Capítulo 139 - "Camadas da Mente - I"
— Então?
Maelis manteve a mão erguida, reunindo mana nos dedos.
— Vá para o inferno.
A chama explodiu da palma.
Ou deveria.
Mas nada aconteceu.
Nem calor.
Nem luz.
A mana se dispersou no ar vermelho como fumaça sem forma.
O sorriso da cópia cresceu.
— Curioso.
Ela deu mais um passo sobre o solo rachado.
— Você chegou ao posto de Arquimaga sem entender como funciona um ataque mental?
Maelis estreitou os olhos.
A mão abaixou devagar.
O fogo não havia falhado.
O ambiente havia recusado a manifestação.
Ela liberou mana em círculos ao redor do próprio corpo.
Lenta.
Precisa.
E foi então que sentiu.
Linhas finas de mana estranha, quase invisíveis, corriam pelo chão rachado em duas direções distintas.
A sombra já estava espalhando presença.
Dominando espaço.
Maelis respirou fundo e fez o mesmo.
A própria mana deslizou pelo solo seco em silêncio, seguindo o fluxo inimigo.
Ela travou o olhar no horizonte vermelho.
Então entendeu por que o ataque não funcionou.
Aquilo não era uma construção aleatória.
Era uma lembrança.
Uma memória do próprio invasor.
O céu imóvel.
O chão rachado.
A sensação de calor morto no ar.
Tudo pertencia a ele.
E isso ainda lhe dava uma chance.
Todo ataque mental precisava de pontos de ancoragem para estabilizar a memória.
Por estar na camada interna, ela ainda podia empurrar o invasor para fora da própria mente quando ele tentasse avançar.
Se ganhasse tempo.
A mana dela acelerou pelas fissuras.
Mas chegou tarde.
A cópia ergueu a mão e apontou sem sequer olhar.
Ao longe, uma árvore torta se erguia no meio do solo vermelho.
Na direção oposta, uma tenda rasgada tremulava sem vento.
As duas estruturas brilharam sob a mana cinza.
Já dominadas.
O coração de Maelis afundou.
Ele sabia exatamente onde ancorar a mana.
Claro que sabia.
Era a memória dele.
A cópia inclinou a cabeça, observando a reação dela com interesse quase clínico.
— Melhor do que eu esperava.
Maelis sentiu a pressão como se algo a expulsasse da própria mente.
No instante seguinte, sentiu a mana estrangeira tocar o centro da sua consciência.
O mundo ao redor começou a vibrar.
— Antes de continuarmos… — a voz saiu lisa, quase divertida — que tal facilitar e me mostrar algo útil?
A cópia sorriu com o rosto dela.
— Os últimos dias, talvez.
Uma pausa.
— O café da manhã. O bracelete. O Guardião.
O estômago de Maelis revirou.
Ian.
Não.
A mana dela explodiu antes que a transição terminasse.
Não como resistência.
Como escolha.
— Já que você quer tanto ver minhas memórias… eu vou te mostrar.
O vermelho do céu se partiu.
O solo rachado desapareceu.
O cheiro de terra seca deu lugar ao frio úmido da manhã.
Mato alto.
Árvores fechadas.
O som distante de passos sobre folhas.
A memória da infância se abriu diante deles.
A voz de Maelis veio fria.
— Mas talvez demore para chegar onde você gostaria.
Maelis cambaleou um passo na trilha de terra úmida antes de recuperar o equilíbrio.
O corpo estava errado.
Leve demais.
Pequeno demais.
Os braços curtos.
As pernas afundando um pouco no barro frio da floresta.
O tecido gasto da roupa roçando na pele magra.
A fome.
Até a fome estava ali.
Uma presença antiga e incômoda no fundo do estômago.
Ela puxou o ar devagar.
O cheiro de folhas molhadas, terra revolvida e madeira úmida atingiu de uma vez.
À frente, o pai seguia pela trilha estreita com a lança apoiada no ombro.
Magro.
Os ombros mais finos do que ela lembrava.
A roupa simples marcada por remendos.
Ainda assim, o passo era firme.
Seguro.
Por um segundo, Maelis ficou parada.
Só olhando.
Vê-lo outra vez daquele jeito abriu um espaço estranho no peito.
Mas ela não podia se perder nisso.
Ela liberou a mana antes mesmo do próximo passo.
Deslizou invisível por baixo da trilha, correndo pela lembrança em busca do ponto de maior peso.
Casa.
Tinha que ser a casa.
A memória respondeu.
Ao longe, fora da trilha, ela sentiu a estrutura simples de madeira pulsar sob sua mana como um ponto estável.
Encontrou.
Maelis firmou a própria presença ali no mesmo instante.
A âncora brilhou em algum lugar fora de vista.
Segura.
A voz do intruso veio logo depois como um eco.
Limpando o ar entre as árvores como fumaça fria.
— Boa escolha.
Uma pausa curta.
Quase pensativa.
— Mas, por favor… não transforme isso em mais trabalho do que precisa ser.
Maelis manteve o rosto imóvel e continuou andando.
