Capítulo 12 - Disfarces
O cheiro de sangue impregnava o ar, denso e metálico, enquanto poeira e escombros pairavam no vento cortante. Os olhares dos espectadores estavam fixos na figura caída no chão, o corpo de um jovem de cabelos negros, sua túnica rasgada e encharcada de sangue.
Kai jazia ali, seu corpo tremendo enquanto tentava se agarrar ao que restava de sua vida.
O golpe de Gryslei Hill havia sido fatal.
Seu oponente já se erguia em triunfo, a lâmina de energia negra ainda gotejando.
A vitória era sua.
Até que algo aconteceu.
Um calafrio percorreu a espinha dos presentes.
Os que estavam próximos à arena instintivamente se afastaram, como se uma presença invisível se espalhasse pelo campo de batalha.
Kai, que deveria estar agonizando, de repente parou de tremer.
Seus dedos, antes crispados de dor, relaxaram. Sua respiração cessou por um momento.
E então, um suspiro lento e arrastado escapou de seus lábios.
Seus olhos se abriram.
O esquerdo ainda era escuro como a noite. Mas o direito… brilhava amarelo-dourado, como brasas de um inferno distante.
A presença que dominou a arena não era mais Kai.
Era algo muito pior.
O corpo do jovem se ergueu devagar, como se estivesse experimentando a própria forma pela primeira vez. Os músculos se ajustaram, a postura mudou, e o que antes era apenas um jovem cultivador à beira da morte agora exalava algo antigo. Algo perverso.
Para todos os outros, ele ainda parecia ser Kai.
Mas para três pessoas, a verdade era aterrorizante.
Gryslei Hill sentiu a pele se arrepiar. sua mão tremia levemente, sem que ele conseguisse controlar. Algo dentro dele gritava perigo.
Na arquibancada, Kaizen um jovem de estatura media, pele negra e cabelos de dread e Longwang um jovem de estatura media, cabelos longos e pretos, e uma venda que cobria seus olhos, Kaizen arregalou os olhos, sentindo a presença devastadora que emanava de seu amigo.
Mas não era Kai.
E a confirmação veio no momento seguinte.
Pazuzu sorriu.
O mesmo sorriso predatório que uma fera daria antes de dilacerar sua presa.
E então ele falou.
— Decepcionante.
A voz era a de Kai, mas carregava um peso que ia além da simples juventude. Era carregada de algo mais antigo, mais sombrio.
Ele ergueu a mão, e sua sombra se alongou pelo chão, contorcendo-se de forma antinatural. Pequenos tremores fizeram as pedras ao redor racharem.
Gryslei recuou instintivamente, mas não foi rápido o suficiente.
A sombra se moveu.
Como um chicote vivo, ela se enrolou em sua perna, subindo rapidamente por seu corpo antes que ele pudesse reagir.
— O que diab—?!
Pazuzu ergueu a outra mão, e a sombra apertou.
Crack.
O som do osso quebrando ecoou pela arena.
Gryslei gritou, sua perna torcida em um ângulo impossível.
Os espectadores prenderam a respiração.
O que estava acontecendo?
Pazuzu inclinou a cabeça, observando Gryslei como se estivesse analisando um inseto.
— Você se achou forte por quase matar este corpo.
O tom era calmo. Quase gentil.
E então, sem aviso, ele apareceu na frente de Gryslei.
Rápido demais.
Impossível de acompanhar.
Antes que Gryslei pudesse reagir, uma mão pálida se fechou em sua garganta.
Pazuzu o ergueu no ar com facilidade.
Os olhos dourados brilharam, uma fenda de luz espectral se refletindo em suas pupilas.
Gryslei tentou lutar, mas seus braços tremiam, sua força esvaindo-se como se estivesse diante de algo além de sua compreensão.
Pazuzu o estudou por um momento, depois apertou a mão lentamente.
— Você foi forte o suficiente para derrotar Kai. Mas e contra algo muito maior?
Gryslei engasgou, seu rosto ficando pálido.
Kaizen se levantou da arquibancada, suando frio.
— Kai! O que você está fazendo?!
Mas o jovem de cabelos negros sequer olhou em sua direção.
Seus olhos estavam fixos na presa em suas mãos.
O desespero nos olhos de Gryslei foi a última coisa que ele viu antes de Pazuzu torcer sua cabeça em um movimento seco.
Crack.
O corpo caiu no chão, sem vida.
Silêncio absoluto.
O queixo de Longwang caiu.
Kaizen não conseguiu nem respirar.
Pazuzu limpou a poeira da roupa e então se virou lentamente, finalmente olhando para seus “amigos”.
Seu sorriso era… errado.
Diferente.
Não era Kai.
