Índice de Capítulo

    — Então?

    Maelis manteve a mão erguida, reunindo mana nos dedos.

    — Vá para o inferno.

    A chama explodiu da palma.

    Ou deveria.

    Mas nada aconteceu.

    Nem calor.

    Nem luz.

    A mana se dispersou no ar vermelho como fumaça sem forma.

    O sorriso da cópia cresceu.

    — Curioso.

    Ela deu mais um passo sobre o solo rachado.

    — Você chegou ao posto de Arquimaga sem entender como funciona um ataque mental?

    Maelis estreitou os olhos.

    A mão abaixou devagar.

    O fogo não havia falhado.

    O ambiente havia recusado a manifestação.

    Ela liberou mana em círculos ao redor do próprio corpo.

    Lenta.

    Precisa.

    E foi então que sentiu.

    Linhas finas de mana estranha, quase invisíveis, corriam pelo chão rachado em duas direções distintas.

    A sombra já estava espalhando presença.

    Dominando espaço.

    Maelis respirou fundo e fez o mesmo.

    A própria mana deslizou pelo solo seco em silêncio, seguindo o fluxo inimigo.

    Ela travou o olhar no horizonte vermelho.

    Então entendeu por que o ataque não funcionou.

    Aquilo não era uma construção aleatória.

    Era uma lembrança.

    Uma memória do próprio invasor.

    O céu imóvel.

    O chão rachado.

    A sensação de calor morto no ar.

    Tudo pertencia a ele.

    E isso ainda lhe dava uma chance.

    Todo ataque mental precisava de pontos de ancoragem para estabilizar a memória.

    Por estar na camada interna, ela ainda podia empurrar o invasor para fora da própria mente quando ele tentasse avançar.

    Se ganhasse tempo.

    A mana dela acelerou pelas fissuras.

    Mas chegou tarde.

    A cópia ergueu a mão e apontou sem sequer olhar.

    Ao longe, uma árvore torta se erguia no meio do solo vermelho.

    Na direção oposta, uma tenda rasgada tremulava sem vento.

    As duas estruturas brilharam sob a mana cinza.

    Já dominadas.

    O coração de Maelis afundou.

    Ele sabia exatamente onde ancorar a mana.

    Claro que sabia.

    Era a memória dele.

    A cópia inclinou a cabeça, observando a reação dela com interesse quase clínico.

    — Melhor do que eu esperava.

    Maelis sentiu a pressão como se algo a expulsasse da própria mente.

    No instante seguinte, sentiu a mana estrangeira tocar o centro da sua consciência.

    O mundo ao redor começou a vibrar.

    — Antes de continuarmos… — a voz saiu lisa, quase divertida — que tal facilitar e me mostrar algo útil?

    A cópia sorriu com o rosto dela.

    — Os últimos dias, talvez.

    Uma pausa.

    — O café da manhã. O bracelete. O Guardião.

    O estômago de Maelis revirou.

    Ian.

    Não.

    A mana dela explodiu antes que a transição terminasse.

    Não como resistência.

    Como escolha.

    — Já que você quer tanto ver minhas memórias… eu vou te mostrar.

    O vermelho do céu se partiu.

    O solo rachado desapareceu.

    O cheiro de terra seca deu lugar ao frio úmido da manhã.

    Mato alto.

    Árvores fechadas.

    O som distante de passos sobre folhas.

    A memória da infância se abriu diante deles.

    A voz de Maelis veio fria.

    — Mas talvez demore para chegar onde você gostaria.

    Maelis cambaleou um passo na trilha de terra úmida antes de recuperar o equilíbrio.

    O corpo estava errado.

    Leve demais.

    Pequeno demais.

    Os braços curtos.

    As pernas afundando um pouco no barro frio da floresta.

    O tecido gasto da roupa roçando na pele magra.

    A fome.

    Até a fome estava ali.

    Uma presença antiga e incômoda no fundo do estômago.

    Ela puxou o ar devagar.

