Índice de Capítulo

    Nos fundos da carroça, Lucas despertou como se estivesse emergindo de água profunda.


    O corpo reagiu antes da mente.


    Ele puxou o ar de uma vez, os olhos se abrindo sem foco, e tentou se levantar no mesmo impulso.


    A dor atravessou o tronco.


    A falta de força veio logo atrás.


    O corpo mal saiu da madeira antes de desabar de volta, o mundo girando por um segundo sob o som seco do próprio sangue pulsando nos ouvidos.


    Helena soltou um som assustado e recuou para o canto, os olhos arregalados.


    Aisha se jogou para frente na mesma hora.


    — Lucas, calma.


    Ele ignorou.


    A respiração saiu rápida, quebrada, enquanto a mão direita subia por reflexo para se apoiar.


    Foi quando percebeu.


    O lado esquerdo não respondeu.


    O ombro puxou.


    O cotovelo veio.


    E depois… nada.


    O olhar desceu num tranco.


    A manga terminava em ataduras grossas logo abaixo do cotovelo.


    Por um segundo, ele só ficou olhando.


    O ar entrou seco.


    Tentou se erguer de novo, dessa vez pela força do choque.


    O corpo não obedeceu.


    A falta de sangue fez tudo girar.


    Kael não se virou de imediato.


    A voz veio da frente da carroça, firme o bastante para cortar o movimento.


    — A Lâmia arrancou seu braço na noite em que estabilizamos seu ferimento.


    Lucas ficou imóvel.


    A respiração curta.


    Os olhos presos no próprio coto.


    A palavra levou um segundo para encaixar.


    Então ele ergueu o rosto.


    — O-oque? Lâmia?


    Kael virou levemente o rosto.


    — É o nome da criatura.


    Lucas franziu a testa.


    — O nome da mulher cobra?


    Kael soltou um sopro curto pelo nariz.


    — Não. É o nome do que ela era.


    A carroça seguiu pela estrada enquanto ele continuava.


    — Um ser mitológico comum em aparecer em livros.


    Lucas ainda encarava o próprio braço.


    Kael voltou os olhos para a estrada.


    — Explico depois. O mais importante é que ela morreu.


    O silêncio veio pesado. Lucas ficou parado por um instante.


    Então o ar saiu tremendo.


    Os dedos da mão direita se fecharam na manta.


    O corpo curvou um pouco à frente.
    E o som veio baixo primeiro.
    Depois quebrou.
    As lágrimas desceram sem controle.


    Aisha não falou.
    Helena ficou olhando sem entender completamente, apenas mais perto agora.


    A voz de Lucas saiu entrecortada.
    — Eu não consegui…
    A mão apertou a manta com mais força.
    — Não consegui proteger eles.
    O ombro tremeu.
    — Nem fui forte o bastante pra vingar.


    Kael ouviu em silêncio por um momento.
    Quando falou, a voz saiu baixa.


    — Então para de se culpar pelo que você não podia vencer.


    Lucas ergueu os olhos, ainda molhados.


    Aisha se aproximou mais, a voz saindo mais suave.
    — E você não perdeu tudo.


    Ela olhou para Helena.


    A menina estava quieta, agarrada à lateral da carroça.


    — A Helena está viva.
    Lucas virou o rosto devagar.


    Os olhos encontraram os dela.
    A menina hesitou por um segundo antes de se aproximar mais, pequena demais no meio das mantas e frascos improvisados.


    Lucas ergueu a mão direita com dificuldade e tocou de leve os cabelos dela.


    A voz saiu rouca.
    — Desculpa… me desculpa. Eu vou proteger você.


    Helena piscou.
    Depois assentiu segurando a mão dele e começando a chorar.


    Kael falou da frente, sem se virar.


    — No seu estado atual, você está fraco demais pra proteger qualquer pessoa.


    A frase caiu seca.
    Lucas abaixou o olhar.
    Aisha virou na mesma hora.
    — Kael—
    — Não. — ele a interrompeu antes que continuasse.


    O tom não subiu.
    Mas não abriu espaço para discussão.


    — Ele precisa ouvir isso.


    A carroça passou por um trecho irregular da estrada, a madeira rangendo sob o peso.


    Kael continuou.
    — É por isso que eu vou treinar os três.


    O silêncio durou um segundo.

    Lucas ergueu o rosto.
    Helena ainda estava com o rosto do peito de Lucas.


    — Três? — Aisha perguntou.


    Kael virou o rosto o suficiente para olhar por cima do ombro.


    O foco passou por Lucas.
    Por Aisha.
    E parou na menina.
    — Os três.
    Helena virou o rosto e apontou para si mesma com a mãozinha.


    — Eu?


    Pela primeira vez, um traço quase imperceptível de intenção diferente passou pelo olhar dele.


    — Você também.


    A menina ficou olhando sem entender.


    Aisha soltou um sopro curto, surpresa demais para esconder.


    Lucas, mesmo com o rosto ainda molhado, olhou para Helena e depois para Kael.

    Ainda processando o que tinha ouvido.


    A xícara de Maelis tocou o pires com um som leve.

    — Você sabe que isso já está virando hábito, não sabe?

    Ian ergueu a própria caneca, soprando o café.

    — Tomar café?

    Ela arqueou uma sobrancelha.

    — Me esperar antes do amanhecer.

    Um canto do sorriso dele apareceu.

    — Tenho dormido pouco. E, além disso… foi você quem começou no baile.

    — Ah, então agora a culpa é minha?