Mas ninguém sabia disso.
E então, ele riu. Baixo, rouco.
Um novo jogo havia começado.
O corpo de Gryslei caiu com um baque surdo.
A arena permaneceu em um silêncio sepulcral.
Nenhum aplauso. Nenhuma celebração. Apenas um medo sufocante pairava no ar.
Ninguém entendia o que acabara de acontecer.
Kai – ou ao menos quem eles acreditavam ser Kai – permanecia ali, imóvel, observando o cadáver diante de si. Seu olhar deslizava lentamente para os lados, como se estivesse se acostumando com o ambiente, sentindo o peso da atmosfera carregada de tensão.
Na arquibancada, Kaizen e Longwang não conseguiam esconder o choque.
Kaizen apertava os punhos, os olhos arregalados enquanto fitava o corpo de seu amigo.
— Kai…? — sua voz saiu baixa, quase trêmula.
Kaizen sai da Arquibancada e corre diretamente para a arena, se dirigindo até o corpo de Gryslei para tentar salvar o garoto da morte, Kaizen Começa a manipular seu Reiki da vida.
Assim jogando essa energia para o corpo sem vida de Gryslei, porém tudo em vão, o jovem cultivador da região de Tawiyah já não respondia mais.
— O que você fez? — Kaizen fala com raiva na voz
— Eu apenas ganhei — Responde pazuzu enquanto os guardas da torneio pegam ele pelo braço.
— vamos você ficará detido por um tempo garoto — exclamou um dos guardas
Pazuzu é levado dali enquanto olha para Kaizen e Longwang ali parados, não demora muito e a equipe médica vem retirar o corpo de Gryslei.
O silêncio da arena era opressor.
Os espectadores não sabiam se deveriam protestar, comemorar ou simplesmente permanecer em choque. O cheiro metálico de sangue ainda impregnava o ar enquanto os guardas arrastavam Kai – ou melhor, Pazuzu – para fora. O chão de pedra onde Gryslei caíra permanecia manchado, uma prova inegável do que acabara de acontecer.
Kaizen não desviava o olhar do corpo inerte de Gryslei. Ele respirava rápido, as mãos ainda trêmulas pelo esforço de tentar trazer Gryslei de volta. Mas não havia mais nada a ser feito. O garoto estava morto. E o assassino caminhava livre.
Longwang colocou uma mão firme no ombro de Kaizen, tentando tirá-lo daquele transe de descrença.
— Não foi o Kai… — murmurou Longwang, a voz quase inaudível.
Kaizen se virou para ele, confuso.
— Como assim?
Longwang hesitou. Ele não sabia como explicar, mas o instinto gritava que o garoto ali, sendo levado pelos guardas, não era mais Kai Blackwood. Ele parecia… diferente. Algo naquela presença perturbava sua percepção de uma maneira que ele não conseguia descrever.
No entanto, antes que pudesse continuar, uma voz ecoou pelo coliseu.
— A classificatoria está suspensa! — anunciou o diretor do Distrito Acadêmico de Cultivadores de Arantha, sua expressão severa. — Todos os participantes devem permanecer em seus alojamentos até segunda ordem!
Murmúrios tomaram conta da multidão, alguns questionando, outros ainda paralisados pelo que viram. O nome de Kai Blackwood era sussurrado como uma maldição. Alguns o chamavam de assassino, outros apenas tentavam entender como um cultivador que jamais havia se destacado de repente era capaz de matar alguém com tanta facilidade.
Longwang franziu o cenho. Aquilo não fazia sentido.
Enquanto isso, nos corredores subterrâneos do coliseu, Pazuzu caminhava sem resistência. Ele não precisava lutar contra os guardas.
Ele queria ver até onde aquilo ia.
A cela para onde o levavam era simples – uma estrutura reforçada com runas de contenção, destinada a impedir o uso de técnicas de cultivo dentro dela. Mas Pazuzu apenas deu um sorriso de canto quando o trancaram. Ele se sentou no chão frio, ainda se acostumando ao corpo que agora habitava.
Fechou os olhos e respirou fundo. As memórias de Kai estavam ali, misturadas às suas próprias.
Ethan…
Pazuzu riu baixo.
— Esse nome não me pertence mais.
Ele abriu os olhos e encarou suas próprias mãos. O corpo era jovem, cheio de potencial. O sangue de um cultivador de sombras corria por suas veias, e agora era seu.
Do lado de fora, os guardas ainda murmuravam sobre o ocorrido. Alguns estavam inquietos, como se sentissem que algo estava errado, mas ninguém conseguia entender o porquê.
Pazuzu apenas esperou.
Porque ele sabia.
Aquilo era apenas o começo.

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