À frente, o pai virou levemente o rosto, falando sem parar.
A voz dele era mais jovem do que ela lembrava.
Mais cansada também.
— O que você faz se o vento muda?
A pergunta veio no tom simples de um pai ensinando uma criança.
Maelis levou um segundo. Ate sua boca responder sozinha como a menina que era naquela lembrança.
— Não fico na frente do cheiro.
O homem assentiu.
— E por quê?
Ela apertou os dedos pequenos ao lado do corpo.
Os olhos percorreram a mata.
— Porque a presa sente.
Um pequeno sorriso apareceu no canto do rosto dele.
— Muito bem.
Maelis acompanhou o passo dele pela trilha.
Mas por baixo da lembrança, sua mana já começava a se espalhar outra vez.
Agora procurando o segundo ponto.
O local onde encontraram o javali.
A trilha afunilou entre árvores altas e raízes expostas.
O pai ergueu a mão, pedindo silêncio.
Maelis obedeceu no mesmo instante.
O som veio primeiro.
Um puxão seco.
Cordas tensionadas.
Folhas se debatendo.
Eles saíram da trilha e avançaram entre os arbustos até a primeira armadilha.
O coelho preso ainda se debatia, mas não era nele que os olhos dela pararam.
A criatura já estava sobre a presa.
Um cavalo.
Ou algo que um dia tinha sido um.
A pele arroxeada repuxada.
Partes da crina arrancadas.
Os dentes alongados demais.
A sela ainda presa ao dorso.
Maelis sentiu o corpo infantil congelar por um instante.
Ela conhecia aquela cena.
A primeira besta.
A primeira vez em que viu uma besta pessoalmente.
O pai reagiu antes.
— Para a árvore. Agora.
A voz saiu baixa e firme.
O corpo pequeno dela correu quase por reflexo.
As mãos infantis agarraram o tronco áspero, subindo com dificuldade até um galho mais grosso.
Lá de cima, ela viu o pai girar a lança nas mãos.
O cavalo-bestial avançou num salto torto.
Rápido demais.
A lança desviou a mordida por um fio.
O impacto empurrou o homem para trás, os pés afundando na terra úmida.
Ele usou o próprio movimento para prender a haste contra o pescoço da criatura e girou o corpo.
A ponta entrou logo abaixo da mandíbula.
O animal se debateu com violência, relinchando algo que não parecia som de cavalo.
O pai segurou a lança até o último espasmo.
Só então soltou o ar.
Um hematoma escurecia o braço dele onde a lateral do corpo do animal o atingira.
Mesmo assim, ele apenas puxou a lança de volta e olhou para cima.
— E o que você aprendeu?
A pergunta veio como se aquilo fosse parte natural da aula.
Maelis, ainda olhando o corpo no chão, respondeu num fio de voz:
— A… a fugir?
O pai sorriu de leve.
— Exato, todo mundo tem que saber a hora de fugir.
Por baixo da lembrança, a mana dela correu mais longe.
Mais fundo na mata.
Procurando o peso bruto do javali.
E encontrou.
Uma massa densa.
Viva na memória.
Grande.
Escondida.
O coração dela apertou.
Achou que tinha encontrado a segunda âncora, mas nada mudou.
Então a voz do Andarilho atravessou as árvores, seca e quase entediada.
— Hm. Uma caçada entre pai e filha…
— Pelo menos isso explica sua obsessão por controle.
A mana cinza dele mudou de direção, indo para o interior da floresta seguindo uma trilha que quase não existia mais.
Galhos baixos.
Terra revolvida.
Marcas pesadas no solo úmido.
Maelis seguia com a sua mana aquela energia cinza.
O pai se abaixou, tocando a lama com dois dedos..
— Fresco.
Mesmo revivendo a lembrança, parte dela estava em outro lugar.
A mana corria por baixo das raízes, atravessando a memória em busca do segundo ponto real.
Se não era o javali só podia ser um lugar.
O lugar onde tudo convergia.
A toca.
O coração acelerou.
Ela mudou a direção da própria mana de uma vez, empurrando-a mata adentro.
Mais fundo.
Mais rápido.
Até sentir.
Uma cavidade escura entre pedras cobertas de musgo.
O interior pulsou como um núcleo da lembrança.
Ali.
A toca.
A verdadeira âncora.
Maelis lançou a mana com força.
Mas outra presença já estava lá.
A mesma mana cinza.
Fria.
Enraizada.
O Andarilho havia chegado primeiro.
— Agora estamos trabalhando com algo minimamente interessante.
O pai, dentro da memória, ergueu a lança e fez sinal para que ela recuasse.
O corpo infantil de Maelis obedeceu por instinto, mas sua consciência permaneceu fixa na âncora perdida.
Ela ainda mantinha a casa.
Ainda tinha algo a proteger.
Ainda podia atrasar.
A voz voltou, agora mais próxima.
Sem pressa.
Quase cansada.
— Solte sua âncora e seguimos para a próxima memoria sem danos.
A mata pareceu prender a respiração.
