olhou para Helena.
A menina estava quieta, agarrada à lateral da carroça.
— A Helena está viva.
Lucas virou o rosto devagar.
Os olhos encontraram os dela.
A menina hesitou por um segundo antes de se aproximar mais, pequena demais no meio das mantas e frascos improvisados.
Lucas ergueu a mão direita com dificuldade e tocou de leve os cabelos dela.
A voz saiu rouca.
— Desculpa… me desculpa. Eu vou proteger você.
Helena piscou.
Depois assentiu segurando a mão dele e começando a chorar.
Kael falou da frente, sem se virar.
— No seu estado atual, você está fraco demais pra proteger qualquer pessoa.
A frase caiu seca.
Lucas abaixou o olhar.
Aisha virou na mesma hora.
— Kael—
— Não. — ele a interrompeu antes que continuasse.
O tom não subiu.
Mas não abriu espaço para discussão.
— Ele precisa ouvir isso.
A carroça passou por um trecho irregular da estrada, a madeira rangendo sob o peso.
Kael continuou.
— É por isso que eu vou treinar os três.
O silêncio durou um segundo.
Lucas ergueu o rosto.
Helena ainda estava com o rosto do peito de Lucas.
— Três? — Aisha perguntou.
Kael virou o rosto o suficiente para olhar por cima do ombro.
O foco passou por Lucas.
Por Aisha.
E parou na menina.
— Os três.
Helena virou o rosto e apontou para si mesma com a mãozinha.
— Eu?
Pela primeira vez, um traço quase imperceptível de intenção diferente passou pelo olhar dele.
— Você também.
A menina ficou olhando sem entender.
Aisha soltou um sopro curto, surpresa demais para esconder.
Lucas, mesmo com o rosto ainda molhado, olhou para Helena e depois para Kael.
Ainda processando o que tinha ouvido.
A xícara de Maelis tocou o pires com um som leve.
— Você sabe que isso já está virando hábito, não sabe?
Ian ergueu a própria caneca, soprando o café.
— Tomar café?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Me esperar antes do amanhecer.
Um canto do sorriso dele apareceu.
— Tenho dormido pouco. E, além disso… foi você quem começou no baile.
— Ah, então agora a culpa é minha?
— Quem mandou me tirar pra dançar no meio da corte inteira?
Maelis soltou uma risada baixa.
— E funcionou.
— Funcionou até demais.
Ela inclinou a cabeça, estudando o rosto dele.
— Você gostou?
Ian bebeu um gole antes de responder.
— Da dança?
— Da confusão.
— Um pouco.
— Sabia.
Ela apoiou o cotovelo na mesa.
— Quando você negou da última vez, eu não acreditei.
Ian sustentou o olhar por um instante.
— Se eu falar tudo de uma vez, qual vai ser a graça?
Maelis sorriu de lado.
— Você realmente é um poço de histórias.
— Eu?
— Café toda manhã. Conversas longas. Você aparecendo sempre com alguma memória nova da sua vida como se estivesse, sei lá… tentando me convencer de alguma coisa.
O olhar dele segurou o dela um segundo além do casual.
— E estou conseguindo?
Ela deixou o silêncio durar só o suficiente.
— Ainda não decidi. Ainda acho que você está escondendo alguma coisa.
Ian soltou um riso curto pelo nariz e levou a mão ao bolso do casaco.
— Então talvez isso ajude.
Ele colocou o bracelete sobre a mesa entre os dois.
Prata polida.
Elegante.
As runas finas gravadas ao longo da peça brilhavam discretamente sob a luz da manhã.
— Um presente — disse ele. — Em poucos dias começa o festival, e depois disso a comitiva de Altheria volta.
Maelis ergueu os olhos.
— E você vai junto.
— Tenho que ir. Faz parte da minha função escoltar Lysvallis.
Os dedos dela tocaram a prata.
— Ian…
A voz saiu mais baixa.
— Isso é lindo.
Ian se inclinou um pouco, tocando uma das runas com o indicador.
— Não é só bonito.
Ela sorriu.
— Eu imaginei.
— Proteção nas runas externas. Absorção de mana nas internas. E esse núcleo central regula o fluxo e devolve excesso antes que sobrecarregue.
Ela ergueu os olhos, surpresa.
— Você comprou isso pra mim?
Ian se recostou na cadeira e olhou para a janela, fingindo ofensa.
— Comprar?
Voltou o rosto para ela.
— Maelis, fui eu quem fez.
— Desde quando você faz joias?
O sorriso dele veio fácil.
— Desde antes de você começar a me obrigar a tomar café tão cedo.
Ela riu.
— Então eu desbloqueei um talento escondido?
— Digamos que você me deu uma boa desculpa pra voltar a forjar.
Os dedos dela seguiram as runas com cuidado.
— Isso é inesperado.
Uma pequena pausa.
— E muito valioso. Faz tempo que não vejo um artefato com tantas runas refinadas.
Ian apoiou o braço na mesa.
— O valor maior não está nas runas.
Ela levantou os olhos.
— Não?
— Está no braço de quem vai usar.
Maelis hesitou.
— Eu não posso aceitar uma coisa assim sem ter preparado nada pra você.
Ian inclinou o corpo um pouco à frente.
— Maelis.
— Hum?
— Só aceita.
Ela sustentou o olhar.
— Só isso?
— Por enquanto.
O sorriso dela cresceu.
— Você tem ficado ousado.
— Culpa sua.
— Minha?
— Você nunca reclamou.
Ela balançou a cabeça, divertida, e colocou o bracelete no pulso.
As runas responderam com um brilho discreto antes de se acomodarem à mana dela.
Os olhos dela se arregalaram.
— Ele sincronizou.
Ian assentiu.
— Foi feito pra reconhecer sua assinatura.
Ela passou o polegar pela prata, claramente impressionada.
— Você pensou em tudo.
O sorriso dele veio enviesado.
— Eu sei. Mandei bem.
— Dessa vez, se superou.
O sorriso dela diminuiu um pouco.
A voz veio mais baixa.
— Mas preciso que seja sincero comigo, Ian. Por que exatamente está me dando isso?
Ian segurou a xícara por um instante, observando o vapor subir.
— Porque Cervalhion está mudando rápido demais.
Os olhos dele voltaram para ela.
— E se alguma coisa acontecer, eu prefiro saber que você tem mais do que talento pra se proteger.
Maelis estudou o rosto dele por um segundo, como se procurasse a parte não dita da resposta.
No fim, apenas ergueu o pulso.
— Então eu aceito.
Ian sorriu.
— Boa escolha.
Ela apoiou o queixo na mão.
— E amanhã? Qual história você vai usar pra tentar me impressionar?
Ian a encarou por cima da caneca.
— Depende.
— Do quê?
— De você aparecer.
Ela sorriu enquanto se levantava.
— Então acho melhor você preparar uma boa.
Ian acompanhou o movimento dela, os olhos descendo por um instante até o bracelete agora ajustado ao pulso de Maelis.
As runas já haviam se acomodado.
Silenciosas.
— Obrigada, Ian. Pelo presente… e pelo café.
Ela sorriu antes de sair.
A porta se fechou atrás dela.
Ian ficou olhando para a cadeira vazia por um segundo.
Depois levou a caneca à boca, mas parou no meio do caminho.
Apoiou o objeto de volta na mesa e passou a mão no rosto.
— …Droga.

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