Índice de Capítulo

    A estrada entre as montanhas descia em curvas apertadas entre paredões escuros.

    O ar ali era mais frio do que Maelis esperava.

    Cada respiração trazia cheiro de pedra molhada, ferro e fumaça distante.

    Ao longe, luzes pequenas surgiam espalhadas ao pé da cadeia de montanhas.

    O vilarejo.

    As casas se amontoavam em torno da entrada das minas, construídas com madeira pesada, pedra bruta e vigas escuras cobertas por fuligem.

    Mesmo ao anoitecer, o lugar continuava vivo.

    Mineiros cruzavam as ruas carregando ferramentas.

    Carroças rangiam sob sacos de minério.

    O som ritmado de metal contra metal ecoava de algum ponto mais alto.

    Mas Maelis mal prestava atenção.

    A mochila nas costas parecia mais pesada do que realmente era.

    Não pelo conteúdo.

    Pelos itens do mentor ainda guardados ali.

    Focos de mana.

    Anotações.

    Um pequeno grimório.

    Coisas que ainda cheiravam à casa dele.

    Ela apertou a alça por um instante.

    Não queria pensar.

    Só precisava atravessar aquele lugar, descansar uma noite e seguir para Cervalhion ao amanhecer.

    Ainda assim, algo no vilarejo a deixou alerta.

    Olhares demorados.

    Homens demais parados em esquinas sem função clara.

    Poucos guardas.

    Nenhuma patrulha real.

    Criminalidade alta.

    A Maelis real reconheceu isso imediatamente.

    Naquela época, porém, o cansaço emocional falou mais alto.

    A hospedaria apareceu na rua principal.

    Construção alta para o padrão local, com varanda no segundo andar e janelas estreitas.

    O calor da lareira no salão principal contrastava com o frio de fora.

    O cheiro de sopa grossa e cerveja forte enchia o ambiente.

    Ela subiu para o quarto sem trocar muitas palavras.

    Assim que cruzou a porta, sentiu.

    A lembrança pesou no fundo da mente.

    A primeira âncora.

    A hospedaria.

    A Maelis real espalhou a mana sem chamar atenção.

    Prendeu a primeira âncora.

    Segura.

    A noite caiu pesada sobre o vilarejo.

    O vento das montanhas assobiava pelas frestas da madeira.

    Maelis dormia de forma leve desde a morte do mentor.

    Qualquer ruído diferente a arrancava do sono.

    Foi o estalo quase imperceptível da janela que a despertou.

    Os olhos abriram no escuro.

    A rajada de vento veio primeiro.

    Forte demais para ser natural.

    Ela rolou para o lado no instante em que a lâmina de pedra atravessou o colchão.

    Um mago de vento.

    A cama explodiu em penas sujas.

    O segundo atacante já vinha pela parede lateral, um rapaz alto, fazendo o reboco e a madeira se abrirem como se a estrutura cedesse à própria vontade.

    Maelis caiu agachada ao lado da mesa, a mana já subindo pelos dedos.

    Duas presenças.

    Sincronizadas, mas sem refinamento.

    O de vento pousou no peitoril da janela com leveza excessiva, o corpo sendo carregado por impulsos curtos de ar.

    O outro avançou pela porta destruída, braços cobertos por placas de pedra improvisadas.

    O mago do vento falou primeiro.

    — Largue a bolsa.

    A voz era jovem demais.

    — Pergaminhos, focos, joias de mana… tudo.

    O segundo deu um sorriso torto.

    — E ninguém precisa morrer.

    A Maelis daquela época ainda estava de luto.

    Cansada.

    Ferida.

    Mas o olhar endureceu no mesmo instante.

    Eles não sabiam com quem estavam lidando.

    — Vocês escolheram o quarto errado.

    A mana explodiu.

    A parede atrás dela se abriu em fogo concentrado, arremessando os três para a rua.

    A rua estreita virou um campo de batalha.

    Pedras do calçamento subiram sob o comando do mago.

    O mago de vento avançava pelos telhados, mudando de direção no meio do salto com impulsos rápidos.

    A formação clandestina deles ficava óbvia.

    Desperdício de talento e mana.

    Pouco controle fino.