    O cheiro de folhas molhadas, terra revolvida e madeira úmida atingiu de uma vez.

    À frente, o pai seguia pela trilha estreita com a lança apoiada no ombro.

    Magro.

    Os ombros mais finos do que ela lembrava.

    A roupa simples marcada por remendos.

    Ainda assim, o passo era firme.

    Seguro.

    Por um segundo, Maelis ficou parada.

    Só olhando.

    Vê-lo outra vez daquele jeito abriu um espaço estranho no peito.

    Mas ela não podia se perder nisso.

    Ela liberou a mana antes mesmo do próximo passo.

    Deslizou invisível por baixo da trilha, correndo pela lembrança em busca do ponto de maior peso.

    Casa.

    Tinha que ser a casa.

    A memória respondeu.

    Ao longe, fora da trilha, ela sentiu a estrutura simples de madeira pulsar sob sua mana como um ponto estável.

    Encontrou.

    Maelis firmou a própria presença ali no mesmo instante.

    A âncora brilhou em algum lugar fora de vista.

    Segura.

    A voz do intruso veio logo depois como um eco.

    Limpando o ar entre as árvores como fumaça fria.

    — Boa escolha.

    Uma pausa curta.

    Quase pensativa.

    — Mas, por favor… não transforme isso em mais trabalho do que precisa ser.

    Maelis manteve o rosto imóvel e continuou andando.

    À frente, o pai virou levemente o rosto, falando sem parar.

    A voz dele era mais jovem do que ela lembrava.

    Mais cansada também.

    — O que você faz se o vento muda?

    A pergunta veio no tom simples de um pai ensinando uma criança.

    Maelis levou um segundo. Ate sua boca responder sozinha como a menina que era naquela lembrança.

    — Não fico na frente do cheiro.

    O homem assentiu.

    — E por quê?

    Ela apertou os dedos pequenos ao lado do corpo.

    Os olhos percorreram a mata.

    — Porque a presa sente.

    Um pequeno sorriso apareceu no canto do rosto dele.

    — Muito bem.

    Maelis acompanhou o passo dele pela trilha.

    Mas por baixo da lembrança, sua mana já começava a se espalhar outra vez.

    Agora procurando o segundo ponto.

    O local onde encontraram o javali.

    A trilha afunilou entre árvores altas e raízes expostas.

    O pai ergueu a mão, pedindo silêncio.

    Maelis obedeceu no mesmo instante.

    O som veio primeiro.

    Um puxão seco.

    Cordas tensionadas.

    Folhas se debatendo.

    Eles saíram da trilha e avançaram entre os arbustos até a primeira armadilha.

    O coelho preso ainda se debatia, mas não era nele que os olhos dela pararam.

    A criatura já estava sobre a presa.

    Um cavalo.

    Ou algo que um dia tinha sido um.

    A pele arroxeada repuxada.

    Partes da crina arrancadas.

    Os dentes alongados demais.

    A sela ainda presa ao dorso.

    Maelis sentiu o corpo infantil congelar por um instante.

    Ela conhecia aquela cena.

    A primeira besta.

    A primeira vez em que viu uma besta pessoalmente.

    O pai reagiu antes.

    — Para a árvore. Agora.

    A voz saiu baixa e firme.

    O corpo pequeno dela correu quase por reflexo.

    As mãos infantis agarraram o tronco áspero, subindo com dificuldade até um galho mais grosso.

    Lá de cima, ela viu o pai girar a lança nas mãos.

    O cavalo-bestial avançou num salto torto.

    Rápido demais.

    A lança desviou a mordida por um fio.

    O impacto empurrou o homem para trás, os pés afundando na terra úmida.

    Ele usou o próprio movimento para prender a haste contra o pescoço da criatura e girou o corpo.

    A ponta entrou logo abaixo da mandíbula.

    O animal se debateu com violência, relinchando algo que não parecia som de cavalo.

    O pai segurou a lança até o último espasmo.

    Só então soltou o ar.

    Um hematoma escurecia o braço dele onde a lateral do corpo do animal o atingira.

