Índice de Capítulo

    O corredor da mansão estava cheio de vida servos, soldadas, administradores e os lideres de expedição se deslocando de forma apressada em preparação. mas cada passo de Elenys atraía os seus olhares. Servos e soldadas a cumprimentavam com reverências discretas, algumas com respeito, outras com cautela. A Matriarca não precisava erguer a voz; sua presença bastava. Ainda assim, sua mente estava distante, embaralhada pelas lembranças da manhã. As palavras de Thamir, o jeito direto e ousado… não se encaixavam no mundo calculado e programado em que vivia.

    Quando entrou no escritório, encontrou o marido já acomodado em sua poltrona habitual, um maço de cartas em mãos. O cheiro de cera derretida e pergaminho preenchia o ambiente. uma pequena lareira mantinha a temperatura agradável do ambiente.

    Veynar ergueu os olhos quando ela fechou a porta.
    — Elenys. — sua voz soou tranquila, medida. — A manhã foi proveitosa?.

    Ela suspirou, caminhando até a mesa. — Não foi.

    Ele pousou as cartas sobre o apoio, cruzando os dedos. — Então, conte-me. Como foi a aproximação com o Guardião?

    Elenys manteve o semblante neutro. — Conversamos. Ele não mostrou hostilidade… mas também não é alguém fácil de ser conduzido.

    Veynar assentiu lentamente, como se confirmasse uma análise que já esperava. — Isso é normal. Pessoas como ele precisam ser… amaciadas. Paciência, pequenos gestos, o tipo certo de oferta.

    Ela estreitou os olhos. — Oferta?

    — O Guardião não veio aqui por luxo. — disse Veynar, inclinando-se para frente. — Mas homens, mesmo os mais fortes, não deixam de ser homens, ainda mais ele que já possui poder. Um presente bem escolhido, um gesto que toque não apenas o guerreiro, mas a pessoa… pode abrir portas.

    Elenys o estudou em silêncio, até perceber a curva perigosa da insinuação. A sobrancelha arqueou-se levemente. — “Um presente bem escolhido”? Está sugerindo o quê exatamente, Veynar?

    Ele não recuou, apenas manteve a calma habitual. — Apenas que temos jovens promissoras na família. Algumas belas, dóceis… Uma delas poderia… tentar aproximar o Guardião da nossa Casa.

    O estômago de Elenys revirou. — Está falando da minha sobrinha?.

    Veynar manteve o olhar firme, sem negar nem confirmar. — É um caminho possível.

    Ela sentiu o sangue subir ao rosto, mas não de vergonha. — Ela tem quinze anos.

    — E já é considerada adulta em muitas tradições. — retrucou, a voz ainda suave, como se falasse de um contrato. — Seria uma forma de fortalecer nossa posição sem expor você diretamente.

    Elenys respirou fundo olhando diretamente para os olhos de Veynar — Não.

    O silêncio que seguiu foi tenso, cortante.

    — Veynar — ela continuou, cada palavra afiada — eu sou a Matriarca. Eu decido. Não vou transformar minha sobrinha em moeda de troca, e espero que você não tente agir novamente pelas minha costas..

    Ele respirou fundo, sustentando o olhar dela por alguns segundos antes de recostar-se novamente. — Como quiser. — disse, resignado, mas sem esconder a frustração. — Apenas não desperdice a oportunidade. O Guardião do Gelo, a Rainha já capturou em poucos dias, resta apenas o Espectro das areias e a Guardiã Rumbra, e dos dois o espectro pareceu ser o mais aberto.

    Elenys conteve o impulso de responder mais, limitando-se a recolher alguns documentos da mesa. O gosto amargo da conversa ainda queimava quando deixou o escritório.

    Sem perceber, uma comparação involuntária se formava em sua mente. Em poucos minutos, Thamir havia mostrado mais atitude do que Veynar que mesmo após seis anos só a via como peça em um tabuleiro.

    O sol já estava alto quando Elenys deixou o escritório e seguiu pelos corredores em direção ao salão auxiliar, onde costumava organizar as expedições. A cada passo, porém, era como se sua mente se recusasse a seguir em frente. Voltava, insistentemente, para a última frase de Thamir. Palavras simples… mas que haviam se entranhado nela como se fossem um feitiço.

    Por um instante, ousou se perguntar: e se Veynar fosse mais como ele? Se houvesse naquele homem a mesma ousadia, o mesmo olhar que não recuava nem diante do fato de ela ser casada?

    Mas logo percebeu a outra ponta do pensamento amarga e inevitável. O problema não estava apenas em Veynar. Ela mesma havia se mantido distante, confortável naquela “zona segura” que transformara o casamento em fachada. Uma muralha que protegia, mas também isolava.

    E agora, pela primeira vez, algo rachava nessa muralha.

    Não era paixão pelo cortejo de Thamir. Não simples assim. Era a consciência incômoda de que, em todos esses anos, nunca tinha tentado de verdade.

    Um sentimento novo a percorria, ao mesmo tempo inquietante e perigoso. Mas mesas cobertas de mapas, pergaminhos e caixas de cristais aguardavam sua atenção.