    Maelis leu os padrões em segundos.

    Um dependia da velocidade.

    Outro compensava com pressão frontal.

    Boa combinação contra combatentes comuns.

    Péssima contra alguém treinado formalmente.

    Ela lançou uma sequência curta de bolas de fogo contra os pés do mago de terra, obrigando-o a erguer barreiras sucessivas.

    Custo excessivo.

    O braço dele já começou a tremer.

    Coice de mana.

    Do alto, o outro mergulhou numa espiral de vento.

    Maelis girou o corpo e lançou fogo pela lateral, não para acertar, mas para alterar a corrente que sustentava o salto.

    O fluxo dele colapsou.

    O homem caiu mal.

    Joelho no chão.

    Respiração irregular.

    Mais um coice.

    Agora no ombro.

    O controle estava ruindo.

    A luta atravessou a rua principal até perto da saída da vila.

    O arco de pedra marcando a estrada para Cervalhion surgiu ao fundo.

    A segunda âncora.

    A Maelis real percebeu e lançou a mana.

    O Andarilho fez o mesmo.

    A disputa começou.

    Enquanto as manas colidiam na âncora, a luta física atingiu o clímax.

    Os dois criminosos já estavam instáveis.

    Exaustos.

    Os braços tremendo.

    Os fluxos mágicos quebrados.

    Ela podia fugir.

    Podia passar pelo arco.

    Podia deixá-los vivos.

    Mas não deixou.

    Naquela noite, algo nela ainda estava quebrado pela perda do mentor.

    E eles haviam escolhido atacar justo aquilo que restava dele.

    A mochila.

    Os itens.

    A memória.

    A decisão veio fria.

    Ela lançou fogo concentrado no mago do vento.

    A combustão o consumiu no mesmo instante.

    O segundo ainda tentou erguer pedra.

    A runa flamejante atravessou a barreira incompleta e acertou o peito.
    O cheiro de carne queimando ficou gravado na mente dela.

    O arco da saída pulsava sob a mana.
    O último ponto seguro daquela lembrança.

    Mas, antes que ela pudesse respirar, a memoria se rasgou.


    Maelis caiu de joelhos no nada entre as memórias, as mãos pressionadas contra a própria cabeça.

    A sensação não era dor.

    Era pior.

    Era perceber que havia espaços dentro dela onde antes existiam coisas importantes.

    Ela sabia que eles existiram.

    Sabia que tinham moldado tudo.

    Mas os detalhes começavam a escapar.

    O rosto do pai já era um borrão impossível de fixar.

    Agora o mesmo acontecia com o mentor.

    A voz.

    Os gestos.

    A forma como ele explicava a magia.

    Tudo parecia se afastar como fumaça levada por vento forte.

    Maelis apertou os olhos com força.

    — Não…

    A palavra saiu entre os dentes.

    Ela tentou puxar a lembrança de volta.

    O rosto dele.

    A casa no oásis.

    O cheiro de pergaminhos.

    A chama.

    Mas a memória vinha incompleta.

    Fragmentada.

    Como páginas arrancadas de um livro.

    O pânico subiu frio pela espinha.

    Não era só perda.

    Cada lembrança apagada levava junto partes do que a transformou na mulher que era.

    Sem essas memórias…

    O que restava dela?

    A pergunta surgiu antes que pudesse impedir.

    Quem sou eu sem isso?

    A voz do Andarilho atravessou o vazio logo depois.

    Sem pressa.

    Sem qualquer traço de pena.

    — Finalmente entendeu.

    A fumaça cinza começou a girar ao redor dela.

    Não tomando forma.

    — Cada perda muda a forma como você pensa.

    Uma pausa curta.

    — Cada memória destruída altera quem você é.

    Maelis ergueu o rosto devagar, respirando curto.

    A voz dele continuou:

    — Então faça a escolha inteligente.

    A fumaça se adensou ao redor da cabeça dela como mãos invisíveis.

    — Me mostre algo sobre o Guardião…

    A pausa foi mínima.

    — …e eu não toco na próxima.

    Silêncio.

    Maelis ficou imóvel.

    Sabia que ele não estava blefando.

