Capítulo 7 – Os Ecos da Terceira Falha
Narrado por Aisha
A nova armadura se adaptava a mim como se fosse parte do meu corpo.
Leve, moldada ao ritmo da minha mana, permitindo que meus movimentos fluíssem sem atrito. Pela primeira vez, eu lutava… como eu. Não como Lucian. Não como sombra.
Como Aisha.
O Guardião segurava a lâmina em silêncio. Sua expressão não era mais de curiosidade, havia seriedade nos olhos, como se algo em mim tivesse atravessado o limiar da sua provocação. Ele não falava mais. Não dava instruções. Ele esperava.
Eu respirava rápido. Mas não de medo. Era concentração.
O gelo ao meu redor pulsava como se a arena fosse viva, respondendo aos nossos movimentos. E o Guardião… ele me observava. Menos falante. Mais atento. Como se cada golpe meu fosse uma pergunta sem palavras e ele estivesse esperando a resposta correta.
Avancei com três cortes cruzados, concentrando mana nos ombros e quadril.
Ele bloqueou dois com rotação de punho. No terceiro, desviou com o a proteção do antebraço.
Sem contra-ataque. Sem empurrão. Apenas observação.
— Pare de fechar demais o cotovelo no fim dos giros — disse em tom neutro novamente. — Você encurta o alcance por instinto. Está tentando se proteger. Isso não é mais útil aqui.
Assenti com o corpo.
Alterei o fluxo.
Ataquei novamente.
A lâmina encontrou sua defesa, mas eu havia conseguido mais espaço.
E ele sabia.
— Melhor — murmurou.
Era a primeira vez que alguém corrigia meus movimentos. Não com arrogância. Mas como quem sabia que aquilo podia se tornar algo maior.
Comecei a aplicar as correções. Cada passo guiado por seu comentário.
Uma rotação de quadril.
Uma estocada com torque.
Uma esquiva lateral com respiração ajustada.
— Agora você está escutando — ele disse.
— Nunca tive ninguém pra me ensinar — falei, sem pensar — Apenas… imitei o que via nos torneios.
Ele não respondeu.
Mas atacou pela primeira vez com força real.
A lâmina de gelo cortou em diagonal. Eu bloqueei.
Ele girou.
Segurei o seu pulso.
Ele se abaixou e chutou o tornozelo, me desequilibrou.
Caí com uma das pernas apoiadas e a espada levantada.
— Nunca bloqueie e segure ao mesmo tempo — ele disse. — Isso entrega seu centro.
Levantei. Ajustei.
Atacamos juntos.
E então… por alguns segundos…
Ele recuou.
Caminhou em círculo.
Girou a lâmina entre os dedos.
— Está mais afiada — disse, referindo-se à minha postura. — Seus olhos estão menos inocentes. Isso é bom.
Sorri por dentro.
Não pela frase.
Mas por saber que ele estava levando a sério.
A investida seguinte foi minha.
Sequência de cinco cortes.
Ele defendeu todos, mas pela primeira vez, os pés dele deslizaram.
Ele estava recalculando.
E eu estava entendendo.
— Você evolui rápido — disse com tom firme.
— Eu preciso — respondi.
Nossos olhos se encontraram.
O chão estava marcado por pequenas rachaduras. A armadura de gelo em mim ainda brilhava.
Respirei fundo.
— Ainda quer que eu o mate?
— Sempre. Mas agora você luta como quem entende o que isso exige.
Ataquei.
Com foco.
Com intenção de matar.
Minha lâmina cortou o ar, impulsionada com reforço de mana no quadril e nos ombros. Os giros eram limpos, rápidos. Eu havia treinado para isso em segredo, havia caído e me erguido dezenas de vezes sonhando com essa fluidez. Agora ela estava em mim.
Ele bloqueou.
Sem comentários.
Mas precisei de força real para sentir o impacto.
Troquei estocadas e cortes com mais precisão.
Três rotações. Quatro desvios.
Uma sequência perfeita e ele… recuou um passo.
Só um.
Aquilo me mostrou que ele estava levando a sério.
— Está calado — arrisquei dizer entre os golpes, algo que nunca tinha feito. Minha voz ecoou entre os sonos das espadas.
— Decepcionado?
Ele não respondeu. Mas os olhos diziam: “estou escutando”.
Aproveitei a pausa e avancei com mais força. Girei a lâmina em arco, tentando quebrar sua postura. Usei mana nas pernas, impulsionei com um salto.
Ele bloqueou com o cotovelo envolto em gelo.
Depois rebateu com o antebraço. A onda de impacto me fez deslizar para trás.
— Você está sem os grilhões — ele murmurou, por fim.
A luta seguiu. Golpes curtos, sequências fluídas. Meu corpo queimava, mas minha mente clareava. Senti pela primeira vez que havia chance. Não apenas vitória…, mas de reconhecimento.
— Você treinou… escondida? — ele perguntou, cortando em arco baixo.
— Sim — respondi, desviando e contra-atacando com giro lateral.
— E usou um nome que não era o seu.
— Usei o que tinha.
— Usou o que era bom.
Os golpes se intensificaram.
Ele aumentou a pressão.
Desviei de dois cortes, mas o terceiro arranhou a lateral da minha cintura. O gelo era mais afiado do que eu imaginava.
Tentei reagir com um corte em diagonal, mas ele desapareceu da linha de fogo e reapareceu ao meu lado.
Me golpeou com o cabo da espada no ombro.
Doeu.
Recuamos.
Ele abaixou levemente a guarda.
Me olhou.
E disse, com tom que me atravessou:
— Se esqueceu… da terceira falha?
Eu congelei por dentro. A respiração falhou. Os olhos se abriram.
“Confiar no inimigo…”
O gelo da minha armadura se moveu antes que eu reagisse.
Subiu por trás das minhas costas.
Engoliu minhas pernas, os braços, a cintura.
Eu tentei me mover.
Tentei usar mana para quebrar a prisão.
Mas era dele.
A armadura dele.
A arena dele.
O pilar me envolveu como uma flor congelada crescendo em segundos.
Só meus olhos ficaram visíveis, e ainda assim… tudo parecia frio demais.
Ele se afastou devagar.
Segurava a espada com tranquilidade.
Sem ódio.
Sem prazer.
Ele girou a espada no punho.
— Não confie em quem precisa decidir se você vive.
Ele se virou.
Todos haviam partido.
Menos o Guardião.
E diante dele, presa no que restava de sua decisão, estava Aisha.
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