    Serena já estava lá. Cabelos presos em um rabo de cavalo, mangas arregaçadas, o olhar firme como de costume.

    — Até que enfim. — disse ela, sem nem erguer os olhos do pergaminho que revisava. — Achei que o seu marido tivesse te prendido em mais uma daquelas conversas “visionárias” dele.

    Elenys suspirou, largando um maço de documentos sobre a mesa. — Não foi tão diferente disso. Ele resolveu me dar conselhos.

    Serena ergueu os olhos, com um arquejo cético. — Conselhos? Do Veynar? — bufou. — Isso é como pedir a um cão de rua que explique etiqueta de salão.

    Elenys quase riu, mas conteve-se. — Ele acha que eu deveria usar… todas as armas que tenho para aproximar os Guardiões da Casa.

    Serena fechou o pergaminho devagar, a expressão endurecendo. — Todas as armas? — repetiu, em tom carregado. — Que conveniente. Deixe-me adivinhar… alguma mulher da família deveria “se sacrificar” para isso?

    Elenys desviou o olhar. — Não chegou a dizer dessa forma. Mas a insinuação foi clara.

    — Claro que foi. — Serena retrucou, ríspida. — Eles sempre dizem sem dizer. É a única arte que os homens da nobreza dominam tentar jogar as sujeiras para as mulheres e fingir que é pelo bem da Casa.

    Elenys suspirou. — Não precisa ser tão dura.

    — Ah, eu preciso sim. — Serena bateu a pena contra a mesa. — Porque sei muito bem como funciona: eles fazem política com a boca e esperam que nós paguemos o preço.

    O silêncio ficou pesado por um momento. Elenys, talvez pela primeira vez naquele dia, relaxou a postura. Não havia necessidade de máscaras ali.

    — E se eu te dissesse que… alguém me surpreendeu hoje? — perguntou, com cautela.

    Serena ergueu a sobrancelha. — Surpreendeu? De que tipo?

    Elenys hesitou. — Do tipo… ousado.

    Por um instante, Serena ficou em silêncio. Depois, soltou um riso curto, mas sem alegria. — Aposto que não era um nobre de Altheria. Nenhum deles teria coragem de ousar com você.

    Elenys desviou os olhos, fingindo revisar uma lista. O rubor nas faces a traiu.

    — Então eu acertei. — Serena concluiu, a voz carregada de ironia. — E? Vai me contar quem foi, ou vai ficar com esse sorrisinho escondido?

    — Não vou comentar. — Elenys respondeu firme, mas Serena já havia percebido o bastante.

    — Hm. — A secretária voltou aos papéis, como se não fosse nada. — Só espero que esse ousado não seja mais um idiota mascarado. Você merece alguém que te veja como mulher, não como Matriarca.

    Elenys mordeu o lábio, sem responder.

    — Vamos temos muita coisa para resolver. — Elenys falou finalmente ficando nos papeis a sua frente.

    As duas passaram o resto da tarde lado a lado, separando gemas de energia, definindo recursos e selecionando nomes para a próxima expedição às ruínas, sua Família já tinha bastante poder, mas recentemente haviam descoberto um novo túnel que havia sido selado, ela precisava investigar o túnel o quanto antes, já que na manhã seguindo a Caravana já partiria, para Cervalhion, e como seu pedido foi acatado ela iria como representante da sua casa, afinal era uma ótima oportunidade de conseguir novos parceiros comerciais.

    A tarde avançava rápido e de forma eficiente. Mas, de vez em quando, Serena lançava-lhe um olhar de canto, carregado não de julgamento, mas de curiosidade, afinal não era a primeira vez que Elenys era cortejada, mas foi a primeira vez que ela parecia mais pensativa após o caso.

    A noite caiu sobre Altheria antes de elas notassem. Do alto das janelas da mansão, as luzes do templo e das torres refletiam nos cristais incrustados, dando à cidade um brilho frio e distante. Elenys e Serena caminhavam pelos corredores vazios, o eco dos próprios passos parecendo mais alto do que deveria.

    No escritório, os pergaminhos estavam organizados, as listas fechadas, os selos postos. Tudo pronto para a nova expedição. Ela havia cumprido o papel de Matriarca com eficiência, como sempre.

    Mas, ainda assim, havia algo que não conseguia silenciar.

    Elas se despediram e Elenys entrou em seus aposentos. As criadas já haviam preparado a cama, acendido as lâmpadas de cristal e deixado uma bandeja com frutas e vinho. Elenys dispensou-as com um gesto e fechou a porta atrás de si. O silêncio que restou não era confortável, mas pesado.

    Sentou-se diante do espelho. O reflexo mostrava uma mulher de trinta anos, pele clara, cabelos escuros caindo sobre os ombros, e aquele olhar sedutor que sempre usara como arma. Uma Matriarca. Uma líder respeitada. Uma estrategista.

    Mas, por trás disso, uma mulher cansada.

    Ela tocou o próprio rosto, os dedos deslizando pela linha da mandíbula. Pela primeira vez em muito tempo, não conseguia sustentar o olhar altivo no espelho.