Maelis apertou os dentes.
— Não.
O silêncio que respondeu foi quase educado.
— Certo.
A palavra veio com uma calma pior do que ameaça.
Como alguém aceitando uma tarefa inconveniente.
Então o mundo mudou.
Primeiro foi o alto das árvores.
As copas começaram a desaparecer.
Folhas sumindo em fragmentos de fumaça.
Os galhos se desfazendo como carvão soprado pelo vento.
Maelis ergueu o rosto no reflexo.
O céu da memória começou a apagar como uma tela de aquarela sendo lavada.
O azul pálido da manhã foi arrancado, revelando uma mistura turva de cores.
O peito dela travou.
Aquilo não era ilusão.
Ele estava desmontando a estrutura da lembrança.
Pedaço por pedaço.
A voz dele ecoou uma última vez, fria e impaciente.
— Então, Arquimaga… realmente vai me fazer desmontar você inteira para avançarmos?
As cores do céu e das copas das arvores continuaram borrando. Até não sobrar nenhuma cor além do cinza.
Como se o próprio conceito de céu tivesse sido arrancado da lembrança.
Maelis recuou um passo.
O corpo infantil quase tropeçou nas raízes.
A respiração veio curta.
Irregular.
A casa ainda pulsava ao longe sob a mana dela.
A última parte estável daquela memória.
A voz do Andarilho deslizou entre os troncos.
Calma.
Quase aborrecida.
— Garota, não faz sentido você tentar resistir.
O pai avançou na direção da toca, a lança firme nas mãos.
Dentro da memória, ele ainda seguia a lógica da caçada.
Maelis apertou os dedos pequenos com força.
— Não toca nele.
A resposta veio imediata.
— Então pare de me dar trabalho.
A mana cinza se moveu da toca como fumaça viva.
Não atacou a casa.
Não atacou o chão.
Foi direto para a figura do homem.
Maelis sentiu antes de ver.
Um puxão seco no centro da lembrança.
Como se algo tivesse sido arrancado da estrutura daquela pessoa.
O pai virou o rosto para ela.
O corpo continuava igual.
Os ombros magros.
A barba curta.
O cabelo desalinhado.
Mas o rosto.
Não estava mais lá.
Onde antes havia olhos, boca e expressão, restava apenas uma superfície lisa, sem traços, sem identidade, sem presença.
O mundo inteiro pareceu congelar.
Maelis parou.
O pensamento travou.
A garganta apertou num reflexo quase físico.
Não era só a memória, era a percepção brutal de que já não conseguia mais lembrar direito.
Os detalhes começaram a escapar no mesmo instante.
A curva do nariz.
O formato do sorriso.
O peso exato do olhar dele quando ensinava alguma coisa.
Tudo começou a se dissolver.
O pai sem rosto ainda ergueu a lança e apontou para a toca.
Como se a memória insistisse continuar mesmo mutilada.
A voz do Andarilho veio uma última vez.
Mais perto.
Mais fria.
— Última oportunidade.
Uma pausa curta.
— Solte a âncora da casa…
Maelis sentiu a mana tremer ao redor da pequena construção.
A única parte intacta.
A última coisa que ainda sustentava aquela lembrança.
Os dedos dela fecharam em punho.
O silêncio durou um segundo longo demais.
Então ela soltou a âncora.
A casa apagou.
A floresta inteira desmoronou em fumaça.
O chão sumiu sob os pés.
— Ótimo, viu? — A sombra retornou agora mais solida espelhando Maelis — Agora… não me teste, e me mostre oque você sabe sobre o Guardião.
O chão voltou antes do céu.
Areia.
Quente.
Fina.
Escapando entre os dedos da mão quando Maelis se apoiou para não cair.
O vento veio logo depois.
Seco.
Carregado de grãos que raspavam a pele do rosto.
Ela ergueu os olhos devagar.
Dunas se estendiam até o horizonte, ondulando sob a luz dourada do fim de tarde.
O corpo já não era o de uma criança.
Os braços estavam mais longos.
Mais firmes.
As roupas leves de viagem se agitavam ao vento.
Quatorze anos.
A memória seguinte havia começado.
Maelis respirou fundo.
Mas a respiração falhou no meio.
Havia alguma coisa errada.
Algo que importava.
Algo que tinha ficado para trás.
Mas o pensamento escorregou antes de se formar.
Atrás dela, a voz do Andarilho surgiu espalhada pelo vento.
Mais baixa agora.
Mais analítica.
— Hm.
Uma pausa curta.
Como se ele estivesse observando a memória junto com ela.
— Adolescência.
A areia girou em pequenos redemoinhos entre as dunas.
— Tudo bem… você fez a sua escolha.
Maelis abriu os olhos na mesma hora.
Não respondeu.
A areia quente do deserto junto com vento forte ardia o braço nas áreas descobertas.
À frente, a pequena caravana avançava em fila deserto a dentro.
E ao fundo, quase como um sussurro irritado, a voz do Andarilho veio outra vez:
— Então vamos acelerar o processo.

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