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    O salão no alto do templo, estava carregado de tensão. As tochas acesas projetavam sombras longas nas colunas, e os vitrais refletiam tons azulados sobre a mesa circular onde Lys se sentava com as demais matriarcas do Círculo.

    Não havia guardas presentes, apenas elas. A reunião era fechada, e a privacidade garantida. Mesmo assim, o ar parecia prestes a rachar.

    — A cidade está em polvorosa. — Ydrine falou primeiro, a voz cortante. — Desde a chegada dos guardiões, Altheria não conhece mais paz. A poucos dias foi uma tempestade acompanhada de um terremoto. Hoje, um raio desabando sobre a arena. Qual será o próximo espetáculo?

    Malrik inclinou-se para frente, o tom grave reforçando a acusação.
    — Os relatos dos bairros inferiores são claros. Crianças feridas, casas rachadas, gente apavorada. Os cidadãos querem respostas, Vossa Majestade.

    Lys manteve a postura ereta, as mãos entrelaçadas sobre a mesa.
    — E terão. — respondeu com calma. — Mas não confundam um incidente com negligência. A arena foi um acidente durante o treinamento. E os guardiões…

    — Acidente? — Ydrine a interrompeu, erguendo uma sobrancelha afiada. — Chama de acidente quando quase metade da cidade tremeu como se estivesse à beira de desmoronar? Todo o templo superior agora esta com rachaduras, se outro tremor desse ocorrer todo o templo superior vai cair desfiladeiro abaixo.

    O silêncio que se seguiu foi cortante. Elenys aproveitou a pausa para sorrir suavemente, o tom mais calmo contrastando com a acidez de Ydrine.
    — A questão não é apenas o acidente, mas como isso repercute. O povo teme o que não entende, Majestade. E, convenhamos, os guardiões são… intensos.

    Thalien interveio, firme, mas sem elevar a voz.
    — Foram chamados para proteger Altheria e o continente. Para proteger todas nós. Não esqueçamos que, sem Ian, a última ruptura da Barreira teria devastado a região norte com aquela besta alada.

    — Ninguém nega o valor deles. — Malrik rebateu, o olhar estreito. — Mas valor não significa impunidade. Se podem tremer a cidade inteira em um treino, o que farão em uma batalha real?

    Ydrine se inclinou para trás, cruzando os braços, o sorriso venenoso.
    — É exatamente isso que me preocupa. Talvez Vossa Majestade esteja… fascinada demais pela presença deles para enxergar os riscos.

    As palavras ecoaram no salão como uma lâmina nua. Elenys não perdeu a oportunidade de medir o efeito, deixando escapar um riso discreto.

    Lys, no entanto, não se moveu. O rosto permaneceu calmo, os olhos, frios.
    — Fascínio não governa Altheria. Razão governa. E a razão me diz que os guardiões são a melhor defesa que temos contra o caos da Barreira.

    — A melhor defesa, ou a arma que nos destruirá por dentro? — Ydrine retrucou, os dedos tamborilando na mesa. — Já vi reinos se erguerem confiando em heróis, apenas para ruírem quando esses mesmos heróis os esmagaram por dentro.

    O tom cortante dela deixou a sala em suspense. Mas Lys não revidou de imediato. Respirou fundo, a serenidade aparente ocultando a tempestade sob a superfície.

    — Altheria não se ergueu confiando em alguém — disse por fim, com firmeza. — Altheria se ergueu em disciplina, memória e sacrifício. Os guardiões são aliados, não senhores. Enquanto eu sentar neste trono, será assim.

    Malrik estudou o rosto dela, como se buscasse duvidas. Não encontrou nenhuma.


    Elenys quebrou o peso do silêncio com sua voz aveludada.
    — De todo modo, precisamos pensar no amanhã. Se partiremos para Cervalhion, como garantir que a cidade não sucumbirá na ausência de Vossa Majestade?

    Lys inclinou levemente a cabeça.
    — Thalien permanecerá.

    Thalien ergueu os olhos, surpresa, mas assentiu em silêncio.

    — E não apenas ela. — continuou Lys. — Malrik também. vamos precisar do seu apoio.

    Os olhos de Malrik se estreitaram, como se a nomeação fosse um fardo inesperado.
    — Representar Altheria em sua ausência? — O tom dele carregava mais incredulidade do que honra.

    — Exatamente. — Lys sustentou o olhar dele sem vacilar. — Você é a voz mais próxima do povo. Ninguém melhor para assegurar que sejam ouvidos.

    Ydrine soltou uma gargalhada breve, sem humor.
    — Então o Círculo será governado por um braço direito e um crítico ferrenho? Fascinante escolha, Majestade.

    Elenys sorriu de leve, como quem saboreia a jogada.
    — Uma escolha política… sábia. Afinal, se Malrik está conosco, as ruas ficarão em silêncio.

    Malrik suspirou, coçando a barba.
    — Ou em alvoroço, se algo der errado. Mas… aceito.

    Lys assentiu, encerrando o assunto.
    — O equilíbrio de Altheria não depende de uma única voz. Depende de todas. E neste arranjo, vocês terão segurança, e eu terei liberdade para agir em Cervalhion. E não se preocupe Ydrine, sei muito bem o que você deseja. — Lys se inclinou na direção de Ydrine antes de continuar. — Vamos fazer um acordo Ydrine?

    — Que acordo majestade?

    — Ajude-os na minha ausência, ajude a controlar a cidade e fortalece-la, e em troca quando eu retorna aceitarei um duelo oficial seu, pelo cargo de Rainha da Névoa, o que me diz?

    A afirmação deixou Ydrine imóvel por um instante. A incredulidade estampada no seu rosto. Afinal essa era uma proposta boa demais para recusar assim.
    — Muito bem, Majestade. — disse por fim, seca. — Mas não pense que um acordo instável durará para sempre.

    Elenys, por outro lado, se inclinou na direção de Lys, a voz doce como mel.
    — Com sua permissão, Majestade, talvez eu mesma possa preparar algo para receber os guardiões oficialmente, quando retornarem. Uma recepção que mostre que as casas também sabem honrar aliados.

    Lys apenas a encarou, sem sorrir.
    — Faremos isso juntas.

    O tom não deixava margem para negociação.

    O peso da reunião pairou até que Lys se levantou. As outras a acompanharam com o olhar, cada uma com uma leitura diferente: Ydrine, frustrada; Elenys, satisfeita; Malrik, contrariado; Thalien, serena, mas atenta.

    E assim, com a decisão tomada, o Círculo se dispersou. A tensão não havia acabado. Apenas havia mudado de forma.

    Lys caminhava pelos corredores, cada passo medido e firme. Apenas o leve pressionar dos dedos contra a palma denunciava o esforço em conter o nervosismo. O mais difícil já havia passado; agora restava organizar a partida.

    — Majestade. — A voz de Elenys quebrou o silêncio, suave como sempre.

    Lys parou, recobrando a postura antes de encará-la.
    — Matriarca Elenys.

    A outra sorriu, fazendo uma reverência elegante. — Perdoe a ousadia… mas gostaria de fazer um pedido.

    — … Um pedido? — A voz de Lys soou calma, embora os olhos estivessem atentos, desconfiados.

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