    Mesmo assim, ele apenas puxou a lança de volta e olhou para cima.

    — E o que você aprendeu?

    A pergunta veio como se aquilo fosse parte natural da aula.

    Maelis, ainda olhando o corpo no chão, respondeu num fio de voz:

    — A… a fugir?

    O pai sorriu de leve.

    — Exato, todo mundo tem que saber a hora de fugir.

    Por baixo da lembrança, a mana dela correu mais longe.

    Mais fundo na mata.

    Procurando o peso bruto do javali.

    E encontrou.

    Uma massa densa.

    Viva na memória.

    Grande.

    Escondida.

    O coração dela apertou.

    Achou que tinha encontrado a segunda âncora, mas nada mudou.

    Então a voz do Andarilho atravessou as árvores, seca e quase entediada.

    — Hm. Uma caçada entre pai e filha…

    — Pelo menos isso explica sua obsessão por controle.

    A mana cinza dele mudou de direção, indo para o interior da floresta seguindo uma trilha que quase não existia mais.

    Galhos baixos.

    Terra revolvida.

    Marcas pesadas no solo úmido.

    Maelis seguia com a sua mana aquela energia cinza.

    O pai se abaixou, tocando a lama com dois dedos..

    — Fresco.

    Mesmo revivendo a lembrança, parte dela estava em outro lugar.

    A mana corria por baixo das raízes, atravessando a memória em busca do segundo ponto real.

    Se não era o javali só podia ser um lugar.

    O lugar onde tudo convergia.

    A toca.

    O coração acelerou.

    Ela mudou a direção da própria mana de uma vez, empurrando-a mata adentro.

    Mais fundo.

    Mais rápido.

    Até sentir.

    Uma cavidade escura entre pedras cobertas de musgo.

    O interior pulsou como um núcleo da lembrança.

    Ali.

    A toca.

    A verdadeira âncora.

    Maelis lançou a mana com força.

    Mas outra presença já estava lá.

    A mesma mana cinza.

    Fria.

    Enraizada.

    O Andarilho havia chegado primeiro.

    — Agora estamos trabalhando com algo minimamente interessante.

    O pai, dentro da memória, ergueu a lança e fez sinal para que ela recuasse.

    O corpo infantil de Maelis obedeceu por instinto, mas sua consciência permaneceu fixa na âncora perdida.

    Ela ainda mantinha a casa.

    Ainda tinha algo a proteger.

    Ainda podia atrasar.

    A voz voltou, agora mais próxima.

    Sem pressa.

    Quase cansada.

    — Solte sua âncora e seguimos para a próxima memoria sem danos.

    A mata pareceu prender a respiração.

    Maelis apertou os dentes.

    — Não.

    O silêncio que respondeu foi quase educado.

    — Certo.

    A palavra veio com uma calma pior do que ameaça.

    Como alguém aceitando uma tarefa inconveniente.

    Então o mundo mudou.

    Primeiro foi o alto das árvores.

    As copas começaram a desaparecer.

    Folhas sumindo em fragmentos de fumaça.

    Os galhos se desfazendo como carvão soprado pelo vento.

    Maelis ergueu o rosto no reflexo.

    O céu da memória começou a apagar como uma tela de aquarela sendo lavada.

    O azul pálido da manhã foi arrancado, revelando uma mistura turva de cores.

    O peito dela travou.

    Aquilo não era ilusão.

    Ele estava desmontando a estrutura da lembrança.

    Pedaço por pedaço.

    A voz dele ecoou uma última vez, fria e impaciente.

    — Então, Arquimaga… realmente vai me fazer desmontar você inteira para avançarmos?

    As cores do céu e das copas das arvores continuaram borrando. Até não sobrar nenhuma cor além do cinza.

    Como se o próprio conceito de céu tivesse sido arrancado da lembrança.

    Maelis recuou um passo.

    O corpo infantil quase tropeçou nas raízes.

    A respiração veio curta.

    Irregular.

    A casa ainda pulsava ao longe sob a mana dela.

