Capítulo 39 - Pânico
Narrado por Lys
A manhã começou como tantas outras no templo.
O sol filtrava-se pelas janelas de vitral, tingindo o salão com tons de azul e prata, criando uma atmosfera etérea e silenciosa. O templo de Altheria, com suas grandes paredes de pedra e arcos imponentes, sempre foi um lugar de paz e reflexão. Os vitrais, cada um contando histórias antigas sobre o nascimento e a ascensão de nossa cidade, lançavam sombras dançantes sobre o chão de mármore. Eu estava sentada no trono de marfim, como sempre, de rosto impassível, ouvindo dois cidadãos que se exaltavam diante de mim.
— A passagem é minha por direito! — bradou um deles, um homem corpulento de roupas surradas, com os punhos cerrados. Seus olhos estavam cheios de fúria e orgulho, como se estivesse defendendo sua honra. — Minha família descobriu as ruínas primeiro!
O outro, um homem mais magro e nervoso, respondeu com veemência, o rosto ruborizado de raiva.
— Mentira! — exclamou, os olhos arregalados de indignação. — Foram os meus que abriram caminho pelas neves, antes dos seus sequer chegarem perto!
Eu os observava com uma paciência tensa. Esse tipo de disputa não era novidade para mim. A cidade de Altheria era construída sobre as ruínas de civilizações antigas, ruínas que estavam cheias de segredos e riquezas inexploradas. Esses vestígios do passado haviam atraído muitas famílias poderosas ao longo dos séculos, e, muitas vezes, suas disputas por controle sobre as descobertas mais recentes eram intensas e intermináveis. Os segredos das ruínas significavam poder, e cada família queria sua fatia desse poder.
Eu suspirei, tentando manter a calma. O peso de minha posição recaía sobre meus ombros, e esse tipo de briga era apenas mais uma entre as muitas questões que eu precisava resolver para manter a ordem em Altheria.
— Já basta. — Ergui a mão, impondo silêncio. Minha voz reverberou pelo salão, cortando a gritaria dos dois homens.
Ambos se calaram, ainda respirando fundo e olhando para mim com fúria, mas sabendo que não podiam desafiar minha autoridade ali.
— As ruínas não pertencem a famílias. — Falei com firmeza, as palavras saindo de minha boca com um peso que ecoava no ambiente silencioso. — Pertencem a Altheria. A cidade decide o acesso, não herdeiros que brigam como crianças.
Os murmúrios que se espalharam pelo salão indicavam que minha palavra era respeitada, mas não sem resistência. Alguns dos mais velhos balançavam a cabeça com desagrado, outros trocavam olhares furtivos entre si. Era claro que muitos ainda viam as ruínas como uma herança que deveria ser administrada por aqueles que detinham o poder das famílias mais antigas.
Antes que eu pudesse concluir, o chão do templo tremeu de maneira abrupta, interrompendo o ciclo de murmúrios e tensões.
O primeiro tremor foi sutil, quase imperceptível, mas logo a vibração aumentou, pulsando sob os meus pés como uma batida de coração. A mana, vibrou com força, quase como se tivesse sido arrancada da própria terra. Eu olhei ao redor, procurando algum sinal de que isso era algo programado, mas as expressões no rosto dos presentes mostraram a mesma surpresa que eu sentia.
— Um ataque? — alguém gritou, e imediatamente, o salão se encheu de ruídos, alguns já puxando suas espadas e se posicionando para proteger a sala.
Eu me levantei de imediato, meu coração batendo acelerado no peito. O ar estava denso, como se o templo tivesse sido envolto por uma presença ameaçadora. Os vitrais tremiam, e pedaços de poeira caíam do teto, sem que ninguém pudesse impedir. O pânico tomou conta de muitos, alguns se ajoelhando ou se escondendo sob os bancos.
Então, um segundo tremor veio. Mais forte, mais profundo. Um estouro seco, como se o próprio céu tivesse sido rasgado, seguido de uma descarga de mana tão intensa que as pedras do templo pareciam tremer e ranger sob seu impacto.
— Guardas! — minha voz ecoou pelo salão, cortando o caos. — Protejam as pessoas!
Meu comando não foi suficiente para dissipar o pânico imediato, mas ao menos acalmou os mais próximos, que se moveram para proteger os cidadãos. Não havia tempo para mais explicações. Eu precisava sair dali.
O vento frio me atingiu com força assim que atravessei as portas principais. O pátio externo estava em completo tumulto. O céu, que parecia calmo, havia se rasgado. Do alto das muralhas do templo, a vista era magnífica e aterrorizante ao mesmo tempo. Não haviam sinais de ataque, sem fumaça, ou exércitos a cidade inteira estava visível, mas meus olhos, instintivamente, foram atraídos para onde a arena se erguia.
O céu clareou de súbito, como se o ar tivesse sido dilacerado por algo invisível, algo grande e ameaçador. E então, um raio, com uma precisão sobrenatural, desceu em linha reta, atingindo a arena com uma força que fez o chão tremer novamente. O impacto foi tão forte que senti as vibrações percorrendo meus ossos, uma sensação que não se via desde os primeiros dias em que Altheria foi fundada.
Por um momento, tudo ficou em silêncio. Meus olhos estavam fixos na arena, onde o raio havia atingido. Eu segurei a respiração, paralisada pela intensidade do que acabara de testemunhar. Por um instante, pensei que Altheria estava sob ataque, mas a sensação de perigo foi rapidamente substituída por uma estranha sensação. Algo que eu não conseguia identificar.
E então, tão rapidamente quanto começou, tudo cessou. O céu voltou ao normal, a mana estabilizou-se, mas o pânico havia se espalhado pela cidade, as guardas lutavam para manter a ordem. O ar parecia mais denso, carregado com uma energia que eu não conseguia compreender, e a cidade, que antes estava em alvoroço, agora se encontrava em um silêncio quase absoluto como se aguardasse o próximo movimento.
Meus dedos se cerraram ao redor da barra da capa. Eu havia dado instruções claras aos guardiões: nada de testar Ian dentro de Altheria. Nada. O treinamento fora rígido e meticuloso. Ian era um poder incontrolável, uma força da natureza que poderia destruir tudo ao seu redor se não fosse bem controlada. Então, como isso poderia ter acontecido? Como um teste de mana poderia ter ocorrido dentro dos limites da cidade?
Não era possível.
O que acabara de acontecer não era um treinamento. Eu reconhecia a sensação de mana instável, mas aquilo… aquilo era diferente. Muito mais profundo, muito mais perigoso. Algo havia sido libertado, algo que não deveria estar dentro das muralhas de Altheria.
Meu peito ardia com uma mistura de raiva e… receio. Eu sabia o que isso significava. Se Ian estava no limite de seu poder, e se ele tivesse, de alguma forma, sido liberado dentro de Altheria, então não éramos apenas nós que estávamos em risco. Era a cidade inteira. A destruição que poderia vir de sua força descontrolada era algo que nem os mais velhos em nossa cidade tinham visto. Nem os mais sábios poderiam prever as consequências de um poder tão grande, tão descontrolado.
E se não encontrássemos uma maneira de mantê-lo sob controle…
Cervalhion não estaria preparada para o que estava por vir.

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