    As palavras de Serena ecoaram em sua mente: “Você merece alguém que te veja como mulher, não como Matriarca.”
    E as provocações de Thamir… ousadas demais, diretas demais, para serem ignoradas.

    Ela se levantou e simplesmente saiu do quarto, ela precisava tentar uma coisa. Os corredores da mansão estavam silenciosos, iluminados apenas pelo reflexo pálido dos cristais incrustados nas paredes. Elenys caminhava devagar, o manto arrastando levemente no chão, mas seu destino hoje seria diferente.

    Ela parou diante da porta de Veynar. Por um instante, hesitou. Nunca tinha feito isso nos seis anos de casamento. Mas, naquela noite, algo dentro dela se recusava a aceitar o mesmo silêncio de sempre.

    Bateu.

    Veynar abriu a porta, surpreso. Ele usava roupas simples, sem o manto formal que vestia diante dos outros. O olhar sério dele vacilou um pouco ao vê-la ali.

    — Elenys? — a voz soou mais surpresa do que acolhedora.

    — Posso entrar? — perguntou, mantendo o tom firme.

    Ele abriu espaço. O quarto dele era amplo, mas menos ornamentado que o dela. Havia uma estante repleta de pergaminhos, uma mesa coberta de cartas e, num canto, um sofá baixo diante da lareira. Foi ali que os dois se sentaram.

    — Você ainda lê aquelas cartas antigas? — perguntou Elenys, com um sorriso curto.

    — De vez em quando — respondeu ele, pegando uma xicara de chá. — Algumas têm coisas interessantes. sobre as ruinas, mas você já sabe disso..

    — E o seu dia? Foi tranquilo? — ela perguntou ficando desconfortável

    — nada demais. Só organização e colhendo informações sobre as outras famílias

    Ela hesitou por um segundo, depois arriscou:

    — Lembra daquele verão em que fomos para a ruina ao norte?

    Ele assentiu, quase automático.

    — Lembro. Faz tempo.

    — Você parecia empolgado com a exploração

    — Era outro tempo — disse ele, com um tom neutro, quase mecânico.

    Mas depois da quinta pergunta, Veynar suspirou e inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

    — Elenys… vá direto ao ponto. — disse, a voz cansada. — O que está tentando?

    Ela engoliu em seco, os dedos entrelaçados no colo. — Só quero saber se você está satisfeito. Com… a forma como vivemos. Com a forma como nos tratamos.

    Veynar a olhou de lado, o cenho franzido. — Isso soa estranho vindo de você. Seis anos, Elenys. Seis anos em que nunca fez esse tipo de pergunta. Por que agora?

    Ela sustentou o olhar, mesmo sentindo o peito apertar. — Porque talvez… eu queira algo mais do que essa distância.

    O silêncio se arrastou. Então ele falou, sem desviar os olhos.

    — Eu gosto de você. Mas não como mulher. — disse, seco. — Gosto de você como Matriarca. Admiro sua inteligência, sua capacidade de manter tudo em ordem, sua força diante do Círculo. Mas… não tenho interesse além disso.

    As palavras a atingiram em cheio, mas Elenys não deixou transparecer. Apenas forçou um sorriso discreto, assentindo como se tivesse recebido uma constatação neutra.

    — Entendo. — murmurou, levantando-se com calma. — Boa noite, Veynar.

    Ele nada respondeu. Apenas voltou os olhos para a pilha de cartas na mesa, como se a conversa tivesse sido mais uma obrigação cumprida.

    Elenys caminhou de volta até o próprio quarto. Assim que fechou a porta, a máscara começou a rachar.

    O silêncio era sufocante. As criadas já haviam preparado a cama, acendido as lâmpadas de cristal, deixado frutas e vinho à disposição. Ela dispensou tudo com um gesto e, sozinha, deixou-se cair diante do espelho.

    O reflexo devolvia a imagem da Matriarca de trinta anos. Mas, pela primeira vez, ela não viu apenas isso. Viu a solidão.

    As palavras de Serena ecoaram em sua mente: “Você merece alguém que te veja como mulher, não como Matriarca.”
    E, logo em seguida, as provocações de Thamir, tão diretas, tão despudoradas, ainda queimavam em sua memória.

    Comparações indesejadas surgiram sem que pudesse controlar: seis anos ao lado de Veynar, que acabara de confirmar que só a via como peça política; e alguns minutos diante de Thamir, que a olhara sem máscaras e dissera exatamente o que pensava.

    Elenys respirou fundo, tentando afastar as ideias. — Besteira. — murmurou para si mesma.

    Deitou-se. A cama estava perfeita, aquecida, confortável. Mas, ainda assim, parecia fria. O quarto era grande demais. Vazio demais.

    Virou-se para o lado, tentando afastar os pensamentos. Relembrou o dia, as tarefas cumpridas, a expedição organizada, a postura mantida diante de todos. Tentou convencer-se de que isso era o que importava. Que sentimentos passageiros não tinham lugar em sua vida.

    Mas, ainda assim, demorou a adormecer.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (2 votos)

    Nota