O silêncio após o congelamento de Aisha não foi apenas tenso, foi sufocante.

    Era como se até o vento tivesse parado para observar. O frio se tornou mais pesado, e até os soldados acostumados com as nevascas do norte sentiram um arrepio que não vinha da temperatura.

    Os homens de Forndal estavam imóveis, hesitantes. Alguns seguravam as armas com tanta força que os nós dos dedos empalideciam. Outros desviavam o olhar, como se temessem encarar o que estava diante deles. Dravis, o comandante, permanecia de olhos fixos no pilar de gelo que pulsava em tons azulados. A cada segundo, parecia que aquela prisão respirava.

    Não parecia uma execução.

    Parecia um julgamento.

    — Ele a matou? — murmurou Tyr, quebrando o silêncio com voz trêmula.

    Dravis demorou a responder. Seus lábios se abriram duas vezes antes que conseguisse dizer:

    — Não… — sua voz era áspera. — Ao menos… ainda não.

    A dúvida naquelas palavras fez alguns soldados recuarem meio passo.

    Do outro lado da arena, a comitiva de Ignaris se agitava. Magos cochichavam entre si, com olhares desconfiados. As capas vermelhas balançavam no vento, mas ninguém ousava avançar. O comandante cerrava os punhos com tanta força que as juntas estalavam. Não era o que esperava. Vieram em busca de uma luta gloriosa, uma lenda reencarnada, e o que presenciavam era algo desconfortavelmente simples. Uma mulher congelada, um silêncio que pesava mais do que qualquer batalha.

    O Guardião não disse nada. Apenas cravou a espada de gelo no chão, e a lâmina se fundiu ao solo, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.

    Quando falou, sua voz não carregava emoção:

    — Todos vocês… fora da arena.

    Não soou como um pedido.

    Soou como um veredito.

    Dravis hesitou. Queria argumentar, mas sentiu que qualquer palavra seria uma afronta direta. Engoliu em seco, girou o corpo e fez um sinal para seus homens. A tropa de Forndal começou a recuar em silêncio, os passos ecoando pesados contra o gelo.

    Mas Ignaris não se moveu.

    Um dos magos deu um passo à frente, a voz embargada pela mistura de medo e orgulho:

    — Os contos dizem que o Guardião do Norte recebe guerreiros. Que os treina. Que os envia de volta como lendas.

    Outro completou:

    — Que alguns ficaram anos com você, e fundaram impérios com o poder que receberam aqui.

    O Guardião se virou lentamente. Seus olhos azul-acinzentados faiscavam em contraste com a escuridão crescente do céu. O vento girava ao redor dele em espirais, mas não ousava tocar sua pele.

    — Os contos… — sua voz carregava um cansaço antigo — são feitos por quem sobrevive.

    Ele deixou as palavras se assentarem como neve sobre pedra.

    — E quem sobrevive… nem sempre entende o que viu.

    Um arrepio percorreu a comitiva de Ignaris.

    O Guardião caminhou até o centro da arena, aproximando-se do pilar onde Aisha permanecia congelada. Cada passo seu parecia ecoar mais forte do que deveria, como se o próprio gelo reverenciasse.

    — Vocês acreditam que vieram aqui por direito. Que basta atravessar a barreira, levantar bandeiras e exigir poder. — Sua voz era fria, firme. — Mas o poder não é dado por exigência.

    O vento soprou mais forte, levantando redemoinhos de neve ao redor. A temperatura despencou. Até os soldados mais orgulhosos sentiram o coração acelerar.

    — As estátuas que viram no desfiladeiro… — continuou Ian, erguendo a mão.

    Ao longe, uma das figuras de gelo brilhou em resposta: um guerreiro eternizado com a expressão de medo congelada no rosto.

    — Não são homenagens.

    O silêncio foi esmagado pelo som de gelo quebrando, ecoando pelas montanhas.

    — São advertências.

    A ventania rugiu, como se uma tempestade fosse nascer dentro da própria arena. Os pilares de gelo vibravam, e até a neve sob os pés parecia ansiosa para se mover.

    — Cada uma daquelas estátuas foi alguém que não soube a hora de partir. Que pediu mais do que devia. Que ficou por orgulho, por ambição… ou por medo.

    Os olhos do Guardião cintilaram com intensidade gélida.

    — E o gelo… não perdoa.

    O comandante de Ignaris avançou um passo. O som da armadura ecoou, pesado. Sua respiração se condensava em nuvens rápidas, denunciando o nervosismo escondido sob a máscara.

    — Mas você já ajudou outros — sua voz era firme, quase desafiadora. — Você treinou guerreiros. Lutou contra as bestas do limbo. Você era um aliado.

    O Guardião o fitou em silêncio por longos segundos. Até que respondeu, com voz cortante:

    — Eu fui.

    Nenhum som ousou atravessar aquele instante.

    — Porque havia um motivo — continuou, sem erguer a voz. — Porque alguém pediu.

    Ele não explicou. Não deu nomes nem ofereceu justificativas. Mas o tom em sua voz carregava um peso tão profundo que nenhum dos presentes ousou questionar.

    A ventania, que rugia momentos antes, começou a perder força. A neve girava mais devagar, como se o mundo inteiro esperasse pela próxima palavra.

    E quando o vento cessou por completo, o silêncio pareceu mais ameaçador que a tempestade como se a própria mana estivesse esperando para se mover.

    — Desde então, protejo essa barreira. — Seus olhos faiscavam em azul intenso. — Porque foi o último pedido.

    Os soldados de Ignaris recuaram meio passo sem perceber. O instinto deles falou mais alto. Afinal o predador havia falado.

    O Guardião ergueu o braço lentamente apontando para a barreira.

    Sua presença era uma muralha invisível que esmagava todos à sua volta.

    — Mas o limbo está se expandindo — disse, a voz ecoando como trovão contido. — A barreira está enfraquecendo. E em breve… meu posto não terá mais sentido.

    Ele avançou, parando diante da comitiva. O brilho frio em seus olhos não era mais humano.

    — Então escutem bem.

    Os soldados se enrijeceram. Alguns engoliram seco, outros apertaram o cabo das armas.

    — O próximo reino que enviar representantes aqui… será dizimado. Farei questão de fazer isso pessoalmente.

    O silêncio que se seguiu foi tão denso que Dravis podia jurar que todos prenderam a respiração.

    Ian deu um passo à frente, parando a menos de um metro do comandante mascarado. A respiração do homem condensava em nuvens rápidas, denunciando o terror que ele tentava ocultar.

    — Mas já falei demais. — A voz do Guardião era baixa, mas mortal. — Voltem. Avisem seus reis. Digam que deste lado… só encontrarão morte.

    Ele se virou, as costas firmes diante de todos. Nenhum ousou segui-lo com os olhos por muito tempo.

    A arena estava em silêncio absoluto.

    Mas, ao fundo… o pilar de gelo onde Aisha permanecia aprisionada tremeu levemente.

    E ninguém percebeu.

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