    E isso tornava a próxima memória mais perigosa que todas as anteriores.

    Porque ela já sabia o valor dela antes mesmo de entrar.

    O vazio tremeu.

    O chão surgiu sob os pés.

    Pedra.

    Tapetes.

    O cheiro de óleo queimado.

    Livros.

    A memória começou.

    — Não posso perder essa…

    A chama azul da luminária oscilava sobre a mesa baixa.

    O cômodo estava silencioso, preenchido pelo cheiro familiar de pergaminho antigo, tinta e óleo queimado.

    Desta vez a memória não avançava em fuga.

    Ela se firmava.

    Maelis permaneceu parada por um segundo no centro da sala, absorvendo o espaço.

    As estantes altas.

    Os livros empilhados de qualquer jeito.

    Os mapas do deserto presos por pesos de bronze.

    A mesa marcada por queimaduras antigas.

    E ele.

    O mentor estava sentado à frente da mesa, o cajado apoiado ao lado da cadeira, um pequeno recipiente metálico entre as mãos.

    O rosto ainda estava ali.

    Nítido.

    Maelis soltou o ar sem perceber que o prendia.

    Ainda não perdeu essa.

    Ainda.

    O homem ergueu os olhos para ela.

    O mesmo olhar calmo.

    Atento.

    — Você está atrasada.

    A frase veio seca, mas sem dureza.

    A Maelis jovem, sentada do outro lado da mesa, bufou.

    — Eu estava treinando os fluxos como você pediu.

    O canto da boca dele quase se moveu.

    — E falhou em perceber a hora.

    A resposta veio no tom exato que ela lembrava.

    Corrigindo.

    Nunca humilhando.

    Ele girou o pequeno recipiente entre os dedos.

    Dentro havia areia escura misturada com pequenos fragmentos de carvão.

    — Hoje você vai entender por que fogo não é só destruição.

    Maelis real travou o olhar na cena.

    Mais do que a memória do oásis.

    Mais do que a fuga.

    Aqui estava a base.

    O que a transformou em arquimaga.

    O mentor abriu a mão sobre a mesa.

    O recipiente virou devagar.

    Os fragmentos escuros caíram sobre a madeira.

    — Toda chama nasce de três princípios.

    A voz dele assumiu o tom de aula.

    — Combustível.

    Ele apontou para os fragmentos de carvão.

    — Calor.

    A ponta do dedo dele brilhou em vermelho por um instante.

    — E ar.

    A janela lateral se abriu alguns centímetros.

    A chama azul oscilou.

    — Se um falha, o fogo morre.

    Maelis jovem observava com atenção absoluta.

    O mentor ergueu os olhos para ela.

    — Repita.

    A garota hesitou por um segundo.

    — Combustível, calor… e ar.

    Ele assentiu.

    — Não memorize palavras. Entenda a relação.

    A ponta do dedo dele tocou o carvão.

    Uma pequena chama laranja nasceu.

    — O fogo não obedece força.

    A chama subiu um pouco mais.

    — Obedece esse equilíbrio.

    A Maelis real sentiu o peito apertar.

    A mana dela se moveu por puro reflexo.

    Buscando os pontos de ancoragem.

    Tentando se agarrar àquela memória antes que fosse tarde.

    E então ela sentiu.

    O gelo.

    Os dois pontos.

    Já dominados.

    Não houve disputa.

    Não houve corrida de mana.

    A presença cinza já estava espalhada pelos extremos da lembrança como raízes antigas.

    O Andarilho tinha aprendido o padrão.

    Memórias de formação.

    Locais de ensino.

    Pontos emocionais.

    Ele havia identificado tudo antes mesmo da aula começar.

    O sangue gelou.

    A casa.

    E o pátio externo onde treinava as primeiras chamas.

    As duas âncoras já eram dele.

    A voz surgiu baixa, atrás dela.

    Perto demais.

    — Agora você está finalmente entendendo.

    Maelis virou o rosto.

    Nada.

    Só a sensação da presença dele ocupando toda a estrutura da lembrança.

    Ele podia fazer qualquer coisa ali.

    O mentor, dentro da memória, continuava a aula sem perceber a invasão.

    — Agora me diga.