    A última parte estável daquela memória.

    A voz do Andarilho deslizou entre os troncos.

    Calma.

    Quase aborrecida.

    — Garota, não faz sentido você tentar resistir.

    O pai avançou na direção da toca, a lança firme nas mãos.

    Dentro da memória, ele ainda seguia a lógica da caçada.

    Maelis apertou os dedos pequenos com força.

    — Não toca nele.

    A resposta veio imediata.

    — Então pare de me dar trabalho.

    A mana cinza se moveu da toca como fumaça viva.

    Não atacou a casa.

    Não atacou o chão.

    Foi direto para a figura do homem.

    Maelis sentiu antes de ver.

    Um puxão seco no centro da lembrança.

    Como se algo tivesse sido arrancado da estrutura daquela pessoa.

    O pai virou o rosto para ela.

    O corpo continuava igual.

    Os ombros magros.

    A barba curta.

    O cabelo desalinhado.

    Mas o rosto.

    Não estava mais lá.

    Onde antes havia olhos, boca e expressão, restava apenas uma superfície lisa, sem traços, sem identidade, sem presença.

    O mundo inteiro pareceu congelar.

    Maelis parou.

    O pensamento travou.

    A garganta apertou num reflexo quase físico.

    Não era só a memória, era a percepção brutal de que já não conseguia mais lembrar direito.

    Os detalhes começaram a escapar no mesmo instante.

    A curva do nariz.

    O formato do sorriso.

    O peso exato do olhar dele quando ensinava alguma coisa.

    Tudo começou a se dissolver.

    O pai sem rosto ainda ergueu a lança e apontou para a toca.

    Como se a memória insistisse continuar mesmo mutilada.

    A voz do Andarilho veio uma última vez.

    Mais perto.

    Mais fria.

    — Última oportunidade.

    Uma pausa curta.

    — Solte a âncora da casa…

    Maelis sentiu a mana tremer ao redor da pequena construção.

    A única parte intacta.

    A última coisa que ainda sustentava aquela lembrança.

    Os dedos dela fecharam em punho.

    O silêncio durou um segundo longo demais.

    Então ela soltou a âncora.

    A casa apagou.

    A floresta inteira desmoronou em fumaça.

    O chão sumiu sob os pés.

    — Ótimo, viu? — A sombra retornou agora mais solida espelhando Maelis — Agora… não me teste, e me mostre oque você sabe sobre o Guardião.

    O chão voltou antes do céu.

    Areia.

    Quente.

    Fina.

    Escapando entre os dedos da mão quando Maelis se apoiou para não cair.

    O vento veio logo depois.

    Seco.

    Carregado de grãos que raspavam a pele do rosto.

    Ela ergueu os olhos devagar.

    Dunas se estendiam até o horizonte, ondulando sob a luz dourada do fim de tarde.

    O corpo já não era o de uma criança.

    Os braços estavam mais longos.

    Mais firmes.

    As roupas leves de viagem se agitavam ao vento.

    Quatorze anos.

    A memória seguinte havia começado.

    Maelis respirou fundo.

    Mas a respiração falhou no meio.

    Havia alguma coisa errada.

    Algo que importava.

    Algo que tinha ficado para trás.

    Mas o pensamento escorregou antes de se formar.

    Atrás dela, a voz do Andarilho surgiu espalhada pelo vento.

    Mais baixa agora.

    Mais analítica.

    — Hm.

    Uma pausa curta.

    Como se ele estivesse observando a memória junto com ela.

    — Adolescência.

    A areia girou em pequenos redemoinhos entre as dunas.

    — Tudo bem… você fez a sua escolha.

    Maelis abriu os olhos na mesma hora.

    Não respondeu.

    A areia quente do deserto junto com vento forte ardia o braço nas áreas descobertas.

    À frente, a pequena caravana avançava em fila deserto a dentro.

    E ao fundo, quase como um sussurro irritado, a voz do Andarilho veio outra vez:

    — Então vamos acelerar o processo.

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