    — Quem mandou me tirar pra dançar no meio da corte inteira?

    Maelis soltou uma risada baixa.

    — E funcionou.

    — Funcionou até demais.

    Ela inclinou a cabeça, estudando o rosto dele.

    — Você gostou?

    Ian bebeu um gole antes de responder.

    — Da dança?

    — Da confusão.

    — Um pouco.

    — Sabia.

    Ela apoiou o cotovelo na mesa.

    — Quando você negou da última vez, eu não acreditei.

    Ian sustentou o olhar por um instante.

    — Se eu falar tudo de uma vez, qual vai ser a graça?

    Maelis sorriu de lado.

    — Você realmente é um poço de histórias.

    — Eu?

    — Café toda manhã. Conversas longas. Você aparecendo sempre com alguma memória nova da sua vida como se estivesse, sei lá… tentando me convencer de alguma coisa.

    O olhar dele segurou o dela um segundo além do casual.

    — E estou conseguindo?

    Ela deixou o silêncio durar só o suficiente.

    — Ainda não decidi. Ainda acho que você está escondendo alguma coisa.

    Ian soltou um riso curto pelo nariz e levou a mão ao bolso do casaco.

    — Então talvez isso ajude.

    Ele colocou o bracelete sobre a mesa entre os dois.

    Prata polida.

    Elegante.

    As runas finas gravadas ao longo da peça brilhavam discretamente sob a luz da manhã.

    — Um presente — disse ele. — Em poucos dias começa o festival, e depois disso a comitiva de Altheria volta.

    Maelis ergueu os olhos.

    — E você vai junto.

    — Tenho que ir. Faz parte da minha função escoltar Lysvallis.

    Os dedos dela tocaram a prata.

    — Ian…

    A voz saiu mais baixa.

    — Isso é lindo.

    Ian se inclinou um pouco, tocando uma das runas com o indicador.

    — Não é só bonito.

    Ela sorriu.

    — Eu imaginei.

    — Proteção nas runas externas. Absorção de mana nas internas. E esse núcleo central regula o fluxo e devolve excesso antes que sobrecarregue.

    Ela ergueu os olhos, surpresa.

    — Você comprou isso pra mim?

    Ian se recostou na cadeira e olhou para a janela, fingindo ofensa.

    — Comprar?

    Voltou o rosto para ela.

    — Maelis, fui eu quem fez.

    — Desde quando você faz joias?

    O sorriso dele veio fácil.

    — Desde antes de você começar a me obrigar a tomar café tão cedo.

    Ela riu.

    — Então eu desbloqueei um talento escondido?

    — Digamos que você me deu uma boa desculpa pra voltar a forjar.

    Os dedos dela seguiram as runas com cuidado.

    — Isso é inesperado.

    Uma pequena pausa.

    — E muito valioso. Faz tempo que não vejo um artefato com tantas runas refinadas.

    Ian apoiou o braço na mesa.

    — O valor maior não está nas runas.

    Ela levantou os olhos.

    — Não?

    — Está no braço de quem vai usar.

    Maelis hesitou.

    — Eu não posso aceitar uma coisa assim sem ter preparado nada pra você.

    Ian inclinou o corpo um pouco à frente.

    — Maelis.

    — Hum?

    — Só aceita.

    Ela sustentou o olhar.

    — Só isso?

    — Por enquanto.

    O sorriso dela cresceu.

    — Você tem ficado ousado.

    — Culpa sua.

    — Minha?

    — Você nunca reclamou.

    Ela balançou a cabeça, divertida, e colocou o bracelete no pulso.

    As runas responderam com um brilho discreto antes de se acomodarem à mana dela.

    Os olhos dela se arregalaram.

    — Ele sincronizou.

    Ian assentiu.

    — Foi feito pra reconhecer sua assinatura.

    Ela passou o polegar pela prata, claramente impressionada.

    — Você pensou em tudo.

    O sorriso dele veio enviesado.

    — Eu sei. Mandei bem.

    — Dessa vez, se superou.

    O sorriso dela diminuiu um pouco.

    A voz veio mais baixa.

    — Mas preciso que seja sincero comigo, Ian. Por que exatamente está me dando isso?

    Ian segurou a xícara por um instante, observando o vapor subir.

    — Porque Cervalhion está mudando rápido demais.

    Os olhos dele voltaram para ela.

    — E se alguma coisa acontecer, eu prefiro saber que você tem mais do que talento pra se proteger.

    Maelis estudou o rosto dele por um segundo, como se procurasse a parte não dita da resposta.

    No fim, apenas ergueu o pulso.

    — Então eu aceito.

    Ian sorriu.

    — Boa escolha.

    Ela apoiou o queixo na mão.

    — E amanhã? Qual história você vai usar pra tentar me impressionar?

    Ian a encarou por cima da caneca.

    — Depende.

    — Do quê?

    — De você aparecer.

    Ela sorriu enquanto se levantava.

    — Então acho melhor você preparar uma boa.

    Ian acompanhou o movimento dela, os olhos descendo por um instante até o bracelete agora ajustado ao pulso de Maelis.

    As runas já haviam se acomodado.

    Silenciosas.

    — Obrigada, Ian. Pelo presente… e pelo café.

    Ela sorriu antes de sair.

    A porta se fechou atrás dela.

    Ian ficou olhando para a cadeira vazia por um segundo.

    Depois levou a caneca à boca, mas parou no meio do caminho.

    Apoiou o objeto de volta na mesa e passou a mão no rosto.

    — …Droga.

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