    A Maelis jovem ergueu a mão.

    Uma pequena centelha vermelha nasceu acima dos dedos.

    Instável.

    Fraca.

    O mentor observou.

    — O que mantém essa chama viva?

    A Maelis real olhou para a centelha.

    E pela primeira vez desde o início do ataque mental, sentiu medo de verdade.

    Porque dessa vez…

    não havia mais nada que pudesse proteger.

    O mentor mantinha os olhos nela, paciente.

    A pergunta pairou no ar.

    Simples.

    Didática.

    Mas a Maelis real mal conseguia respirar.

    A presença do Andarilho estava em toda parte.

    Os dois pontos de sustentação.

    A memória inteira estava aberta.

    Sem defesa.

    A Maelis jovem respondeu, concentrada na centelha:

    — O equilíbrio entre os três.

    O mentor assentiu.

    — Exato.

    Ele aproximou a mão da pequena chama.

    Sem tocar.

    — Retire um deles.

    A chama diminuiu liberou um pouco de mana.

    Menos ar.

    A centelha vacilou.

    — E o feitiço colapsa.

    A chama morreu.

    A Maelis real sentiu o próprio peito apertar com violência.

    Era isso.

    Era exatamente isso que o Andarilho estava fazendo com ela.

    Retirando os elementos que sustentavam quem ela era.

    Primeiro o pai.

    Depois o mentor.

    Depois a própria base da magia.

    Ela apertou os dentes.

    — Sua magia é nojenta.

    A frase saiu baixa.

    Rosnada.

    O ambiente pareceu esfriar por um instante.

    A voz dele respondeu logo atrás.

    Perto do ouvido.

    Sem pressa.

    — De novo isso?

    Uma pausa curta.

    A presença cinza pareceu se mover pelas paredes.

    — Só quem sobrevive pode contar a história.

    A Maelis real virou o rosto, procurando a origem da voz, mas só encontrou a sensação dele espalhado por toda a lembrança.

    O mentor, alheio a tudo, empurrou o pequeno recipiente de carvão na direção da aprendiz.

    — Agora você.

    A Maelis jovem hesitou.

    Depois tocou os fragmentos escuros com a ponta dos dedos.

    Uma centelha vermelha nasceu.

    Maior desta vez.

    Mais estável.

    O mentor observou com aprovação silenciosa.

    E foi nesse instante que Maelis real entendeu o verdadeiro horror.

    Se ele rasgasse essa memória…

    ela perderia o conceito.

    Mas toda a estrutura de pensamento que sustentava sua magia.

    Os três princípios.

    A relação entre calor, combustível e oxigênio.

    O entendimento que separava técnica de força bruta.

    Ela sentiu o ar faltar.

    Os olhos se fixaram na pequena chama.

    — Não… essa não.

    A voz saiu antes que pudesse conter.

    A presença do Andarilho respondeu quase no mesmo instante.

    Mais fria.

    Mais próxima.

    — Então pare de alongar isso.

    A mana cinza se moveu.

    Foi direto para a pequena chama acima dos dedos da Maelis jovem.

    A centelha começou a se desfazer.

    Não apagando.

    Sendo desestruturada.

    Os três princípios se separando à força.

    Como se a própria lógica do fogo estivesse sendo arrancada da lembrança.

    A Maelis real avançou um passo por impulso.

    A mão estendida.

    Inútil.

    Não havia defesa.

    O pânico finalmente rompeu.

    — NÃO!

    O grito atravessou a memória inteira.

    A chama explodiu em fragmentos de luz vermelha.

    E no meio do colapso…

    algo estranho aconteceu.

    O fogo congelou.

    Uma camada fina de gelo azul atravessou as faíscas no ar congelando a cena.

    Não pertencia à lembrança.

    Não pertencia a ela.

    A presença do Andarilho hesitou pela primeira vez.

    Uma pausa real.

    A voz dele saiu baixa.

    Diferente.

    — O que é isso?

    O gelo continuou avançando pelas paredes, pelo teto, pela chama suspensa no ar.

    A memória do treinamento inteira tremeu quando uma nova presença se firmou entre ela e o Andarilho.

    — Você segurou bem até aqui. Agora deixa comigo.

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